Alexandre Dumas  

As aventuras de Robin Hood.txt



ROMANCES DE ALEXANDRE DUMAS

Volumes Publicados.

SRIE DARTAGNAN

1  Os Trs Mosqueteiros  1 volume
2  Os Trs Mosqueteiros  2 volume
3  Vinte Anos Depois  1 volume
4  Vinte Anos Depois  2 volume
5  Vinte Anos Depois  3 volume
6  O Visconde de Bragelonne  1 volume
7  O Visconde de Bragelonne  2 volume
8  O Visconde de Bragelonne  3 volume
9  O Visconde de Bragelonne  4.9 volume
10  O Visconde de Bragelonne  5 volume
11  O Visconde de Bragelonne  6 volume

SRIE ROBIN HOOD

12  Aventuras de Robin Hood
13  Robin Hood, o Proscrito

SRIE MEMRIAS DE UM MDICO

14  Jos Blsamo  1 volume
15  Jos Blsamo  2 volume
16  Jos Blsamo  3 volume
17  Jos Blsamo  4 volume
18  O Colar da Rainha  1 volume
19  O Colar da Rainha  2 volume
20  ngelo Pitou  1 volume
21  ngelo Pitou  2 volume
22  A Condessa de Charny  1 volume
23  A Condessa de Charny  2 volume
24  A Condessa de Charny  3 volume
25  A Condessa de Charny  4 volume
26  O Cavaleiro da Casa Vermelha


Titulo original em francs
LE PRINCE DOS VOLEURS


Traduo de
AUGUSTO SOUSA


Ilustraes de NICO ROSSO





2 edio

A propriedade literria desta traduo, realizada na  ntegra do texto original francs, foi adquirida por SARAIVA S. A

PREFCIO



     A vida aventurosa do outlaw (fora da lei, proscrito) Robin Hood, transmitida de gerao em gerao, tornou-se um assunto popular na Inglaterra, e contudo o
historiador muitas vezes carece de documentos para retraar a curiosa existncia do famoso salteador. Grande nmero de episdios relativos a Robin Hood apresentam
caractersticas de verdade e lanam um brilho muito vivo sobre os costumes e hbitos do seu tempo.
     Os bigrafos de Robin Hood no esto de acordo sobre a origem do nosso heri. Uns atriburam-lhe nascimento ilustre, outros contestaram-lhe o ttulo de Conde
de Huntingdon, mas o certo  que Robin Hood foi o derradeiro saxo que tentou opor-se  dominao normanda.
     Os sucessos integrantes da histria que pretendemos contar, por muito plausveis e admissveis que paream, no passam talvez, por fim, de um resultado da imaginao,
pois a prova material da sua autenticidade realmente no existe. A universal popularidade de Robin Hood chegou at nossos dias com toda a frescura e brilho da poca
em que nasceu. No h um autor ingls que no  lhe consagre algumas palavras amveis. Cordum, escritor eclesistico do sculo quatorze, chama-lhe ille famosissimus
sicarius (o celebrrimo bandido), Major qualifica-o de humanssimo prncipe dos ladres. O autor de um curiosssimo poema latino, datado de 1304, compara-o a William
Wallace, o heri da Esccia. O clebre Gamden diz, falando dele: Robin Hood  o mais galante dos bandidos. Enfim o grande Shakespeare, em Como quiser, desejando
pintar o modo de viver do duque e aludir  sua felicidade, assim se exprime:
     L est na floresta do Arden (das Arennes), com um bando de homens joviais, onde vive  maneira do Velho Robin Hood de Inglaterra, deixando correr o tempo,
livre de todo o cuidado como na poca feliz da idade de ouro.
     Se quisssemos enumerar aqui os nomes de todos os autores que fizeram o elogio de Robin Hood, cansaramos a pacincia do leitor; basta-nos dizer que em todas
as lendas, canes, baladas e crnicas que dele falam, ele  apresentado como homem de fino esprito, de incomparvel audcia e coragem. Generoso, paciente e bom, 
Robin Hood era adorado no apenas pelos seus companheiros (jamais foi trado ou abandonado por qualquer deles), mas tambm por todos os habitantes ao condado de 
Nottingham.
     Robin Hood oferece o singular exemplo de um homem que, sem ter sido canonizado, disps de um dia de festa. At ao fim do sculo XVI o povo, os reis, os prncipes 
e os magistrados, na Esccia e na Inglaterra, celebravam a festa do nosso heri por meio de jogos institudos em sua honra.
     A Biografia universal informa-nos ainda que o belo romance de Ivanho, de Sir Walter Scott, tornou Robin Hood conhecido na Frana. Mas, para apreciar a histria 
dessa quadrilha de bandoleiros  necessrio recordar que, desde a conquista de Inglaterra por Guilherme, as leis normandas sobre a caa puniam os caadores furtivos 
com a perda dos olhos e a castrao. Este duplo suplcio, pior que a morte, obrigava os desgraados que haviam incorrido nele a refugiar-se nos bosques, e a exercerem, 
como nico recurso para viver, o prprio ofcio que os colocara fora da lei. A maior parte desses caadores furtivos pertencia  raa saxnia, esbulhada pela conquista, 
de modo que assaltar um rico senhor normando equivalia quase a recuperar os bens paternos. Esta circunstncia, perfeitamente explicada no romance pico de Ivanho 
e no relato das aventuras de Robin Hood, no permite que se confundam os outlaws com os ladres comuns.



O PRNCIPE DOS LADRES



I



     ESTAVA-SE no reinado de Henrique II e no ano da graa de 1162. Dois viajantes de roupas imundas por uma longa caminhada e de faces extenuadas por uma longa
fadiga, trilhavam certa tarde os exguos atalhos da floresta do Sherwood, no condado de Nottingham.
     Fazia frio, as rvores, nas quais comeavam a despontar os dbeis rebentos de maro, tremiam ao sopro das ltimas rajadas do inverno, e um escuro nevoeiro alastrava 
sobre a terra  medida que os raios do sol poente se apagavam entre as nuvens purpreas do horizonte. O cu no tardou a enegrecer, e o vento que agitava a floresta 
parecia pressagiar uma noite tempestuosa.
      Ritson  disse o mais idoso dos viajantes envolvendo--se na sua capa,  est aumentando- a violncia do vento; ser que a tempestade no nos vai surpreender 
antes da chegada, e estaremos realmente no caminho certo?
      Estamos no bom caminho, milorde  respondeu Ritson,  e se a memria no me falha, antes de uma hora bateremos  porta do guarda florestal.
     Os dois desconhecidos caminharam em silncio durante trs quartos de hora, e o viajante a quem o companheiro dera o tratamento de milorde, perguntou impaciente:
      Tardaremos a chegar?
      Dentro de dez minutos, milorde.
      Bem e esse guarda florestal, esse homem a quem chamas Head, ser digno da minha confiana?
      Inteiramente digno, milorde; Head, meu cunhado,  um homem rude, franco e honesto; ouvir com respeito a admirvel histria inventada por Vossa Senhoria, 
e acreditar nela; ele no sabe o que  a mentira, nem sequer conhece a desconfiana. Repare, milorde!  exclamou alegremente Ritson, interrompendo o elogio do guarda; 
 repare naquela luz cujos reflexos douram as, rvores! Pois provm da casa de Gilberto Head. Quantas vezes na juventude saudei com alegria essa estrela do lar, 
quando  noite regressvamos fatigados da caa!
     E Ritson parou um momento, sonhador e de olhos ternamente fixos naquela luz vacilante que lhe fazia evocar as recordaes do passado.
      O menino dorme?  perguntou o fidalgo, pouco sensvel s emoes do servidor.
      Est profundamente adormecido  respondeu Ritson, cuja face imediatamente assumiu uma expresso de completa indiferena;  e pela salvao da minha alma! 
No compreendo como Vossa Senhoria se d tantos trabalhos para conservar a vida de uma criaturinha to prejudicial aos seus interesses. Se quer desembaraar-se para 
sempre desse menino, porque no lhe enterrar duas polegadas de ao no corao? Estou s suas ordens,  s falar. Prometa-me como recompensa acrescentar o meu nome 
no seu testamento, e o pequeno dorminhoco nunca mais acordar.
      Cala-te!  atalhou bruscamente o fidalgo;  eu no desejo a morte desta inocente criatura. Posso temer vir a ser descoberto no futuro, mas prefiro as angstias 
do temor aos remorsos de um crime. De resto, tenho motivos para esperar, e at para crer que o mistrio que envolve o nascimento desta criana no ser jamais revelado. 
Se suceder o contrrio s pode ser por traio tua, Ritson, e juro-te que todos os instantes da minha vida sero empregados numa rigorosa vigilncia dos teus atos 
e gestos.  Educado como um campons, este menino no sofrer com a mediocridade da sua condio; criar-se- uma felicidade de acordo com as suas tendncias e os 
seus hbitos, sem nunca lamentar o nome e a fortuna que hoje perde sem os conhecer.
      Seja feita a sua vontade, milorde!  volveu friamente Ritson;  mas o fato  que a vida deste menino no vale as canseiras de uma viagem de Huntingdonshire 
a Nottinghamshire.
     Enfim, os viajantes apearam-se diante de uma linda casinhola, escondida como um ninho de ave num macio da floresta.
      Ol, vizinho Head!  gritou Ritson em voz alegre e potente;  ol! abre depressa! Est chovendo a cntaros e vejo daqui arder o lume na tua lareira. Abre 
logo, amigo,  um parente que te pede hospitalidade!
     Os cachorros rosnaram no interior da morada e o cauteloso guarda comeou por perguntar:
      Quem bate?
      Um amigo.
      Que amigo?
     . Rolando Ritson, teu cunhado. Abre logo, bom Gilberto.
      Rolando Ritson, de Mansfeld?
      Sim, sim, eu mesmo, o irmo de Margarida. Abre logo, com mil diabos!  gritou Ritson impaciente;   mesa nos explicaremos.
     A porta abriu-se por fim e os viajantes entraram. Gilberto Head apertou cordialmente a mo do cunhado. e disse ao fidalgo, saudando-o com urbanidade:
      Seja bem-vindo, senhor cavaleiro, e no me acuse de ter infringido as leis da hospitalidade, se por alguns instantes mantive fechada a minha porta entre Vossa 
Senhoria e o meu lar. O isolamento desta casa e a vagabundagem dos fora da lei da floresta obrigam-me a ter prudncia, pois no basta ser valente e forte para escapar 
ao perigo. Aceite portanto as minhas desculpas, nobre estrangeiro, e considere a minha casa como sua. Sentem-se ao lume e tratem de secar as roupas, pois vamos ocupar-nos 
das montarias. Ol, Lincoln!  berrou Gilberto entreabrindo a porta de um quarto prximo;  leva os cavalos destes viajantes para o telheiro, visto que a cocheira 
 pequena demais para os acolher, e vigia para que nada lhes falte: manjedoura atulhada de feno e palha at ao ventre.
     Um robusto campons vestido  moda florestal surgiu, logo em seguida, atravessou a sala e saiu sem mesmo relancear um olhar de curiosidade aos recm-chegados; 
uma linda mulher de trinta anos quando muito, veio depois oferecer as duas mos e a fronte aos beijos de Ritson.
      Querida Margarida! Querida irm!  exclamava este redobrando de carinhos e contemplando-a com uma ingnua admirao a que se misturava surpresa;  no mudaste 
nada! Tens a fronte to pura, os olhos to brilhantes, os lbios e as faces to rosadas e frescas como quando o nosso bom Gilberto te fazia a corte.
       porque sou feliz  respondeu Margarida lanando ao esposo um terno olhar.
      Podes dizer que somos ambos felizes  acrescentou o honrado guarda florestal;  graas ao teu bom gnio, Maggie, no tem havido amuos nem discusses em nosso 
lar. Mas agora chega de consideraes e cuidemos dos nossos hspedes... Vamos, cunhado e amigo, tira essa capa, e o senhor cavaleiro sacuda essa chuva que lhe regou 
a roupa como um orvalho matinal. Cearemos em seguida. Depressa, Maggie, um feixe, dois feixes de lenha na lareira, os melhores pratos na mesa e nas camas os lenis 
mais brancos; depressa!
     Enquanto a diligente senhora obedecia ao marido, Ritson jogou a capa para as costas e ps a descoberto uma linda criana envolvida numa pequena manta de casimira 
azul. Rotunda, viosa e vermelha, a face do menino de apenas quinze meses anunciava uma sade perfeita e uma robusta constituio.
     Quando Ritson disps cuidadosamente as dobras amarrotadas da touca do beb, aproximou-lhe a linda cabecinha de um raio de luz que lhe revelava toda a beleza 
e chamou docemente a irm.
     Margarida acercou-se.
      Maggie  disse-lhe ele,  tenho um presente para ti; no poders acusar-me de ter voltado de mos vazias ao fim de oito anos de ausncia. Olha, repara o que 
te trago.
      Santa Maria!  exclamou a jovem senhora juntando as mos;  Santa Maria, um menino! Mas, Rolando, este anjinho  teu?  Gilberto, Gilberto, vem ver este amor 
de criana!
      Uma criana! Uma criana nas mos de Ritson!  E longe de se entusiasmar como a mulher, Gilberto atirou um severo olhar ao parente.  Meu cunhado  disse 
ele num tom grave,  fizeste-te ama-seca de crianas depois que te reformaste como soldado?  muito estranho, meu rapaz, o capricho que te leva a correr atravs 
da floresta com um menino debaixo da capa!  Que significa isso?  Por que vieste aqui?  Qual  a histria desse pequerrucho? Vamos, fala francamente porque eu quero 
saber tudo.
      Este menino no me pertence, bom Gilberto;  um rfo, e este fidalgo que aqui est  o seu protetor. Sua Senhoria conhece a famlia deste anjo e vai dizer-vos 
porque viemos aqui. Enquanto isso, boa Maggie, encarrega-te do precioso fardo que me pesa no brao h oito dias... Isto , h duas horas.  J estou cansado do meu 
papel de ama-seca.
     Margarida apoderou-se vivamente do menino adormecido, levou-o para o seu quarto, colocou-o em seu leito, cobriu-lhe as mos e o pescocinho de beijos, aconchegou-o 
no seu belo mantelete dos dias de festa e voltou para junto dos hspedes.
     A ceia decorreu alegremente e por fim o fidalgo disse ao guarda:
      O interesse que sua encantadora esposa mostrou pelo menino anima-me a fazer-lhes uma proposta relativa ao seu bem-estar futuro. Mas primeiro seja-me permitido 
inform-los de certas particularidades concernentes  famlia, ao nascimento e  situao atual deste pobre rfo de que sou o nico protetor. Seu pai, antigo companheiro 
de armas da minha juventude, passada nos campos, foi o meu melhor e mais ntimo amigo. No comeo do reinado do nosso glorioso soberano Henrique II estivemos juntos 
na Frana, na Normandia, na Aquitnia e o Poitou, e aps uma separao de alguns anos tornamos a encontrar-nos no pas de Gales. Meu amigo, antes de deixar a Frana 
apaixonou-se perdidamente por uma jovem, casou com ela e levou-a para a Inglaterra, junto de sua famlia. Infelizmente essa famlia, altivo e orgulhoso ramo de uma 
casa principesca e imbuda de tolos preconceitos, recusou admitir em seu seio a jovem senhora, que era pobre e no possua outra nobreza alm da dos seus sentimentos. 
Essa desfeita atingiu-a no corao, e ela morreu oito dias depois de ter dado ao mundo a criana que desejo confiar aos bons cuidados de ambos, e que j no tem 
pai, pois o meu pobre amigo tombou ferido de morte em um combate na Normandia, h mais ou menos dez meses. Os derradeiros pensamentos do pobre amigo agonizante foram 
para o filho; pediu-me que o procurasse, deu-me  pressa o nome e a morada da ama da criana e fez-me jurar em nome da nossa velha amizade que me tornaria o amparo 
e o protetor do rfo. Jurei e hei de manter o meu juramento, mas trata--se de uma misso bem difcil de desempenhar, mestre Gilberto; ainda sou soldado, passo a 
vida nas guarnies ou nos campos de batalha e no me  possvel vigiar pessoalmente esta frgil criatura. Por outro lado, no tenho parentes nem amigos em cujas 
mos possa deixar sem receio este precioso depsito. No sabia, pois, a que santo me apegar, quando me veio a idia de consultar Rolando Ritson, seu cunhado, que 
logo pensou em si, e me disse que, casado h oito anos com uma adorvel e virtuosa mulher no tivera ainda a felicidade de ser pai, e que sem dvida lhe seria agradvel, 
mediante paga, bem entendido, acolher debaixo do seu teto o pobre rfo, filho de um valente soldado. Se Deus conceder vida e sade a este menino, ele ser o companheiro 
da minha velhice; contar-lhe-ei a histria triste e gloriosa do autor dos seus dias, e ensinar-lhe-ei a trilhar com passo firme os mesmos caminhos por onde marchamos 
juntos, seu valente Pai e eu. Enquanto isso educaro a criana como se ela lhes pertencesse, e juro-lhes que no ser gratuitamente. Responda, mestre Gilberto:  
aceita a minha proposta?
     O fidalgo esperou com ansiedade a resposta do guarda florestal, que antes de se comprometer consultou a mulher com o olhar; mas a linda Margarida voltou a cabea, 
e estendendo o pescoo para a porta do quarto vizinho, tentava, sorrindo, ouvir o imperceptvel murmrio da respirao da criana.
     Ritson, que observava disfaradamente a expresso da fisionomia da meiga esposa, compreendeu que a irm estava disposta a ficar com o menino apesar das hesitaes 
de Gilberto, e disse num tom persuasivo:
      O riso deste anjinho far a alegria do teu lar, minha boa Maggie, e por So Pedro! Juro-te que ouvirs ainda um outro rudo no menos alegre, o tinir dos 
guinus que Sua Senhoria deixar cair todos os anos em tuas mos. Ah! vejo-te rica e sempre feliz, levando pela mo s festas regionais o lindo beb que te chamar 
mame: ir vestido como um prncipe, resplandecente como um sol, e tu irradiars prazer e orgulho.
     Margarida nada respondeu mas olhou sorridente para Gilberto, cujo silncio foi mal interpretado pelo fidalgo.
      Est indeciso, mestre Gilberto?  perguntou este ltimo franzindo o sobrolho.  No lhe agradou a minha proposta?
      Perdo, senhor, sua proposta -me muito agradvel e ns ficaremos com o menino se minha querida Maggie no vir nenhum inconveniente. Vamos, mulher, dize o 
que pensas; tua vontade ser a minha.
      Este valente soldado tem razo  respondeu a jovem senhora;  -lhe impossvel educar esta criana.
      E ento?
      Ento, eu serei sua me.  E em seguida dirigindo--se ao fidalgo, acrescentou:  E se um dia o senhor quiser retomar o seu filho adotivo, ns o devolveremos 
com pesar no corao, mas consolar-nos-emos da sua perda pensando que ele ser mais feliz junto de si do que sob o teto humilde de um pobre guarda florestal.
      As palavras de minha mulher so um compromisso  disse por sua vez Gilberto,  e pela minha parte juro velar por esse menino e servir-lhe de pai. Senhor cavaleiro, 
eis o penhor da minha promessa.
     E arrancando do cinto uma das suas manoplas, jogou-a sobre a mesa.
      Promessa contra promessa e manopla contra manopla  volveu o fidalgo atirando tambm sobre a mesa a sua manopla.  Precisamos agora entender-nos sobre o preo 
da penso do beb. Olhe, bom homem, aqui tem isto; em cada ano receber uma quantia igual.
     E tirando de sob o gibo uma pequena bolsa de couro, cheia de peas de ouro, fez meno de coloc-la entre as mos do guarda.
     Mas este recusou.
      Guarde o seu ouro, senhor; os carinhos e o po de Margarida no se vendem.
     Longamente a pequena bolsa de couro andou das mos de um para as do outro. Por fim ficou combinado, conforme a proposta de Margarida, que o montante anual da 
penso da criana seria colocado em lugar seguro e devolvido ao rfo quando ele atingisse a maioridade.
     Regulado esse assunto com satisfao geral, separaram-se para dormir. Na manh seguinte Gilberto estava a p ao romper do dia, examinando com olho entendedor 
os cavalos dos seus hspedes, de cujo trato j se ocupava Lincoln.
      Que esplndidos animais!  dizia ele ao criado;  mal se acredita que eles acabam de trotar durante dois dias, tal  o vigor que aparentam. Pela santa missa! 
S prncipes podem montar semelhantes corcis, que devem valer em prata o peso dos meus dois garranos; e por falar nisso at esqueci esses pobres companheiros! A 
manjedoura deles deve estar vazia.  Gilberto entrou na cocheira e encontrou-a deserta.  Como! no esto mais aqui? Ol, Lincoln! J levaste os garranos para o 
pasto?
      Ainda no, patro!
      Coisa extraordinria!  murmurou Gilberto; e tomado de secreto pressentimento correu ao quarto de Ritson. Ritson j l no estava. Mas talvez tivesse ido 
acordar o fidalgo  pensou Gilberto indo at ao quarto destinado ao hspede. O quarto tambm estava vazio. Margarida apareceu trazendo nos braos o menino.  Mulher! 
 exclamou Gilberto,  Os nossos animais desapareceram!
      Ser possvel?
      Eles montaram os nossos cavalos e deixaram-nos os deles.
      Mas por que se foram embora desse modo?
      S adivinhando, Maggie, porque eu nada sei.
      Queriam talvez ocultar-nos a direo que iam tomar.
      Estariam ento com algum propsito censurvel?
      No quiseram prevenir-nos de que iam substituir os seus animais estafados pelos nossos.
      No foi isso, pois at parece que esses cavalos no andam h oito dias, tal a vivacidade e vigor que mostram esta manh.
      Ento no pensemos mais neles! Olha como o menino  bonito, como sorri.  Beija-o!
      Pode muito bem ser que esse senhor desconhecido quisesse recompensar a nossa cortesia trocando os seus dois cavalos de preo pelas nossas duas pilecas.
      Talvez; e prevendo a nossa recusa safou-se enquanto dormamos.
      Se assim , agradeo-lhe de todo o corao; mas de qualquer modo o cunhado Ritson devia-nos uma palavra de despedida.
      Eh! No sabes ento que desde a morte de tua pobre irm Annette, sua noiva, Ritson evita estes lugares? O aspecto do nosso lar feliz talvez lhe despertasse 
tristes recordaes.
      Tens razo, mulher  concordou Gilberto soltando um profundo suspiro.  Pobre Annette!
      O mais desagradvel do caso  tornou Margarida,   que ficamos sem o nome e o endereo do protetor da criana. A quem poderemos avisar se ele cair doente? 
E at, que nome lhe daremos?
      Escolhe um nome, Margarida.
      Escolhe tu, Gilberto; sendo um rapaz,  a ti que isso compete.
      Pois se quiseres, poderemos dar-lhe o nome do irmo que tanto estremeci; no posso pensar em Annette sem me lembrar do inditoso Robin.
      Isso mesmo; est batizado e eis aqui o nosso lindo Robin!  exclamou Margarida cobrindo de beijos o rostinho da criana que j lhe sorria, como se a meiga 
mulher fosse sua me.
     O rfo chamou-se portanto Robin Head. Mais tarde, e sem que se saiba porque, o nome Head mudou-se em Hood, e o seu portador tornou-se clebre sob o nome de 
Robin Hood.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
II



     QUINZE anos decorreram sobre este episdio; a calma e a felicidade nunca cessaram de reinar sob o teto do guarda florestal, e o rfo sempre se imaginou o filho 
muito amado de Margarida e de Gilberto Head.
     Por uma bela manh de junho, um homem de idade avanada, vestindo como um campons abastado e montando um vigoroso pnei, seguia o caminho que atravs da floresta 
de Sherwood leva  linda aldeia de Mansfeldwoohaus.
     O cu estava limpo e o sol levante iluminava aquelas grandes solides; o nordeste passando entre os matagais arrastava na atmosfera os odores acres e penetrantes 
da folhagem dos carvalhos e os mil perfumes das flores silvestres; sobre os musgos e as ervas, as gotas de orvalho brilhavam como semeadura de diamantes; nos longes 
dos bosques cantavam e voltejavam as aves; os gamos bramiam nos cerrados, por toda a parte a natureza acordava e as ltimas nvoas da noite diluam-se nas distncias.
     A fisionomia do nosso viajante regozijava-se sob a influncia de um to lindo dia; dilatava-se-lhe o peito, respirava a plenos pulmes, e com voz forte e sonora 
ele lanava aos ecos os estribilhos de um velho hino saxo, um hino  morte dos tiranos.
     Subitamente uma flecha passou silvando pela sua orelha e foi cravar-se num ramo de carvalho  orla do caminho.
     O campons, mais surpreso que assustado, pulou do cavalo, escondeu-se atrs de uma rvore, retesou o seu arco e postou-se em defensiva. Mas em vo esquadrinhou 
o caminho em toda a sua extenso, perscrutou os matagais circunvizinhos, prestou ouvido aos menores rumores da floresta: nada viu, nada ouviu, no soube o que pensar 
daquele ataque imprevisto.
     Talvez o descuidado viajante tivesse sido o alvo involuntrio de algum caador desastrado; mas nesse caso ouviria o rudo dos passos do caador, os latidos 
dos ces, veria talvez o gamo em fuga atravessando a passagem.
     Talvez fosse um outlaw, um proscrito como havia tantos no condado, gente que vive do assassnio e da rapina e passa os dias  espreita dos viajantes. Mas todos 
esses vagabundos o conheciam, sabiam que ele no era rico e que jamais lhes recusava um pedao de po e um copo de cerveja quando batiam  sua porta.
     Teria ofendido algum que procurava vingar-se? No, no possua inimigos num raio de vinte lguas.
     Que mo invisvel quisera ento feri-lo de morte?
     Sim, de morte! Porque a flecha raspara to de perto uma das suas tmporas que lhe fizera esvoaar o cabelo.
     Examinando a sua posio, o nosso homem dizia consigo:
      O perigo no  iminente, porque o instinto do meu cavalo no o pressentiu. Pelo contrrio, est to sereno como na sua cocheira, e alonga o focinho para as 
ramarias como se fosse para a manjedoura. Mas se ficarmos aqui, o meu perseguidor saber onde me escondo.  Vamos, pnei, a trote!
     Esta ordem foi dada por meio de um leve assobio em surdina, e o dcil animal, acostumado havia muito quela manobra de caador que deseja isolar-se em emboscada, 
ergueu as orelhas, volveu os grandes olhos coruscantes para a rvore que protegia o seu amo, respondeu-lhe com um ligeiro relincho e afastou-se a trote. Debalde, 
por mais de um quarto de hora, o campons esperou, de olho  espreita, um novo ataque.
      Bem  tornou ele;  j que a pacincia no d resultado, experimentemos o ardil.
     E calculando, pela direo da plumagem da flecha, o ponto onde o inimigo podia ter-se escondido, disparou uma flecha para esse lado com a esperana de assustar 
o malfeitor ou provoc-lo pela iniciativa. A seta fendeu o espao e foi cravar-se na casca de uma rvore, mas ningum respondeu  provocao. Consegui-lo-ia um novo 
tiro? A segunda flecha partiu, mas foi detida em seu vo. Uma flecha despedida por um arco invisvel, chocou-se com ela quase em ngulo reto por cima do caminho, 
fazendo-a tombar, redemoinhando, no cho. O tiro fora to rpido, to inesperado, anunciava tanta destreza e to hbil golpe de mo e de vista, que o campons maravilhado, 
esquecido de todo o perigo, pulou do seu esconderijo.
      Que tiro! Que tiro assombroso!  gritou ele correndo para a beira do matagal ao encontro do misterioso arqueiro .
     Um riso alegre respondeu aos aplausos, e no longe dali uma voz argentina e suave, como de mulher, cantou:
     
     H gamos na floresta e flores na orla dos grandes bosques; 
     Mas deixa o gamo na sua vida selvagem e a flor na sua haste flexvel,
     E vem comigo, meu amor, meu querido Robin Hood; 
     Eu sei que tu amas o gamo nas clareiras e as flores para colmarem a minha fronte; 
     abandona por hoje a caa e a gentil colheita, 
     E vem comigo, meu amor, meu querido Robin Hood.
     
      Oh!  Robin, o desavergonhado Robin Hood quem canta. Vem aqui, maroto! Ento ousas atirar setas contra teu pai? Por So Dunstan, pensei que os outlaws estivessem 
cobiando a minha pele! Ah! Filho ingrato que toma por alvo a minha cabea grisalha! Aqui est, aqui est o tratante! E cantando a cano que eu compus para os amores 
de meu irmo Robin... no tempo em que eu fazia canes e o inditoso amigo cortejava a linda May, sua noiva.
      Que  isso, meu bom pai! Que  isso? Minha seta feriu-o raspando pela sua orelha?  gritou do outro lado da mata um lindo moo que recomeou a cantar:
     No h uma nuvem sob o plido ouro da lua, nem rumores
     no vale, 
     No h outras vozes no ar alm da do doce sino do mosteiro. 
     Vem comigo, meu amor, vem comigo querido Robin Hood, 
     Vem comigo  alegre floresta de Sherwood, 
     Vem comigo para debaixo da rvore que testemunhou a nossa
     primeira jura, 
     Vem comigo, meu amor, meu querido Robin Hood.
     
     Os ecos da floresta repetiam ainda o doce estribilho quando um jovem que parecia ter vinte anos, embora na realidade tivesse apenas dezesseis, veio ao encontro 
do velho campons em quem decerto todos reconheceram j o valente Gilberto Head do primeiro captulo da nossa histria.
     O moo sorriu ao velho, levando respeitosamente a mo ao seu bon verde, enfeitado de uma pena de gara real. Uma densa cabeleira negra, levemente anelada, 
coroava-lhe a fronte mais branca que o marfim e muito desenvolvida. As plpebras muito erguidas deixavam jorrar as fulgurncias de duas pupilas de um azul escuro, 
cujo brilho se atenuava sob a franja dos longos clios que projetavam a sua sombra at s rseas mas das faces. Seu olhar nadava num fludo que tinha a transparncia 
de um esmalte lquido; os pensamentos, as crenas e os sentimentos de um cndido adolescente, refletiam-se nele como num espelho; os traos do rosto de Robin Hood 
anunciavam coragem e energia; sua delicada beleza nada tinha de afeminada, e o seu sorriso era quase o de um homem senhor de si mesmo, quando os lbios, de um vermelho 
de coral e unidos por uma graciosa curva ao nariz reto e fino, s narinas mveis e transparentes, se entreabriam mostrando uns dentes ebrneos.
     Os ventos tinham crestado aquela nobre fisionomia, mas a cetinosa brancura da carnao reaparecia abaixo da linha do pescoo e acima dos fortes punhos.
     Um gorro com pluma de gara por penacho, um gibo de pano verde de Lincoln apertado na cintura, amplas bragas de pele de gamo, um par de urihcge sceo (borzeguins 
saxes) amarrados por slidas correias acima dos tornozelos, um boldri tauxiado de ao polido suportando uma aljava cheia de flechas, a pequena trompa e o faco 
de caa  cinta, o arco na mo, tais eram as peas do vesturio e do equipamento de Robin Hood que apesar da originalidade do conjunto em nada prejudicavam a beleza 
do adolescente.
      E se tu me tivesses trespassado o crnio em vez de apenas me aflorar a orelha?  perguntou o bom velho repetindo as ltimas palavras do filho num tom de fingida 
severidade.  Cautela com esses raspes, sir Robin; mais vezes podero dar a morte do que tornar-se motivos de riso.
      Perdoe-me, meu bom pai. Eu no tinha a menor inteno de o ferir.
      Por Deus que estou certo disso, querido filho, mas pode acontecer; um desvio no andar do meu cavalo, um passo  esquerda ou  direita da rota seguida, um 
movimento da cabea, um tremor da tua mo, um erro de pontaria, um nada, enfim, e a tua brincadeira seria mortal.
      Mas minha mo no tremeu, minha pontaria nunca falha. No ralhe, pois, comigo, paizinho, e perdoe a minha travessura.
      De boa vontade te perdo; mas como diz Esopo, cujas fbulas te ensinou o senhor cura, ser boa distrao para um homem  brincadeira que pode matar outro 
homem?
       verdade  respondeu Robin num tom cheio de arrependimento.  Peo-lhe que esquea a minha leviandade, o meu erro, quero dizer, pois foi o orgulho que me 
levou a comet-lo.
      O orgulho?
      Sim, o orgulho; o senhor no me disse ontem  noite, ao sero, que eu ainda no era bastante bom arqueiro para roar o plo da orelha de um cabritinho e assust-lo 
sem o ferir?  Pois... eu quis provar-lhe o contrrio.
      Linda maneira de exerceres as tuas habilidades! Mas mudemos de assunto, meu rapaz; perdo-te, est entendido, no guardo nenhum ressentimento, apenas quero 
que te comprometas a nunca mais me tratar como um cervo.
      No tenha receio, pai  volveu o moo enternecido, fique tranqilo; por muito travesso, muito estouvado e muito amigo de preparar partidas que eu seja, no 
esquecerei nunca o respeito e a afeio que o senhor merece, e nem em troca da posse de toda a floresta de Sherwood eu consentiria em tocar num s cabelo da sua 
cabea.
     O velho apertou afetuosamente a mo que lhe estendia o rapaz, dizendo-lhe:
      Deus abenoe o teu bom corao e te d muito juzo!  Depois acrescentou com um ingnuo sentimento de orgulho que decerto reprimira at ento a fim de morigerar 
o imprudente arqueiro:  E dizer que s meu aluno! Sim, fui eu, Gilberto Head, quem primeiro te ensinou a retesar um arco e a disparar uma flecha! O aluno  digno 
do mestre, e se ele continuar assim no haver atirador mais hbil em todo o condado, nem mesmo em toda a Inglaterra.
      Perca o meu brao direito a sua fora, meu pai, e que uma das minhas flechas no atinja o seu alvo, se eu algum dia esquecer o seu afeto!
      Menino, j sabes que apenas sou teu pai pelo corao.
      Ora! No me fale de direitos que no tem sobre mim, porque se a natureza lhes recusou, o senhor adquiriu-os por uma solicitude e um devotamento de quinze 
anos.
      Pelo contrrio, falemos disso  insistiu Gilberto retomando o caminho a p e arrastando pela brida o pnei que um forte assobio chamara de novo  ordem;  
tenho um secreto pressentimento de que desgraas prximas nos ameaam.
      Que idia  louca, meu pai!
      Tu j s grande, s forte e cheio de energia, graas a Deus; mas o futuro que se abre diante de ti no  o que eu entrevia quando, pequenino e frgil, ora 
amuado, ora alegre, crescias no colo de Margarida.
      Que me importa! Tudo quanto desejo  que o meu futuro se assemelhe ao passado e ao presente.
      Ns envelheceramos sem preocupaes se se revelasse o mistrio que envolve o teu nascimento.
      Ento o senhor nunca mais avistou o valente soldado Que me entregou aos seus cuidados?
      Nunca mais o vi, e apenas uma vez recebi notcias suas. 
      Quem sabe se morreu na guerra!
      Talvez. Um ano depois de estares conosco, recebi por intermdio de um portador uma bolsa com dinheiro e um pergaminho lacrado, mas cujo sinete no tinha armas. 
Dei o pergaminho ao meu confessor, que o abriu e me revelou o seu contedo, assim concebido, palavra por palavra: Gilberto Head, h doze meses confiei um menino 
 tua guarda, e assumi diante de ti o compromisso de te pagar uma quantia anual pelos trabalhos que tens com ele; aqui a remeto; vou deixar a Inglaterra e ignoro 
quando poderei regressar. Em conseqncia, tomei as disposies necessrias para que recebas todos os anos a importncia devida. Assim, na poca de cada vencimento 
no ters seno que apresentar-te em casa do xerife de Nottingham, e recebers o teu dinheiro. Educa o menino como se ele fosse teu prprio filho; quando eu voltar 
irei reclamar-to. Nenhuma assinatura, nenhuma data; de onde vinha essa mensagem? Ignoro-o. O mensageiro partiu sem querer satisfazer a minha curiosidade. J te 
repeti muitas vezes o que o desconhecido fidalgo nos contou a propsito do teu nascimento e da morte de teus pais. Nada mais sei, portanto, acerca da tua origem, 
e o xerife que me paga a tua penso responde invariavelmente, quando o interrogo, que no conhece o nome nem a morada de quem o encarregou de me entregar um certo 
nmero de guinus por ano. Se agora o teu protetor te chamasse a si, minha boa Margarida e eu nos consolaramos da tua partida pensando que ias enfim ao encontro 
das riquezas e honras que te pertencem por direito de nascena; mas se tivermos de morrer antes que o desconhecido fidalgo reaparea, uma grande mgoa perturbar 
os nossos derradeiros momentos.
      Que grande mgoa, pai?
      A mgoa de te saber sozinho e abandonado a ti mesmo, entregue aos teus instintos justamente quando te vais tornando homem.
      Minha me e meu pai ainda vivero por muito tempo.
      S Deus o sabe.
      Deus h de permiti-lo.
      Que a sua vontade seja feita! Em todo o caso, se a morte em breve nos separar, fica sabendo, meu filho, que s o nosso nico herdeiro; a cabana onde cresceste 
 tua, as lavras que a cercam so propriedade tua, e com o dinheiro da tua penso, acumulado durante quinze anos, no precisars temer a misria e poders ser feliz 
se fores ajuizado. Se a desgraa te feriu ao nascer, teus pais adotivos fizeram tudo o que estava ao seu alcance para a reparar; que penses muitas vezes neles  
a nica recompensa que ambicionam.
     O adolescente comoveu-se, grossas lgrimas comearam a escorrer-lhe das plpebras;  mas ele conteve a sua emoo para no aumentar a do velho, voltou a cabea, 
limpou os olhos com as costas da mo e disse num tom quase alegre:
      No toquemos jamais em to triste assunto, meu pai; a idia  de uma separao, ainda que remota, deixa-me fraco como uma mulher, e a fraqueza no convm a 
um homem (ele j se considerava homem). Com certeza um dia saberei quem sou, mas ainda que no o venha a saber, essa ignorncia nunca me impedir de dormir tranqilo 
ou de acordar alegremente. Por Deus! Se ignoro o meu verdadeiro nome, nobre ou plebeu, sei perfeitamente o que desejo ser... o mais hbil arqueiro que ainda disparou 
uma seta contra os gamos da floresta de Sherwood.
      Isso j o s, sir Robin volveu Gilberto com orgulho;  no sou eu o teu instrutor? Vamos embora Gip, meu bravo pnei   acrescentou o velho trepando para 
a sela,  preciso apressar-me para ir a Mansfeldwoohaus e voltar, quando no Maggie far um beio mais comprido que a mais comprida das minhas flechas. Enquanto 
isso, meu filho, vai treinando a tua habilidade, e no tardars a igualar a de Gilberto Head nos seus melhores dias...  At  vista.
     Robin divertiu-se durante algum tempo a despedaar a flechada as folhas que escolhia a olho no cimo das mais altas rvores; depois, cansado da distrao estendeu-se 
na relva  sombra de uma clareira, e recordou uma a uma, em seu pensamento, as palavras que acabava de trocar com o pai adotivo. Ignorando o mundo, Robin nada mais 
desejava alm da felicidade em que vivia sob o teto do guarda florestal, e a suprema felicidade para ele consistia em poder caar livremente nas solides povoadas 
de caa da floresta de Sherwood; que lhe importava, pois, um futuro de nobre ou de vilo?
     Um longo atrito de folhagens e bruscos estalidos nos silvados prximos no tardaram a perturbar os devaneios do nosso jovem arqueiro; ele ergueu a cabea e 
avistou um gamo assustado que rompia o denso matagal, correu atravs da clareira e mergulhou precipitadamente nas profundezas da floresta.
     Retesar o seu arco e perseguir o animal foi o impulso instantneo de Robin; mas tendo por acaso ou por instinto de caador olhado o ponto de onde surgira o 
gamo, avistou a algumas toesas de distncia um homem agachado atrs de um outeiro que dominava o caminho; assim oculto, aquele homem podia ver sem ser visto tudo 
o que se passava na vereda, e de olho  espreita, a flecha na corda, esperava.
     Pelas roupas que usava tinha-se a impresso de um pacato morador da floresta, bom conhecedor dos movimentos da caa e dando-se ao gosto de uma ociosa tocaia. 
Mas se ele fosse realmente caador, e sobretudo caador de gamos, no teria hesitado em seguir imediatamente a pista do animal. Que significava ento aquela emboscada? 
Seria um salteador  espreita de viajantes?
     Robin farejou um crime, e esperando criar-lhe obstculos escondeu-se atrs de uma moita de faias, observando com ateno as atitudes do desconhecido. Este, 
sempre agachado no seu outeiro dava as costas a Robin, achando-se desse modo colocado entre ele e o caminho.
     De repente o bandido ou caador disparou uma flecha na direo da vereda, soerguendo-se como para pular sobre a presa visada; mas deteve-se, soltou uma violenta 
praga e tornou a agachar-se com uma flecha no arco.
     Esta nova flecha, quando disparada, foi seguida, como a primeira, de uma horrorosa blasfmia.
      Que ser que ele pretende?  perguntou-se Robin.  Querer dar em algum dos seus amigos uma penteadela como essa que eu dei esta manh ao velho Gilberto? 
A coisa no  das mais fceis. Mas no vejo ningum l em baixo, para onde ele aponta; ele, entretanto, deve estar vendo alguma coisa, visto que prepara uma terceira 
flecha.
     Robin ia deixar o seu esconderijo para travar conhecimento com o atirador desconhecido e desastrado, quando ao afastar casualmente os ramos de uma faia avistou, 
parados no ponto onde o caminho de Mansfeldwoohaus forma um cotovelo, um cavaleiro e uma dama que pareciam muito inquietos, indecisos entre voltar atrs ou enfrentar 
o perigo. Os cavalos tinham-se espantado e o homem olhava para todos os lados a fim de descobrir o inimigo e enfrent-lo, esforando-se ao mesmo tempo por acalmar 
os terrores da companheira.
     Bruscamente a jovem senhora soltou um grito de angstia e tombou quase desmaiada: uma flecha acabava de cravar-se no aro da sua sela.
     No havia que duvidar, o homem da emboscada era um covarde assassino.
     Tomado de generosa indignao, Robin escolheu no seu carcs uma flecha das mais agudas, retesou o arco e apontou. A mo esquerda do malfeitor ficou pregada 
na madeira do arco que outra vez ameaava o cavaleiro e sua dama.
     Rugindo de clera e de dor, o bandido virou a cabea e tentou descobrir de onde partira aquele ataque imprevisto; mas a esbelteza do nosso jovem arqueiro  ocultava-o 
atrs do tronco da faia, e as tonalidades do seu gibo confundiam-se com as da folhagem.
     Robin poderia matar o bandido, mas contentou-se em assust-lo depois de o ter castigado, despedindo-lhe uma nova flecha que lhe atirou o gorro a vinte passos.
     Estonteado e cheio de pavor o ferido endireitou-se, e sustentado com a mo s a mo ensangentada, bramiu, tripudiou, girou um momento sobre si mesmo, passeou 
os olhos esgazeados pelas matas prximas e largou a fugir gritando:
       o diabo! O diabo! O diabo!
     Robin festejou a fuga do bandido com uma alegre gargalhada, e sacrificou uma derradeira flecha que, aumentando-lhe o ritmo da corrida, devia impedi-lo por algum 
tempo de se sentar  vontade.
     Passado o perigo, Robin saiu do seu esconderijo e foi encostar-se negligentemente ao tronco de um carvalho  beira do caminho, preparado para dar as boas-vindas 
aos viajantes; mas apenas estes, que avanavam a trote, o avistaram, a dama soltou um grande grito e o cavaleiro correu para ele de espada na mo.
      Ol, senhor cavaleiro!  exclamou Robin;  contenha o seu brao e modere o seu furor. As flechas que lhe atiraram no saram da minha aljava.
      Foste ento tu, miservel! Foste ento tu!  berrava o cavaleiro tomado da mais violenta clera.
      Eu no sou um assassino; ao contrrio, fui eu que lhes salvei a vida.
      Onde est ento o assassino? Fala, ou abro-te a cabea!
      Preste ateno se deseja sab-lo  replicou friamente Robin.  E quanto a abrir-me a cabea no pense nisso, e permita-me observar-lhe, senhor, que esta flecha 
cuja ponta lhe est dirigida, atravessar o seu corao antes que a sua espada logre arranhar a minha pele. D-se por avisado e escute-me em paz, pois direi a verdade.
      Estou escutando  volveu o cavaleiro como fascinado pelo sangue frio de Robin.
      Eu estava ali sossegadamente deitado na relva, atrs daquelas faias; passou um gamo, pensei em persegui-lo, mas no momento em que ia sair no seu encalo, 
avistei um homem atirando flechas sobre um alvo a princpio invisvel para mim. Esqueci ento o gamo e fiquei  espreita vigiando aquele homem que me parecera suspeito, 
e no tardei a descobrir que ele tomava esta graciosa dama como seu ponto de mira.  Dizem que eu sou o mais hbil arqueiro  da floresta de Sherwood, e quis aproveitar 
a ocasio para provar a mim mesmo a verdade do que dizem. Ao primeiro disparo, a mo e o arco do bandido ficaram juntamente pregadas pela minha flecha, e ao segundo 
arranquei-lhe o barrete, que no h de ser difcil de encontrar; enfim, ao terceiro pus o maroto em fuga, e acho que ele ainda est correndo. Aqui est como se passaram 
as coisas.
     O cavaleiro mantinha a espada alta, parecia ainda duvidar.
      E agora, senhor  acrescentou Robin,  olhe-me bem de frente e diga se me acha com cara de bandido.
      Com efeito, com efeito, meu rapaz, confesso que no tens cara de malfeitor  disse por fim o estranho depois de considerar atentamente Robin.
     A fronte radiosa, a fisionomia cheia de franqueza, os olhos onde cintilava o ardor da coragem, os lbios que um sorriso de legtimo orgulho entreabria, tudo 
naquele nobre adolescente inspirava, impunha, comandava a confiana.
      Dize-me quem s e leva-nos, peo-te, a algum lugar onde as nossas montadas possam descansar e refazer-se  acrescentou o cavaleiro.
      Terei muito gosto;  sigam-me.
      Mas antes aceita esta bolsa, at que Deus te recompense.
      Guarde o seu ouro, senhor cavaleiro; o ouro de nada me serve, no tenho preciso dele. Chamo-me Robin Hood, e moro com meu pai e minha me a duas milhas daqui, 
 orla da floresta; venham comigo, em nossa casa encontraro uma cordial hospitalidade.
     A jovem senhora, que at ento se mantivera afastada, aproximou-se do seu cavaleiro, e Robin viu reluzir o brilho de dois grandes olhos negros sob o capuz de 
seda que lhe preservava a cabea da friagem matinal; notou logo a sua divina beleza, e devorou-a com o olhar inclinando-se gentilmente diante dela.
      Poderemos acreditar na palavra deste jovem?  perguntou a dama ao cavaleiro.
     Robin ergueu altivamente a cabea, e sem dar ao cavaleiro tempo de responder, observou.
      J no parece haver mais boa-f sobre a terra.
     Os dois estrangeiros sorriram e todas as dvidas se dissiparam.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
III
     
     
     
     A PEQUENA caravana empreendeu a marcha, a princpio silenciosamente; o cavaleiro e a jovem pensavam ainda no perigo que haviam corrido, e um mundo de idias 
novas parecia surgir na cabea do nosso gentil arqueiro: pela primeira vez lhe era dado admirar a beleza de uma mulher.
     Altivo por instinto de raa, tanto como por temperamento, no queria mostrar-se inferior queles que lhe deviam a vida, e afetava, guiando-os, maneiras orgulhosas 
e cheias de secura; adivinhava que aquelas pessoas modestamente vestidas e viajando sem squito pertenciam  nobreza, mas considerava-se igual a elas na floresta 
de Sherwood, e at seu superior perante as emboscadas dos assassinos.
     A maior ambio de Robin era ser considerado arqueiro hbil e audacioso guarda das florestas; embora merecesse o primeiro ttulo recusavam-lhe ainda o segundo, 
alis desmentido pela sua aparncia juvenil.
     A todos os seus atributos naturais, Robin juntava ainda o encanto de uma voz melodiosa; sabia-o bem e cantava onde quer que lhe desse vontade de cantar; e como 
quisesse dar aos viajantes uma idia  dos seus talentos, entoou alegremente uma jovial balada; mas logo s primeiras palavras uma extraordinria emoo lhe paralisou 
a voz, e seus lbios se fecharam tremendo; de novo experimentou, terminando por emudecer com um fundo suspiro; outra vez que tentou, mesmo suspiro e mesma emoo.
     O ingnuo moo experimentava j os constrangimentos do amor; adorava sem o saber a imagem da bela desconhecida que cavalgava atrs de si, e esquecia as palavras 
das canes perdendo-se a sonhar com os seus olhos negros.
     Acabou entretanto por compreender as causas da sua perturbao, e disse consigo recuperando a serenidade:
      Pacincia, em breve a verei sem o capuz.
     O cavaleiro fez perguntas a Robin a respeito das suas preferncias, dos seus hbitos e ocupaes, com grande benevolncia; mas Robin respondeu friamente, e 
s mudou de tom quando o seu amor-prprio entrou em causa.
      No receias ento  perguntou o estranho,  que esse miservel fora da lei procure vingar-se em ti do seu malogro?  No temes errar o alvo?
      Por Deus, senhor! No me  possvel acalentar esse temor.
      No te  possvel?
      Sim, o exerccio tornou uma brincadeira para mim os tiros mais difceis.
     Havia demasiada boa-f e nobre orgulho nas respostas de Robin para que o estranho pensasse em zombar dele, de modo que prosseguiu:
      Sers to bom atirador que atinjas a cinqenta passos onde consegues acertar a quinze?
      Naturalmente; mas  acrescentou o rapaz em tom de mofa,  eu espero que o senhor no considere como indcio de destreza a lio que dei a esse malfeitor.
      Por qu?
      Porque semelhante bagatela nada prova.
      E que melhor prova poderias tu dar-me?
      Apresente-se a ocasio e o senhor ver.
     Houve silncio durante alguns minutos e a caravana chegou  entrada de uma vasta clareira que o caminho cortava em diagonal. No mesmo instante uma grande ave 
de presa ergueu-se no ar, e um pequeno coro alarmado pelo rudo da passagem dos cavalos, saiu de um matagal vizinho e atravessou o espao arborizado para se ir 
esconder no lado fronteiro.
      Agora!  exclamou Robin segurando uma flecha entre os dentes e colocando uma outra no arco;  qual prefere o senhor, a caa de penas ou a caa de plo? Escolha!
     Mas antes que o cavaleiro tivesse tempo de responder, o coro tombava ferido de morte e a ave de presa descia redemoinhando sobre a clareira.
      Como o senhor no escolheu enquanto eles eram vivos, ter oportunidade de escolher logo  noite, quando eles estiverem assados.
      Admirvel!  exclamou o cavaleiro.
      Maravilhoso!  murmurou a jovem.
      Vossas Senhorias no tm seno que prosseguir direto por este caminho, e passado este bosque avistaro a casa de meu pai. Salve! Eu tomo a dianteira para 
anunci-los a minha me e mandar o nosso velho criado recolher a caa.
     E dizendo isso, Robin desapareceu correndo.
       um nobre moo, no achas, Mariana?  disse o cavaleiro  sua companheira;  um rapaz encantador e o mais gentil caador ingls que ainda encontrei.
       muito jovem  respondeu a moa.
      Mais jovem ainda, talvez, do que aparentam a sua delgada estatura e o vigor dos seus membros. No podes imaginar, Mariana, quanto a vida ao ar livre favorece 
o desenvolvimento das nossas foras e conserva a sade; no sucede o mesmo na atmosfera asfixiante das cidades  acrescentou o cavaleiro suspirando.
      Suponho, senhor Allan Clare  tornou a jovem senhora com um fino sorriso,  que os seus suspiros se dirigem menos s verdes rvores da floresta de Sherwood 
do que  sua encantadora feudatria, a nobre filha do baro de Nottingham.
      Tens razo, Mariana, minha querida irm, e confesso que preferia, se a escolha dependesse da minha vontade, passar os dias a vagabundear por esta floresta, 
tendo por morada a cabana de um yeoman e Christabel por mulher, a sentar-me num trono.
      Irmo, a idia  bonita mas um pouco romntica. Consentiria, alis, Christabel em trocar a sua vida faustosa pela existncia mesquinha de que falas? Ah! Querido 
Allan, no te deixes embalar por doces esperanas; duvido muito de que o baro te conceda jamais a mo de sua filha.
     A fronte do cavaleiro tornou-se sombria, mas ele expulsou imediatamente a nuvem de tristeza e disse  irm num tom calmo:
      Creio que j te ouvi falar com entusiasmo dos atrativos da vida campestre.
       verdade, Allan, confesso que tenho por vezes gostos estranhos; mas no julgo que Christabel os tenha semelhantes.
      Se Christabel me ama verdadeiramente, contentar-se- com minha morada, seja ela qual for. Dizes que pressentes a recusa do baro? Mas se eu quiser direi apenas 
uma palavra, uma s, e o altivo, o irascvel Fitz-Alwine receber com agrado o meu pedido sob pena de ser proscrito e de ver o seu castelo de Nottingham reduzido 
a poeira.
      Silncio! Eis a a cabana  disse Mariana interrompendo o irmo.  A me do rapaz espera-nos  porta. Na verdade, a aparncia dessa mulher  das mais agradveis.
      O filho herdou-lhe essas qualidades  respondeu o cavaleiro sorrindo.
      Oh! No passa ainda de uma criana  murmurou Mariana com um sbito rubor afogueando-lhe a face.
     Mas quando a jovem se apeou com a ajuda do irmo, quando o seu capuz, lanado para trs, lhe descobriu as feies, o rubor dera lugar a um leve matiz rosado. 
Robin, que se conservava junto da me, admirava com radiosa surpresa a primeira mulher que lhe fazia bater o corao, e a emoo do jovem arqueiro  era to viva, 
to sincera, to verdadeira, que ele exclamou sem ter a conscincia das suas palavras:
      Ah! Eu tinha a certeza de que to lindos olhos s podiam iluminar um to lindo rosto!
     Margarida, admirada da ousadia do filho, voltou-se para ele e interpelou-o num tom quase repreensivo. Allan rompeu a rir, e a bela Mariana tornou-se mais vermelha 
que o impudente Robin, o qual, para esconder o seu embarao e a sua vergonha, se lanou ao pescoo da me; assim mesmo no deixou de atirar um olhar disfarado  
fisionomia de Mariana, onde no viu vestgios de clera; ao contrrio, um benvolo sorriso que a jovem supunha estar escondendo ao culpado iluminava-lhe o rosto, 
e o culpado, certo de obter as suas graas, aventurou-se a erguer timidamente os olhos para o seu dolo.
     Uma hora depois, Gilberto Head regressava ao lar trazendo na garupa do seu cavalo um homem ferido que encontrara no caminho; com infinitas precaues ajudou 
o estranho a descer do seu incmodo assento, e levando-o para a sala chamou Margarida, ocupada a instalar os viajantes nos quartos do primeiro pavimento.
      voz de Gilberto, Margarida acorreu.
      Olha, mulher, aqui est um pobre homem que necessita muito dos teus cuidados. Um desocupado qualquer cometeu a brincadeira atroz de lhe pregar a mo no arco 
com uma flecha, no instante em que ele visava um pequeno coro. Vamos, boa Maggie, no percamos tempo: o homem est muito enfraquecido pela perda de sangue. Como 
te sentes, amigo?  acrescentou o velho dirigindo-se ao ferido.  Coragem! Logo ficars bom. V, levanta um pouco a cabea e no te deixes abater assim; nimo, por 
Deus! Ningum morre por causa de uma pontada de prego na mo.
     O ferido, curvado sobre si mesmo e com a cabea enterrada nos ombros, baixava-a parecendo querer furtar aos seus benfeitores a vista do seu rosto.
     Nesse momento Robin entrou em casa e correu para junto do pai, a fim de o ajudar a sustentar o ferido, mas logo que demorou um momento os olhos nele, afastou-se 
e fez sinal ao velho Gilberto para que viesse falar-lhe.
      Pai  disse baixo o rapaz,  trate de esconder aos viajantes l de cima a presena desse ferido em nossa casa. Mais tarde lhe direi porqu.  Tenha cautela.
      E que outro sentimento, que no o da compaixo, poderia despertar em nossos hspedes a presena deste pobre mateiro banhado em sangue?
       noite o saber, meu pai; por enquanto siga o meu conselho.
      Ora!  noite o saberei,  noite o saberei  repetiu Gilberto descontente.  Pois bem! quero sab-lo imediatamente; acho muito estranho que uma criana como 
tu se permita dar-me conselhos de prudncia. Fala, que relao pode haver entre este mateiro e Suas Senhorias?
      Por favor, tenha pacincia; eu lhe direi  noite, quando estivermos sozinhos.
     O velho deixou Robin e regressou para junto do ferido, que da a momentos lanava um tremendo uivo de dor.
      Ah! Senhor Robin, aqui temos mais uma das tuas proezas  berrou Gilberto correndo atrs do filho e alcanando-o justamente quando ele ia transpor o limiar 
da porta.  Ainda esta manh te proibi de exercitares as tuas habilidades  custa dos teus semelhantes, e vejo que fui bem obedecido conforme prova este desventurado 
mateiro!
      Que foi?  replicou o moo tomado de respeitosa indignao;  o senhor pensa que...
      Sim, eu penso que foste tu que cravaste a mo deste homem no seu arco, pois no h ningum na floresta capaz de semelhante faanha. Aqui est: a ponta da 
flecha traiu-te; est identificada pela nossa marca... Ah! espero que no tentes negar a tua culpa.
     E Gilberto exibia-lhe o ferro da flecha que havia arrancado do ferimento.
      Pois seja, meu pai! Realmente fui eu que feri esse homem  admitiu Robin com frieza.
     Gilberto assumiu uma atitude severa.
      Pois trata-se de uma horrvel, de uma criminosa ao; no sentes vergonha de haver ferido perigosamente, por mera fanfarronice, um homem que no te fazia 
mal algum?
      No sinto vergonha nem me arrependo absolutamente da minha conduta  respondeu Robin num tom firme.  A vergonha e o arrependimento competem melhor a quem 
ataca na sombra viajantes inofensivos e sem defesa.
      A quem cabe ento a responsabilidade deste cruel episdio?
      Ao homem que o senhor to generosamente recolheu na floresta.
     E Robin contou ao pai os detalhes do que se havia passado.
      E esse miservel chegou a ver-te?  perguntou Gilberto inquieto.
      No, porque fugiu quase alucinado, imaginando-se vitimado pela interveno do demnio.
      Perdoa a minha injustia, meu filho  disse o velho apertando afetuosamente entre as suas as mos do rapaz.  Admiro a tua destreza, mas de agora em diante 
precisamos vigiar com ateno as proximidades da nossa casa. A ferida deste patife no tardar a sarar, e para agradecer os meus cuidados e a minha hospitalidade, 
ele ser capaz de voltar aqui na companhia de outros bandidos como ele a fim de pr tudo a fogo e sangue. Tenho a impresso  acrescentou Gilberto depois de refletir 
um instante,  que a fisionomia deste homem no me  desconhecida; mas embora forando a memria no consigo lembrar-me do seu nome. Deve ter-se modificado a expresso 
do seu rosto. Quando o conheci ele no apresentava ainda na face essa mscara aviltante da devassido e do crime.
     A conversa foi interrompida pela chegada de Allan e de Mariana, aos quais o dono da casa deu cordialmente as boas-vindas.
     Na noite desse dia, a casa do guarda florestal ficou cheia de animao: Gilberto, Margarida, Lincoln e Robin, sobretudo Robin, ressentiam-se vivamente da mudana 
e da agitao provocadas em sua pacata existncia pela chegada dos novos hspedes. O dono da casa vigiava o ferido com o maior cuidado, sua esposa preparava as refeies; 
Lincoln, embora ocupando-se dos cavalos fazia guarda atenta, prestando a maior ateno s proximidades da casa. Apenas Robin estava ocioso, mas o seu corao trabalhava 
ativamente. A presena da bela Mariana despertava nele sensaes at ento desconhecidas, e o rapaz ficava imvel, cado em silenciosa admirao, corando, empalidecendo, 
estremecendo, quando a moa se movia, falava ou percorria com os olhos o que a cercava.
     Nunca nas festas de Mansfeldwoohaus ele contemplara beleza semelhante; costumava danar, rir, conversar com as moas de Mansfeldwoohaus, e at mesmo segredara 
aos ouvidos de algumas, banais palavras de amor, mas no dia seguinte as esquecia inteiramente entre as distraes da floresta; agora seria capaz de morrer de medo 
se tivesse de aventurar uma palavra  nobre amazona que lhe devia a vida, e sentia que nunca mais a poderia esquecer.
     Deixava de ser um menino.
     Enquanto Robin, sentado a um canto da sala, adorava Mariana em silncio, Allan felicitava Gilberto pela coragem e destreza do jovem arqueiro, cumprimentando 
o velho por ser pai de um tal filho; mas Gilberto, esperanado sempre em receber quando menos o esperasse informao acerca da origem de Robin, nunca deixava de 
confessar que o moo no era seu filho, repetindo como e em que poca um desconhecido lhe trouxera a criana.
     Allan inteirou-se pois, com surpresa, de que Robin no era filho de Gilberto, e como este ltimo acrescentasse que o desconhecido protetor do rfo viera provavelmente 
de Huntingdon, visto que o xerife desse lugar lhe pagava todos os anos a penso da criana, o cavaleiro observou:
      Huntingdon  o lugar onde nascemos e que deixamos apenas h alguns dias. A histria de Robin, valente mateiro, pode talvez ser essa, mas duvido. Nenhum fidalgo 
de Huntingdon morreu na Normandia na poca em que nasceu essa criana, e eu nunca ouvi dizer que qualquer membro das nobres famlias do condado tenha jamais feito 
uma aliana desigual com uma francesa pobre e plebia. Alm disso, porque motivo teriam trazido a criana para to longe de Huntingdon? No interesse do seu bem-estar, 
diz o senhor aceitando a opinio de Ritson, seu parente, que se lembrou de si e se tornou fiador da sua caridade. No seria antes pelo interesse de esconder o nascimento 
do menino que se queria abandonar, mas no fazer perecer? O que confirma as minhas suspeitas  que desde ento o senhor nunca mais viu seu cunhado. Quando eu regressar 
a Huntingdon tomarei as informaes mais minuciosas e hei de esforar-me por descobrir a famlia de Robin; minha irm e eu devemos-lhe a vida, e praza aos cus que 
possamos pagar-lhe desse modo a dvida sagrada de um eterno reconhecimento.
     Pouco a pouco as amabilidades de Allan e as ternas e familiares palavras de Mariana foram devolvendo a Robin a disposio e a serenidade habituais, e em breve 
a alegria mais pura, mais sincera e mais cordial reinou em casa do guarda.
      Ns perdemo-nos ao atravessar a floresta de Sherwood a caminho de Nottingham  disse Allan Clare,  para onde conto dirigir-me amanh pela manh. No querer 
servir-me de guia, caro Robin? Minha irm ficar aqui entregue aos bons cuidados de sua me e  noite estaremos de volta. Nottingham fica longe daqui?
      Mais ou menos doze milhas  respondeu Gilberto;  um bom cavalo no leva duas horas a fazer a viagem, e como devo uma visita ao xerife que j no vejo h 
um ano, tambm os acompanharei, senhor Allan.
      Tanto melhor!  exclamou Robin;  assim seremos trs.
      No, no!  interveio Margarida; e falando ao ouvido do esposo acrescentou em voz baixa:  Como podes pensar em deixar duas mulheres sozinhas em casa com 
esse bandido?
      Sozinhas!  volveu Gilberto rindo.  Ento no contas para nada, querida Maggie, com o nosso velho Lincoln e o meu fiel cachorro, o valente Lance, que arrancaria 
o corao a quem ousasse erguer as mos contra ti?
     Margarida lanou um olhar suplicante  jovem estrangeira e Mariana declarou resolutamente que acompanharia o irmo se Gilberto no renunciasse aos prazeres 
da viagem projetada.
     Gilberto cedeu, e ficou combinado que aos primeiros raios do sol Allan e Robin se poriam a caminho.
     Chegada a noite e fechadas as portas, os nossos personagens foram para a mesa e fizeram honra aos talentos culinrios da boa Margarida. O principal acepipe 
compunha-se de um assado de coro; Robin mostrava-se radiante, pois fora ele quem matara esse coro, e ela dignava-se achar a carne de um sabor delicioso.
     Sentadas uma ao p da outra, as duas encantadoras criaturas conversavam como se conversa entre velhos conhecidos; Allan, por seu lado, comprazia-se em ouvir 
contar as lendas da floresta, e Maggie velava para que nada faltasse na mesa. O aspecto que ento oferecia a morada do guarda florestal, poderia servir de modelo 
para um desses quadros de interior da escola holandesa, em que o artista poetiza o realismo do lar.
     De repente, um longo assobio partido do quarto ocupado pelo doente, atraiu os olhares dos convivas para a escada que levava ao pavimento superior, e mal esse 
assobio se perdeu no ar uma resposta do mesmo tom e gnero foi ouvida a pouca distncia na floresta. Os cinco comensais estremeceram, um dos cachorros de guarda 
que estavam fora soltou alguns latidos inquietos e o mais completo silncio reinou outra vez nas proximidades e no prprio interior da casa.
      Qualquer coisa de extraordinrio se est passando  disse Gilberto,  e no me admira nada que andem pela floresta certos indivduos que no tm qualquer 
escrpulo em esquadrinhar de preferncia as algibeiras alheias.
      O senhor teme realmente a visita de ladres?  perguntou Allan.
      Nunca se sabe.
      Eu pensei que eles deixassem em paz a morada de um honesto mateiro, que em geral no  rico, e tivessem o bom-senso de atacar apenas as pessoas ricas.
      As pessoas ricas so raras, e os senhores malfeitores tm de contentar-se com po quando no encontram carne; pode acreditar que os fora da lei no se envergonham 
de arrancar um pedao de po da boca de um homem pobre. Contudo eles deviam respeitar o meu domiclio, bem como a minha pessoa e os meus, pois mais de uma vez lhes 
permiti aquecerem-se  minha lareira e comer a esta mesa em tempos de inverno e de penria.
      Os bandidos no sabem o que  a gratido.
      Conhecem-na to pouco que muitas vezes pretenderam entrar aqui  fora.
     A essas palavras Mariana sentiu um arrepio de terror e aproximou-se involuntariamente de Robin. O rapaz quis tranqiliz-la, mas a emoo cortou-lhe de novo 
a palavra, e Gilberto tendo notado os temores da jovem, apressou-se a dizer-lhe:
      Fique sossegada, gentil senhorita, pois tem a seu servio valentes coraes e hbeis arqueiros, e se os outlaws ousarem apresentar-se podero dar-se por felizes 
se puderem fugir como j tantas vezes fugiram, levando apenas consigo alguma flecha espetada no forro da jaqueta.
      Obrigada  respondeu Mariana; e dirigindo ao irmo um olhar significativo, acrescentou:  Ento a vida de um guarda florestal no  isenta de inconvenientes 
e perigos?
     Robin iludiu-se a respeito do sentido dessa frase; imaginou-a dirigida a si, sem compreender que a moa aludia aos pretensos gostos do irmo pela vida campestre, 
e respondeu com entusiasmo:
      Eu por mim no encontro nela seno prazer e felicidade. Passo freqentemente dias inteiros nas povoaes vizinhas, e regresso  minha bela floresta com uma 
alegria inexprimvel, dizendo a mim mesmo que preferiria a morte ao suplcio de ficar encerrado entre os muros de uma cidade.
     E Robin ia prosseguir no mesmo tom, quando uma violenta batida ressoou  porta exterior da sala; a casa pareceu tremer, os ces que dormitavam  lareira ergueram-se 
rompendo a latir, e Gilberto, Allan e Robin lanaram-se para a porta enquanto Mariana se refugiava nos braos de Margarida.
      Ol!  gritou o guarda;  quem  o insolente visitante que assim ousa querer arrombar a minha porta?
     Uma segunda pancada, mais violenta ainda que a primeira, serviu de resposta; Gilberto repetiu a sua pergunta, mas os furiosos latidos dos cachorros impossibilitaram 
desde logo o dilogo, e s com grande dificuldade se ouviu enfim, do lado de fora, uma voz potente que dominou o tumulto e pronunciou esta frmula sacramental:
      Abra, pelo amor de Deus!
      De quem se trata?
      Somos dois monges da ordem de So Bento.
      De onde vm e para onde vo?
      Vimos da nossa abadia de Laiton, e vamos para Mansfeldwoohaus.
      Que desejam?
      Uma pousada para a noite e alguma coisa para comer; perdemo-nos na floresta e estamos morrendo de fome.
      Contudo a tua voz em nada se assemelha  de um moribundo; como queres que eu acredite que ests falando a verdade?
      Por Deus! Abra a porta e certifique-se olhando para ns  respondeu a mesma voz num toque que a impacincia tornava j menos humilde.  Vamos, teimoso guarda, 
abra depressa! As nossas pernas dobram-se e os nossos estmagos roncam.
     Gilberto consultava os seus hspedes e hesitava ainda, quando uma outra voz, a voz tmida e suplicante de um velho interveio:
      Pelo amor de Deus! Abra bom mateiro; juro-lhe pelas relquias do nosso santo padroeiro que meu irmo disse a verdade!
      Afinal de contas  observou Gilberto de modo a ser ouvido do lado de fora,  ns somos aqui quatro homens, e com o auxlio dos nossos cachorros poderemos 
manter em respeito essa gente, seja quem fr. Vou abrir. Robin, Lincoln, contenham um momento os ces, e soltem-nos se algum malfeitor nos atacar.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
IV



     APENAS a porta comeou a girar em seus gonzos, logo um homem se entremeteu para impedi-la de fechar outra vez e surgiu atravessando instantaneamente a soleira. 
Esse homem, novo, robusto e de uma estatura colossal, trazia uma longa veste preta de capucho e largas mangas; uma corda atava-lhe a cintura, um imenso rosrio pendia-lhe 
de lado e apoiava a mo num grosso e nodoso basto de corniso.
     Um velho vestido do mesmo modo seguia humildemente o forte e resoluto frade.
     Aps as costumeiras saudaes todos voltaram  mesa na companhia dos recm-chegados, restabelecendo-se a alegria e a confiana. Contudo os donos da casa no 
haviam esquecido o assobio do andar de cima nem o que lhe respondera da floresta, mas disfaravam as suas apreenses para no alarmar os hspedes.
      Bom e valente mateiro, recebe as minhas congratulaes; a mesa est admiravelmente servida!  exclamou o enorme frade devorando uma posta de veado.  Se eu 
no esperei que me convidasses para vir cear contigo, foi porque o meu apetite, to agudo como a lmina de um punhal, a isso se recusou.
     Verdadeiramente as palavras e os modos desse homem convinham mais a um soldado do que a um membro da Igreja. Mas naqueles tempos os frades tinham toda a liberdade 
de ao, eram numerosos e o vivo sentimento religioso bem como as virtudes da maioria dentre eles atraam a venerao do povo sobre a espcie inteira.
      Bom mateiro, que a bno da santssima Virgem derrame sobre a tua casa a felicidade e a paz!  disse o monge velho cortando um primeiro pedao de po, enquanto 
o seu colega devorava sem parar, absorvendo copos de cerveja atrs de copos de cerveja.
      Os bons irmos ho de perdoar-me a demora em abrir a porta  desculpou-se Gilberto,  mas a prudncia...
      Est claro... a prudncia nunca  demais  retrucou o monge mais novo aproveitando para respirar entre duas dentadas.  Um bando de ferozes malfeitores anda 
rondando pelas cercanias, e no h ainda uma hora que fomos assaltados por dois desses miserveis que, apesar dos nossos protestos se obstinavam em acreditar que 
possuamos em nossos alforjes algumas amostras desse vil metal a que do o nome de prata. Por So Bento! Vinham bater a boa porta, e eu j me preparava para lhes 
fazer roncar o cacete nas costas, quando um longo assobio, ao qual eles responderam, lhes deu o sinal de retirada.
     Os convivas olharam-se com ansiedade, s o frade parecia no se inquietar com coisa alguma prosseguindo filosoficamente nos seus exerccios gastronmicos.
      Grande  a misericrdia de Deus!  prosseguiu ele aps um instante de silncio;  se no fossem os latidos dos vossos ces, que os assobios alarmaram, no 
poderamos descobrir a vossa morada, e como a chuva comeava a cair apenas nos restaria o refrigrio da gua pura, conforme determinam as regras da nossa ordem.
     Dito isso, o frade tornou a encher e a esvaziar o copo.
      Valente animal  acrescentou o religioso debruando-se para acariciar com a mo o velho Lance, que por acaso se achava deitado a seus ps;  nobre cachorro!
     Mas Lance, recusando corresponder s carcias do frade, ergueu-se nas patas, estendeu o pescoo, farejou o ar e rosnou surdamente.
      Que  isso! Que  isso! Que tens tu, meu bom Lance?  perguntou Gilberto afagando o animal.
     Como nica resposta o cachorro atirou-se de um salto para a porta, e sem um latido farejou de novo, ps-se  escuta, virou a cabea para o lado do dono parecendo 
pedir-lhe, com os olhos inflamados de clera, que abrisse a porta.
      Robin, passa-me o meu bordo e apanha o teu  disse Gilberto em voz baixa.
      E eu  acrescentou no mesmo instante o frade moo,  tenho um brao de ferro, um punho de ao armado de um cacete de corniso, e tudo isto est s vossas ordens 
em caso de assalto.
      Obrigado  respondeu o guarda florestal;  mas pensei que a regra da sua ordem lhe proibisse utilizar as foras em semelhante caso.
      Antes de tudo, a regra da minha ordem determina que eu preste socorro e assistncia aos meus semelhantes.
      Tende pacincia, meus filhos  interveio o monge velho;  no sejais os primeiros a atacar.
      Seguiremos o seu conselho, meu padre; primeiro ns vamos...
     Mas Gilberto foi bruscamente interrompido na explicao do seu plano de defesa por um grito de terror que Margarida soltou. A pobre senhora acabava de avistar 
no alto da escada o ferido, que todos supunham moribundo em seu leito, e muda de pavor estendia os braos para a sinistra apario. Os olhares dos presentes dirigiram-se 
imediatamente para o mesmo lado, mas a escada j estava vazia.
      Vamos, querida Maggie  disse Gilberto antes de continuar o seu plano de defesa,  no tremas desse modo; o pobre homem l de cima no pode ter sado da cama, 
porque est muito fraco, e  pessoa mais para lastimar do que para temer, porque em caso de ataque no poder defender-se; foste vtima de alguma alucinao, Maggie.
     Assim falando o valente mateiro dissimulava os seus temores, pois s ele e Robin conheciam o verdadeiro carter do ferido. Sem dvida alguma o bandido estava 
de cumplicidade com outros do lado de fora, mas era de toda a convenincia, embora vigiando-o, no dar a entender que temiam a sua presena na casa, pois do contrrio 
as mulheres perderiam a cabea; lanou portanto a Robin um olhar significativo, e este, sem que ningum o percebesse e sem fazer mais barulho que um gato nas suas 
rondas noturnas, trepou at ao ltimo degrau da escada.
     A porta do quarto estava entreaberta, os reflexos das luzes da sala penetravam no aposento, e ao primeiro golpe de vista Robin pde ver o ferido que, em vez 
de se conservar na cama, debruava metade do corpo no peitoril da janela escancarada e conversava em voz baixa com algum que estava do lado de fora.
     O nosso heri arrastando-se pelo soalho conseguiu chegar at aos ps do bandido e pde surpreender este dilogo:
      A jovem senhora e o cavaleiro esto aqui  dizia o ferido;  acabo agora mesmo de os ver.
      Ser possvel?  exclamou o interlocutor.
      No h a menor dvida; eu ia acertar as contas com ele est manh, mas o diabo parece que veio em sua ajuda. Uma flecha partida no sei de onde veio cravar-se 
na minha mo e eles escaparam-me.
      Diabos do inferno!
      O acaso quis que se perdessem no caminho e viessem acolher-se de noite na mesma casa para onde me trouxe o bom homem que me encontrou banhado em sangue.
      Tanto melhor; desta vez no nos ho de escapar.
      Quantos so vocs a fora?
      Sete.
      Eles so apenas quatro.
      Mas o difcil  entrar, porque a porta parece-me solidamente aferrolhada e ouo rosnar uma inteira matilha de ces.
      No se preocupem com a porta;  prefervel que ela fique fechada durante a luta, porque assim a bela e seu irmo no tero oportunidade de fugir outra vez.
      Que tencionas ento fazer?
      Ora, que diabo! Ajudar-vos a entrar pela janela. Posso ainda usar uma das mos, a direita, e vou amarrar  barra do peitoril os meus lenis e as minhas cobertas. 
Vamos, preparem-se para a escalada.
      Com efeito!  exclamou de repente Robin; e segurando o bandido pelas pernas disps-se a jog-lo pela janela.
     A indignao, o furor, o ardente desejo de afastar os perigos que ameaavam a vida de seus pais e a liberdade da bela Mariana, centuplicaram as foras do rapaz. 
Em vo o bandido tentou resistir quele impulso to bruscamente dado; teve de ceder, e perdendo o equilbrio desapareceu no espao para ir cair, no na terra estreme, 
mas no tanque cheio de gua que se encontrava por baixo da janela.
     Os homens do lado de fora, surpreendidos com a queda imprevista do seu cmplice, largaram a fugir para a floresta e Robin desceu a contar o sucedido. A princpio 
ainda riram, mas a reflexo veio logo aps o riso; Gilberto garantiu que os malfeitores, refeitos da estupefao, tornariam para assaltar a casa; tomaram-se portanto 
disposies para os repelir, e o velho monge frei Eldred props invocar por meio de uma prece geral a proteo do Altssimo.
     O frade mais novo, cujo apetite enfim se atenuara, no ps objees; ao contrrio, entoou com voz estentrea o salmo Exctudi nos. Mas Gilberto imps-lhe silncio, 
e quando todos se ajoelharam Frei Eldred pronunciou em voz baixa uma fervorosa orao.
     A prece durava ainda quando gemidos entremeados de curtos assobios se ergueram do lado do tanque; a vtima de Robin chamava os fujes em seu socorro. Estes, 
envergonhados da fraqueza que haviam mostrado aproximaram-se silenciosamente, ajudaram o ferido a sair do banho involuntrio e depositaram-no quase morto sob o telheiro, 
passando a deliberar sobre um novo plano de ataque.
      Mortos ou vivos, precisamos apoderar-nos de Allan Clare e de sua irm  dizia o chefe daquele grupo de mercenrios;   a ordem do baro Fitz-Alwine, e eu 
preferia antes ter de enfrentar o diabo em pessoa ou deixar-me estraalhar por um lobo faminto a voltar  presena do baro de mos vazias. Se no fosse a estupidez 
deste imbecil Talhaferro j teramos entrado na praa.
     Nossos leitores adivinharo que o sacripanta to rudemente tratado por Robin se chamava Talhaferro. Quanto ao baro Fitz-Alwine, em breve travaro conhecimento 
com ele; baste-lhes por agora saber que esse vingativo fidalgo jurou a morte de Allan, em primeiro lugar porque Allan ama e  amado por lady Christabel Fitz-Alwine, 
sua filha, e lady Christabel foi prometida a um rico senhor de Londres; e em segundo lugar porque esse mesmo Allan est na posse de certos segredos polticos cuja 
revelao causaria a morte e a runa do baro. Ora, nesses tempos do feudalismo, o baro Fitz-Alwine, senhor de Nottingham, dispunha do direito de alta e baixa justia 
sobre todo o condado, e era-lhe fcil empregar os seus homens de armas para a satisfao das suas vinganas pessoais. E que homens de armas, Santo Deus! Talhaferro 
era o seu mais belo ornamento.
      Vamos, meninos, sigam-me de punhal na mo e no poupem ningum se houver resistncia... Primeiro empregaremos a brandura.
     E depois de ter assim falado aos sete bandidos alistados ao servio de lorde Fitz-Alwine, bateu fortemente com o punho da espada  porta da casa, bradando:
      Em nome do baro de Nottingham, nosso alto e poderoso senhor, ordeno-te que abras e nos entregues...  Mas os furiosos latidos dos ces cobriram-lhe a voz 
e s com muita dificuldade se ouviu o resto da frase:  Ordeno-te que nos entregues o cavaleiro e a dama que esto escondidos em tua casa.
     Gilberto voltou-se imediatamente para Allan e pareceu perguntar-lhe com o olhar se ele era culpado de alguma coisa.
      Culpado, eu?  respondeu Allan.  No, meu valente mateiro, juro-lhe que no sou culpado de crime algum, de nenhuma ao desonrosa e punvel, e que meus nicos 
erros, bem o sabe...
      Muito bem. Nesse caso o senhor continua sendo meu hspede e devemos-lhe ajuda e proteo at ao limite das nossas possibilidades.
      Abres ou no, diabo rebelde!  gritou o chefe dos salteadores.
      No abrirei.
       o que vamos ver.
     E a golpes de massa o chefe rompeu a abalar a porta que teria cedido se no fosse uma tranca de ferro passada transversalmente pelo lado de dentro.
     A inteno de Gilberto era ganhar tempo a fim de terminar os seus preparativos de defesa; no confiava na resistncia da porta seno por mais alguns instantes, 
e queria que quando ele mesmo a fosse abrir os bandidos encontrassem pela frente com quem falar.
     Dava desse modo a impresso do comandante de uma cidadela prestes a ser tomada de assalto; distribua as funes, designava um posto para cada qual, inspecionava 
as armas e recomendava sobretudo prudncia e sangue frio. Mas de coragem nem sequer falava, pois aqueles que o cercavam tinham j dado provas bastantes de a possuir.
      Agora, boa Margarida  disse Gilberto  mulher,  retira-te com esta nobre moa para um dos quartos de cima; as mulheres no so precisas aqui.
     Margarida  e Mariana obedeceram contrariadas.
      Tu, Robin  prosseguiu o mateiro,  vai dizer ao velho Lincoln que temos aqui servio para ele, e em seguida irs postar-te a uma das janelas do sobrado para 
vigiar os movimentos dos bandidos.
      No me contentarei s com vigi-los  replicou o jovem que desapareceu brandindo o seu arco.  Apesar da escurido saberei atingir o meu alvo.
      O senhor Allan tem a sua espada, e o senhor, meu padre, o seu bordo; e visto que a regra da sua ordem no se ope a isso, faa dele um uso conveniente.
      Ofereo-me para correr os ferrolhos da porta  disse o jovem frade.  Talvez o meu bordo inspire respeito ao primeiro que avanar.
      Pois seja, e agora separemo-nos  respondeu Gilberto;  eu neste canto, de onde farei chover flechas sobre os intrusos; o senhor Allan ali, pronto a movimentar-se 
para onde quer se torne necessria ajuda; tu, Lincoln...
     Nesse momento um velho de colossal estatura e armado de um bordo proporcional ao seu tamanho, entrou na sala.
      Tu, Lincoln, do outro lado da porta, diante do nosso bom frade, empregars o teu arrocho em concordncia com ele; mas primeiro arredemos a mesa e os escabelos, 
para que o campo de batalha fique desimpedido. Apaguemos tambm as luzes, a lareira acesa d muita claridade. E vs, meus valentes cachorros  acrescentou o guarda 
afagando os seus buldogues,  e tu, caro Lance, ateno para saberdes bem onde  preciso abocanhar. Frei Eldred, que reza agora por ns, no tardar a rezar pelos 
estropiados e pelos mortos.
     Com efeito, frei Eldred mantinha-se fervorosamente ajoelhado a um canto da sala, de costas voltadas para os atores desse drama.
     Enquanto se preparava aquela cena de defesa, os assaltantes cansados de martelar inutilmente a porta haviam mudado de ttica e a morada do guarda corria agora 
um grande perigo. Felizmente, do alto do seu ponto de observao Robin vigiava.
      Pai  veio ele dizer em surdina do cimo da escada, pai, os bandidos esto amontoando lenha diante da porta e vo pegar-lhe fogo; so sete ao todo, sem contar 
o ferido, que h de estar meio morto.
      Pela santa missa!  exclamou Gilberto;  no lhes demos tempo de acender lume; a minha lenha  seca, e num abrir e fechar de olhos a casa toda arder como 
uma fogueira de So Joo. Abra, abra depressa, padre beneditino, e fiquem todos de sobreaviso!
     O frade, afastando-se para o lado, estendeu o brao, ergueu a barra de ferro, fez ranger os ferrolhos, e um monte de ramos e cavacos desabou, invadindo a sala 
atravs da porta entreaberta.
      Viva!  berrou o chefe dos bandidos, que foi o primeiro a precipitar-se no aposento.  Com a breca!
     Tambm no disse mais nada, nem deu mais um nico passo; Lance saltou-lhe ao pescoo, e o bordo de Lincoln e o do frade caram-lhe simultaneamente sobre a 
nuca. O homem desabou, imvel, no cho.
     A mesma sorte esperava aquele que o seguiu.
     O terceiro igualmente, mas os quatro outros bandidos puderam entrar em campo sem ser detidos, como os anteriores, pelos ces que ainda no tinham abandonado 
as suas presas; travou-se ento uma luta em regra, luta que Gilberto e Robin, colocados como estavam, logo poderiam fazer cessar em seu favor, disparando as setas 
das suas aljavas sobre os inimigos que atacavam com lanas; mas Gilberto, de preferncia a derramar sangue queria deixar ao beneditino e a Lincoln a glria de moer 
um a um com pancadas os esbirros do baro Fitz-Alwine, e contentou-se, bem como Allan Clare, em fazer frente aos golpes de lana.
     Ainda no tinha, pois, corrido sangue, a no ser pelas mordidas dos cachorros; Robin, envergonhado da sua inao quis mostrar as suas habilidades, e digno aluno 
de Lincoln na cincia do bordo como j o era de Gilberto no manejo do arco, apoderou-se de um cabo de alabarda e reuniu os seus golpes aos terrveis sarilhos dos 
parceiros.
      aproximao de Robin um dos bandidos, um colosso, um Hrcules, soltou risotas desdenhosas e ferozes, recuou um passo diante de Lincoln e do frade e deu uma 
reviravolta ofensiva na direo do adolescente. Mas Robin, sem se impressionar, desviou o golpe de lana que o teria trespassado, e respondendo com uma pancada direta 
e horizontal em pleno peito fez o bandido estatelar-se ao longo da parede.
      Bravo, Robin!  gritou Lincoln.
      Maldio!  murmurou o bandido vomitando cogulos de sangue e parecendo prestes a expirar. Mas de repente, erguendo-se nos joelhos fingiu cambalear um instante, 
e louco de furor correu para Robin brandindo o ferro da lana.
     Era uma vez Robin! O desgraado, no seu triunfo no cuidara de se pr em guarda, e a lana ia trespass-lo rpida como um raio quando o velho Lincoln, que tudo 
espreitava, derrubou o assassino com uma bordoada que perpendicularmente lhe assentou no alto do crnio.
      Quatro!  exclamou ento rindo de contentamento. Com efeito, quatro assaltantes estavam j estirados no cho, no restando em luta seno trs, que alis pareciam 
mais dispostos a empreender a fuga do que a manter a ofensiva.
      que o enorme arrocho de corniso manobrado pelo frade beneditino no cessava de lhes acariciar os membros.
     Era um belo espetculo aquele frade de cabea descoberta e inflamada de santa clera, com as mangas arregaadas at ao cotovelo, o longo hbito repuxado para 
cima dos joelhos!
     O anjo Gabriel combatendo o demnio no teria uma presena mais terrificante.
     Enquanto o herico monge, diante do qual Lincoln se mantinha em respeitosa admirao, continuava a luta de arma em punho, Gilberto ajudado por Robin e Allan, 
ocupava-se em amarrar solidamente os membros dos vencidos que ainda respiravam. Dois deles imploravam misericrdia, um terceiro estava morto; o chefe, de quem Lance 
no descravara ainda as mandbulas, estertorava horrivelmente e encontrava por vezes foras bastantes para gritar aos companheiros:
      Mata! Mata! Mata este co!
     Mas os companheiros no o ouviam, e ainda que o tivessem ouvido as preocupaes com a defesa prpria t-los-iam impedido de lhe prestar qualquer socorro.
     Em todo o caso um homem, com cuja presena ningum contava, atreveu-se a vir em sua ajuda. Talhaferro, que estivera quase a afogar-se no tanque, e que os companheiros 
haviam deposto moribundo sobre o cho do telheiro, reanimado pelos fragores da batalha viera-se arrastando at ao campo da luta e ia apunhalar o valente Lance quando 
Robin, dando de repente com os olhos nele o segurou pelos ombros, virou-o de costas, arrancou-lhe o punhal das mos e assentou-lhe os joelhos sobre o peito at que 
Gilberto e Allan lhe ataram solidamente os braos e as pernas.
     Essa tentativa de Talhaferro iria acelerar a morte do seu chefe. Lance tomou-se do acesso de fria que todos os cachorros experimentam quando se tenta arrancar-lhes 
um osso da boca, e enterrando cada vez mais os agudos dentes na garganta da sua vtima dilacerou-lhe a artria cartida e as veias jugulares, de modo que a vida 
do malfeitor se lhe esvaiu juntamente com o sangue.
     Sabedores da morte do chefe, nem por isso os bandidos deixaram de prosseguir na luta; mas esta no podia durar muito mais tempo, e a prpria fuga se lhes tornara 
agora impossvel desde que Lincoln, trancando e aferrolhando a porta, os deixara como presos numa ratoeira.
      Misericrdia!  gritou um deles atordoado, pisado, modo pelas bordoadas do monge.
      Nada de misericrdia!  replicou o frade.  Vocs no queriam carcias?  Pois muito bem, a as tm.
      Misericrdia, pelo amor de Deus!
      No podemos dar quartel s a um!
     E o arrocho de corniso desabava, esbordoava sem cessar, s tornando a erguer-se para recair com mais fora.
      Misericrdia! Misericrdia! Misericrdia!  bradaram por fim os trs ao mesmo tempo.
      Ento, antes de mais nada, abaixo as lanas! 
     Todos jogaram as lanas por terra.
      Agora de joelhos! 
     Os bandidos ajoelharam.
      Muito bem! S me resta enxugar o meu cacete.  Para o jovial religioso, enxugar o seu cacete queria dizer enviar uma derradeira e vigorosa saraivada de pauladas 
s costas dos vencidos. Feito isso cruzou os braos, e apoiando o cotovelo direito  extremidade da sua arma temvel, numa atitude de Hrcules triunfante, declarou:
      Agora,  ao dono da casa que compete decidir a respeito da vossa sorte.
     Gilberto Head tornava-se senhor da vida daqueles sacripantas; poderia dar-lhes a morte conforme os usos e costumes da poca, em que cada qual fazia justia 
pelas prprias mos mas tinha horror ao sangue vertido fora dos casos de legtima defesa; de modo que tomou outro partido.
     Comearam por erguer os seis feridos, reanimaram as foras dos mais maltratados, ligaram-lhes as mos atrs das costas, amarraram-nos em seguida uns aos outros 
como se fossem grilhetas, e Lincoln, ajudado pelo moo frade, conduziu-os para um ponto algumas milhas distante da casa, num dos mais espessos matagais da floresta, 
a os deixando entregues s suas reflexes.
     Talhaferro no fazia parte do cortejo.
      Gilberto Head  dissera ele no instante em que Lincoln pretendia amarr-lo  cadeira dos outros,  Gilberto Head, manda-me pr numa cama; preciso de falar 
contigo antes de morrer.
      No, cachorro ingrato; o que eu devia era enforcar-te numa dessas rvores mais prximas!
      Pelo amor de Deus, escuta-me!
      No tenho nada que escutar, vais ser remetido juntamente com os outros.
      Escuta-me, o que tenho a dizer-te  da mxima importncia.
     Gilberto ia recusar mais uma vez, mas pareceu-lhe surpreender na boca de Talhaferro um nome que despertava nele todo um mundo de dolorosas recordaes.
      Annette! ele pronunciou o nome de Annette!  murmurou Gilberto subitamente curioso, debruando-se sobre o ferido.
      Sim, foi justamente o nome de Annette que eu pronunciei  respondeu debilmente o moribundo.
      Fala ento! dize-me tudo o que sabes a respeito de Annette.
      No aqui; l em cima, quando estivermos sozinhos.
      Estamos aqui sozinhos.
     Gilberto assim o pensava, porque Robin e Allan estavam entretidos a cavar, a pequena distncia da casa, uma cova para dar sepultura ao morto, e Margarida e 
Mariana no tinham ainda deixado os seus esconderijos.
      No, ns no estamos sozinhos  disse Talhaferro indicando o velho monge que rezava junto ao cadver do bandido.
     Em seguida, agarrando-se ao brao de Gilberto, o ferido tentou erguer-se do cho; mas o velho repeliu-o vivamente.
      No me toques, miservel.
     O desgraado recaiu sobre as costas, e Gilberto, penalizado contra a vontade, ergueu-o brandamente; a recordao de Annette aplacava-lhe a clera.
      Gilberto  recomeou Talhaferro numa voz cada vez mais fraca,  tenho-te feito muito mal, mas vou tentar repar-lo.
      No peo reparao nenhuma; escuto apenas o que tens a dizer-me.
      Ah, Gilberto, pelo amor de Deus no me deixes morrer!... Sufoco... Conserva-me a vida por um instante e eu te direi tudo, mas l em cima! L em cima!
     Gilberto ia sair a fim de chamar Robin e Allan para que o ajudassem a transportar o moribundo para uma cama, quando este, supondo que o guarda o deixava ao 
abandono, fez um novo esforo para se erguer a meio e exclamou em voz alta:
      No me reconheces ento, Gilberto?
      Reconheo-te pelo que s, um assassino, um maldito, um traidor!  gritou Gilberto de p, j na soleira da porta.
      Sou pior do que tudo isso, Gilberto; sou Ritson, Rolando Ritson, o irmo de tua mulher.
      Ritson! Ritson!  virgem santa, me de Deus! Ser possvel?
     E Gilberto veio cair de joelhos ao p do moribundo, que se debatia nas derradeiras vascas da agonia.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
V



     AQUELE tempestuoso anoitecer sucedeu uma noite de calma e de silncio. O moo frade e Lincoln haviam regressado da expedio  floresta para enterrar o cadver 
do bandido; Mariana e Margarida apenas em sonhos continuavam ouvindo os rumores da luta; Allan, Robin, Lincoln e os dois frades reparavam agora as suas foras num 
profundo sono; somente Gilberto Head velava ainda.
     Debruado sobre a cama de Ritson, que continuava desmaiado, esperava em mortal ansiedade que o agonizante abrisse os olhos, e duvidava... duvidava que aquele 
homem de face lvida e descomposta, de traos estigmatizados pelo vcio e envelhecidos pela libertinagem mais do que pela idade, fosse o alegre e belo Ritson de 
outros tempos, o bem-amado irmo de Margarida, o noivo da desventurada Annette.
     E juntando as mos, Gilberto implorou:
      Permiti, meu Deus, que ele no morra ainda!
     Deus permitiu-o, e quando o sol nascente inundou de luz o aposento, Ritson, como se estivesse despertando do sono da morte, estremeceu, teve um longo suspiro 
de arrependimento, e tomando a mo de Gilberto levou-a aos lbios, balbuciando estas palavras:
      Perdoas-me?
      Primeiro fala  respondeu Gilberto que tinha pressa em receber esclarecimentos a respeito da morte de sua irm Annette e do nascimento do Robin;  depois 
te perdoarei.
      Morrerei ento menos desgraado.
     Ritson ia comear as suas revelaes, quando um rumor de vozes alegres se fez ouvir na sala do rs-do-cho.
      Pai, est dormindo?  perguntou Robin junto aos primeiros degraus da escada.
       hora de partir para Nottingham se queremos voltar ainda hoje  acrescentou Allan Clare.
      E se o consentis, senhores  interveio o hercleo frade,  serei vosso companheiro de viagem, pois tenho uma boa obra a realizar no castelo de Nottingham.
      Vamos, pai, desa ento para que possamos apresentar-lhe as nossas despedidas.
     Gilberto desceu, mas contra a vontade: temia que o moribundo expirasse de um momento para outro, e arranjou as coisas de modo a subir prontamente para junto 
dele e no mais ser incomodado enquanto durasse essa entrevista solene onde sem dvida surgiriam revelaes importantes.
     Despediu-se  pressa de Robin, Allan e do frade; Mariana e Margarida deviam acompanh-los a certa distncia da casa, a fim de se distrarem com um passeio matinal; 
Lincoln foi mandado com um pretexto qualquer a Mansfeldwoohaus, e o padre Eldred aproveitou a ocasio para ir visitar o povoado prximo; ao fim do dia todos se tornariam 
a reunir.
      Agora estamos sozinhos; podes falar que te estou escutando  disse Gilberto sentando-se  cabeceira de Ritson.
      No te irei contar, irmo, todos os crimes, todas as aes monstruosas de que me tornei culpado. Seria um relato demasiado longo. Alis, de que serviria contar 
tudo isso? Tu queres saber apenas duas coisas: o que diz respeito a Annette e o que se refere a Robin, no  verdade?
      Justamente; mas fala-me primeiro de Robin  respondeu Gilberto, temeroso de que o moribundo no dispusesse de tempo para fazer todas as suas confisses.
      Como sabes, deixei Mansfeldwoohaus h vinte e trs anos para entrar ao servio de Filipe Fitzooth, baro de Beasant. Esse ttulo fora concedido a meu amo 
pelo rei Henrique, em recompensa de servios prestados durante a guerra de Frana. Filipe Fitzooth era o filho mais novo do velho conde de Huntingdon, que morreu 
muito tempo antes da minha entrada para essa casa, e deixou os seus bens e ttulo ao filho mais velho Roberto Fitzooth.
     Algum tempo depois dessa herana, Roberto perdeu a esposa nos trabalhos do parto, e concentrou todas as suas afeies no herdeiro que ela lhe deixou, dbil 
e infeliz criana cuja vida s foi preservada  custa de cuidados incessantes e minuciosos. O conde Roberto, j inconsolvel pela morte da mulher e desesperando 
do futuro do filho, deixou-se dominar pela tristeza e morreu confiando a seu irmo Filipe a misso de velar pelo nico rebento da sua raa.
     A partir de ento o baro de Beasant, Filipe de Fitzooth, tinha um dever imperioso a cumprir. Mas a ambio, o desejo de adquirir novos ttulos nobilirquicos 
e de herdar uma fortuna colossal levaram-no a esquecer as recomendaes do irmo, e aps alguns dias de hesitao ele resolveu desfazer-se da criana; mas teve logo 
de renunciar a esse projeto, porque o jovem Roberto vivia em meio de numerosa criadagem, e os lacaios, guardas e habitantes do condado que lhe eram devotados no 
deixariam de protestar e at de se revoltar se Filipe de Fitzooth tivesse ousado despoj-lo abertamente dos seus direitos.
     Resolveu assim contemporizar, explorando a fraca constituio do herdeiro que, segundo a opinio dos mdicos, no tardaria a sucumbir se lhe incutissem o gosto 
pela libertinagem e pelos exerccios violentos.
     Foi com esse intuito que Filipe Fitzooth me tomou ao seu servio. J o conde Roberto completara os seus dezesseis anos, e segundo os infames clculos de seu 
tio eu deveria tentar a sua perda por todos os meios possveis, quedas, acidentes, doenas; enfim, tudo devia pr em prtica para que ele morresse depressa, tudo, 
exceto o assassinato.
     Confesso para minha vergonha, valente Gilberto, que fui um digno e zeloso mandatrio do baro de Beasant, o qual no poderia fiscalizar o meu trabalho de corruptor 
e assassino, visto que o rei Henrique o mandara comandar um corpo de exrcito em Frana. Deus me perdoe! Poderia ter aproveitado a sua ausncia para desmanchar essa 
trama odiosa, mas ao contrrio, esforcei-me por ganhar a recompensa prometida para o dia em que eu lhe anunciasse a morte de Roberto.
     Mas Roberto  maneira que crescia foi-se tornando forte. A fadiga nada podia contra ele; debalde corramos de dia e de noite, estivesse bom ou mau tempo, por 
plancies e florestas, tabernas e lugares escusos, e a maioria das vezes era eu que pedia trguas! Meu amor-prprio ressentia-se disso, e se o baro me houvesse 
ento escrito uma palavra, uma s palavra que fosse de sentido dbio a propsito dessa sade maravilhosa e invencvel, eu no teria hesitado em fazer intervir algum 
veneno lento para dar fim  minha obra.
     Minha tarefa ia-se tornando cada dia mais penosa, e em vo esgotei todos os recursos da imaginao sem encontrar um meio natural para abalar o estranho vigor 
do meu pupilo; eu prprio acabei por ficar esgotado e estava a ponto de rescindir o meu contrato com o baro de Beasant, quando por fim julguei notar certas mudanas 
na fisionomia e nas maneiras do jovem conde; essas mudanas, a princpio quase imperceptveis foram-se tornando pouco a pouco relevantes, reais, de grande importncia; 
ele foi perdendo a vivacidade e a alegria, ficava triste e sonhador durante horas inteiras, parava imvel no instante de fazer sair a caa do covil, ou passeava 
solitariamente enquanto os cachorros foravam a sada do animal; j no comia, no bebia mais, no dormia, fugia das mulheres e apenas uma ou duas vezes por dia 
falava comigo.
     No tendo a esperar qualquer confidncia da sua parte, desejei espion-lo para descobrir as causas de to surpreendente mudana; mas a espionagem tornava-se 
difcil porque ele achava sempre pretextos para me mandar para longe.
     Certo dia em que andvamos  caa, alcanamos, perseguindo um cervo, os limites da floresta de Huntingdon; a o conde deteve-se, e aps uns momentos de descanso 
disse-me num tom breve:
      Rolando, espera por mim ao p deste carvalho; regressarei dentro de algumas horas.
      Perfeitamente, senhor  respondi eu.
     O conde embrenhou-se num matagal. Sem perda de tempo amarrei os meus cachorros a uma rvore e lancei-me na sua pista, acompanhando atravs dos silvados os 
vestgios da sua passagem; mas por maiores que fossem os meus esforos ele escapou-me, e eu vagueei tanto tempo, tanto tempo que acabei por me extraviar.
     E enquanto que, muito desapontado por haver perdido aquela ocasio de descobrir o mistrio em que se envolvia Roberto, eu tentava reencontrar a rvore junto 
 qual ele me ordenara que o esperasse, ouvi a alguns passos de distncia, por trs de um tufo de arbustos uma doce voz, uma caridosa voz de moa. Detive-me, afastei 
cuidadosamente alguns ramos, e vi, sentados lado a lado, conversando e sorrindo, de mo entrelaadas, meu amo e uma formosa jovem de dezesseis ou dezessete anos.
      Ah! ah!  disse comigo,  eis aqui uma novidade que decerto no espera o senhor baro de Beasant! Roberto est apaixonado; isso explica as suas insnias, 
a sua tristeza, a sua falta de apetite e especialmente os seus solitrios passeios.
     Prestei um ouvido atento s palavras dos dois namorados, esperando surpreender algum segredo, mas no ouvi outra coisa alm da linguagem habitualmente usada 
em semelhantes circunstncias.
     O dia declinava; Roberto ergueu-se, e tomando o brao da jovem conduziu-a at  orla da floresta, onde a esperava um criado com dois cavalos; acompanhei-os 
de longe, vi-os despedirem-se e meu amo regressou em largas passadas ao Ponto onde me deixara.
     Mal tive tempo de chegar primeiro, e quando ele apareceu os cachorros estavam desamarrados e eu fazia soar a trompa a plenos pulmes.
      Para que tanta algazarra?  perguntou ele.
      O sol est descendo, senhor conde  respondi,  Eu temia que viesse a perder-se na floresta.
      Eu no estava perdido  volveu ele com frieza.  Regressemos ao castelo.
     As entrevistas de Roberto e de sua bem-amada repetiram-se por muito tempo. Para as facilitar Roberto confiou-me o seu segredo, e eu s referi o caso ao baro 
de Beasant depois de me haver informado com detalhes da posio da linda jovem. Miss Laura pertencia a uma famlia menos elevada na hierarquia nobiliria do que 
a de Roberto, mas cuja aliana no constitua propriamente um desdouro.
     O baro ordenou-me que impedisse a todo o custo o casamento de Roberto com essa miss Laura, chegando mesmo a dar-me instrues para sacrificar a jovem.
     Essa ordem pareceu-me demasiado cruel, demasiado perigosa, e sobretudo muito difcil de executar; desejaria recusar-me a obedecer-lhe, mas como o poderia conseguir 
se vendera alma e corpo ao baro de Beasant?
     Estava sem saber que partido tomar nem a que demnio pedir conselho, quando, confiante e indiscreto como fica todo o homem feliz, Roberto me informou que, 
desejando ser amado por si mesmo, ocultara a miss Laura a sua alta linhagem.
     Miss Laura supunha-o filho de um guarda florestal, e consentia, apesar dessa baixa origem, em dar-lhe a sua mo.
     Roberto alugara uma casinhola na pequena cidade de Loockeys, em Nottinghamshire, onde devia refugiar-se com sua jovem esposa, e para que ningum desconfiasse 
de nada anunciaria, ao deixar o castelo de Huntingdon, que ia passar alguns meses na Normandia em casa de seu tio o baro de Beasant.
     Esse plano logrou o mais completo sucesso; um sacerdote uniu clandestinamente os dois apaixonados, eu fui a nica testemunha do casamento e desde ento passamos 
a viver na casinhola de Loockeys.
     A decorreram longos dias de felicidade, a despeito das ordens prementes do baro que eu mantinha ao corrente de tudo quanto se passava, e que me fulminava 
com a sua clera por no ter posto obstculos a essa unio... Deus seja louvado agora! No tive poderes para o evitar.
     Aps um ano de felicidade sem nuvens Laura deu  luz um filho, mas o nascimento desse filho custou-lhe a vida.
       esse filho  perguntou ansiosamente Gilberto,  esse filho ser?...
      Sim,  a criana que h de haver quinze anos te confiamos.
      Robin tem ento o direito de usar o ttulo de conde de Huntingdon?
      Sem dvida;  Robin  conde, Robin...
     E Ritson que, sustentado pela febre dos remorsos conseguira falar to longamente, parecia prestes a exalar o derradeiro suspiro, agora que Gilberto interrompera 
a sua narrativa.
      Ah! Meu filho adotivo  conde  repetia orgulhosamente o velho Gilberto Head,  conde de Huntingdon! Acaba, irmo, acaba a histria do meu Robin.
     Ritson reuniu tudo o que lhe restava de foras e prosseguiu deste modo:
      Roberto, louco de dor, repeliu todas as consolaes, perdeu a coragem e caiu seriamente enfermo.
     O baro de Beasant, descontente com a minha vigilncia havia-me anunciado o seu prximo regresso; eu imaginara agir de acordo com os seus desgnios fazendo 
sepultar a condessa num convento das vizinhanas, sem revelar a sua qualidade de esposa do conde Roberto, e pus o menino a criar em casa de uma rendeira da minha 
confiana. Enquanto isso o baro de Beasant voltou  Inglaterra, e achando conveniente para os seus projetos no desmentir a pretensa excurso de Roberto  Frana, 
mandou-o transportar para o castelo anunciando que ele adoecera durante a viagem.
     A sorte favorecia o baro de Beasant: ele estava a ponto de realizar enfim as suas ambies, via-se j herdeiro dos ttulos e da fortuna do conde de Huntingdon; 
Roberto ia morrer... Alguns momentos antes de exalar o ltimo suspiro, o desventurado moo mandou chamar o baro  sua cabeceira, contou-lhe o seu casamento com 
Laura e obrigou-o a jurar sobre os Evangelhos que cuidaria da educao do rfo. O tio jurou... mas o cadver do infeliz Roberto ainda no tinha arrefecido e j 
o baro me chamava  cmara morturia e por sua vez me obrigava a jurar sobre os Evangelhos nunca revelar, enquanto ele vivesse, o casamento de Roberto, o nascimento 
de seu filho, ou as circunstncias da sua morte.
     Eu estava profundamente magoado; chorei com saudades de meu amo, ou antes de meu pupilo, meu companheiro, to meigo, to bom, to generoso para mim e para 
todos; mas era foroso obedecer ao baro de Beasant.
     Jurei ento, e foi quando vos trouxemos a espoliada criana.
      E onde est o baro de Beasant, que se tornou conde e Huntingdon por usurpao?  perguntou Gilberto.
      Morreu em um naufrgio nas costas de Frana, e era eu quem nessa altura o acompanhava como o acompanhei quando viemos aqui; fui eu que trouxe  Inglaterra 
a notcia da sua morte.
      E quem lhe sucedeu?
      O rico abade de Ramsey, William Fitzooth.
      Como!  ento um sacerdote que despoja em seu benefcio meu filho Robin?
      Sim; esse abade tomou-me ao seu servio, e justamente h poucos dias despediu-me com a maior injustia, aps uma discusso que tive com um dos seus criados. 
Sa de sua casa com o corao cheio de dio e jurando vingar-me... E embora a morte me torne impotente, estou seguro de me haver vingado, pois ou conheo muito mal 
Gilberto Head ou ele no h de permitir que Robin fique por muito tempo privado da herana que lhe compete.
      No, ele no ficar por muito tempo privado da sua herana  respondeu Gilberto,  ou ento eu morreria de desgosto. Que parentes lhe restam do lado da me? 
Eles ho de ter interesse em que Robin seja reconhecido conde de Inglaterra.
      Sir Guy de Garnwell-Hall  o pai da condessa Laura.
      Que dizes! O velho sir Guy de Garnwell-Hall, esse que mora do outro lado da floresta com seus seis robustos filhos, os valentes caadores de Sherwood?
      Esse mesmo, irmo.
      Pois bem! Com a ajuda deles comprometo-me a expulsar do castelo de Huntingdon o senhor abade, embora ele seja chamado o rico, o poderoso abade de Ramsey, 
baro de Broughton.
      Irmo, estarei certo de morrer vingado?  perguntou Ritson mal entreabrindo a boca.
      Pela minha palavra e pelo meu brao juro, se Deus me der vida e sade, que Robin ser conde de Huntingdon embora tenha de lutar contra todos os abades de 
Inglaterra!... e no h duvida de que eles todos juntos compem um lindo nmero.
      Obrigado! Pelo menos assim terei resgatado alguns dos meus grandes erros.
     A agonia de Ritson prolongava-se, e de tempos a tempos ele reunia algumas energias para fazer novas confisses. No tinha ainda dito tudo; seria a vergonha 
ou as proximidades da morte que lhe obscureciam a memria?
      Ah!  murmurou ele aps um longo estertor;  ia-me esquecendo de uma coisa importante... muito importante...
      Fala  disse Gilberto amparando-lhe a cabea,  fala. 
      Esse cavaleiro e essa jovem senhora a quem destes hospitalidade...
      Sim, e ento?
      Eu tencionava mat-los.  Ontem... o baro Fitz-Alwine pagou-me para cometer esse assassinato, e com receio de que eu os no encontrasse mandou esses homens 
persegui-los, esses meus cmplices que vocs desbarataram esta noite. No sei porque o baro deseja arrancar a vida a essas duas pessoas... mas avisa-os da minha 
parte para que evitem quanto possvel aproximar-se do castelo de Nottingham.
     Gilberto estremeceu ao recordar-se de que Allan e Robin tinham partido para Nottingham, mas agora era demasiado tarde para os advertir do perigo que corriam.
      Ritson  disse ele,  eu conheo um frade beneditino que no anda longe daqui; queres que eu o v procurar para que ele te reconcilie com Deus?
      No vale a pena; eu estou condenado, condenado, condenado, e alm disso ele no chegaria a tempo... sinto-me morrer.
      Coragem, irmo!
      Sinto que vou morrer, e se me perdoas, Gilberto, promete que me sepultars entre o carvalho e a faia que esto l em baixo junto  encruzilhada de Mansfeldwoohaus; 
abrirs a minha cova entre essas duas rvores. Queres prometer-me isso?
      Cumprirei a tua vontade.
      Obrigado, meu bom Gilberto...
     Logo em seguida Ritson acrescentou, torcendo os braos com desespero:
      Ah! Tu no conheces todos os meus crimes! Preciso confessar tudo!... Mas se eu confessar tudo, prometes ainda enterrar-me l onde te pedi?
      Sim, fica prometido, seja o que for que tenhas a dizer-me.
      Gilberto Head, tu tinhas uma irm! recordas-te dela? 
      Oh!  exclamou Gilberto empalidecendo e cujas mos se uniram convulsivamente;  se me recordo! Que tens tu a dizer-me a respeito de minha pobre irm, perdida 
na floresta, raptada por algum fora da lei ou devorada pelos lobos? Anette, a minha doce e linda Annette!
     Ritson estremeceu dos arrepios da morte, e numa voz quase extinta acrescentou:
      Tu amavas minha irm Margarida, Gilberto, eu amava tua irm Annette; amava-a com loucura, amava-a at ao delrio e todos vs ignorveis que eu a amasse desse 
modo.  Um dia encontrei-a na floresta, e esqueci que um homem de honra deve respeitar a moa que quer tornar sua esposa. Annette repeliu-me com desprezo e jurou 
que nunca mais me perdoaria esse atrevimento...  Implorei-lhe perdo, ca de joelhos a seus ps, falei-lhe em morrer...  Ela enterneceu-se, e l embaixo, sob as 
rvores onde desejo ser enterrado, trocamos as nossas juras de amor...  Alguns dias depois, enganei-a de um modo indigno e infame:  um dos meus amigos, disfarado 
de sacerdote casou-nos secretamente.
      Diabos do inferno!  rugiu Gilberto desvairado pela clera e agarrando-se  madeira do leito para melhor resistir  tentao de estrangular o miservel.
      Sim, mereo a morte e a morte no tardar... Gilberto, no me mates, ainda no te disse tudo... Annette supunha-se portanto minha esposa; era demasiado pura, 
demasiado inocente para suspeitar a minha perfdia, e dava crdito a todos os motivos que eu inventava para me dispensar de dar a conhecer a nossa unio  sua famlia; 
eu adiava constantemente o momento dessa revelao, at que por fim ela se tornou me. Da em diante era-lhe impossvel continuar a viver na casa de seu pai. Entretanto 
tu casaste com minha irm, a ocasio era excelente para tudo confessar e ela implorou-me que o fizesse; mas eu deixara de a amar, no pensava seno nos meios de 
abandonar a regio sem a avisar da minha partida. Uma tarde Annette estava  minha espera sob o carvalho onde eu jurara am-la eternamente; fui para esse encontro 
com a cabea cheia de pensamentos sinistros, e escutei friamente os seus rogos, as suas censuras entremeadas de lgrimas e soluos. Ah! porque no fiquei surdo e 
indiferente quando desvairada a meus ps e apertando os meus joelhos contra o seu peito ela me declarou preferir que eu a apunhalasse a ser abandonada por mim! Ainda 
a palavra Mata-me! no lhe tinha morrido nos lbios, j um demnio, sim, um demnio! Me levou a segurar o punhal... e eu feri uma vez, duas vezes, trs vezes... 
Estvamos sozinhos, a noite era escura; fiquei ali de p, imvel, parecendo inconsciente do meu crime, sem mais me recordar do que havia feito,  sem pensar em mais 
nada, creio eu... quando bruscamente senti nas pernas uma sensao de calor: era o sangue de Annette que jorrava sobre mim!... Despertei ento da minha letargia, 
apercebi-me do crime que cometera e pensei em fugir; mas as suas mos envolviam os meus ps, ouvi-lhe a doce voz que dizia: Obrigada, meu Rolando! Oh! Deus quis 
ento castigar-me para toda a vida, pois no momento em que compreendi a extenso da minha perversidade ele recusou-me a aragem para me apunhalar sobre o corpo exangue 
da pobre Annette.
      Miservel! Miservel, que mataste minha irm!  bradava Gilberto cada vez que Ritson parava para tomar flego.  Que fizeste do seu corpo, assassino, infame 
assassino?
      Enquanto ela assim me agradecia, os raios da lua atravessando a folhagem iluminaram-lhe o plido rosto e eu pude ler o meu perdo em seus olhos... Em seguida 
estendeu-me a mo e exalou o ltimo suspiro, murmurando ainda estas palavras entrecortadas: Obrigada, Rolando, obrigada! Prefiro a morte  vida sem o teu amor! 
Desejo que para sempre se ignore aquilo em que me tornei... esconde o meu corpo ao p desta rvore. No sei quanto tempo permaneci fulminado, desfalecido junto 
ao cadver da infeliz Annette; quando voltei a mim estava sob a impresso de uma vivssima dor, parecia-me que a carne do meu brao estava sendo dilacerada por agudos 
dentes; e no me enganava: era um lobo que, atrado pelo cheiro do sangue chegava para a carnia... A luta que tive de sustentar contra esse animal devolveu-me todo 
o sangue frio; compreendi que se no enterrasse quanto antes o corpo da minha vtima, o meu crime seria descoberto. Cavei, pois, uma tumba entre o carvalho e a faia 
de que te falei, e depois de a ter depositado a pobre Annette larguei a fugir; atormentado pelos remorsos, andei vagabundeando pela floresta at ao romper do dia... 
Foi ento que me encontrsseis estendido no cho, coberto de mordeduras e banhado em sangue; os lobos perseguiam-me, queriam devorar-me, e se no fsseis vs teria 
recebido logo o castigo do meu crime!... No dia seguinte, quando todos se alarmaram com o desaparecimento de Annette, guardei-me de confessar qualquer detalhe da 
minha proeza e at mesmo vos auxiliei nas buscas para a descobrir, dando a entender que algum fora da lei a teria raptado, ou que ela tivesse servido de pasto aos 
animais ferozes...
     Gilberto deixou de prestar ateno a Ritson, indo apoiar-se, soluando, ao rebordo da janela. Baldadamente o desgraado lhe gritava: Eu morro! Eu morro! No 
esqueas o carvalho! Ele ficou imenso tempo no mesmo lugar, imvel e abismado na sua dor, e quando voltou para junto do leito, Ritson j havia dado o ltimo suspiro.
     Durante essa lenta agonia de Rolando Ritson, os nossos trs viajantes a caminho de Nottingham, Allan, Robin e o frade, o frade de temeroso apetite, valente 
corao e membros vigorosos, caminhavam rapidamente atravs da imensa floresta de Sherwood. Conversavam, riam e cantavam; s vezes era o vasto monge que contava 
alguma aventura brejeira, outras vezes a voz argentina de Robin iniciava uma balada, ou ainda Allan, que pelas suas reflexes espirituosas cativava a ateno dos 
companheiros de viagem.
      Mestre Allan  atalhou de repente Robin,  o sol j marca meio-dia e o meu estmago j mal se recorda do almoo desta manh. Se quiser atender ao que eu digo, 
alcanaremos s bordas de um regato que corre a alguns passos daqui, e como disponho de vveres em meu alforje poderemos comer enquanto descansamos.
      A proposta que acabas de fazer-nos  cheia de bom-senso, meu filho,  replicou o frade,  e a ela adiro de todo o corao, quero dizer, com todos os meus 
dentes.
      Tambm lhe no oponho obstculos, caro Robin  interveio Allan;  permite-me, porm, observar-te que fao absoluta questo de chegar ao castelo de Nottingham 
antes do pr do sol, e que se a tua proposta de algum modo o impede, prefiro continuar o caminho a deter-me seja para o que fr.
      Faa-se como quiserdes, senhor  respondeu Robin;  para onde fordes tambm ns iremos.
      Para o regato! Para o regato!  berrou o monge;  ns no estamos a mais de trs milhas de Nottingham, e dispomos dez vezes do tempo necessrio para l chegar 
antes de anoitecer; no  uma hora de repouso e uma boa refeio que nos iro impedir de l chegar a tempo.
     Tranqilizado pelas palavras do monge Allan concordou em fazer alto, e todos se foram sentar  sombra de um grande carvalho, no fundo de um delicioso vale por 
onde serpenteava um estreito regato de guas lmpidas e transparentes, leito semeado de pedras brancas e cr-de-rosa e margens bordadas de floridas ervas.
      Que encantadora paisagem!  exclamou Allan cujos olhares inventariavam as belezas daquele pequeno recanto do mundo;  parece-me contudo, caro Robin, que este 
paraso terrestre est muito afastado da tua casa para que aqui venhas repousar com muita freqncia.
      Com efeito, senhor, raramente aqui vimos, apenas uma vez por ano, e no quando tudo reverdece, quando tudo flori, quando tudo  belo como hoje, e sim quando 
o inverno tudo devastou e o vento sacode lugubremente os ramos das rvores, despojados das suas folhas e cobertos de geada; nosso corao enche-se ento de tristeza, 
assim como o cu se enche de nuvens, e o luto da natureza concorda perfeitamente com o nosso.
      Que luto  esse, Robin?
      Est vendo aquela faia que se ergue l adiante no centro de um macio de roseiras bravas? H um tmulo sob essa faia, o tmulo do irmo de meu pai, Robin 
Hood, cujo nome uso. Foi algum tempo antes de eu nascer: os dois forasteiros regressavam da caa, quando foram assaltados por um bando de outlaws; defenderam-se 
valentemente, mas ai! Meu tio Robin recebeu uma flecha em pleno peito e caiu para nunca mais se levantar; Gilberto vingou a sua morte e ergueu-lhe esse humilde mausolu, 
diante do qual vimos rezar e chorar todos os anos, no dia do aniversrio dessa desgraa.
      No h lugar do universo, por mais belo que seja, que o homem no tenha profanado  observou sentenciosamente o monge.
     Em seguida, mudando de tom, acrescentou com uma alegre impacincia:
      Vamos, Robin! Deixa dormir o teu defunto e pensa nos vivos que te acompanham; um morto no tem fome, e a fome vai-nos moendo. Coragem! Abre a tua sacola; 
segundo nos disseste, ela deve conter tesouros de provises...
     Sentados na erva  beira do regato os trs companheiros banquetearam-se largamente, graas  previdncia da excelente Margarida, e uma rotunda cabaa, cheia 
de um velho vinho de Frana, tantas vezes repassou das mos para os lbios e dos lbios para as mos dos viajantes, que a alegria de cada um se foi tornando mais 
expansiva, e o tempo destinado quela parada se foi prolongando indefinidamente sem que eles o percebessem. Robin cantava, cantava sem descontinuar. Allan, transportado 
ao stimo cu, descrevia pomposamente os encantos e as virtudes de lady Christabel. O frade pairava a torto e a direito, declarando aos ecos que se chamava Gil Sherbowne, 
que pertencia a uma boa famlia de camponeses, que preferia a vida de convento  vida ativa e independente do guarda florestal, e que havia comprado e pago por bom 
preo ao superior da sua ordem o direito de agir  sua vontade e de manejar o bordo.
      Deram-lhe a alcunha de frei Tuck  acrescentou ele,  por causa das minhas habilidades de caceteiro, e pelo costume que tenho de arregaar o hbito at aos 
joelhos. Sou bom para com os bons e mau para com os maus, dou um aperto de mo aos meus amigos e uma bordoada nos meus inimigos, canto baladas para rir e canes 
para beber conforme os outros gostam de rir ou de beber, rezo com os devotos, ento o Oremus com os beatos, e tenho alegres histrias para contar queles que detestam 
as homlias.  Aqui est como sou, eis aqui frei Tuck!  E vs, senhor Allan, no nos direis quem sois?
      De muito boa vontade, se me derdes licena de falar  respondeu Allan.
     Nesse momento Robin estendeu a mo para a sua cabaa, que ainda no estava completamente vazia, ao mesmo tempo que frei Tuck alongava o brao para se apoderar 
dela.
      Epa! Um minuto!  exclamou o rapaz;  eu te darei a cabaa, frei Tuck, se no interromperes o senhor Allan Clare.
      Podes dar-ma, que eu no o interromperei.
       o que veremos quando o cavaleiro tiver acabado.
      Perverso Robin! A sede estrangula-me!
      Pois trata de atirar a sede  gua.
     O frade fez uma comprida careta de despeito, e estendeu-se na relva como para dormir em vez de escutar a histria de Allan Clare.
      Eu sou de origem saxnia  comeou este ltimo;  meu pai era ntimo amigo do primeiro ministro de Henrique II, Toms Becket, e esta amizade foi a causa de 
todas as suas desventuras, pois foi exilado por ocasio da morte desse ministro.
     Robin ia imitar o frade, pois muito pouco lhe interessavam os pomposos elogios que o cavaleiro fazia dos seus ancestrais e da sua famlia, mas a sua indiferena 
cessou ao ouvir pronunciar o nome de Mariana;  e como se tivesse o corao nos ouvidos ps-se a escutar, a escutar... e escutou to atentamente que nem percebeu 
que frei Tuck se erguia nos cotovelos e lhe arrancava das mos a cabaa. Todas as vezes que Allan deixava de falar na bela Mariana, Robin encontrava meios de reconduzir 
a conversao para ela; teve contudo de admitir que o cavaleiro falasse dos seus amores e longamente discorresse em xtase sobre os encantos da nobre Christabel, 
a filha do baro de Nottingham.  O cavaleiro, que se tornara muito comunicativo sob a influncia do velho vinho de Frana, rompeu em seguida a exalar o seu dio 
pelo baro.
      Quando os favores da corte choviam sobre a nossa famlia  prosseguiu ele,  o baro de Nottingham sorria aos nossos amores e chamava-me seu filho; mas quando 
a fortuna nos virou as costas, ele fechou-me a sua porta e jurou que Christabel jamais seria minha esposa; eu por minha vez jurei que havia de dobrar a sua vontade 
e tornar-me marido de sua filha, e desde ento venho lutando sem cessar para alcanar o meu fim, e agora acredito t-lo conseguido...  Esta noite sim, esta noite 
ele h de conceder-me a mo de Christabel, ou ento ser castigado pela sua intolervel jactncia. Graas ao acaso descobri um segredo cuja revelao acarrearia 
a sua runa e a sua morte, e vou dizer-lho cara a cara: baro de Nottingham, venho propor-te uma troca: o meu silncio contra a mo de tua filha.
     Allan ia prosseguir nesse tom ainda por muito tempo, e Robin, que fazia mentalmente comparaes entre Mariana e Christabel no pensava de modo algum em interromp-lo, 
quando o outro se apercebeu de que o sol ia baixando no horizonte.
      A caminho!  gritou Allan.
      A caminho, frei Tuck  acrescentou Robin.
     Mas frei Tuck dormia estirado sobre o flanco, apertando contra o peito a cabaa vazia.
     Robin deixou ao cavaleiro a tarefa de acordar o frade e correu a ajoelhar-se junto  campa do irmo de Gilberto; se tivesse abandonado aquelas paragens sem 
cumprir esse piedoso dever, considerar-se-ia culpado de um sacrilgio.
     E j se persignava aps uma curta prece quando ouviu um grande rumor de pragas, risos e gritos; o cavaleiro e o monge tinham rompido a bater-se, ou antes, o 
monge fazia redemoinhar o seu terrvel bordo sobre a cabea de Allan, enquanto este tentava aparar os golpes com a sua lana, rindo, rindo a bandeiras despregadas, 
ao mesmo tempo que o beneditino vociferava maldies.
      Ol, senhores! Que mosca os mordeu?  gritou Robin.
      Se a tua lana fura bem, o meu bordo desaba com fora, belo cavaleiro!  dizia o monge inflamado pela clera.
     Allan ria, protegendo-se dos assaltos do frade; contudo, perante algumas gotas de sangue que escorriam por baixo do hbito do seu adversrio e avermelhavam 
a relva, ele compreendeu que a clera do monge era justificada e imediatamente pediu trguas. O frade interrompeu ento os seus molinetes resmungando surdamente 
e manifestando todos os sintomas de uma dor muito aguda; e levando a mo atrs de si. e erguendo a orla do hbito, respondeu ao jovem arqueiro  que queria saber 
os motivos da luta:
      Os motivos, os motivos esto aqui, e  uma vergonha! Um crime, perturbar as devoes de um homem piedoso como eu, enterrando-lhe um ferro de lana num lugar 
onde a ponta no encontra a resistncia de um osso.
     Allan intentara despertar o frade picando-lhe levemente a regio abaixo dos rins com a ponta da sua lana; mas naturalmente quisera apenas rir e no ferir at 
ao sangue o pobre frei Tuck, de modo que lhe apresentou desculpas em refira, e concluda a paz a pequena caravana retomou o caminho de Nottingham. Em menos de uma 
hora ela alcanou a cidade e trepou a colina em cujo alto se erguia o castelo feudal.
      Decerto me abriro a porta do castelo quando eu pedir para falar ao baro  disse Allan;  mas vocs, meus amigos, que motivo daro para me acompanhar?
      No se inquiete com isso, senhor  respondeu o monge.  H no castelo uma jovem de quem sou o confessor e pai espiritual; essa jovem comanda quando lhe apraz 
as manobras da ponte levadia, e graas  sua autoridade posso entrar no castelo tanto de noite como de dia; torne cuidado, belo cavaleiro: poder prejudicar os 
seus negcios se se conduzir to rudemente com o baro como o fez comigo;  um verdadeiro leo que o senhor vai provocar dentro da sua caverna: faa-o com prudncia, 
caso contrrio desgraado de si, meu filho.
      Mostrarei ao mesmo tempo prudncia e firmeza.
      Que Deus o inspire! Mas aqui estamos chegados, ateno.  E numa voz vibrante o monge gritou:  Que a bno de meu venerado patrono, o grande So Benedito, 
espalhe os seus benefcios sobre ti e sobre os teus, mestre Herbert Lindsay, guarda das portas do castelo de Nottingham! Deixa-nos entrar, que venho acompanhado 
de dois amigos: um deseja conversar com teu amo a respeito de coisas multe importantes; o outro necessita refrigerar-se e repousar e eu, se ainda o consentes, darei 
a tua filha os conselhos espirituais que o estado de sua alma reclama.
      O qu! Sois ento vs, alegre o honrado Tuck, prola, dos monges de abadia de Linton?  responderam do interior com cordialidade.  Sede bem-vindos, vs e 
vossos amigos, meu carssimo gentleman.
     Imediatamente a ponte levadia desceu e os viajantes penetraram no castelo.
      O baro j se recolheu aos seus aposentos  respondeu mestre Herbert Lindsay, o chaveiro, a Allan que queria ser levado sem mais demora  presena do baro; 
 e se as palavras que tendes a dizer a milorde no so palavras de paz, aconselho-vos a adiar a entrevista para amanh, pois esta noite o baro est tomado de verdadeira 
fria.
      Estar doente?  perguntou o frade.
      Tem a sua gota num ombro e sofre como um condenado;  se o deixamos sozinho, ele range os dentes e clama por socorro; se nos aproximamos, espuma de raiva e 
ameaa de morte quem quer ajud-lo ouso dirigir-lhe alguma palavra de consolo. Ah! Meus amigos  acrescentou mestre Herbert com tristeza,  desde que monsenhor recebeu 
aqueles golpes de cimitarra na cabea, nas terras de Jerusalm, parece ter perdido a pacincia e o bom-senso.
      Seus furores inquietam-me bem pouco  insistiu Allan;  desejo falar-lhe imediatamente.
      Como quiser, senhor. Ol! Tristo  gritou o guarda chamando um criado que ia atravessando o plio,  como vo os humores de Sua Senhoria?
      Sempre na mesma; esbraveja o ruge como um tigre, porque o fsico lhe fez uma falsa prega numa das ligaduras. Imaginem, senhores, que o baro expulsou o pobre 
fsico a pontaps, e em seguida, armado de punhal obrigou-me a substituir o doutor, dizendo-me em voz terrvel que  menor impercia me cortaria o nariz!
      Senhor cavaleiro,  insistiu tristemente Herbert  convido-o a no aparecer esta noite diante de monsenhor; ser muito melhor se consentir em esperar at 
amanh.
      No esperarei um minuto mais, nem mais um segundo;  conduza-me at ao seu quarto.
      Assim o exige?
      Assim o exijo.
      Que Deus o guarde ento!  disse o velho Lindsay traando um grande sinal da cruz.  Tristo, acompanha este gentleman,
     Tristo ficou lvido de susto e lodos os seus membros tremiam; felicitava-se por ter escapado so e salvo das garras daquele animal feroz, e no estava muito 
disposto a arriscar--se de novo a cair nelas; imaginava, e com razo, que a clera de seu amo recairia tanto sobre o introdutor como sobre o visitante.
      Monsenhor espera com certeza a visita deste fidalgo?  perguntou ele com um ar embaraado.
      No, meu amigo.
      Quer ento permitir-me que eu v prevenir o monsenhor'?
      No, quero ir contigo;  conduze-me.
      Ah!  exclamou queixosamente o pobre diabo,  estou perdido!
     E afastou-se seguido de Allan, enquanto o velho chaveiro comentava rindo:
      O desgraado Tristo sobe a escada do quarto do baro to alegremente como se fosse a de um cadafalso. Pela santa missa! O corao dele deve estar desfalecendo. 
Mas estou aqui perdendo o meu tempo, meus valentes, em vez de ir passar revista s sentinelas postadas nas muralhas. Frei Tuck, encontrar minha filha na copa; v 
ter com ela, e se Deus o permitir estarei convosco dentro de uma hora.
      Graas lhe sejam dadas  respondeu o frade.
     E seguido de Robin embrenhou-se num ddalo de corredores, galerias e escadas por onde Robin se teria extraviado mil vezes. Frei Tuck, ao contrrio, parecia 
ter um conhecimento minucioso daqueles lugares; a abadia de Linton no lhe era mais familiar que o castelo de Nottingham, e foi com o  vontade e o aprumo de um 
homem satisfeito de si mesmo e orgulhoso de certos direitos h muito tempo adquiridos que bateu  porta da copa.
      Entre!  disse uma voz juvenil e fresca. Entraram, e ao avistar o imenso frade uma linda moa de dezesseis para dezessete anos quando muito, em vez de se 
assustar correu vivamente ao encontro deles e recebeu-os com um galante e benvolo sorriso.
      Ah! ah!  pensou Robin;   ento esta a ingnua penitente do santo frade.  f de quem sou! Esta formosa criatura de olhos cintilantes de alegria e lbios 
vermelhos e risonhos,  a mais bela crist que ainda encontrei em minha vida!
     Robin no pde dissimular a impresso que nele causara a beleza de to gentil pessoa, de tal modo que quando a bela Maude lhe estendeu as duas pequeninas mos 
para lhe dar as boas-vindas, Tuck, como bom frade que era, gritou-lhe:
      No te contentes com essas mos, meu rapaz; procura os lbios, esses lindos lbios vermelhos, e beija-os! Fora a timidez! A timidez  uma virtude dos tolos.
      Que  isso!  replicou a moa abanando a cabea com um ar malicioso;  Que  isso! Como ousa dizer semelhantes coisas, meu reverendo!
      Ora! Meu reverendo, meu reverendo!  repetiu o frade numa atitude desdenhosa.
     Robin seguiu o conselho do frade apesar da fraca resistncia oposta pela jovem, e Tuck deu-lhe em seguida o beijo de indulgncia, depois o beijo da paz... e 
enfim, sejamos francos e confessemos que Maude tratava frei Tuck muito mais como namorado do que como conselheiro espiritual; e confessemos tambm que as maneiras 
do frade tinham realmente muito pouco de cannicas.
     Robin notou-o, e enquanto ambos faziam honra s comidas e bebidas, de que Maude alastrara a mesa, insinuou de um modo cndido que o monge escassamente dava 
a idia  de um confessor temido e respeitado. 
      Uma certa afeio  e intimidade entre parentes  disse frei Tuck,  nada tem de censurvel.
      Ah! Sois parentes? No sabia.
      E em grau muito prximo, caro amigo; muito prximo e muito pouco proibido, pois meu av era filho de um dos sobrinhos do primo da tia-av de Maude.
      Com efeito! Com efeito!  uma parentela perfeitamente demonstrada.
     Maude ficou muito corada durante esse dilogo e parecia implorar a piedade de Robin. As garrafas esvaziaram-se, a copa enchia-se do retinir dos copos, do estalar 
das risadas e do murmrio dos beijos de vez em quando roubados a Maude.
     No momento mais intensamente animado da festana, a porta da copa abriu-se de repente e um sargento acompanhado de seis soldados apareceu no limiar.
     O sargento cumprimentou a moa com toda a cortesia, e atirando aos convivas um olhar severo, disse-lhes:
      Sois vs os companheiros desse estranho que veio visitar nosso amo, lorde Fitz-Alwine, baro de Nottingham?
      Justamente  respondeu Robin com desembarao.
      E ento?  perguntou audaciosamente frei Tuck.
      Acompanhai-me ambos aos aposentos de monsenhor.
      Para qu?  tornou o frade a perguntar.
      No sei;  so as ordens que tenho, precisais obedecer.
      Mas antes de sair beba um copo  interveio a linda Maude estendendo ao soldado um copo cheio de cerveja;  isto no lhe far mal nenhum.
      De boa vontade.
     E depois de ter esvaziado o seu copo, o sargento renovou aos convivas de Maude a ordem para o seguirem.
     Robin e Tuck obedeceram, deixando com pesar a linda Maude sozinha e triste na copa.
     Depois de terem atravessado imensas galerias e uma sala de armas, o soldado chegou diante de uma grande porta de carvalho solidamente fechada e deu trs violentas 
pancadas nessa porta.
      Entrem!  gritaram de dentro, bruscamente.
      Acompanhai-me de perto  observou o sargento a Robin e a Tuck.
      Entrem, mas entrem logo, patifes, bandidos, malfeitores! Entrem!  repetia a voz trovejante do baro.  Entra, Simo!
     O sargento abriu enfim a porta.
      Ah! Afinal estais aqui, marotos! Onde estiveste perdendo o teu tempo desde que eu te mandei busc-los?  berrou o baro lanando ao chefe da pequena tropa 
olhares fulminantes.
      Se Vossa Senhoria me permite, eu...
      Mentes, cachorro! Como ousas desculpar-te de me haveres feito esperar durante trs horas?
      Trs horas? Milorde est enganado! No h ainda cinco minutos que Vossa Senhoria me deu ordem para trazer aqui estes homens.
      Escravo insolente! Atreves-te a desmentir-me, e ainda por cima na minha presena? Homens!  acrescentou ele dirigindo-se aos soldados estupefatos,  no obedeais 
mais a este traidor; tirai-lhe as armas, apoderai-vos dele e levai-o para uma enxovia; e se ele ousar resistir-vos pelo caminho, jogai-o sem piedade nos alapes! 
Depressa, obedecei!
     Os soldados encorajaram-se mutuamente com o olhar e aproximaram-se do chefe para lhe tirarem as armas; o sargento, mais morto do que vivo, mantinha-se em silncio.
      Alto, patifes!  trovejou o baro;  como ousais tocar nesse homem antes que ele responda s perguntas que lhe vou fazer?
     Os soldados recuaram.
      Agora, celerado, agora que te dei provas da minha clemncia impedindo esses brutos de te desarmarem, hesitars ainda em responder e dizer-me se esses dois 
ces que a esto so os companheiros do audacioso infiel que ousou vir insultar-me em minha face?
      Saiba Vossa Senhoria que so.
      E como sabes disso, imbecil? Como o vieste a saber? Como te inteiraste dessa circunstncia?
      Eles prprios o confessaram, milorde.
      Tiveste ento a audcia de os interrogar sem a minha permisso?
      Milorde, eles disseram-me isso quando eu lhes ordenei que me acompanhassem  vossa presena.
      Disseram-me isso, disseram-me isso!  repetiu o baro escarnecendo a voz trmula do pobre soldado;  bonita razo! Acreditas ento em tudo o que te diz o 
primeiro que chega?
      Milorde, eu pensava...
      Silncio, maroto! E chega; retira-te daqui!
     O sargento ordenou meia volta aos seus homens.
      Esperai!
     O sargento deu a voz de alto!
      No, retirai-vos, retirai-vos!
     O sargento fez de novo um sinal de partida.
      Que  isso?  Para onde ides assim, miserveis?
     O sargento ordenou alto pela segunda vez.
      Mas retirai-vos de uma vez por todas, cachorros, tropa de lesmas, v, rua!
     Dessa vez a patrulha saiu mesmo, e entrava j no seu posto quando o velho baro resmungava ainda.
     Robin seguira atentamente as diversas fases daquela interessante conversa entre Fitz-Alwine e o sargento; parecia espantado, e observava com olhos mais surpresos 
que assustados o fogoso e bizarro senhor do castelo de Nottingham.
     Mais ou menos cinqenta anos, estatura mdia, olhos pequenos e vivos, nariz aquilino, bigodes longos e espessas sobrancelhas, traos enrgicos, face corada 
e quase injetada de sangue e uma estranha expresso de selvageria em todos os seus modos, eis o seu retrato. Usava uma couraa de escama e um amplo capote de tecido 
branco sobre o qual destacava em vermelho a cruz dos paladinos da Terra Santa. Naquele temperamento inflamvel ao mais alto grau, vitrilico, por assim dizer, a 
menor contrariedade provocava terrveis exploses; um olhar, uma palavra, um gesto que lhe desagradassem transformavam-no em inimigo implacvel, e a partir de ento 
no pensava em outra coisa que no fosse vingana, vingana at  morte.
     A natureza do interrogatrio a que iam ser submetidos os nossos dois amigos anunciava novas tempestades naquela noite, e foi num tom cheio de sarcasmo e com 
a ironia da crueldade que o baro comeou por exclamar:
      Aproximai-vos, jovem lobo de Sherwood, e tu tambm, frade vagabundo, percevejo de convento, aproximai-vos! Espero que me direis, sem dissimulao e sem rodeios, 
o motivo pelo qual vos atrevsteis a penetrar em meu castelo, e que plano de assalto vos fez abandonar, a um os matagais da floresta e a outro o seu covil. Falai, 
e falai franco, pois eu conheo um maravilhoso sistema para arrancar as palavras da goela dos mudos, e, por So Joo de Acre! No hesitarei em empregar esse sistema 
sobre o vosso couro de traidores!
     Robin atirou ao baro um olhar de desprezo e no se dignou responder-lhe; o frade guardou idntico silncio, apertando nervosamente nas mos o seu valente bordo, 
o nobre cacete de corniso que j conheceis muito bem e ao qual ele sempre se apoiava, quer em marcha, quer em descanso, a fim de se atribuir um certo ar de venerabilidade.
      Ah! Ento no respondeis? Calai-vos, meus fidalgos  berrou o baro,  e deixais-me sem saber a que motivo devo a honra da vossa visita? Sabeis, senhores, 
que constituis uma perfeita parelha: o bastardo de um fora da lei e um srdido mendigo!
      Mentes, baro!  atalhou Robin;  eu no sou o bastardo de um proscrito, e o frade que me acompanha no  um srdido mendigo;  mentes!
      Vis escravos!
      Continuas mentido; eu no sou teu escravo, nem escravo de ningum, e se este monge estender o brao na tua direo no ser com certeza para mendigar.
     Tuck acariciou o seu bordo.
      Ah! ah! O co da floresta atreve-se a desafiar-me, a insultar-me!  trovejou o baro sufocando de clera.  Ol! Visto que ele tem as orelhas bastante compridas, 
que o preguem pelas orelhas  grande porta do castelo e lhe apliquem cem boas chicotadas!
     Robin, plido de indignao mas conservando sempre o sangue frio, permaneceu mudo e encarou fixamente o terrvel Fitz-Alwine, enquanto escolhia uma flecha na 
sua aljava. O baro estremeceu mas fingiu no ter compreendido o gesto do rapaz. Aps um segundo de silncio, prosseguiu num tom menos violento:
      A juventude excita a minha comiserao, e a despeito da tua impertinncia consentirei que no te joguem imediatamente numa masmorra; mas ters de responder 
s minhas perguntas, e respondendo a elas deves ter presente que se permito que continues a viver  por mera bondade de alma.
      Eu no estou em vosso poder to completamente como pensais, nobre senhor  respondeu Robin com desdenhosa presena de esprito;  e a prova  que me absterei 
de responder a todas as vossas perguntas.
     Acostumado a uma obedincia passiva e absoluta da parte dos seus servidores e dos seres mais fracos que ele, o baro estupefato ficou de boca aberta; os pensamentos 
tumultuosos que se chocavam em seu crebro iam-se formulando em palavras incoerentes e em invectivas.
      Ah! Ah!  prosseguiu ele com um riso estridente, -achas ento que no ests em meu poder, pequeno urso atrevido? Vais ento guardar silncio, mestio de 
macaco, filho de alguma bruxa? Mas com um s gesto, com um olhar, com um simples aceno, posso mandar-te para o inferno. Espera, espera, vou estrangular-te com o 
meu cinturo!
     Robin, sempre impassvel retesara o seu arco e tinha j uma flecha destinada ao baro, quando Tuck interveio dizendo num tom quase adulador:
      Tenho a certeza de que Sua Senhoria no mandar executar as suas ameaas!
     As palavras do frade operaram uma diverso; Fitz-Alwine voltou-se para ele como um lobo enraivecido para uma nova presa.
      Amarra essa lngua de vbora, frade do diabo!  vociferou o baro medindo frei Tuck da cabea aos ps; em seguida acrescentou, para tornar mais significativo 
o seu desdenhoso olhar:  Eis a o tipo acabado desses glutes ladravazes a que chamam frades mendicantes.
      Eu no sou inteiramente da opinio de monsenhor  retrucou frei Tuck com serenidade,  e permita-me dizer-lhe, com todo o respeito devido a um grande personagem, 
que a sua maneira de ver, completamente falsa, denota uma total ausncia de bom senso. Decerto perdeu o esprito em algum violento acesso de gota, milorde, ou talvez 
o tenha deixado no fundo de uma garrafa de gim.
     Robin soltou uma vibrante gargalhada.
     O baro fora de si apanhou um missal e atirou-o  cabea do frade com tal fora, que o pobre Tuck, violentamente atingido, cambaleou atordoado; mas logo se 
refez, e como no era homem para receber um tal presente sem testemunhar imediatamente o seu reconhecimento, brandiu o seu terrvel bordo e assentou uma violenta 
cacetada no ombro gotoso de Fitz-Alwine.
     O nobre senhor vacilou, rugiu, mugiu como um touro de circo  primeira farpa e estendeu o brao para despendurar da parede a sua grande espada das cruzadas. 
Mas Tuck no lhe deu tempo para isso, e conservando a ofensiva aplicou outra vigorosa bordoada no muito alto, muito nobre e muito poderoso senhor de Nottingham, 
que apesar da sua resistente armadura e das suas dificuldades de gotoso, rompeu a correr com quantas pernas tinha em redor do aposento, a fim de escapar tanto quanto 
possvel aos insultos do temeroso arrocho.
     Clamava o baro por socorro havia vrios minutos, quando o sargento que detivera Tuck e Robin entreabriu a porta, e metendo a cabea atravs dos dois batentes 
perguntou do modo mais fleumtico se estavam precisando dele.
     Tornado gil como se contasse apenas vinte anos, o baro deu apenas um salto desde o canto do quarto onde o encurralava o bordo de Tuck at  soleira da porta 
que o sargento no ousava transpor sem sua ordem, mesmo para vir em seu socorro.
     Pobre sargento! Merecia ser acolhido como um salvador, como um anjo da guarda, e contudo a fria do amo, impotente contra o frade, descarregou-se sobre ele 
na forma de socos e pontaps.
     Enfim, cansado de espancar aquele ser inofensivo que no ousava resistir, porque nessa poca toda a pessoa nobre era para um vassalo de uma sagrada inviolabilidade, 
o baro recuperou o flego e intimou o sargento a amarrar Robin e o frade e a jog-los numa masmorra.
     O sargento, livre das garras do amo, partiu como um raio gritando: s armas! s armas! Regressando logo em seguida acompanhado de uma dzia de soldados.
     Diante daquele reforo, o frade apanhou na mesa um crucifixo de marfim, colocou-se diante de Robin que pretendia disparar algumas flechas e gritou:
      Em nome da santssima Virgem, em nome de seu Filho, que morreu para vos redimir, ordeno-vos que me deixeis passar. Maldito e excomungado seja quem se atrever 
a impedir-mo!
     Aquelas palavras ditas em voz trovejante petrificaram os soldados, e o frade pde sair do quarto sem qualquer embarao. Robin ia sair atrs do amigo quando, 
a um aceno do baro, os soldados se lanaram contra o rapaz, arrebatando-lhe o arco e as flechas e levando-o aos encontres para o interior do aposento.
     Quebrado de fadiga e modo das pancadas, o baro desabou num escabelo.
      Agora ns dois  disse ele quando, aps muitos esforos, conseguiu falar;  agora ns dois.
     Estes acontecimentos passavam-se numa poca em que no era prudente atacar os filhos da Igreja, como para sua desventura o experimentara Henrique II, na disputa 
que teve com Toms Becket. O baro vira-se pois obrigado a deixar fugir o frade, mas contava tirar a sua desforra em Robin.
      Vieste acompanhando Allan Clare a este castelo?  perguntou ele num tom de calma ironia.  Poders dizer-me que motivos o induziram a apresentar-se em minha 
casa?
     Outro qualquer que no fosse Robin considerar-se-ia perdido, perdido sem remisso, vendo-se  merc de um homem to cruel como o velho Fitz-Alwine; mas o jovem 
e destemido arqueiro  de Sherwood pertencia ao nmero daqueles que nunca tremem, mesmo diante da morte iminente e certa, de modo que respondeu com admirvel serenidade:

     
      Sei que acompanhei o senhor Allan Clare at aqui, mas ignoro os motivos que aqui o trouxeram.
      Mentes!
     Robin sorriu desdenhosamente, e a calma aparente do lorde deu lugar a uma violenta exploso de clera; mas quanto mais essa clera se desencadeava, mais Robin 
sorria.
      H quanto tempo conheces Allan Clare?  tornou o baro.
      H vinte e quatro horas.
      Mentes, mentes!  rugiu Fitz-Alwine.
     Irritado com tantas injrias, Robin retrucou com toda a frieza:
      Achas ento que estou mentindo? Mas se s tu prprio que negas a verdade, velho intratvel! Pois bem, seja como dizes, estou mentindo; mas no tornarei mais 
a mentir, porque a partir deste momento conservar-me-ei em silncio.
      Menino imprudente, queres ento ser jogado do alto das muralhas nas fossas do castelo, do mesmo modo que o ser dentro de uma hora, aps a sua confisso, 
o teu cmplice Allan Clare? Vamos, vou fazer-te ainda uma pergunta; mas se no responderes estar selada a tua sorte. No fostes atacados quando vos dirigeis para 
aqui?
     Robin no respondeu. Fitz-Alwine exasperado, mas concentrando a sua fria, abandonou o escabelo e foi buscar a sua grande espada. Robin encarou fixamente o 
baro e ficou  espera. E decerto ia ser cometido um assassnio, quando a porta se abriu de repente para dar passagem a dois homens. Esses dois homens tinham a cabea 
envolta em sangrentas ligaduras e s com muita dificuldade caminhavam. Tinham as roupas dilaceradas e manchadas de lama, e pareciam ter sado de uma luta em que 
a vitria lhes no sorrira. Ao avistarem Robin soltaram ao mesmo tempo um grito de surpresa, e Robin, no menos espantado, reconheceu-os como os sobreviventes do 
bando de salteadores que na noite anterior haviam atacado a morada de Gilberto Head. A clera do baro atingiu o seu paroxismo quando eles lhe referiram os infortnios 
daquela noite, e apontaram Robin como tendo sido um dos seus mais terrveis adversrios. O baro nem esperou o fim do relato para gritar, com a voz engasgada pela 
fria:
      Levai daqui, levai daqui esse miservel e jogai-o num calabouo! deixai-o l at que ele conte o que sabe a respeito de Allan Clare, e nos pea perdo de 
joelhos das suas insolncias... e enquanto ele no fizer isso, nem po nem gua, que morra de fome.
      Nesse caso, adeus, baro Fitz-Alwine  respondeu Robin,  adeus; se eu no devo sair do meu calabouo enquanto no tiver preenchido essas duas condies, 
com certeza no nos tornaremos a ver.  Adeus para sempre.
     J os soldados empurravam Robin a fim de apressar a sua sada do aposento, quando, resistindo aos seus esforos o jovem se voltou para o baro e acrescentou 
ainda:
      Sers bastante generoso, nobre senhor, para mandar prevenir Gilberto Head, o honrado e valente guarda da floresta de Sherwood, de que tens a inteno de me 
hospedar aqui, privado de alimentos, durante alguns dias?... Seria um grande favor. Fao-te este pedido, milorde, porque tu s pai e deves compreender as angstias 
de um pai quando ele ignora o que foi feito de seu filho ou filha.
      Com mil demnios!  No levareis daqui este tagarela?
      Oh! No suponhas que quero fazer-te companhia por muito tempo, ilustre baro de Nottingham. Mtuo  o desejo de nos separarmos.
     To depressa Robin saiu do quarto do baro, ps-se a cantar a plenos pulmes, e a sua voz fresca e argentina ressoava ainda atravs das negras galerias do castelo 
quando a porta da priso se fechou sobre ele.
VI



     O PRISIONEIRO escutou longamente os mil rudos confusos do exterior, e quando os passos dos homens de armas deixaram de perturbar o silncio das galerias, ele 
ps-se a refletir sobre a gravidade da sua posio.
     A clera, as ameaas do todo-poderoso castelo mal o assustavam; ele pensava apenas, nobre menino, nas inquietaes e na dor de Gilberto e Margarida, que em 
vo o esperariam nessa noite, no dia seguinte e talvez por muito tempo.
     Esses tristes pensamentos despertaram em Robin um violento desejo de liberdade, e assim como um leozinho volteia sem cessar ao redor da sua jaula tentando 
descobrir uma sada, assim Robin girava em redor do seu calabouo, batendo o cho com os ps, medindo a altura do postigo, estudando as paredes, e calculando o que 
teria de desenvolver em fora, astcia ou habilidade para quebrar ou fazer com que lhe abrissem uma porta chapeada de ferro, cuja chave devia encontrar-se nas mos 
do brutal Crbero.
     O calabouo era pequeno e cortado por trs aberturas: a porta, com um pequeno postigo no alto, e em frente um outro postigo maior; este ltimo, colocado dez 
ps acima do cho, estava guarnecido de fortes barras; o mobilirio compunha-se de uma mesa, um banco e um monte de palha.
      Evidentemente  dizia consigo Robin,  o baro no se mostra to cruel quanto injusto, visto que me deixa livres as mos e os ps; aproveitemos esta circunstncia 
e vejamos o que se passa l por cima.
     E colocando o banco sobre  mesa, Robin trepou at ao postigo com o auxlio desse banco erguido contra a muralha da parede.
      sorte! A sua mo acaba de segurar um dos barrotes, e ele percebe que esses barrotes, em vez de ferro, so apenas de carvalho e de carvalho carcomido. Sacode-os 
facilmente, e facilmente tambm poder quebr-los, e ainda que eles resistissem ao vigor do seu pulso eram bastante espaosos para permitir a passagem da sua cabea, 
e ele sabe muito bem que por onde passa a cabea, o resto do corpo poder segui-la.
     Radiante com aquela descoberta o nosso heri julgou til reconhecer a posio do lado oposto, a fim de no comprometer as suas possibilidades de evaso; um 
guarda estaria de certo velando sorrateiramente no corredor e aproximar-se-ia ao primeiro rudo suspeito.
     O banco foi assim colocado contra a porta, e a cabea inteligente do prisioneiro enquadrou-se no postigo. Mas no demorou ali um minuto, um segundo sequer, 
nem mesmo meio segundo, porque um soldado vinha andando furtivamente ao longo das paredes da galeria e aproximava-se da porta, com certeza para espiar atravs do 
buraco da fechadura as atividades do prisioneiro.
     Robin ps-se imediatamente a cantar uma das suas mais alegres baladas, e entre duas coplas ouviu os passos do soldado que se afastava, para voltar em seguida 
com precaues, e se afastar de novo e tornar ainda. Essa manobra, essas idas e vindas duraram um bom quarto de hora.
      Se esse espertalho continuar no seu passeio durante toda a noite  pensou Robin,  corro o grande risco de me encontrar ainda aqui ao romper do dia. Nunca 
poderei alar vo l por cima sem que ele me oua.
     Mas j desde alguns instantes um profundo silncio reinava na galeria, e o passeador parecia ter renunciado  sua espionagem; Robin, entretanto, que na sua 
qualidade de caador astuto conhecia todas as simulaes, entendeu que naquela circunstncia era mais prudente confiar no testemunho dos olhos do que no dos ouvidos, 
e aventurou-se a utilizar pela segunda vez o postigo do seu calabouo.
     E teve razo para assim proceder, porque em vez de um espio o rapaz avistou dois, dois  escuta e com os narizes colados  sua porta.
     No mesmo instante a linda Maude, com uma tocha na mo e alguns utenslios na outra, surgia na extremidade do corredor e soltava um grito de surpresa ao ver 
apontar a cabea de Robin por cima daquele par de carcereiros.
     Leve como a folha que tomba Robin deixou-se cair ao cho e ficou a escutar, cheio de ansiedade, o que se iria passar; a voz de Maude encobrira felizmente o 
rudo da sua queda, e ele ouviu a moa ralhar com os soldados e tagarelar com uma volubilidade toda feminina a fim de justificar o seu grito de surpresa ou de susto.
     Robin apressou-se ento a recolocar o banco e a mesa nos seus respectivos lugares, o que fez rompendo a cantar de um modo atordoador, perguntando a si prprio 
os motivos que levariam Maude a vaguear assim pelo castelo quela hora da noite. Maude, a formosa Maude no tardou a fornecer-lhe explicao daquele enigma, pois 
em seguida a algumas palavras conciliadoras com os carcereiros entrou radiosa no calabouo, depositou vveres e bebidas em cima da mesa e exigiu que a deixassem 
sozinha com o preso a fim de trocar com ele algumas palavras.
      Ento, jovem mateiro  comeou a linda moa logo que a porta foi fechada,  encontrais-vos numa bela, situao; pareceis um rouxinol na gaiola, e receio bem 
que esta gaiola no se abra to cedo, porque o baro est possudo de uma fria espantosa; pragueja, esbraveja, fala em tratar-vos como tratou os desventurados mouros 
da terra santa.
      Se consentires em ser a minha companheira de cativeiro, formosa Maude,  respondeu Robin abraando a moa  no lamentarei a minha liberdade.
      Chega de atrevimento, senhor,  atalhou a jovem tentando desvencilhar-se do abrao de Robin;  isso no so modos de um galante cavaleiro.
      Perdoa-me; s to linda que... Mas falemos seriamente; senta-te e pe as tuas mos nas minhas; assim, obrigado. Agora dize-me se sabes o que foi feito de 
Allan Clare, meu companheiro de jornada, que entrou no castelo juntamente comigo e com o teu tio Tuck.
      A! Est num calabouo mais negro e horroroso do que este; ele teve a audcia de dizer a Sua Senhoria:  Infame celerado, mesmo contra a tua vontade casarei 
com lady Christabel.  No instante em que o seu imprudente amigo pronunciava estas palavras, eu entrava nos aposentos do baro com a minha jovem ama. Ao ver milady, 
sir Allan Clare esqueceu-se de tudo a ponto de correr para ela, tom-la nos braos e beij-la, gritando: Christabel, minha querida e bem-amada Christabel! Milady 
perdeu os sentidos e eu arrastei-a para longe da presena de monsenhor. Em seguida, por ordem de minha ama fui informar-me do que sucedera ao senhor Allan; como 
j lhe disse, est preso. Gil, o alegre frade, disse-me o que acontecera consigo, e eu vim para...
      Para me ajudar a fugir, no  verdade, querida Maude? Obrigado, obrigado, no tardarei a ficar livre; antes de uma nora, se Deus vier em minha ajuda.
      O senhor, livre! Mas como poder sair daqui? H duas sentinelas postadas a esta porta!
      Ainda que houvesse mil.
       ento feiticeiro, belo caador da floresta?
      No, mas aprendi a trepar s rvores como um esquilo e a saltar fossas como uma lebre.
     O moo mostrou com o olhar o postigo gradeado, e inclinando-se para o ouvido da jovem, inclinando-se de tal modo que ao contacto dos seus lbios a linda Maude 
enrubesceu, segredou-lhe:
      As barras no so de ferro.
     Maude compreendeu e um sorriso de alegria lhe iluminou a face.
      Agora o que preciso saber  acrescentou Robin,   onde poderei encontrar frei Tuck.
      Ah! talvez... na copa  respondeu Maude um tanto envergonhada;  se milady necessitar do seu auxlio para libertar o senhor Allan, ficou combinado que ela 
o mandaria procurar  copa.
      Que caminho deverei seguir para chegar at l?
      Logo que sair daqui tome pelas muralhas  esquerda, e siga at encontrar uma porta aberta. Essa porta o levar a uma escada, a escada a uma galeria, e a galeria 
a um corredor ao fim do qual se encontra a copa. A porta estar fechada; se no ouvir barulho algum l dentro, pode entrar; se Tuck no estiver l  porque milady 
o mandou chamar, e nesse caso esconda-se num armrio e espere a minha chegada; depois nos ocuparemos da sua sada do castelo.
      Mil graas te sejam dadas, minha linda Maude; jamais esquecerei a tua generosidade!  exclamou Robin alegremente.
     E o fogo que jorrava dos seus olhos chocou-se com o que jorrava dos olhos da moa; as duas fascas misturaram-se, e entre aqueles dois seres to jovens e to 
belos produziu-se uma troca de pensamentos e desejos que culminou num duplo e ardente beijo.
      Muito bem! Sim senhor, meus pombinhos! Era essa ento a tal troca de palavras!  bradou um dos carcereiros escancarando bruscamente a porta do calabouo. 
 Com a breca, linda senhorita! Isso  que  trazer bons refrigrios ao prisioneiro! Apresento-lhe as minhas felicitaes, e se  esse o seu costume de trazer alvio 
aos presos, no me importaria nada de ficar tambm encarcerado!
     quela sbita interpelao o rosto de Maude tornou-se cor de prpura e a pobre moa ficou um instante muda e trmula; mas como o soldado se aproximara dela 
para a intimar a sair do calabouo, ela refez-se da surpresa, e erguendo a sua pequenina e branca mo  altura das faces tisnadas do soldado, aplicou-lhe com deciso 
uma bofetada bilateral e largou a fugir, rindo como uma louca da sua travessura.
      Hum! Hum!  Resmungou o carcereiro esfregando o rosto; e atirando a Robin um olhar pouco afetuoso, acrescentou:  o mocinho e eu no somos pagos com a mesma 
moeda.
     Em seguida saiu, e fechando a porta com estrondo correu todos os ferrolhos e multiplicou as voltas da chave na fechadura.
     O prisioneiro continuou a beber, a rir e a comer com toda a jovialidade.
     Em breve uma sentinela armada dos ps  cabea veio substituir o carcereiro, e Robin, para no parecer inquieto e preocupado, recomeou a cantar to alto quanto 
lhe permitiam os seus pulmes.
     A sentinela, j irritada por ter de montar guarda ali, intimou-o asperamente a guardar silncio. Robin que no desejava outra coisa obedeceu, e num tom zombeteiro 
desejou ao soldado muito boa-noite e sonhos muito felizes.
     Uma hora depois a lua no seu znite anunciava a Robin que a hora de fugir era chegada, e este, dominando as precipitadas batidas do corao, improvisou uma 
escada com o seu banco e alcanou sem dificuldade as barras do postigo; uma delas, toda carcomida cedeu prontamente a algumas sacudidelas e deixou-lhe aberta a passagem; 
ele acocorou-se ento no rebordo do postigo e avaliou com olho preocupado a distncia que o separava do cho; como essa distncia lhe parecesse excessiva, lembrou-se 
de utilizar o seu cinturo, atando-o por uma das extremidades  barra mais slida.
     Acabados esses preparativos que no consumiram mais de um minuto, Robin preparava-se para descer quando avistou a alguns passos do lugar onde se encontrava, 
no terrao, um soldado que lhe virava as costas e contemplava, de brao apoiado na lana, as longnquas profundidades do vale.
      Ol!  disse consigo,  eu ia justamente cair na goela do lobo.  Precisamos tomar cuidado!
     Por felicidade uma nuvem entremeteu-se ocultando a lua, e enquanto o terrao do castelo mergulhava na obscuridade o vale resplandecia de luz. O soldado, que 
decerto nascera naquele vale, prosseguia na sua exttica contemplao.
      Bem, seja o que Deus quiser!  murmurou Robin aps um fervoroso sinal da cruz, deixando-se escorregar ao longo da muralha agarrado ao cinturo.
     Infelizmente o cinturo era muito curto, e ao atingir-lhe a extremidade Robin deu-se conta de que os seus ps estavam ainda muito distantes do solo, e temia 
despertar a ateno do guarda deixando-se cair pesadamente. Que fazer? Tornar a subir para o calabouo? Mas as barras que serviam de ponto de apoio talvez no fossem 
bastantes firmes para resistir aos esforos de uma ascenso! Era prefervel levar aquela aventura ao extremo. Assim, confiando na Providncia e fazendo-se to leve 
quanto possvel, o moo abandonou-se ao seu prprio peso.
     Um medonho estrondo, qualquer coisa assim como o fragor de uma tampa de alapo desabando sobre o respiradouro de um subterrneo, tal foi o rudo que ps em 
desbarato os devaneios da sentinela no momento em que o nosso heri alcanou o cho.
     A sentinela soltou um brado de alarme e correu de lana em riste para o ponto onde ocorrera o estranho barulho; mas nada vendo nem ouvindo, aps um ligeiro 
relance de olhos deixou de se preocupar com as causas do estrondo, e regressando ao seu posto de novo se perdeu na contemplao do amado vale.
     Robin, percebendo que no estava ferido, aproveitou-se da estupefao do guarda para ganhar terreno, sem se preocupar tambm com as causas do estrpito; acabava, 
entretanto, de escapar de um grande perigo. Os subterrneos do castelo recebiam luz diretamente abaixo do seu calabouo, e a tampa da clarabia no estava fechada; 
quis o acaso que ele a empurrasse com os ps ao cair, evitando desse modo mergulhar para sempre nas profundezas do subterrneo. E verificara-se ainda uma outra circunstncia 
feliz: ele no poderia ter escapado  sentinela se a tampa estivesse fechada, pois teria sido denunciado pela sonoridade ao pular sobre ela.
     A sorte manifestava-se portanto a seu favor, e em passo rpido mas silencioso ele seguiu o caminho indicado por Maude.
     Conforme havia dito a jovem, encontrou uma porta aberta  sua esquerda, e depois de a ter transposto defrontou-se com uma escada, depois com uma galeria, e 
por fim com um imenso corredor.
     Chegado  bifurcao de duas galerias, o nosso heri mergulhado em profunda escurido tateava o cho com o p e apalpava as paredes a fim de no tomar por um 
caminho errado, quando ouviu algum perguntar em voz baixa:
      Quem est a?  Que est fazendo a?
     Robin encolheu-se contra a parede e conteve a respirao. O desconhecido, que tambm parara, pesquisava levemente as lajes com a ponta da espada, tentando decerto 
explicar-se o rudo causado pela aproximao de Robin.
      Foi sem dvida um rangido de porta,  disse em voz baixa o passeador noturno, prosseguindo no seu caminho. pensando com razo que precedido de um guia lhe 
seria mais fcil sair do labirinto em que se perdia h mais de um quarto de hora, Robin continuou no encalo do estranho a uma distncia respeitosa.
     Da a pouco este ltimo abriu uma porta e desapareceu.
     A porta dava para a capela.
     Robin apressou o passo, esgueirou-se com ligeireza por trs do desconhecido e foi esconder-se silenciosamente atrs de uma das colunas daquele santo lugar.
     Os raios da lua inundavam a capela com a sua plida claridade, e um mulher velada rezava de joelhos diante de um tmulo; o estranho, que vestia um hbito de 
monge, relanceou os olhos inquietos por todo o edifcio; subitamente,  vista daquela mulher velada estremeceu, conteve uma exclamao, um grito de felicidade que 
ia talvez escapar-lhe, atravessou a nave e aproximou-se dela de mos postas. Ouvindo os passos do desconhecido, a mulher ergueu a cabea e encarou-o, agitada por 
um receio ou estremecendo de esperana.
      Christabel!  murmurou docemente o monge.
     A jovem ergueu-se, um profundo rubor lhe invadiu as faces, e correndo para os braos estendidos do homem ela exclamou num tom de inexprimvel alegria:
      Allan!  Allan! Meu querido Allan!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
VII



     GILBERTO contou a Margarida a histria de Rolando Ritson, mas guardou silncio a respeito dos seus maiores crimes e quase no falou dos seus amores e do desgraado 
fim de sua irm Annette.
      Imploremos para esse desventurado a misericrdia de Deus!  exclamou Margarida.
     E escondeu as lgrimas para no aumentar a dor de seu marido.
     O velho frade ajoelhou-se por sua vez junto ao cadver e recitou as oraes dos mortos; Gilberto e Margarida vieram reunir-se-lhe com pequenos intervalos, Lincoln 
foi encarregado de abrir uma cova entre o carvalho e a faia designados pelo miservel Ritson, e todos esperaram o regresso dos viajantes de Nottingham a fim de proceder 
 inumao.
     Cansada de vaguear por diante da pequena casa, Mariana abandonada a si mesma teve vontade de ir ao encontro do irmo; Lance dormia estirado na soleira da porta, 
ela chamou-o, acariciou-o com a sua branca mo e afastou-se com ele sem prevenir Gilberto.
     Longo tempo a jovem caminhou pensativa e sonhando com o futuro do irmo; depois sentou-se ao p de uma rvore, e com a cabea entre as mos ps-se a chorar. 
Por qu? Sabia-o por acaso? No. Negros pressentimentos a faziam estremecer, e atravs de mil imagens confusas parecia-lhe avistar numa sombria distncia o vulto 
querido de Allan e o do seu jovem companheiro, o legtimo conde de Huntingdon.
     Lance, o fiel animal, deitara-se aos seus ps, e de focinho no ar assestava para ela os dois grandes olhos redondos onde brilhava a inteligncia; dir-se-ia 
que ele estava triste da tristeza daquela jovem, e que tinha como ela negros pressentimentos, pois em vez de dormir, velava.
     O sol iluminava agora apenas o cimo das grandes rvores, e j o crepsculo enegrecia os matagais, quando Lance se ergueu nas patas e soltou leves ganidos agitando 
a cauda.
     Mariana, arrancada aos seus devaneios por aquele aviso, arrependeu-se de ter ficado tanto tempo na floresta; mas as demonstraes de alegria do animal que festejaram 
o seu erguer tranquilizaram-na, e ela retomou imediatamente o caminho de casa sem contudo desesperar do breve regresso de Allan.
     Lance j no caminhava atrs de Margarida como de manh; ia pelo contrrio farejando adiante, a fim de vigiar o caminho, e a cada instante voltava a cabea 
para ver se a sua jovem companheira continuava a segui-lo.
     Embora segura de no se perder desde que se abandonasse ao instinto do seu guia, Mariana apressava o passo porque a escurido ia rapidamente aumentando e as 
primeiras estrelas brilhavam j no azul do cu.
     Lance parou bruscamente, inteiriou-se nas patas, distendeu o lombo e o pescoo, levantou as orelhas, contraiu o focinho, farejou o espao, soprou o caminho 
e rompeu a ladrar com furor, com dio mesmo.
     Mariana trmula ficou cravada no lugar onde estava, tentando perceber a causa dos latidos do animal.
      Est indicando talvez a chegada de Allan  pensou a jovem pondo-se a escutar atentamente.
     Tudo estava em silncio em redor dela. O prprio cachorro cessou os latidos, Mariana j no tremia mais. Mas no momento em que, sorrindo do seu pavor, a jovem 
ia prosseguir a marcha, um rumor de passos precipitados ressoou numa moita vizinha, e os latidos de Lance recomearam com mais fria e dio do que nunca.
     O receio de cair nas mos de algum fora da lei deu asas  pobre moa, que se lanou a correr pelo atalho; mas como no tardasse a sentir esgotadas as foras, 
teve de parar e pouco faltou para perder os sentidos ao ouvir um homem gritar-lhe em tom rude e imperioso:
      Chame o seu cachorro!
     Lance, que se mantivera  retaguarda para proteger a fuga de Mariana, acabava de saltar  garganta do indivduo que a perseguia.
      Chame o seu cachorro!  tornou a gritar o desconhecido;  eu no tenho a inteno de lhe fazer qualquer mal.
      Como posso saber se o senhor diz a verdade?  perguntou Mariana em voz quase firme.
      H muito tempo que eu lhe teria mandado uma flecha no corao, se fosse um malfeitor; mais uma vez lhe peo: chame o seu cachorro!
     J as presas de Lance haviam estraalhado as roupas e atingiam a carne do homem.
      primeira palavra de Mariana o co largou a vitima e veio postar-se diante dela, sem contudo perder de vista o estranho, contra quem prosseguia rosnando e 
arreganhando os dentes.
     O desconhecido era com efeito um outlaw, um desses proscritos sem eira nem beira que roubam e assaltam os guardas florestais menos corajosos que Gilberto, e 
assassinam os viajantes indefesos. O miservel, cuja lvida face respirava crime, vestia um gibo e uns cales de pele de cabra; um largo chapu imundo, rasgado, 
amarfanhado, mal lhe cobria a longa cabeleira cada em desordem sobre os ombros. A espuma sada da boca do cachorro punha-lhe manchas brancas na barba espessa; trazia 
ao flanco uma adaga, enquanto numa das mos segurava o arco e na outra as flechas.
     Malgrado o seu pavor, Mariana simulava um grande sangue frio.
      No se aproxime de mim  disse a jovem dardejando-lhe um olhar imperioso.
     O fora da lei deteve-se, porque o cachorro preparava-se de novo para saltar sobre ele.
      Que deseja? Fale, estou-o ouvindo  acrescentou Mariana.
      Falarei, mas antes de mais nada ter de vir comigo.
      Onde?
      Onde, no lhe interessa; acompanhe-me.
      No o acompanharei.
      Ah! Ah! Recusa ento, bela senhorita!  exclamou o bandido com uma gargalhada feroz;  faz-se desdenhosa e difcil!
      No o acompanharei  repetiu Mariana com firmeza.
      Nesse caso serei obrigado a empregar outros meios, e esses meios talvez lhe no agradem muito, previno-a.
      E eu previno-o de que se tiver a audcia de usar violncias comigo, ser cruelmente castigado.
     Mariana j no tremia; a coragem voltara-lhe diante do perigo e ela pronunciara essas palavras num tom seguro, o brao estendido para o proscrito, como a dizer-lhe: 
Retire-se.
     O proscrito riu de novo com seu riso feroz, e Lance rosnando entreabria as maxilas vidas.
      Realmente, bela senhorita  tornou o bandido aps um instante de silncio,  no posso deixar de admirar a sua coragem e a audcia das suas palavras, mas 
essa admirao em nada contribuir para modificar os meus projetos; sei com quem estou tratando, sei que chegou ontem  noite a casa de Gilberto Head o guarda florestal, 
em companhia de seu irmo Allan, e que esta manh seu irmo Allan partiu para Nottingham;  sei tudo isto to bem como a senhorita. Mas o que sei ainda e a senhorita 
no sabe,  que as portas do castelo de Fitz-Alwine, que se abriram para deixar entrar o senhor Allan, no tornaro a abrir-se jamais para o deixar sair.
      Que est dizendo?  bradou Mariana presa de um novo terror.
      Digo que o senhor Allan Clare  prisioneiro do baro de Nottingham.
      Meu Deus! meu Deus!  murmurou desalentadamente a jovem.
      E no tenho a menor pena de seu estimvel irmo. Por que foi ele meter-se na boca do lobo? Porque  um verdadeiro lobo, o velho Fitz-Alwine! Fizemos juntos 
a guerra na Palestina e eu conheo muito bem os seus pendores; ele quer apanhar a irm, como j apanhou o irmo. Ontem a senhorita escapou aos seus beleguins, e 
hoje...
     Mariana soltou um grito de desespero.
      Oh! Tranquilize-se; quero dizer que hoje lhe escapar outra vez.
     Mariana atreveu-se a levantar os olhos para o bandido, e j havia quase reconhecimento em seu olhar.
      Sim, tornar a escapar-lhe outra vez... mas a mim no escapar. Para ele o irmo, para mim a irm; e sorte minha!... Vamos, nada de lgrimas, bela jovem! 
Em vez de ser escrava no castelo do baro, ser livre em minha companhia, livre e rainha nestes velhos bosques, e conheo muitas outras, loiras e morenas, que invejariam 
a sua sorte. A caminho, pois, minha formosa noiva; l na minha caverna encontraremos uma boa ceia de caas diversas e o nosso leito de folhagens secas.
      Oh! Por favor, fale-me de meu irmo, do meu querido Allan!  volveu Mariana sem tomar em considerao as absurdas propostas do miservel.
      Com a breca!  respondeu ele sem perceber a desateno de Mariana;  se seu irmo escapar das garras daquela besta fera, poder vir viver conosco; mas no 
creio que possamos jamais caar o gamo juntos, porque o velho Fitz-Alwine no deixa os seus prisioneiros criar bolor nas enxovias, manda-os logo para a eternidade.
      E como soube o senhor que meu irmo  prisioneiro do baro?
      Para o diabo com tantas perguntas, minha bela! Do que se trata agora  das ofertas que te fao para seres minha noiva, e no da corda que h de estrangular 
o senhor teu irmo.  Por So Dunstan, de boa vontade ou  foras ters de acompanhar-me.
     Assim dizendo deu um passo ao encontro de Mariana, que recuou vivamente, gritando:
      A ele, Lance! A ele!
     O valente animal que apenas esperava aquela ordem, saltou  garganta do proscrito; mas este, acostumado decerto a lutas semelhantes, segurou as duas patas dianteiras 
do cachorro, e com uma fora irresistvel jogou-o a vinte passos de distncia. O co voltou  carga sem desanimar, e com hbil dissimulao, atacando de lado em 
vez de atacar de frente, abocanhou a massa de cabelos que escapava por baixo do chapu do bandido e cravou to profundamente os dentes que a orelha inteira se desprendeu 
e lhe ficou na bocarra.
     Uma onda de sangue inundou o ferido, que se encostou a uma rvore soltando rugidos pavorosos e blasfemando contra Deus; Lance, desapontado por no ter fincado 
o dente num pedao de maior resistncia pulou de novo como  carnia.
     Mas esse terceiro ataque devia ser-lhe fatal; o seu adversrio, embora esgotado pela perda de sangue, vibrou-lhe com a lmina da adaga um golpe to violento 
no crnio que o fez rolar como uma massa inerte aos ps de Mariana.
      Agora ns!  Vociferou o bandido, depois de ter acompanhado com olho satisfeito a queda de Lance.  Agora ns dois, minha bela!... Inferno e maldio!  Acrescentou 
ele rugindo e passeando os olhos em redor de si;  Fugiu! desapareceu! Mas, com todos os diabos! Ela no me h de escapar!
     E lanou-se em perseguio de Mariana. A pobre moa correu durante muito tempo, sem saber se o caminho que trilhava a levaria  morada de Gilberto Head. Aps 
a eliminao em combate do seu defensor apenas lhes restava uma possibilidade, a possibilidade de escapar ao fora da lei com a ajuda da escurido; de modo que fez 
esforos sobre-humanos para ganhar quanto antes o maior terreno possvel; depois a providncia velaria por ela. Esfalfada, Mariana deteve-se por fim numa clareira 
aonde iam dar diversos caminhos, e respirou mais livremente no ouvindo nenhum rumor de passos atrs de si; mas agora, nova agonia: que caminho devia tomar? No 
podia demorar-se em hesitaes; precisava escolher, e escolher depressa, pois do contrrio o bandido que a perseguia surgiria de um momento para outro. A infeliz 
invocou o socorro da Santa Virgem, fechou os olhos, deu duas ou trs voltas sobre si mesma e apontou, estendendo o brao ao acaso, o carreiro que ia seguir. Apenas 
havia deixado a clareira j o fora da lei ali chegava, hesitante tambm sobre a escolha do caminho que lhe permitisse agarrar a fugitiva, infelizmente a lua, essa 
lua que  mesma hora iluminava a evaso de Robin, iluminou a fuga de Mariana; o vestido branco denunciou-a.
      Enfim,  gritou o bandido,  apanhei-a!
     Mariana ouviu aquelas palavras horrveis, e mais gil que um gamo, mais rpida que uma flecha, voou, voou, voou; mas em breve desfalecia, extenuada, no tendo 
mais fora seno para gritar pela derradeira vez:
      Allan!  Allan!  Robin! Socorro! Socorro!
     E caiu desmaiada.
     Guiado pelo vestido branco o proscrito redobrou de velocidade, e j se curvava e estendia o brao para empolgar a sua presa, quando um homem, um guarda que 
se achava por ali de emboscada para velar pela conservao da caa real, interveio gritando:
      Ol! Miservel salteador! No toques nessa mulher, ou morrers!
     O bandido no deu mostras de ter ouvido e enfiou as mos sob as espduas da jovem para a levantar do cho.
      Ah! Fazes ouvidos moucos?  tornou o guarda com voz trovejante.  Pois seja!
     E desancou rudemente o proscrito com o cabo da sua lana.
      Mas esta mulher pertence-me!  disse o fora da lei erguendo-se.
      Mentes! Tu perseguia-la como um urso persegue um filhote de coro. Bandido miservel! Para trs, ou trespasso-te com a minha lana!
     O bandido recuou, porque a ponta da lana do guarda j lhe aflorava os cales.
      Abaixo as flechas! Abaixo o arco! Abaixo a adaga!  acrescentou o guarda sempre de lana em riste.
     O bandido jogou as armas ao cho.
      Muito bem. Agora meia volta, e safa-te, safa-te depressa, correndo, se no eu te estimularei a flechada!
     Era foroso obedecer; sem mais armas e sem outros meios de resistncia, o bandido afastou-se vomitando torrentes de injurias e maldies, e jurando vingar-se 
cedo ou tarde. O guarda ocupou-se imediatamente em chamar  vida a pobre Mariana, que jazia imvel na relva como uma branca esttua de mrmore derrubada do seu pedestal; 
a lua iluminando-lhe o plido rosto aumentava ainda essa iluso.
     No longe dali serpenteava um regato, para cuja borda foi transportada a jovem desfalecida; algumas gotas de gua regando-lhe bruscamente as tmporas e a fronte 
conseguiram reanim-la, e abrindo os olhos como se emergisse de um longo sono ela balbuciou:
      Onde estou eu?
      Na floresta de Sherwood  respondeu simplesmente o guarda florestal.
     Ouvindo aquela voz que lhe era estranha, Mariana quis erguer-se e prosseguir na fuga; mas as foras traram-na e ela suplicou em voz queixosa e juntando as 
mos:
      No me faa mal, tenha piedade de mim!
      Sossegue, linda senhorita; o miservel que ousou atac-la j vai longe, e se ele quisesse voltar  carga teria de haver-se comigo antes de tocar numa prega 
do seu vestido.
     Mariana, sempre trmula, lanava olhares apavorados em redor de si, e contudo a voz que ouvia ressoar aos seus ouvidos parecia-lhe ser uma voz amiga.
      Consente, senhorita, que eu a conduza ao nosso solar? Juro-lhe que receber bom acolhimento. No solar encontrar outras moas para a servir e consolar, rapazes 
dedicados e vigorosos para a defender, e um ancio para lhe servir de pai.  Venha ao solar e no se arrepender.
     Havia tanta cordialidade e franqueza nessas ofertas que Mariana se ergueu instintivamente e acompanhou em silncio o gentil guarda florestal. O ar livre e o 
movimento depressa lhe restituram a inteligncia e o sangue frio; observou com ateno  luz da lua os modos de seu guia, e como se um secreto pressentimento a 
advertisse de que esse desconhecido era um amigo de Gilberto Head, ela disse:
      Onde vamos, senhor? Este caminho levar porventura  casa de Gilberto Head?
      Como? Conhece Gilberto Head? Ser por acaso sua filha? Na verdade terei de brigar com esse velho sonso por causa do silncio que ele guardou a respeito da 
posse de um to lindo tesouro. Perdo, miss, no desejo ofend-la, mas  que h muito tempo conheo o excelente Head e seu filho Robin Hood, e nunca imaginei que 
fossem to discretos.
      Est enganado, senhor; eu no sou filha de Gilberto, mas apenas sua amiga, sua hspede desde ontem.
     E contando tudo o que lhe sucedera desde que sara da casa do guarda florestal, Mariana terminou o relato por um agradecimento cheio de efuso dirigido ao seu 
salvador.
     Ainda esse agradecimento no acabara e j o moo da floresta a interrompia corando:
      No me parece conveniente regressar esta noite a casa de Gilberto; ele mora bem longe daqui, ao passo que o solar de meu tio fica apenas a dois passos; ficar 
l em perfeita segurana, miss, e para que os seus hospedeiros se no inquietem eu irei levar-lhes notcias suas.
      Mil vezes agradecida, senhor; aceito a sua oferta porque estou caindo de fadiga.
      No tem nada que agradecer, miss, fao apenas o meu dever.
     Mariana estava realmente exausta e vacilava a cada passo; o moo gentil notou-o e ofereceu-lhe o brao; mas como ela ia mergulhada em profundas reflexes no 
o ouviu e continuou andando sozinha.
      Miss, ser que no tem bastante confiana em mim?  perguntou o rapaz com tristeza e reiterando a sua oferta;  receia acaso apoiar-se neste brao que...
      Tenho plena confiana no senhor  respondeu Mariana tomando imediatamente o brao do seu guia;  acho-o incapaz de enganar uma mulher.
       exatamente como diz, miss, eu sou incapaz... sim, Joo-Pequeno  incapaz... Vamos, apie-se com firmeza ao brao de Joo-Pequeno, que poder carreg-la 
se for preciso, sem se cansar mais do que se cansa um ramo de rvore que suporta uma rola.
      Joo-Pequeno, Joo-Pequeno,  murmurou a jovem admirada e levantando a cabea para medir com o olhar a estatura colossal do seu protetor.  Joo-Pequeno!
      Sim, Joo-Pequeno, assim chamado por ter seis ps e seis polegadas de altura, porque os seus ombros tm uma largura nessa proporo, porque de um s murro 
pode derrubar um boi, porque suas pernas agentam sem parar um estiro de quarenta milhas inglesas, porque no h danarino, nem corredor, nem lutador, nem caador 
que o levem a pedir trguas, e porque enfim os seus seis primos e companheiros, os filhos de sir Guy Garnwell, so todos menores do que ele; eis o motivo, miss, 
pelo qual quem tem a honra de lhe oferecer a ajuda do seu brao  chamado Joo-Pequeno por todos os que o conhecem; e o bandido que a atacou conhece-me perfeitamente, 
pois absteve-se de lhe fazer qualquer mal quando a Santa Virgem, que a protege, permitiu que eu a encontrasse. Consinta-me ainda acrescentar, miss, que eu tenho 
tanta fora quanto bom corao, que o meu nome de famlia  Joo Baylot, sobrinho de sir Guy de Garnwell, que sou guarda-matas de nascena, arqueiro por gosto, coureiro 
de profisso e que completei h um ms vinte e quatro anos.
     Assim conversando e rindo, Mariana e seu companheiro encaminharam-se para o solar de Garnwell; no tardaram a alcanar a orla da floresta, de onde um espetculo 
magnfico se desenrolou aos olhos de ambos; a jovem, apesar do seu cansao e do seu esgotamento, no se fartava de admirar a paisagem maravilhosa. Numa extenso 
de terreno de vrias milhas que enquadravam os limites da floresta de um verde sombrio, faiscavam os lugares mais encantadores, mais acidentados e mais caprichosamente 
dissemelhantes, a ambos os lados dos bosques, sobre as colinas, nos cncavos dos vales, brancas moradas de aspecto sobrenatural, umas misteriosamente isoladas, outras 
fraternalmente agrupadas em torno da ermida de onde o vento trazia os ltimos toques lentos do recolher.
      Alm,  direita do povoado e da igreja  dizia Joo-Pequeno  sua companheira,  est vendo aquele enorme edifcio cujas janelas meio fechadas deixam fugir 
espertas luzes? Est vendo, miss! Pois bem,  o solar de Garnwell, a residncia de meu tio. Em todo o condado no se encontraria guarida mais confortvel, nem em 
toda a Inglaterra um mais delicioso recanto.  Que acha, miss?
     Mariana aprovou com um sorriso o entusiasmo do sobrinho de sir Guy de Garnwell.
      Vamos depressa, miss,  acrescentou ele,  o orvalho noturno est caindo em abundncia, e eu no desejaria v-la tremer de frio, agora que deixou de tremer 
de medo.
     Uma grande matilha de ces de guarda em liberdade no tardou a acolher ruidosamente Joo-Pequeno e a sua companheira. O jovem moderou o entusiasmo dos animais 
com algumas rudes palavras de amizade e algumas leves bastonadas aos mais turbulentos, e aps ter atravessado os grupos de servidores espantados que o saudaram respeitosamente, 
penetrou na grande sala do solar, no momento em que toda a famlia ia sentar-se  mesa para a refeio da noite.
      Meu bom tio  disse o moo levando Mariana pela mo at  poltrona onde pontificava o venervel sir Guy Garnwell,  peo-lhe hospitalidade para esta formosa 
e nobre donzela. Graas  providncia de quem no fui seno o indigno instrumento, ela acaba de escapar aos furores de um miservel fora da lei.
     Mariana ao fugir da floresta perdera a faixa de veludo que ordinariamente envolvia os seus longos cabelos, e para se proteger do frio aceitara a manta de Joo-Pequeno, 
que ainda lhe cobria a cabea e se lhe cruzava sobre o peito, mostrando apenas o seu meigo-rosto atravs de um oval muito estreito. Incomodada pelo excesso daquele 
abrigo, ou envergonhada talvez de se servir diante de todos de uma pea pertencente ao vesturio de um homem, Mariana desembaraou-se rapidamente do plaid e surgiu 
aos olhos da famlia de Garnwell em todo o esplendor da sua beleza.
     Os seis primos de Joo-Pequeno admiravam Mariana de boca aberta, enquanto as duas filhas de sir Guy saam com uma solicitude cheia de graa ao encontro da viajante.
      Bravo!  exclamou o patriarca do solar,  Bravo! Joo-Pequeno, ters de contar-nos como te arranjaste para no matar de susto esta jovem, abordando-a em plena 
noite e no meio da floresta, e como lhe inspiraste bastante confiana para que ela se resolvesse a acompanhar-te sem te conhecer e a honrar-nos vindo descansar sob 
o nosso teto. Nobre e formosa donzela, pareceis-me sofrida e fatigada. Vinde sentar-vos aqui entre minha esposa e eu; um dedo de generoso vinho vos reanimar as 
foras, e minhas filhas vos levaro em seguida para um confortvel leito.
     Esperaram depois que Mariana se tivesse recolhido ao seu quarto para pedir a Joo-Pequeno um relato minucioso das aventuras da noite, e Joo-Pequeno terminou 
a narrativa anunciando que se ia pr a caminho com o intuito de alcanar a morada de Gilberto Head.
      Bem!  interveio William, o mais moo dos seis Garnwell,  visto que esta donzela  amiga do valente Gilberto Head e de Robin, meu camarada, desejo acompanhar-te, 
primo Joo-Pequeno.
      Esta noite no, Will  interveio o velho baronete   tarde demais e Robin ter-se- deitado antes que tenhais atravessado a floresta;  irs visit-lo amanh, 
meu rapaz.
      Mas, meu bom pai  insistiu William,  Gilberto deve estar muito preocupado com a sorte desta donzela, e eu sou capaz de apostar que a esta hora Robin anda 
 sua procura.
      Tens razo, meu filho; dou-te liberdade para agir como entenderes.
     Joo-Pequeno e Will abandonaram imediatamente a mesa e tomaram o caminho da floresta.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
VIII



     DEIXAMOS Robin na capela escondido atrs de um pilar, e perguntando a si prprio porque feliz concurso de circunstncias Allan conseguira recobrar a liberdade.
      Sem dvida alguma  pensou Robin,   Maude, a gentil Maude, que prega estas partidas ao baro, e  f de quem sou! Se ela continua assim a abrir-nos todas 
as portas do castelo, prometo-lhe um milho de beijos!
      Ainda uma vez, querida Christabel  dizia Allan levando aos lbios as mos da jovem,  tenho a felicidade, aps dois anos de separao, de esquecer ao p 
de ti tudo o que tenho sofrido.
      Tens sofrido, querido Allan?  perguntou Christabel num tom levemente incrdulo.
      Duvidas ento? Oh! Sim, tenho sofrido, e desde o dia em que fui expulso do castelo de teu pai, a vida para mim nunca deixou de ser um inferno. Nesse dia abandonei 
Nottingham, andando de costas enquanto os meus olhos puderam avistar atravs do espao as dobras flutuantes da faixa que agitavas sobre as muralhas para me dizer 
adeus. Imaginei ento que esse adeus fosse para sempre, porque me sentia morrer de desgosto. Mas Deus teve compaixo de mim, permitindo-me chorar como uma criana 
que tivesse perdido sua me; eu chorei e vivi.
      Allan, o cu  testemunha de que se estivesse em minhas mos fazer a tua felicidade, tu serias feliz.
      Serei ento feliz um dia!  exclamou Allan com transporte.  Deus h de querer o que tu queres.
      Tens-me sido fiel?  perguntou Christabel interrompendo o moo com ingnua faceirice.  E continuars a s-lo?
      Em pensamentos, palavras e obras, sempre o fui, sou-o e sempre o serei.
      Obrigada, Allan! A f que em ti deposito consola-me em meu isolamento; devo obedincia s vontades de meu pai, mas h um dos seus desejos a que jamais me 
submeterei: ele poder separar-nos, como j o fez, mas no poder nunca obrigar-me a amar outro que no sejas tu.
     Robin ouvia, pela primeira vez em sua vida, falar a linguagem do amor; compreendia-a por intuio, estremecia de felicidade s suas ressonncias e dizia consigo 
suspirando:
      Oh! Se a bela Mariana quisesse falar-me assim! 
      Querida Christabel  prosseguiu Allan,  como pudeste descobrir a priso onde eu estava encerrado? Quem me abriu a porta? Quem me obteve este hbito de monge? 
Na escurido no pude reconhecer o meu salvador. Apenas o ouvi dizer-me em voz baixa: V ter  capela.
      Nesse castelo h apenas uma pessoa em quem posso confiar;  uma jovem to boa quanto engenhosa, Maude, minha criada de quarto, a quem somos devedores da tua 
evaso.
      Eu tinha a certeza disso  murmurou Robin.
      Quando meu pai, depois de nos ter separado de um modo to violento te mandou jogar numa enxovia, Maude, comovida pelo meu desespero, disse-me: Console-se, 
milady, que dentro em breve tornar a ver o senhor Allan. E cumpriu a sua palavra, a excelente Maude, vindo avisar-me h poucos instantes de que eu poderia vir 
esperar-te aqui. Parece que o carcereiro encarregado da tua vigilncia no foi insensvel s meiguices de Maude: ela levou-lhe bebidas, cantou-lhe baladas, embriagou-o 
tanto de vinho e olhares que o pobre homem adormeceu como uma pedra, e ento a matreira roubou-lhe as chaves. Por um acaso providencial o confessor de Maude encontrava-se 
no castelo, e o santo homem no vacilou em despojar-se do seu hbito para que te pudesses disfarar com ele. No conheo ainda esse venervel servidor de Deus, mas 
desejo conhec-lo a fim de lhe agradecer o paternal apoio que ele prestou a Maude.
      Foi realmente um apoio muito paternal  disse consigo Robin, sempre escondido atrs do pilar.
      Esse monge no usa o nome de frei Tuck?  perguntou Allan.
      Justamente, meu amigo; conhece-o?
      Um pouco  respondeu Allan sorrindo. 
       um bom velho, estou certa  volveu Christabel  mas por que ests rindo assim, Allan? Ser que o bom frade no merece a nossa venerao?
      No pretendo sugerir o contrrio, querida Christabel.
      Ento por que continuas rindo?  Quero sab-lo.
      Por uma coisa sem importncia, querida;  que esse excelente velho monge no  assim to velho quanto pensas.
      Surpreende-me que o meu equvoco te faa rir dessa maneira. Mas no importa: velho ou novo estimo esse frade, Maude tambm me parece estim-lo muito.
      Oh! Quanto a isso no h a menor dvida; mas eu ficaria desolado se tu viesses a querer-lhe tanto quanto Maude.
      Que pretendes dizer?  perguntou Christabel com certa contrariedade.
      Perdoa-me, meu amor, tudo isto no passa de urna brincadeira que virs a compreender mais tarde, quando tivermos de agradecer ao frade o favor que nos fez.
      Est bem. Mas ainda me no falaste de minha amiga Mariana, de tua irm; essa, pelo menos, hs de permitir-me que a ame, no  verdade?
      Mariana est  nossa espera em casa de um honrado guarda florestal de Sherwood; abandonou Huntingdon para vir viver conosco, pois eu esperava que teu pai 
me concedesse a tua mo. Mas visto que, no satisfeito com repelir-me, ele atenta ainda contra a minha liberdade, para atentar com certeza mais tarde contra a minha 
prpria vida, resta-nos apenas uma possibilidade, a fuga...
      Oh! No, Allan, no, jamais abandonarei meu pai!
      Mas a sua clera descer sobre ti, como acaba de descer sobre mim. Mariana, tu e eu seremos to felizes isolados do mundo! Onde quer que desejes viver, no 
campo, na cidade, onde quiseres, Christabel. Oh! Vem, vem que eu no quero sair deste inferno sem ti!
     Christabel desolada, soluando com a cabea escondida entre as mos, no pronunciava seno as palavras No! no! cada vez que Allan falava de fugir.
     Ah! se nesse instante Allan se encontrasse em pblico, como teria denunciado os crimes do baro Fitz-Alwine e reduzido a nada esse orgulhoso e cruel fidalgo!
     Enquanto o jovem enamorado e Christabel, abraados um ao outro, se confiavam mutuamente os seus pesares e esperanas, Robin, diante de quem pela primeira vez 
se apresentava uma cena de verdadeiro amor, sentia-se transportado a um mundo novo.
     A porta pela qual os prisioneiros evadidos tinham entrado na capela, abriu-se devagar e Maude, trazendo uma tocha na mo, apareceu seguida de frei Tuck que 
se mostrava sem o seu hbito.
      Ah! Ah! Ah! Querida ama!  rompeu Maude em soluos,  tudo est perdido! Vamos morrer,  um massacre geral! Ah! Ah! Ah!
      Que ests dizendo, Maude?  gritou Christabel apavorada.
      Digo que vamos morrer: o baro leva tudo a ferro e fogo, no poupa ningum, nem a vs, nem a mim!  Ah! Ah! Morrer to moa, que desgraa!  No, mil vezes 
no, milady, eu no quero morrer!
     A linda Maude tremia e chorava de verdade, mas no tardaria muito a sorrir.
      Que significam essas palavras e esses soluos?  perguntou Allan com severidade.  Ters enlouquecido? E vs, frei Tuck, no podereis dizer-me o que se passa?
      Impossvel, senhor cavaleiro  respondeu o frade quase em tom de galhofa,  porque tudo o que sei se resume nisto: Eu estava sentado... no, ajoelhado...
      Sentado  interrompeu Maude.
      Ajoelhado  replicou o frade.
      Sentado  insistiu Maude.
      Ajoelhado, digo eu! Eu estava ajoelhado... fazendo as minhas oraes...
      Estava mais era bebendo cerveja  atalhou de novo e muito depreciativamente a moa;  e at bebeu demais.
      Obedincia e delicadeza so qualidades apreciveis, minha formosa Maude, mas parece-me que hoje insistes em esquec-las.
      Chega de moral, e sobretudo de discusso  atalhou Allan com gesto imperioso;  dem-me simplesmente a conhecer a causa dessa sbita chegada e o perigo que 
nos ameaa.
      Pergunte ao reverendo frade  respondeu Maude sacudindo a linda cabea com ar obstinado;  foi a ele que o senhor cavaleiro ainda h pouco se dirigiu, e  
justo que ele lhe responda.
      Ests brincando cruelmente com o meu terror, Maude  interveio Christabel;  dize o que temos a recear, sem mais delongas; se te no basta a minha splica, 
ordeno-te!
     A jovem camareira corou intimidada, e disse por fim aproximando-se da ama:
      Aqui est o que , milady. Como sabe, eu fiz com que Egberto, o carcereiro, tomasse mais vinho do que a sua cabea  capaz de suportar; de modo que ele adormeceu. 
Em meio ao seu sono, sono pesado de bbedo, Egberto foi mandado chamar por milorde; milorde queria ir falar ao seu... ao senhor Allan. O pobre carcereiro, ainda 
sob a influncia do vinho que eu lhe tinha dado, esquecendo o respeito que deve a Sua Senhoria, apresentou-se diante do baro de mos nas ancas e perguntou-lhe com 
os modos mais irreverentes como ousavam incomod-lo, a ele, valente e honrado homem, durante o seu sono. O senhor baro ficou de tal modo surpreendido ao ouvir essa 
estranha pergunta que por alguns instantes contemplou o carcereiro Egberto sem se dignar responder-lhe. Irritado com o silncio, o carcereiro aproximou-se e encostando-se 
ao ombro do senhor baro gritou-lhe num tom jovial: Dize l, velho destroo da Palestina, como vai essa periclitante sade? Espero que a gota te deixe dormir sossegado 
esta noite... Como sabe, milady, Sua Senhoria j no estava de muito bom humor; imagine agora a sua fria ouvindo e vendo as palavras e os gestos de Egberto!... 
Ah! se milady tivesse visto monsenhor tremeria como eu tremo, recearia uma sangrenta catstrofe! Monsenhor espumava de raiva, rugia mais alto que um leo ferido, 
abalava a sala com os ps e procurava alguma coisa para espedaar com as mos; bruscamente apoderou-se do molho de chaves que Egberto trazia pendurado  cintura, 
procurando entre todas as chaves as do calabouo do seu... do senhor cavaleiro. Mas essa no a encontrou. Que fizeste dessa chave? gritou o senhor baro com voz 
trovejante. A essa pergunta, Egberto subitamente lcido, tornou-se lvido de susto. Monsenhor j no tinha foras para gritar, mas o tremor convulso que lhe agitava 
todo o corpo anunciava a sua vingana. Reclamou um esquadro de soldados e fez-se acompanhar ao calabouo do senhor Allan, berrando que se o preso l no estivesse 
mais, Egberto seria enforcado... Senhor, prosseguiu Maude voltando-se para Allan,  preciso fugir o mais depressa possvel, fugir antes que meu pai, informado de 
tudo o que se passa, feche as portas do castelo e no baixe mais a ponte levadia.
      Vai, vai, querido Allan!  gritou Christabel;  ficaremos para sempre separados se meu pai nos encontrar juntos!
      E tu, Christabel, que vai ser de ti?  perguntou Allan tomado de desespero.
      Eu fico... e acalmarei a fria de meu pai.
      Nesse caso tambm fico!
      No, no, foge, em nome do cu! se me amas, foge... tornaremos a encontrar-nos!
      Tornaremos a encontrar-nos?  Juras, Christabel?
      Juro!
      Est bem, Christabel, obedeo-te.
      Adeus! at breve.
      Acompanhe-me ento, cavaleiro, bem como este venervel monge  interveio Maude.
      Mas ests certa, Maude de que teu pai nos deixar sair do castelo?  perguntou frei Tuck.
      Estou, sobretudo se ainda o no informaram dos acontecimentos desta noite. Vamos, venham, no h tempo a perder.
      Mas ns ramos trs ao entrar no castelo  observou o frade.
       verdade  notou Allan.  Que ser feito de Robin?
      Presente!  exclamou o jovem mateiro saindo do seu esconderijo.
     Christabel soltou um leve grito de susto, e Maude saudou Robin com to graciosa solicitude que o monge franziu o sobrolho.
      Esperto rapaz!  disse Maude com um sorriso e passando de leve a mo pelo brao de Robin;  conseguiu fugir de um calabouo vigiado por duas sentinelas!
      Quer dizer que tambm estava preso?  perguntou Allan.
      Contarei a minha aventura quando estivermos longe daqui  respondeu o jovem arqueiro.  Partamos depressa... no se demore, senhor; parece-me que deve ter 
interesse em conservar a vida... e bem maior do que eu  acrescentou com tristeza,  porque sua irm e outras pessoas mais chorariam a sua morte, ao passo que eu... 
Mas vamos, aproveitemos a ajuda de Maude; as muralhas do castelo de Nottingham parece que me pesam sobre o peito. Vamos!
     A estas ltimas palavras, Maude atirou ao moo um extraordinrio olhar.
     De repente um barulho se fez ouvir no corredor que dava para a capela.
      Deus tenha misericrdia de ns!  disse Maude em tom surdo.  A est o baro;  em nome do cu, fujam!
     Despindo a toda a pressa o seu hbito de frade, Allan devolveu-o a frei Tuck e correu para Christabel a fim de lhe dizer um derradeiro adeus.
      Por aqui, senhor cavaleiro!  gritou Maude imperiosamente, abrindo uma das portas de sada.
     Allan deps nos lbios de Christabel o mais ardente dos beijos e atendeu ao chamado de Maude.
      Que So Bento te proteja, minha boa amiga!  disse o frade tentando por sua vez abraar Maude.
      Atrevido!  exclamou a jovem;  passe, passe logo! Robin, j perito em galantaria, inclinou-se diante de Christabel e beijou-lhe respeitosamente a mo, dizendo:
      Que a Virgem seja o seu apoio, a sua consolao e o seu guia!
      Obrigada  respondeu Christabel surpreendida de ver tanta nobreza nas maneiras de um simples guarda de floresta.
      Enquanto lhes dou fuga, milady  tornou Maude,  Ponha-se a rezar e finja ignorar tudo, de modo que o senhor baro no possa desconfiar de que minha ama conhece 
as causas da sua fria.
     Mal a porta se fechou sobre os fugitivos, e j o baro,  frente dos seus homens de armas, irrompia na capela.
     A o iremos encontrar mais tarde; por agora acompanhemos os nossos trs amigos, dos quais a gentil Maude  o anjo da guarda.
     O pequeno grupo percorreu uma comprida e estreita galeria, marchando nesta ordem: Maude  frente, conduzindo uma tocha, Robin logo em seguida e frei Tuck quase 
ao lado de Robin;  Allan vinha por ltimo.
     Maude apressou o passo, tanto para deixar uma certa distncia entre Robin e ela, como para chegar primeiro  porta do castelo; no ria, mantinha-se em profundo 
silncio, e com a mo que lhe ficava livre repelia a mo de Robin, que em vo tentava apanhar no vo algumas pregas da sua saia.
      Ests ento zangada comigo?  perguntou o moo numa voz suplicante.
      Estou  respondeu laconicamente Maude.
      Que fiz eu para te desagradar?
      Nada.
      Que disse ento?
      No mo pergunte, senhor; isso no pode nem deve interess-lo.
      Mas aflige-me.
       Que importa? Logo se consolar. No estar daqui a pouco bem longe deste castelo de Nottingham cujas muralhas tanto lhe pesam sobre o peito?
      Ah, ah! Compreendo  disse Robin; e acrescentou:  Se estou farto do baro, das muralhas do seu castelo e dos ferrolhos dos seus calabouos, no o estou contudo 
do teu rostinho encantador, nem dos teus sorrisos, nem das tuas graciosas palavras, querida Maude.
      Ser verdade?  perguntou Maude voltando a meio a cabea.
      A verdade inteira, querida Maude.
      Faamos ento as pazes...
     E Maude deixou-se beijar pelo jovem mateiro.
     Essa pequena manobra determinou um compasso de atraso na marcha dos fugitivos, de tal modo que o frade, cujo ouvido fora desagradavelmente afetado pelo rumor 
desse beijo, protestou num tom brusco:
      Que  isso? Andem mais depressa... Que caminho devemos tomar?
     Tinham chegado a um entrelaamento de corredores.
       direita  respondeu Maude.
     E vinte passos adiante alcanaram o cubculo do porteiro. A moa chamou o pai.
      Como!  exclamou o velho Lindsay, que por sorte ignorava ainda os acontecimentos da noite;  j se vo embora, e ainda por cima no escuro? Realmente, frei 
Tuck, esperava fazer um brinde em sua companhia antes de ir dormir; tm absoluta necessidade de partir esta noite?
       absolutamente preciso, meu filho  respondeu o frade.
      Adeus ento, alegre Gil; e os senhores tambm, bravos gentlemen, at  vista!
     A ponte levadia desceu; Allan foi o primeiro a sair do castelo, seguido do monge que parlamentara com a jovem, a qual dessa vez no permitiu que ele lhe desse 
sequer aquilo a que chamava a sua bno, um beijo, e tendo aproveitado um momento de desateno do frade imprimira os seus ardentes lbios na mo de Robin.
     Esse beijo que fez estremecer todo o corpo do rapaz, causou-lhe uma profunda aflio.
      Tornar-nos-emos a ver em breve, no?  perguntou Maude em voz baixa e cariciosa.
      Assim o espero  respondeu Robin;  e enquanto aguardas a minha volta, faze o favor, minha querida, de apanhar o meu arco e as minhas flechas no quarto do 
baro, e entreg-los a quem os vier procurar da minha parte.
      Vem tu mesmo.
      Pois sim, virei eu mesmo, Maude.  Adeus! 
      Adeus, Robin, adeus!
     Os soluos que embargaram a voz da pobre moa no permitiram perceber se ela dizia tambm Adeus, Allan, adeus, Tuck!
     Os fugitivos desceram rapidamente a colina, atravessaram a cidade sem se deter, e no abrandaram a marcha seno sob a protetora escurido da floresta de Sherwood.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
IX



     PELAS dez horas da noite, Gilberto que esperava com impacincia o regresso dos viajantes, deixou frei Eldred no quarto de Ritson e desceu para junto de Margarida, 
que se ocupava dos trabalhos da casa; queria saber se miss Mariana no estaria muito inquieta com a longa ausncia do irmo.
      Miss Mariana?  exclamou Margarida que, preocupada com a sua dor, nem notara o desaparecimento da jovem.  Miss Mariana?  Ela deve decerto estar no quarto.
     Gilberto foi at l, mas o quarto estava vazio.
      So dez horas, Maggie, dez horas e essa moa no est em casa.
      Ela andava passeando h tempo, com Lance, nessa alameda fronteira.
      Com certeza perdeu a casa de vista e extraviou-se. Ah! Maggie, tremo que lhe tenha acontecido alguma desgraa. Dez horas passadas! Mas a esta hora no h 
seno lobos e malfeitores rondando pela floresta.
     Gilberto apanhou o seu arco, as suas flechas, uma adaga bem afiada e saiu para a floresta  procura de Mariana; conhecia todas as moitas, todos os bosques, 
todos os silvados, todas as clareiras, e queria percorrer todos esses lugares to seus conhecidos e to perigosos para uma mulher.
      Preciso encontrar essa jovem  dizia Gilberto consigo;  por So Pedro, preciso encontr-la.
     Guiado pelo instinto, ou antes por essa previso especial que os mateiros chegam a adquirir perlongando os bosques, Gilberto seguiu exatamente o caminho que 
Mariana tomara at ao ponto onde ela estivera sentada. Uma vez l chegado, teve a impresso de ouvir um surdo gemido  beira de uma alameda prxima que a espessura 
da folhagem privava dos raios do luar; aplicou o ouvido e reconheceu que esses gemidos eram entremeados de fracos apelos, agudos e queixosos como os de um animal 
que sofre. A escurido era profunda e Gilberto encaminhou-se s apalpadelas para o lugar de onde partiam esses apelos;  medida que se ia aproximando os gemidos 
tornavam-se mais distintos, e os ps do guarda no tardaram a chocar-se contra uma forma inerte e mole estendida no cho; abaixou-se, estendeu os braos e a sua 
mo tocou a superfcie peluda mas viscosa de suor frio de um animal. O bicho, como reanimado pelo toque daquela mo, fez um movimento e os seus queixumes mudaram-se 
num dbil ganido de reconhecimento.
      Lance, meu pobre Lance!  exclamou Gilberto. Lance tentou erguer-se nas patas, mas exausto do esforo recaiu em gemidos.
      Alguma desgraa sucedeu quela pobre moa  disse mentalmente Gilberto,  e Lance querendo defend-la, sucumbiu na luta. Ento! ento!  murmurou o guarda 
florestal acariciando ternamente o fiel animal,  onde ests ferido, meu velho? No ventre? No. No lombo? Nas patas? No, no. Ah! na cabea! O bandido quis abrir-te 
o crnio... Bem vejo, mas no morreremos disso. Perdeste muito sangue mas ainda te resta bastante... O corao bate, sinto-o bater, e no  um bater de retirada.
     Gilberto, que como todos os homens do campo conhecia as virtudes medicinais de certas plantas, deu-se pressa em ir colher algumas nas clareiras prximas onde 
a escurido era atenuada pelos primeiros raios da lua, e depois de as ter esmagado entre duas pedras, colocou-as sobre o ferimento de Lance, segurando-as com o auxlio 
de uma compressa improvisada com um farrapo do seu capote de plo de cabra.
      Agora preciso deixar-te, meu velho; mas fica sossegado que virei buscar-te; entretanto ficars repousando aqui neste monte de folhas secas, e cobrirei o teu 
corpo com outras folhagens a fim de que no sintas frio, meu velho Lance!
     Assim falando ao seu co como se estivesse falando a uma pessoa, o guarda tomando o animal nos braos transportou-o Para um cerrado. Feito isso acariciou ainda 
uma vez o fiel animal, e empreendeu de novo a corrida em busca de Mariana.
      Por So Pedro!  murmurava Gilberto explorando com olho de lince as matas e as clareiras,  por So Pedro! Se o bom Deus colocar em meu caminho o alma do 
diabo que rasgou o couro do meu pobre Lance, hei de fazer-lhe danar umas voltas  pranchada como ele no tornar mais a danar em toda a vida!  Ah! Bandido! Ah! 
Malfeitor!
     Gilberto seguia justamente o carreiro por onde enveredara Mariana aps a queda de Lance, e chegou  clareira no longe da qual Joo-Pequeno libertara a fugitiva. 
Gilberto ia explorar as imediaes bastante ralas dessa clareira, quando uma sombra tornada gigantesca pelos raios oblquos do luar apareceu agitando-se no cho; 
a princpio imaginou que ela provinha de alguma alta rvore e no lhe prestou ateno; mas o instinto advertiu-o de que a sombra tinha qualquer coisa de estranho, 
e observando-a mais atentamente percebeu logo que ela s podia pertencer a um ser vivo, a um homem.
     A vinte passos do ponto onde se encontrava, Gilberto avistou um homem de p, encostado a uma rvore, virado de costas e agitando os braos em redor da cabea 
como se estivesse enrolando um turbante.
     O mateiro no hesitou em assentar a sua vigorosa mo sobre aquele que adivinhava um fora da lei, e talvez at o assassino de miss Mariana.
      Quem s tu?  perguntou-lhe ao mesmo tempo com uma voz de trovo.
     O outro, meio surpreendido, meio fraco, vacilou e deixou--se escorregar ao longo da rvore at aos ps de Gilberto.
      Quem s tu?  repetiu Gilberto levantando bruscamente o desconhecido.
      Que tens com isso?  rosnou o indivduo esforando-se por se manter nas pernas, logo que se apercebeu de que Gilberto estava sozinho;  que tens...
      Tenho muita coisa. Sou guarda florestal, e portanto encarregado da vigilncia de Sherwood; ora tu pareces-me tanto com um malfeitor quanto a lua cheia deste 
ms se parece com a do ms passado, e desconfio que andes apenas interessado num gnero de caa. Todavia deixar-te-ei em liberdade se quiseres responder claramente 
e com sinceridade a certas perguntas que te vou fazer; mas se recusares, por So Dunstan! Entrego-te  solicitude do xerife.
      Interroga-me ento;  verei se me convm responder.
      Encontraste esta noite na floresta uma jovem senhora de vestido branco?
     Um sorriso perverso atravessou os lbios do bandido.
      Percebo, encontraste. Mas que vejo? Ests ferido na cabea? Sim, e esse ferimento foi produzido pelos dentes de um co.  Ah! miservel, vou certificar-me 
disso.
     E Gilberto arrancou vivamente a faixa ensangentada que recobria o ferimento; o homem assim desmascarado deixou  vista um pedao de carne que lhe pendia do 
pescoo, e louco de dor gritou sem perceber que se acusava claramente:
      Como sabes que foi um co?  Ns estvamos sozinhos!
      E a moa, onde est?  Fala, miservel, fala ou mato-te! Enquanto Gilberto, com a mo no punho da sua adaga, esperava uma resposta, o fora da lei ergueu disfaradamente 
sua besta e descarregou-lhe uma forte pancada no alto da cabea. O velho, um momento aturdido, retomou logo o seu prumo firmou-se nas pernas e arrancou a adaga. 
O proscrito recebeu ento com a parte chata da lmina uma to furiosa saraivada de golpes cerrados e contnuos, nas costas, nos ombros, nos braos e nos flancos, 
que desabou por terra imvel e quase morto.
      No sei porque no te mato, miservel!  gritou o guarda florestal;  mas visto que no queres dizer onde ela est, vou deixar-te abandonado. Morre por a, 
como um animal feroz!
     E Gilberto afastou-se para recomear as suas buscas.
      Eu ainda no estou morto, vil escravo do chicote!  murmurou o proscrito erguendo-se no cotovelo quando Gilberto se afastou;  ainda no estou morto e hei 
de provar-to. Ah! Querias saber onde se encontra agora a moa? Eu seria bem tolo se fizesse cessar as tuas preocupaes dizendo-te que um dos Garnwell a levou para 
o solar. Ai! ai! ai! como di! Tenho os ossos quebrados, os membros deslocados, mas ainda no estou morto, no, Gilberto Head, ainda no estou morto!
     E arrastando-se com o auxlio dos joelhos e das mos, tentou encontrar repouso em um abrigo na espessura da mata.
     O velho, cada vez mais inquieto no cessava de percorrer a floresta, e comeava a perder toda a esperana de encontrar a jovem, pelo menos viva, quando no 
longe dali ouviu cantar uma dessas alegres baladas que outrora compusera em honra de seu irmo Robin.
     O cantor invisvel vinha ao seu encontro pelo mesmo caminho; Gilberto ficou ouvindo, e o seu amor-prprio de poeta fez-lhe esquecer as inquietaes do momento.
      Que a vermelha cabea desse idiota Will, to bem cognominado o Escarlate, se balance enforcada num ramo de carvalho  murmurou Gilberto mal-humorado;  ele 
canta a ria da minha balada de um modo inteiramente em desacordo com as palavras. Ol! Senhor Garnwell; Ol! William Garnwell, no estropie assim a msica e a poesia 
ao mesmo tempo! E que diabo faz voc a esta hora pela floresta? 
      Ol!  respondeu o jovem fidalgo;  quem se atreve a interromper o canto de William de Garnwell, antes que William de Garnwell lhe tenha desejado boas-vindas?
      Quem j ouviu uma vez, uma s vez, a voz de William escarlate, nunca mais a esquece, e no precisa, para adivinhar a aproximao de Will, da luz do sol ou 
da luz da lua, e nem sequer da luz das estrelas.
      Bravo! Bem respondido!  interveio alegremente um terceiro personagem.
      Aproxima-te, espirituoso desconhecido  replicou Will num tom provocador;  aproxima-te e tentaremos dar-te uma lio de civilidade.
     E Will j fazia redemoinhar o seu bordo quando Joo. Pequeno interveio.
      Ests louco, meu primo; ento no reconheces o velho Gilberto, a cuja casa nos dirigimos?
      Gilberto? Ser possvel?
      Sim, sim, Gilberto!
      Bem, nesse caso  diferente!  volveu o rapaz, que correu ao encontro do guarda florestal gritando:  Boas notcias, meu velho, boas notcias! A jovem senhora 
est em perfeita segurana no solar, e miss Brbara, bem como miss Winifrede esto cuidando dela; Joo-Pequeno encontrou-a na floresta na ocasio em que um fora 
da lei ia maltrat-la. Mas ests sozinho, Gilberto? E Robin, onde est o meu caro Robin Hood?
      Fala mais baixo, Will, misericrdia! Poupa os teus pulmes e os nossos ouvidos.  Robin partiu esta manh para Nottingham, e ainda no estava de volta quando 
eu sa de casa.
      Ah! Robin Hood andou mal em ir sem mim a Nottingham; havamos combinado ir passar oito dias na cidade. A gente l diverte-se tanto!
      Como ests plido, Gilberto  interveio Joo-Pequeno;  que tens, ests doente?
      No, o que tenho so desgostos; meu cunhado morreu hoje, e vim a saber que... mas que importa?  No falemos nisso.  Deus seja louvado, miss Mariana est fora 
de perigo! Foi ela que eu vim procurar na floresta; imaginai a minha inquietao, especialmente depois de haver encontrado h pouco o melhor dos meus ces, o pobre 
Lance, quase morto.
      Lance quase morto, esse cachorro to bom, to...
      Pois  verdade, Lance, um animal como no se encontra outro, cuja raa est perdida.
      Mas quem fez isso? Quem cometeu esse crime? Dize-me onde est o bandido, que lhe quebrarei as costelas! Onde est ele?  perguntou vivamente o moo de cabelos 
vermelhos.
      Sossega, meu filho; eu j vinguei o velho Lance.
      No faz mal, quero ving-lo tambm; dize, onde esta o miservel, bastante covarde para matar um cachorro?  Preciso examinar-lhe as feies com o meu bordo. 
 algum fora da lei, com certeza?
      , deixei-o a em baixo... deste lado... quase morto, depois de o ter modo a pancada com a lmina da minha adaga.
      Se esse homem for o mesmo que usou de violncia com Miss Mariana,  de meu dever conduzi-lo a Nottingham,  presena do xerife  atalhou Joo-Pequeno.  Mostra-me 
onde o deixaste, Gilberto.
      Vinde por aqui, por aqui, meus filhos!
     O velho guarda no teve dificuldade em achar o ponto onde o proscrito cara sob os seus golpes, mas o proscrito j l no estava.
      Que pena!  exclamou Will.  Olha, foi justamente aqui que combinamos encontrar-nos vindo do solar, para a caa, ali na encruzilhada, entre o carvalho e a 
faia.
      Entre o carvalho e a faia!  repetiu Gilberto, cujo corpo se ps subitamente a tremer.
      Isso mesmo, entre estas duas rvores. Mas que tens tu, meu velho?  Exclamou Will,  ests tremendo como uma vara verde!
      Ah!  que... nada, nada  respondeu Gilberto contendo a sua emoo;  apenas uma lembrana, nada.
      Como! Tens medo de fantasmas, tu, meu valente?  tornou Joo-Pequeno que ignorava o motivo da perturbao de Gilberto.  Pensei que no sofresses desses temores, 
na tua qualidade de deo dos guardas florestais.  verdade que este lugar no goza de reputao muito boa; dizem que a alma penada de uma moa, assassinada por bandidos, 
vagueia todas as noites por baixo destas grandes rvores; eu nunca a vi, embora passe constantemente por aqui, tanto de noite como de dia; mas muitas pessoas de 
Mansfeld, de Nottingham, do solar e dos povoados vizinhos, afirmam sob juramento t-la encontrado na encruzilhada.
      medida que Joo-Pequeno assim falava, a emoo de Gilberto ia crescendo; um suor frio inundava-lhe o rosto, os dentes batiam-lhe, e com os olhos esgazeados 
e o brao estendido na direo da faia, ele apontava com o dedo aos companheiros alguma coisa invisvel.
     De repente o vento leve que soprava at ento mudou-se em rajada e varreu por sob as rvores as folhas secas que se haviam amontoado, e do centro do redemoinho 
ergueu-se uma forma humana.
      Annette!  Annette! Minha irm!  bradou Gilberto caindo de joelhos e levantando as mos juntas pra o cu;  Annette, que queres? Que desejas que eu faa? 
     Will e Joo-Pequeno, por muito afoitos que fossem, estremeceram e traaram devotamente o sinal da cruz, pois Gilberto no estava sendo vtima de uma alucinao, 
e como ele ambos viam um imenso fantasma branco, de p, entre as duas rvores; o fantasma deu a impresso de querer avanar ao encontro deles, mas como a rajada 
crescesse de violncia ele afastou-se s arrecuas como se estivesse obedecendo  fora do vento, e desapareceu num ngulo da encruzilhada, numa zona escura onde 
os raios oblquos da lua, interceptados pela espessura da folhagem, no haviam ainda penetrado.
       ela!  ela! Sem sepultura!
     Dizendo estas ltimas palavras Gilberto caiu desmaiado, e os seus companheiros ficaram longo tempo imveis e mudos como esttuas; no viam mais o fantasma, 
mas parecia-lhes que a brisa trazia at eles rudos confusos, vagos gemidos.
     Voltando pouco a pouco do susto que apanharam, os nossos dois rapazes juntaram-se para socorrer Gilberto que continuava desmaiado; baldadamente esfregaram as 
mos dele nas suas e tentaram faz-lo engolir algumas gotas desse usque de que cada mateiro em jornada traz sempre uma pequena proviso; em vo lhe murmuraram ao 
ouvido todo um vocabulrio de palavras de consolo, o velho no saa do seu abatimento, e se no fossem as pancadas no corao sempre audveis, julg-lo-iam morto... 
      Que faremos, primo?  perguntou Will.
      Vamos lev-lo para sua casa o mais depressa possvel  respondeu Joo-Pequeno.
      Naturalmente tens bastante fora para o transportar s costas, mas talvez ele ficasse mais a vontade se eu o pegasse pelos ps e tu pela cabea.
      Olha, aqui tens a minha machadinha, Will; vai a na mata e corta os ramos necessrios para improvisar uma pequena maca; eu fico aqui, talvez ele ainda recupere 
os sentidos.
     William j no cantava as alegres baladas de Gilberto, sinceramente aflito com o estado do velho poeta de Sherwood; enquanto procurava os seus paus, chegou 
a essa escura ponta da encruzilhada por onde se evaporara o fantasma; e, digamo-lo em seu louvor, no experimentou mais medo do que se estivesse passeando sozinho 
 meia-noite no pomar da manso de Garnwell.
     De repente William tropeou em qualquer coisa volumosa que estava deitada por terra, e caiu-lhe por cima; o rapaz ia soltar a mais violenta praga contra esse 
malfadado obstculo que o detivera em sua marcha, quando percebeu que o que imaginara ser um tronco de madeira era algo dotado de movimento e lhe soprava ao ouvido 
um rosrio de blasfmias.
      Ol! Que  isso?  gritou o corajoso Will empolgando a garganta do indivduo sobre o qual acabava de rolar.  Primo! primo! aqui, agarrei-o, agarrei-o!
      Corta-o pela raiz!  respondeu Joo-Pequeno que no queria abandonar Gilberto.
      Eh! No foi uma rvore que eu agarrei, foi o bandido, o assassino de Lance! Corre aqui, primo!
      No me largars? Estou sufocando!  dizia o homem revolvendo-se.  Ah! So dois contra mim  acrescentou ele vendo chegar Joo-Pequeno;  no  preciso... 
estou morrendo!...  Ar, por piedade, ar!...
     William ergueu-se.
      Com todos os diabos!  o fantasma de h pouco, com o seu capote branco de pele de cabra!  exclamou Joo-Pequeno.  Tu no estavas deitado ali perto, entre 
duas grandes rvores, num monte de folhas?
      Estava.
      Foste tu que andaste perseguindo uma moa?  perguntou-lhe Joo-Pequeno.
      Foste tu que abateste o mais valente dos cachorros?  acrescentou Will.
      No, no, meus bons senhores; por piedade, socorram-me, estou morrendo!
      E acabas de matar um homem que imaginou ver em ti um fantasma, o fantasma de uma Annette...  tornou Will.
      Annette? Annette? Ah! sim, recordo-me de Annette... Foi Ritson quem a matou; eu estava disfarado em padre, fui eu que os casei.
      Est delirando  pensaram os dois primos, que no podiam entender o sentido destas ltimas palavras.
      Por piedade, senhores, levem-me daqui! A terra  to dura!
      Dize-nos antes quem te ps nesse estado.
      Foram os lobos  respondeu o miservel, que mau grado os estertores da agonia no perdia o sentido;  foram os lobos, senhores; eles devoraram-me todo um 
lado da cabea, rasgaram-me os membros  dentada; eu perdi-me na floresta, e como j no comia h dois dias no tive foras Para me defender. Tenham piedade, meus 
bons senhores!
       um fora da lei  disse Joo-Pequeno ao ouvido e Will;  foi ele que perseguiu miss Mariana e abriu a cabea de Lance; foi ele que Gilberto encheu de pancadas. 
Sempre me pareceu que ele no havia de andar longe, e que o encontraramos por aqui ao romper do dia. E j que no correu, eu o levarei  presena do xerife.
     E sem mais se preocuparem com os gemidos do bandido, os dois primos voltaram para junto de Gilberto.
     Pouco a pouco Gilberto recobrara os sentidos; declarou-se perfeitamente capaz de alcanar a p o seu domiclio, e ps-se a caminho, amparado de cada lado por 
um dos rapazes.
     A alguns passos de casa deteve-se para escutar um rudo lgubre que se erguia nos ares, e estremecendo disse:
       Lance; no pode ser seno o seu ltimo grito de dor!
      nimo, bom Gilberto! Estamos chegados; eis a senhora Margarida que te est esperando  porta, com uma candeia nas mos;  coragem!
     Pela segunda vez os uivos do cachorro atravessaram o espao, e Gilberto ia outra vez perder os sentidos quando Margarida, precipitando-se ao seu encontro, o 
amparou e arrastou para o interior da casa.
     Uma hora depois Gilberto, quase calmo, dizia brandamente aos seus jovens amigos:
      Meus filhos, talvez mais tarde eu tenha foras para vos contar a histria dessa alma penada que vimos errar l longe.
      Uma alma penada!  exclamou Will soltando uma grossa gargalhada.  Ah! ah! Conhecemo-la bem, essa alma penada.
      Silncio, primo!  ordenou severamente Joo-Pequeno.
      No, vs no a conheceis, sois muito novos  tornou Gilberto.
      O que eu queria dizer  que encontramos o proscrito que tu to bem desancaste  pranchada.
      O qu! Encontraram-no?
      Encontramos, e quase morto.
      Deus lhe perdoe!
      Sim, e o diabo que o carregue!  acrescentou Will.
      Silncio, primo!
      Antes de regressardes ao solar, podeis prestar-me um grande servio, meus filhos  tornou Gilberto.
      Fala, amigo.
      Nesta casa h um defunto, ajudai-nos a enterr-lo.
      Estamos s tuas ordens, bom Gilberto  respondeu William;  temos bons braos, e no tememos os mortos, nem os vivos, nem os fantasmas.
      Que  isso, primo!
      Pronto, j me calo  murmurou Will de muito mau humor.
     Ele no compreendia, como Joo-Pequeno, que as aluses ao fantasma acordavam as angstias e as dores do velho guarda florestal.
      frente o padre Eldred rezando as suas oraes, em seguida Joo-Pequeno e Lincoln carregando o cadver numa padiola, depois Margarida e Gilberto, este ltimo 
retendo os soluos para no provocar os da esposa, e Margarida chorando silenciosamente sob o seu capuz de burel, e por fim William Escarlate, tal era a ordem do 
cortejo que  meia-noite se encaminhava para as duas rvores, junto s quais o amante e assassino de Annette solicitara a graa de ser enterrado.
     Gilberto e sua mulher ficaram ajoelhados durante todo o tempo em que os vigorosos braos de Lincoln e Joo-Pequeno estiveram cavando a sepultura.
     Ainda no haviam cavado a metade quando Will, que ficara vigiando as proximidades, com o arco retesado numa das mos e a adaga na outra, veio dizer ao ouvido 
do primo:
      Talvez no fosse mau alargar um pouco esse buraco e enterrar mais algum na companhia desse homem.
      Que queres dizer, primo?
      Quero dizer que aquele que pretendia ter sido atacado pelos lobos, e que ns abandonamos em muito mau estado a poucos passos daqui, est tambm morto e bem 
morto. Vai perto dele e chega-lhe com o p, vers se ele se queixa.
     As ltimas pazadas de terra tombavam j sobre os corpos dos dois bandidos, quando pela terceira vez os uivos do cachorro ressoaram atravs da floresta.
      Lance, meu pobre Lance, agora  a tua vez!  gemeu o guarda florestal.  No entrarei em casa sem te ter ido socorrer.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
X



     EXATAMENTE como dissera Maude, o exaltado baro seguido de seis homens de armas dirigira-se ao calabouo de Allan Clare. O preso desaparecera!
      Ah! Ah!  riu ele como um tigre, se por acaso os tigres podem rir;  Ah! Ah! As minhas ordens so admiravelmente obedecidas; na verdade estou encantado! Mas 
para que servem ento os meus carcereiros e o meu torreo? Por Santa Griselda! Doravante exercerei sem eles os meus direitos de alta e baixa justia, e mandarei 
encerrar os meus prisioneiros no viveiro de pssaros da minha filha... Egberto Lanner, o carcereiro, onde est ele?
      Ei-lo aqui, monsenhor  respondeu um soldado;  segurei-o bem para que no fugisse.
      Pois se ele tivesse fugido eu te mandaria enforcar em seu lugar... Aproxima-te, Egberto. Ests vendo a porta deste calabouo? Ela est fechada. Ests vendo 
este postigo?  bem estreito. Pois bem: poders dizer-me como o prisioneiro, que no  nem bastante fino de corpo para passar atravs dessa abertura, nem to sutil 
como o ar para se evaporar atravs do buraco da fechadura, poders dizer-me como ele se arranjou para fugir?
     Egberto, mais morto do que vivo guardou silncio.
      Poders dizer-me em troca de que vil interesse ajudaste a evaso desse criminoso? Pergunto-te isto sem clera, responde-me portanto sem temor. Eu sou bom 
 justo, e se confessares a tua culpa talvez eu venha a perdoar-te...
     O baro fingia-se de generoso em pura perda; Egberto tinha demasiada experincia para acreditar na sua sinceridade, e sempre mais morto do que vivo continuou 
mantendo-se em silncio.
      Ah! Estpidos escravos que sois!  berrou de repente Fitz-Alwine;  aposto que nenhum de vs teve a idia  de avisar o porteiro do castelo do que se estava 
passando! Depressa, depressa, v um de vs levar da minha parte a Herbert Lindsay a ordem de descer a ponte levadia e fechar todas as portas.
     Um soldado partiu imediatamente a correr, mas extraviou-se pelos escuros corredores do subterrneo e caiu de cabea para baixo do alto de uma escada. A queda 
foi mortal mas ningum se apercebeu disso, e os fugitivos puderam sair do castelo graas a essa catstrofe ignorada.
      Milorde  disse um dos homens de armas,  quando vnhamos para aqui tive a impresso de avistar os reflexos de uma tocha na extremidade da galeria que leva 
 capela.
      E esperaste at agora para me dizer isso?  gritou o baro.  Ah! Juraram fazer-me morrer a fogo lento, os bandidos! Mas ho de morrer antes de mim  acrescentou 
sufocado pela clera;  sim, morrereis primeiro do que eu, e hei de inventar para vs um suplcio terrvel se no conseguir agarrar esse biltre que Egberto vai desde 
j substituir no patbulo.
     Acabando de dizer essas palavras, Fitz-Alwine arrebatou uma tocha das mos de um soldado e precipitou-se na direo da capela. Christabel, de p diante do tmulo 
de sua me, parecia imersa na mais profunda e triste meditao.
      Procurai por todos os cantos e recantos, trazei-mo morto ou vivo!  declarou o baro.
     Os soldados obedeceram.
      E tu, minha filha, que ests fazendo aqui?
      Estou rezando, meu pai.
      Rezando talvez por um miservel que outra coisa no merece seno a corda da forca?
      Rezo por meu pai diante do tmulo de minha me; no estais vendo?
      Onde est o teu cmplice?
      Que cmplice? 
      Esse traidor, esse Allan.
      No sei.
      Enganas-me; ele est aqui.
      Nunca vos enganei, meu pai. 
     O baro sondou com o olhar o plido rosto da filha.
      No encontramos nem um nem outro  veio dizer um dos soldados.
      Nem um nem outro?  repetiu Fitz-Alwine que comeava a desconfiar da fuga de Robin.
      Sim senhor, nem um nem outro. No  dos dois presos evadidos que se trata?
     Exasperado, por ver Robin escapar-lhe, o insolente Robin que to atrevidamente o enfrentara, e do qual esperava obter mais tarde pela tortura certas informaes 
a respeito de Allan, o baro desceu a larga manopla sobre o ombro do indiscreto soldado e disse-lhe:
      Com que ento nem um nem outro? Explica-me o significado dessas quatro palavras.
     O soldado tremia de susto sob a violenta presso daquela mo e no sabia o que responder.
      Em primeiro lugar, quem s tu?
      Se Vossa Senhoria permite, chamo-me Gaspar Steinkorf eu estava de sentinela na muralha...
      Miservel!  atalhou o baro;  eras ento tu que estavas de guarda atrs da porta do calabouo do pequeno lobo de Sherwood? No me digas que o deixaste fugir, 
porque seno cravo-te um punhal no peito.
     Vamos agora abster-nos de registrar as inumerveis gradaes da clera do baro; contentem-se os nossos leitores em saber que a clera se tornara nele uma espcie 
de necessidade, de hbito, e que ele deixaria de respirar no momento em que deixasse de se encolerizar.
      Admites ento que ele fugiu enquanto estavas de sentinela na muralha de leste?  volveu o baro aps um instante de silncio.  Vamos, responde-me!
      Milorde acaba de me ameaar com o seu punhal se eu confessar  respondeu o pobre diabo.
      E no h dvida de que executarei a minha ameaa.
      Nesse caso silencio.
     O baro ergueu o punhal sobre o desgraado, quando Christabel lhe reteve o brao, gritando:
      Ah, meu pai! Conjuro-vos a que no ensanguenteis este tmulo!
     A splica foi escutada; o baro empurrou bruscamente Gaspar, guardou o punhal e disse  jovem num tom severo:
      Volte para o seu quarto, milady; e vs outros, montai a cavalo e correi  estrada de Mansfeldwoohaus; os fugitivos devem ter tomado essa direo, podereis 
agarr-los facilmente. Quero-os aqui, necessito deles a qualquer preo, entendeis? Quero-os aqui!
     Os homens de armas obedeceram, e Christabel ia afastar-se quando Maude entrou na capela, correu ao encontro de sua ama, e pondo um dedo sobre os lbios disse 
a meia voz: 
      Salvos! salvos!
     A jovem lady juntou piedosamente as mos para agradecer a Deus e retirou-se seguida de Maude.
      Pare!  gritou o baro que ouvira o murmrio da camareira.  Senhorita Herbert Lindsay, gostaria de confabular um momento consigo.  Ento, aproxime-se! Receia 
acaso que eu a devore?
      No sei,  respondeu Maude apavorada;  mas monsenhor parece-me to encolerizado, to furioso que no me atrevo.
      Senhorita Herbert Lindsay, conheo muito bem a sua astcia e sei que no  pessoa para se assustar com um simples franzir de sobrolho. Contudo, se assim o 
quiser f-la-ei tremer realmente, e acho prefervel que o no queira... Ora diga-me: quem  que est salvo? Eu ouvi as suas palavras, minha gentil desavergonhada!
      Eu no disse que algum estava salvo, monsenhor  respondeu Maude brincando com ar de candura com as largas mangas do seu vestido.
      Ah! No disse ento que algum se tinha salvo, graciosa comediante! Disse talvez que eles se tinham salvo: no um, mas vrios!
     A camareira abanou a cabea em sinal negativo.
      Oh! Que mentirosa, que mentirosa apanhada em flagrante delito!
     Maude encarou fixamente o baro e afetou um ar de perfeita imbecilidade, como se no tivesse compreendido o que significavam aquelas palavras de flagrante delito.
      Eu no me deixo iludir pela tua fingida estupidez  prosseguiu o baro.  Sei muito bem que favoreceste a fuga dos meus prisioneiros; mas no cantes vitria, 
eles no esto ainda to afastados do castelo que os meus homens no os possam agarrar, e veremos dentro de uma hora se os impedes de serem amarrados um ao outro 
pelas costas, e jogados s fossas do alto das muralhas.
      Para os amarrar de costas um ao outro, monsenhor, e preciso primeiro traz-los aqui  respondeu Maude sempre com uma aparente ingenuidade que os seus olhos 
cintilantes de malcia desmentiam.
      E antes de os fazer mergulhar nas fossas eles tero que confessar tudo; e se ficar provado que participaste da conspirao, cuidaremos ento de te fazer tremer 
um pouco, senhorita Herbert Lindsay.
      Como for do agrado de monsenhor.
      Mas no h de ser de muito do teu... hs de ver!
      Por So Valentim, monsenhor! Eu ficaria bem contente, se fosse antecipadamente informada dos seus propsitos a meu respeito; ao menos teria tempo para me 
preparar  acrescentou ela com uma reverncia.
      Insolente!
      Milady  tornou a camareira num tom perfeitamente calmo, e aproximando-se da ama que na sua imobilidade parecia uma esttua da dor;  milady, se quiser ouvir 
o meu conselho. Vossa Honra dever voltar ao seu quarto; a noite est esfriando...  Vossa Honra no tem gota... mas...
     O irascvel baro, desarmado por to irritante sangue frio, interrompeu a camareira e perguntou-lhe mais uma vez a quem ela queria referir-se quando dissera: 
Salvos! Salvos!
     Essa pergunta foi feita quase com serenidade, e Maude compreendeu que j era tempo de responder de um modo ou de outro; assim, declarou como vencida pela persistncia 
do baro:
      Vou dizer-lho, monsenhor, visto que o exige. Sim, eu pronunciei as palavras: Ele est salvo!, e pronunciei-as em voz baixa, para no mostrar emoo diante 
dos vossos homens de armas. Mas muito esperto seria quem pudesse ocultar-vos alguma coisa, monsenhor. Eu disse portanto a milady: Ele est salvo! e queria referir-me 
a Egberto, o pobre chaveiro, que tnheis a inteno de enforcar, monsenhor, e que no haveis enforcado, louvado seja Deus!  acrescentou Maude desfazendo-se em lgrimas.
      Essa  muito boa!  explodiu o baro.  Tomas-me ento por algum idiota, Maude? Ah! Ah!  um absurdo e ests abusando da minha pacincia! Pois bem! Egberto 
ser enforcado, e visto que o amas sers enforcada juntamente com ele!
      Mil agradecimentos, monsenhor  replicou a camareira desatando a rir; e girando nos calcanhares aps uma reverncia, correu a juntar-se a Christabel que acabava 
de sair da capela.
     Lorde Fitz-Alwine saiu atrs de Maude improvisando um monlogo repleto de objurgaes contra a astcia das mulheres. A risonha insolncia de Maude exaltara 
os instintos ferozes do baro, que no sabia como nem sobre quem descarregar a sua clera; teria dado metade da sua fortuna para que ali mesmo lhe entregassem Allan 
e Robin; e para matar o tempo que devia decorrer at o regresso dos soldados que mandara em perseguio dos fugitivos, o baro resolveu ir dar expanso ao seu mau 
humor na companhia de lady Christabel.
     Maude, percebendo que o baro vinha no seu encalo temerosa de alguma violncia ps-se a caminhar mais depressa com a tocha, de modo que ele se encontrou de 
repente mergulhado na mais profunda escurido e proferiu uma nova srie de maldies contra Maude e contra o universo inteiro.
      Troveja, troveja, baro!  dizia Maude consigo afastando-se; mas sendo mais travessa que maldosa, a moa tomou-se de remorsos ao pensar naquele velho enfermo 
que assim abandonava por aqueles negros corredores; parou com a impresso de estar ouvindo gritos de aflio.
      Socorro! Socorro!  bradava uma voz surda e afogada.
      Parece-me reconhecer a voz do baro  disse Maude voltando resolutamente atrs.  Onde est monsenhor?  perguntou ela em voz alta.
      Aqui malvada, aqui!  respondeu Fitz-Alwine, cuja voz parecia vir das profundezas da terra.
      Deus do cu! Como  que o senhor foi parar a?  gritou Maude detendo-se no alto da escada; e  luz da tocha a jovem avistou o baro estatelado nos degraus 
e detido na sua queda por qualquer coisa que lhe barrara a passagem.
     O furibundo senhor havia-se enganado no caminho, exatamente como o infeliz soldado que se matara indo ordenar o fechamento das portas do castelo; mas graas 
 couraa que sempre trazia por baixo do gibo, o baro escorregara por cima dos degraus sem se ferir, e seus ps tinham achado um ponto de apoio contra o cadver 
do soldado.
     Essa queda produziu na clera do castelo o efeito que produz a chuva numa grande ventania.
      Maude  comeou ele erguendo-se com dificuldade, ajudado pela mo da jovem,  Maude, Deus te castigar por me haverdes faltado ao respeito, deixando-me sem 
luz nesta escurido.
      Perdo, monsenhor; eu ia ao encontro de milady, e pensei que um dos vossos soldados vos acompanhasse com uma tocha. Louvado seja Deus! Estais so e salvo, 
a providncia no permitiu que o nosso bom senhor nos fosse arrebatado... Encoste-se ao meu brao, monsenhor!
      Maude  prosseguiu o baro guardando-se de retomar suas atitudes de louco furioso enquanto o auxlio da camareira lhe era necessrio,  no deixes de me lembrar 
que o bbedo adormecido na escada do subterrneo deve ser acordado com cinqenta chicotadas.
      Fique tranqilo, monsenhor, no o esquecerei.
     Estavam ambos longe de pensar que esse bbedo no passasse de um cadver; a luz vacilante da tocha iluminava muito pouco, e o baro estava excessivamente preocupado 
com o acidente acontecido  sua preciosa pessoa para notar que os degraus da escada no estavam manchados de vinho, mas de sangue.
      Onde vamos, monsenhor?  perguntou Maude.
      Ao quarto de minha filha.
      Ah! Pobre milady!  pensou a camareira,  ele vai recomear a tortur-la quando se sentir  vontade numa boa poltrona.
     Sentada a uma pequena mesa iluminada por uma lmpada de bronze, Christabel contemplava atentamente um pequeno objeto colocado na concha da sua mo; e esse objeto 
escondeu-o ao perceber a entrada do baro.
      Que ninharia  essa que acabas de subtrair to lestamente aos meus olhos?  perguntou o baro sentando-se na poltrona mais confortvel do aposento.
      Bem, l comea ele  murmurou Maude.
      Que ests dizendo, Maude?
      Digo, monsenhor que me pareceis estar sofrendo grandes dores.
     O desconfiado baro lanou  filha um olhar cheio de clera.
      Responde, minha filha:  que ninharia  essa?
      No  uma ninharia, meu pai.
      No pode ser outra coisa.
      Nesse caso as nossas opinies no so as mesmas  respondeu Christabel esforando-se por sorrir.
      Uma boa filha no tem opinies que no sejam as de seu pai.  Que ninharia  essa?
      Juro-lhe que no se trata de uma ninharia.
      Minha filha  prosseguiu o baro numa voz excepcionalmente calma, mas muito severa,  minha filha, se o objeto que acabas de subtrair aos meus olhos se no 
relaciona com alguma falta cometida, ou te no evoca alguma recordao censurvel, mostra-mo; eu sou teu pai, e como tal devo zelar pela tua conduta; se ao contrrio 
 uma espcie de talism, e se tens de corar da sua posse, mostra-mo tambm. Alm de direitos, tenho deveres a cumprir: impedir-te de cair no abismo se estiveres 
caminhando  beira dele, retirar-te de l se j tiveres cado. Mais uma vez, minha filha, te pergunto o que  que ests escondendo no corpete.
       um retrato, milorde  respondeu a jovem, trmula e vermelha de emoo.
      E de quem  esse retrato? 
     Christabel baixou os olhos sem responder.
      No abuses da minha pacincia... j tenho tido hoje muita, mas no abuses mais.  Responde,  o retrato de...
      No vo-lo posso dizer, meu pai.
     As lgrimas afogaram a voz de Christabel, mas logo ela prosseguiu num tom mais firme:
      Sim, meu pai, tendes o direito de me interrogar, mas ousarei atribuir-me o de no vos responder, porque a minha conscincia de nada me acusa que seja contrrio 
 minha dignidade ou  vossa.
      Ora! A tua conscincia de nada te acusa porque est de acordo com os teus sentimentos;  muito bonito e muito moral o que me dizes, minha filha.
      Dignai-vos acreditar-me, meu pai; eu jamais desonraria o vosso nome; demasiado me recordo de minha pobre e santa me.
      O que pretende significar que eu sou um endurecido patife... Sim,  o que se convencionou h muito tempo  rugiu o baro;  mas no consinto que o digam na 
minha presena.
      Meu pai, eu no quis dizer isso!
      Pensaste-lo ento. Enfim, incomodo-me muito pouco com a preciosa relquia que com tanta persistncia me escondes;  o retrato do malfadado indivduo a quem 
amas contra a minha vontade, e j tive demasiadas ocasies de ver a sua diablica fisionomia. Agora presta boa ateno ao que te digo, Lady Christabel: jamais casars 
com Allan Clare; matar-vos-ei a ambos pela minha prpria mo antes de consentir nisso, e hs de ser a esposa de sir Tristo de Goldsborough... Ele no  moo, admito, 
mas tem alguns anos menos do que eu, e no me considero to velho assim... No  bonito, tambm concordo; mas quando  que a beleza trouxe a felicidade ao lar? Eu 
no era bonito, e contudo milady Fitz-Alwine no me trocaria pelo mais brilhante cavaleiro da corte de Henrique II. Alm disso a feira de Tristo de Goldsborough 
 uma slida garantia da tua futura tranqilidade... No te ser infiel; fica tambm sabendo que ele  imensamente rico e muito influente na corte. Numa palavra, 
 exatamente o homem que me... que te convm sob todos os aspectos, amanh lhe enviarei o teu consentimento; dentro de quatro dias ele vir pessoalmente agradecer-te, 
e antes do fim da semana sers uma grande dama.
      Nunca me casarei com esse homem, milorde  exclamou a jovem;  Nunca! Nunca!
     O baro desatou a rir. 
      Ningum vos pede o vosso consentimento,  milady, mas cuidaremos de vos fazer obedecer.
     Christabel, at ento plida como uma morta, enrubesceu e apertando convulsivamente as mos uma contra a outra pareceu tomar uma determinao irrevogvel.
      Deixo-te com as tuas reflexes, minha filha  prosseguiu o baro,  se achas que vale a pena refletir. Mas lembra-te bem disto: quero, exijo da tua parte 
uma obedincia inteira, passiva, absoluta.
      Meu Deus! Meu Deus! Tende piedade de mim!  gemeu doridamente Christabel.
     O baro retirou-se encolhendo os ombros.
     Durante uma hora inteira, Fitz-Alwine percorreu em largas passadas o seu quarto, meditando nos sucessos da noite.
     As ameaas de Allan Clare preocupavam-no e a vontade da filha parecia-lhe indomvel.
      Faria talvez melhor  dizia ele consigo,  tratando esta questo do casamento com brandura. Afinal de contas amo essa criana;  minha filha,  o meu sangue; 
no quero que ela se considere uma vtima das minhas exigncias; desejo que seja feliz, mas quero tambm que se case com o meu velho amigo Tristo, antigo companheiro 
de armas. Vejamos, tentarei convenc-la com bons modos.
     Alcanando a porta de Christabel o baro deteve-se e um soluo desgarrador lhe chegou aos ouvidos.
      Pobre menina  pensou o baro abrindo devagar a porta do quarto.
     A moa escrevia.
      Ah! Ah!  disse consigo o baro, que mal compreendia porque a filha aprendera a habilidade da escrita, reservada nesse tempo apenas ao clero.  Foi ainda 
esse idiota do Allan Clare quem lhe meteu na cabea aprender a rabiscar papel.
     E Fitz-Alwine aproximou-se em silncio da mesa.
      A quem est escrevendo, senhorita?  perguntou ele com uma viva irritao na voz.
     Christabel soltou um grito e quis esconder o papel no mesmo lugar onde j escondera o retrato; porm, mais rpido, o baro apoderou-se dele. Transtornada e 
esquecendo que o seu nobre pai jamais se dera ao trabalho de abrir um livro ou de pegar numa pena, e que por conseqncia no sabia ler a moa quis fugir do quarto; 
mas o baro segurou-a pelo brao e erguendo-o como uma pena reteve-a junto de si e Christabel desmaiou. Com os olhos reluzindo de furor o baro tentou decifrar os 
caracteres traados pela mo da filha mas no podendo consegui-lo deu com o olhar no rosto descorado da pobre jovem, que se apoiava inanimada contra o seu peito.
      Oh! As mulheres! As mulheres!  vociferava o baro arrastando Christabel para cima da cama.
     Feito isso, Fitz-Alwine abriu a porta e chamou com voz retumbante:
      Maude! Maude!
     A camareira apareceu.
      Despe a tua ama!
     E o baro retirou-se resmungando.
      Estou sozinha consigo, milady  disse Maude reanimando a sua jovem senhora;  nada tema.
     Christabel abriu os olhos e passeou em redor de si um olhar desvairado; mas no vendo ao p da sua cama outra pessoa alm da sua fiel criada, atirou-lhe os 
braos ao pescoo gritando:
      Oh! Maude, Maude! Estou perdida!
      Querida ama, confie-me os seus pesares!
      Meu pai acaba de apoderar-se de uma carta que eu estava escrevendo a Allan.
      Mas lembre-se de que o seu nobre pai no sabe ler, minha querida senhora.
      No importa. Ele mandar ler essa carta pelo seu confessor, sem dvida.
      Sim, mas para isso  preciso que lhe demos tempo. D-me depressa um outro papel, um papel cuja forma seja igual  do que ele lhe roubou.
      Aqui est, esta folha avulsa tem algumas anotaes...
      Fique sossegada, milady, e enxugue os seus lindos olhos; as lgrimas empanam-lhe o brilho.
     A audaciosa Maude irrompeu no quarto do baro justamente no instante em que ele se acomodava para ouvir o venervel confessor, o qual j tinha nas mos, para 
ler, a carta de Christabel a Allan.
      Monsenhor  atalhou Maude vivamente,  minha ama manda pedir o papel que Vossa Senhoria tomou da sua mesa.
     Assim dizendo a jovem acercou-se do confessor com ademanes de gata.
      Minha filha est louca, por So Dunstam! Como ousa ela encarregar-te de semelhante mensagem?
      Perfeitamente, monsenhor, e essa mensagem ei-la cumprida!  disse Maude apoderando-se agilmente do papel que o padre colocara j na ponta do nariz, para melhor 
decifrar a letra.
      Atrevida!  berrou o baro correndo no encalo de Maude.
     A moa pulou como uma cora at  porta, mas na soleira deixou-se alcanar.
      Devolve-me esse papel, ou estrangulo-te!
     Maude baixou a cabea, parecendo tremer de susto, e o baro arrancou-lhe de uma das algibeiras do avental, onde ela enfiara as duas mos, um papel em tudo semelhante 
quele que o confessor devia decifrar.
      Merecias um par de bofetadas, menina estpida!  Tornou o baro erguendo uma das mos para Maude, e estendendo com a outra o desejado papel ao sacerdote.
      No fiz mais do que obedecer s ordens de minha ama.
      Est bem! Dize a minha filha que ela receber o castigo das tuas insolncias.
      Sado humildemente monsenhor  volveu Maude acrescentando s suas palavras uma das reverncias mais irnicas.
     Encantada com o xito do seu estratagema, a camareira entrou alegremente no quarto da ama.
      Vejamos, meu padre, agora estamos sozinhos e sossegados; lede-me o que minha indigna filha escreveu a esse maroto Allan Clare.
     O padre comeou com voz fanhosa:
     
     Quando o inverno menos rigoroso permite que as violetas se
     abram, Quando as flores desabrocham e as campainhas brancas
     anunciam a primavera, Quando o teu corao anseia por meigos olhares e meigas
     palavras, Quando sorris de alegria, pensas em mim, meu amor?
     
      Que  que me est lendo a, meu padre?  interrompeu o baro;  tolices, Deus me condene!
      Estou lendo, palavra por palavra, o que se contm neste papel, meu filho; deseja que eu continue?
      Naturalmente, meu padre; mas parece-me que minha filha anda preocupada demais para no escrever outra coisa alm de uma cano idiota.
     O sacerdote prosseguiu na leitura:
     
     Quando a primavera cobre a terra de rosas perfumadas, 
     Quando o sol sorri nos altos cus, 
     Quando os jasmins florescem nas sacadas, 
     Envias a quem te ama um pensamento de amor?
     
      Diabos me levem!  gritou o baro;  e chamam a isso versos! Haver ainda muitos, meu padre?
      Algumas poucas linhas e mais nada.
      Procure bem, veja do outro lado.
      Quando o outono...
      Chega! Chega! A romana passa em revista as quatro estaes; no  preciso mais.
     Contudo o velho prosseguiu:
     
     Quando as folhas cadas juncam a relva, 
     Quando o cu est coberto de nuvens, 
     Quando a geada e a neve tombam, 
     Pensas em quem te ama, meu amor?
     
      Meu amor! Meu amor!  repetiu o baro.  No  possvel, Christabel no estava escrevendo essa cano quando a surpreendi! Fui enganado, e bem enganado; mas 
por So Pedro, no h de ser por muito tempo! Meu padre, eu gostaria de ficar sozinho; boa-noite, durma bem.
      Que a paz seja convosco, meu filho  disse o padre retirando-se.
     Deixemos o baro ruminar os seus planos de vingana e voltemos para junto de Christabel e da esperta Maude.
     A jovem lady escrevia a Allan que estava pronta a abandonar a casa de seu pai, e que os projetos do baro relativos ao seu casamento com Tristo Goldsborough 
tornavam necessria essa cruel determinao.
      Eu me encarrego de fazer chegar essa carta ao senhor Allan  disse Maude recebendo a missiva.
     E com esse intuito foi acordar um rapaz de dezesseis para dezessete anos, seu irmo colao.
      Halbert  disse-lhe ela,  queres prestar-me um grande servio, isto , a lady Christabel?
      Com todo o prazer  respondeu o rapaz.
      Previno-te desde j que h alguns perigos a correr.
      Tanto melhor, Maude.
      Posso ento confiar em ti?  acrescentou Maude pasmando um dos braos em torno do pescoo do jovem e olhando-o fixamente nos belos olhos cor da noite.
      Confiana como em Deus  volveu o moo ingenuamente presunoso;  como em Deus, querida Maude.
      Oh! Eu bem sabia que podia contar contigo, caro irmo; fico-te muito reconhecida.
      De que se trata?
      Trata-se de te levantares, de te vestires e de montares logo em seguida a cavalo.
      Nada mais fcil.
      Mas precisas levar o melhor corredor da cocheira.
      Nada mais fcil tambm. Minha gua, que tem o teu lindo nome, Maude,  a primeira trotadora do condado.
      Sei disso, meu rapaz. Despacha-te, e quando estiverdes pronto vem ter comigo ao ptio que precede a ponte levadia; l te esperarei.
     Dez minutos depois, Halbert, segurando a montada pela brida, ouvia atentamente as instrues da esperta camareira.
      Ters  dizia ela,  de atravessar a cidade e uma parte da floresta, e de l irs ter a uma casa situada poucas milhas antes do burgo de Mansfeldwoohaus. 
Nessa casa mora um guarda florestal chamado Gilberto Head; d-lhe a carta, pedindo-lhe que a envie ao senhor Allan Clare; tambm entregars ao filho do guarda, Robin 
Hood, este arco e estas flechas que lhe pertencem. Eis as minhas instrues; compreendeste-las bem?
      Perfeitamente, minha linda Maude  respondeu o moo;  no tens outras ordens a dar-me?
      No. Ah! Sim, esquecia-me... Dirs a esse Robin Hood, dono do arco e das flechas, dir-lhe-s... que tentaremos comunicar-lhe o momento em que ele poder vir 
ao castelo sem correr perigo, porque h aqui uma pessoa que espera impacientemente a sua volta...  Compreendes, Hal?
      Sim, compreendo.
      Faze de modo a evitar um encontro com os soldados do baro.
      Por que devo evit-los, Maude?
      Dir-te-ei porque quando voltares, e se a fatalidade te lanar na mesma rota, inventa um pretexto para justificar esse passeio noturno, e em caso algum lhes 
fales do motivo da tua viagem.  E agora no te detenhas mais, meu valente corao!
     Halbert tinha j o p no estribo quando Maude acrescentou:
      Mas se encontrares no caminho trs homens, dos quais um  frade...
      Frei Tuck, no  verdade?
      Justamente; nesse caso no precisars ir mais alm; seus dois companheiros so Allan Clare e Robin Hood; cumprirs imediatamente os teus encargos e regressars 
a toda a pressa. Vamos, a caminho! No deixes de responder a meu pai, quando ele te perguntar o motivo porque vais sair do castelo, que tens de ir  cidade em busca 
de um mdico para lady Christabel que est doente. Adeus, Hal, adeus! Direi a graa May que s o mais gentil e corajoso de todos os rapazes de Christendon.
       verdade, Maude?  volveu Halbert acomodando-se na sela.  Ters a bondade de dizer isso a Graa?
      Sem dvida, e ainda lhe pedirei mais que te pague ela mesma todos os beijos que te devo pelo servio que me prestas.
      Hurra! Hurra!  bradou o moo esporeando a sua gua;  Hurra por Maude! Hurra por Graa!
     A ponte levadia baixou, Hal desceu a colina a galope, e mais leve que a andorinha Maude correu para o quarto de lady Christabel a fim de lhe anunciar alegremente 
a partida do mensageiro.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XI



     A NOITE estava calma e serena, a luz do luar inundava a floresta e os nossos trs fugitivos atravessavam rapidamente as zonas alternadamente escuras e luminosas 
das clareiras e dos cerrados bosques.
     O despreocupado Robin enviava aos ecos estribilhos de baladas de amor; Allan Clare, triste e silencioso, deplorava os resultados da sua visita ao castelo de 
Nottingham, e o frade fazia reflexes melanclicas sobre a indiferena de Maude a seu respeito e a graciosidade das suas atenes para com o jovem arqueiro.
      Pelo santo Miserere!  murmurava surdamente o frade,  parece-me contudo que sou um belo homem, bem conformado e de boa aparncia, corno j me tm dito, muitas 
vezes, porque ento mudou a linda Maude de parecer? Ah! Pela salvao da minha alma! Se a faceira moa me esquece por esse plido e franzino rapaz, isso s pode 
provar o seu mau gosto, e no posso perder o meu tempo a lutar contra um to insignificante rival; que o ame, pois, quanto quiser, e se o amar pouco me incomodo 
com isso!
     E o pobre frade suspirava.
      Ora!  tornou ele de repente, com a face iluminada por um sorriso de orgulho;  isso no  possvel! Maude no pode amar esse absorto que outra coisa no 
sabe seno arrulhar baladas; ela quis despertar o meu cime, pr  prova a minha confiana e deixar-me mais apaixonado do que j estou. Ah! Mulheres! Mulheres! Elas 
tm mais malcia num s cabelo do que ns homens em todos os plos da nossa barba.
     Nossos leitores talvez nos censurem por atribuir uma tal linguagem a um elemento monstico, e de lhe fazer representar o papel de um homem dado a aventuras 
e amigo dos prazeres mundanos. Mas que se transportem pelo pensamento ao tempo em que se passa a nossa histria, e compreendero que de nenhum modo temos a inteno 
de caluniar as ordens religiosas.
      Que  isso meu jovial Gil, como diz a formosa Maude  exclamou Robin;  em que pensa Vossa Reverncia? Parece to triste como uma orao fnebre!
      Os favoritos de...  da sorte tm o direito de ser alegres, senhor Robin  respondeu o frade;  mas os que so vtimas dos seus caprichos tm tambm o direito 
de ser tristes.
      Se chamais favores da sorte aos generosos olhares, aos brilhantes sorrisos, s meigas palavras e ao ternos beijos de uma linda moa  volveu Robin,  posso 
realmente gabar-me de ser muito rico; mas vs, frei Tuck, que fizsteis voto de pobreza, podeis dizer-me a que propsito vos julgais maltratado pela caprichosa deusa?
      Finges ignor-lo, meu rapaz?
      E sinceramente o ignoro. Mas pensando melhor, ser que Maude intervm de algum modo na vossa tristeza? Oh, no,  impossvel! Vs sois seu pai espiritual, 
seu confessor e nada mais... no  isto verdade?
      Mostra-nos o caminho da tua casa  replicou o outro num tom aborrecido,  e deixa de me falar sem tom nem som como um verdadeiro estouvado que s.
      No nos zanguemos, meu bom Tuck  disse Robin com ar contrito.  Se o ofendi foi sem querer, e se  por causa de Maude foi ainda contra a minha vontade, porque 
eu lhe juro pela minha honra que no amo Maude, e que antes de ver Maude hoje pela primeira vez, j tinha dado o meu corao a uma jovem...
     O monge voltou-se para o rapaz e apertou-lhe afetuosamente a mo, dizendo-lhe a sorrir:
      Tu em nada me ofendeste, caro Robin,  que eu fiquei triste assim, de repente e sem razo. Maude no tem qualquer Influncia sobre o meu carter ou sobre 
o meu corao;  apenas uma risonha e encantadora moa; casa-te com ela quando estiveres em idade de o fazer, e sers feliz... Mas ests bem certo de que o teu corao 
j te no pertence?
      Certo, certssimo... dei-o para sempre. 
     O frade tornou a sorrir.
      Se vos conduzo a casa de meu pai pelo caminho mais curto  tornou Robin aps um instante de mtuo silncio,  para evitar os soldados que o baro sem dvida 
mandou em nossa perseguio logo que se deu conta da nossa fuga.
      Pensas como um sbio e ages como uma raposa, mestre Robin  disse o frade  ou eu no conheo mais esse velho fanfarro da Palestina, ou antes de uma hora 
ele estar nos nossos calcanhares com um bando de estpidos besteiros.
     Nossos trs amigos, j exaustos de fadiga, iam atravessar uma vasta encruzilhada, quando  luz do luar, avistaram um cavaleiro descendo a toda a brida a rpida 
vertente de um atalho.
      Escondei-vos atrs destas rvores, meus amigos  disse vivamente Robin;  eu vou travar conhecimento com esse viajante.
     Armado do bordo de Tuck, Robin postou-se de maneira a atrair os olhares do desconhecido; mas este nem sequer se apercebeu dele e prosseguiu na sua rota sem 
diminuir o galope do cavalo.
      Pra! Pra!  gritou Robin ao ver que o cavaleiro no passava de uma criana.
      Pra!  repetiu o monge numa voz de trovo. O cavaleiro deu meia volta e exclamou:
      Oh! Oh! Se os meus olhos no so avels, eis a o padre Tuck.  Boa-noite, padre Tuck!
      Acertaste, meu menino  respondeu o frade.  Boa-noite e dize-nos quem s.
      Como, meu padre! Ento Vossa Reverncia j se no lembra mais de Halbert, o irmo de leite de Maude, a filha de Herbert Lindsay, porteiro do castelo de Nottingham!
      Ah! s tu, bravo Hal? Agora te reconheo. E por que motivo, se fazes favor, galopas assim pela floresta j meia-noite passada?
      Posso dizer-lho porque o senhor me ajudar a cumprir a minha misso:  para entregar ao senhor Allan Clare uma carta escrita pela delicada mo de lady Christabel 
Fitz-Alwine.
      E para me entregares esse arco e essas flechas que estou vendo s tuas costas, meu rapaz  acrescentou Robin.
      A carta, onde est a carta?  perguntou Allan impaciente.
      Ah! Ah!  volveu o rapaz rindo,  J no preciso mais de perguntar o nome a cada um destes cavaleiros. Maude, a fim de estabelecer uma diferena entre os 
senhores, disse-me: Sir Allan  o mais alto, e sir Robin o mais moo; sir Allan  belo, mas sir Robin ainda o  mais. Vejo que Maude no se enganou; e vejo-o, 
apesar de ser mau juiz da beleza dos homens; bem, das mulheres no digo que no, parece-me que o sou, e Graa bem o sabe.
      A carta, tagarela; d-me a carta!  berrou Allan. Halbert lanou a esse homem um longo olhar surpreendido e disse tranquilamente:
      Bem, sir Robin, aqui est o seu arco, aqui esto as suas flechas; minha irm pede-lhe...
      Com a breca, rapaz!  gritou de novo Allan  d-me a carta, pois do contrrio arranco-ta pela fora!
      Como melhor entender, senhor  respondeu Halbert com a maior pacatez.
      Desculpa o meu arrebatamento, meu amigo  tornou Allan com brandura;  mas essa carta  to importante...
      No duvido, senhor, porque Maude me recomendou insistentemente que lha entregasse em pessoa, se o encontrasse antes de alcanar a casa de Gilberto Head.
     Assim falando Halbert vasculhava as algibeiras, virando-as de cima para baixo; por fim, aps cinco minutos de buscas fingidas, o endiabrado rapaz declarou num 
tom lamentvel e triste:
      Perdi a carta, meu Deus! Perdi a carta!
     Allan desesperado, furioso, correu sobre Hall, desmontou-o e jogou-o por terra. Felizmente o rapaz ergueu-se sem nenhum ferimento.
      Procura no cinto  gritou-lhe Robin.
      Ah, sim! Esquecia o cinto  volveu o rapaz, meio rindo e meio censurando com o olhar ao cavaleiro a sua intil brutalidade.
      Hurra! Hurra! Pela minha namorada Graa May! Aqui est a carta de lady Christabel.
     Hal segurava o papel na ponta dos dedos e erguia o brao no ar gritando hurra!, de sorte que o cavaleiro Allan foi obrigado a dar um passo em sua direo para 
se apoderar da preciosa missiva.
      E a mensagem que me  destinada, perdeste-la, moo?  perguntou Robin.
      Trago-a na ponta da lngua.
      Ento destrava a lngua, que eu estou ouvindo.
      Ei-la, palavra por palavra: Meu caro Hal,  Maude que est falando, dirs ao senhor Robin Hood que nos apressaremos a comunicar-lhe o momento em que ele 
poder vir ao castelo sem correr perigo, porque h aqui uma pessoa que espera impacientemente a sua volta.   tudo.
      E que te disse ela para mim?  perguntou por sua vez o frade.                
      Nada, meu reverendo. 
      Nem uma palavra?
      Nem uma palavra.
      Obrigado.
     E frei Tuck atirou a Robin um olhar furibundo.
     Allan sem perder um minuto quebrou a obreia da carta e ps-se a l-la  luz do luar.
     
     Querido Allan:
     Quando me suplicaste to ternamente, to eloqentemente que deixasse a casa paterna, fechei os ouvidos e repeli as tuas solicitaes, porque supunha ento 
a minha presena necessria  felicidade de meu pai, e parecia-me que ele no poderia viver sem mim.
     Mas estava cruelmente iludida.
     Senti-me como fulminada quando, aps a tua partida, ele me anunciou que no fim da semana eu seria a esposa de um outro que no o meu querido Allan.
     Minhas lgrimas e minhas splicas foram inteis. Sir Tristo de Goldsborough chegar dentro de quatro dias.
     Pois bem! Visto que meu pai quer separar-se de mim, visto que a minha presena  um fardo para ele, resolvi abandon-lo.
     Querido Allan, dei-te o meu corao, ofereo-te agora a minha mo. Maude, que vai providenciar todos os preparativos para a minha fuga, te dir como deves 
agir.
     Sou a tua
     CHRISTABEL.
     P. S.  O moo encarregado de te entregar esta carta poder facilitar-te um encontro com Maude.
     
      Robin  disse imediatamente Allan,  preciso regressar a Nottingham.
      Como assim?
      Christabel espera-me.
      Bem, isso  diferente.
      O baro Fitz-Alwine pretende cas-la com um dos seus velhos camaradas; ela s pode evitar esse casamento fugindo, e est  minha espera para fugir... Estarias 
disposto a ajudar-me nessa empresa?
      De todo o corao, amigo.
      Nesse caso vem reunir-te a mim amanh pela manh. Encontrars Maude, ou algum enviado seu, talvez este rapaz,  entrada da cidade.
      Julgo, meu caro, que seria mais avisado ir primeiro ver sua irm, a quem a sua longa ausncia muito deve preocupar, e amanh partiremos juntos ao romper do 
dia, acompanhados de alguns fortes latages cuja coragem e devotamento posso garantir; mas, silncio! Ouo o rumor de uma cavalgada.
     E Robin colou o ouvido ao cho.
      Essa cavalgada vem do lado do castelo... so soldados do baro que andam  nossa procura. Allan, e o senhor, frei Tuck, escondam-se nesse matagal; quanto 
a ti, Hal, vais-nos provar que s um digno irmo de Maude.
      E um digno apaixonado de Graa May  acrescentou o moo.
      Isso mesmo, meu rapaz. Salta para o teu cavalo, esquece que acabas de encontrar-nos, e trata de convencer esses cavaleiros de que o baro lhes ordena o imediato 
regresso ao castelo; compreendeste?
      Compreendi, fique sossegado, e que Graa May para sempre me prive da carcia dos seus olhos se eu no executar inteiramente as suas ordens!
     Halbert deu uma esporada no seu cavalo, mas no se distanciara muito quando a cavalgada lhe barrou a passagem.
      Quem vive?  perguntou o chefe de um esquadro de homens de armas.
      Halbert, novio escudeiro do castelo de Nottingham.
      Que andas fazendo pela floresta a uma hora em que quem no est de servio deve dormir em paz?
       ao senhor mesmo que estou procurando; o senhor baro enviou-me ao seu encontro para lhe dizer que regresse ao castelo a toda a velocidade; ele est impaciente 
e j o espera h uma hora.
      Monsenhor estava de mau humor quando o deixaste? 
      Sem dvida; a misso que ele vos confiou no exigia uma to longa ausncia.
      Ns corremos at ao povoado de Mansfeldwoohaus sem encontrar os fugitivos, mas ao regressar tivemos a sorte de deitar a unha a um deles.
      Realmente?  E qual consegusteis apanhar?
      Um certo Robin Hood; est ali, bem amarrado a um cavalo, em meio aos meus homens.
     Robin, escondido atrs de uma rvore a poucos passos de distncia, avanou ligeiramente a cabea para ver se avista o indivduo que lhe usurpava o nome, mas 
no o conseguiu.
      Permita-me ver esse preso  disse Halbert aproximando-se de um grupo de soldados;  eu conheo Robin de vista.
      Tragam o preso  ordenou o chefe.
     O autntico Robin pde ento entrever um jovem que vestia como ele o traje dos mateiros; tinha os ps amarrados por baixo do ventre do cavalo e as mos ligadas 
atrs das costas; um raio de luar iluminou-lhe o rosto, e Robin reconheceu o mais moo dos filhos de sir Guy de Garnwell, o jovial William, ou melhor, Will o Escarlate.
      Mas esse no  Robin Hood!  exclamou Halbert rindo s gargalhadas.
      Quem  ento?  perguntou o chefe desapontado.
      Como sabes tu que eu no sou Robin Hood? Teus olhos iludem-te, meu rapaz  disse o Escarlate;  eu sou com efeito Robin Hood, entendes?
      Talvez; mas nesse caso h dois arqueiros com o mesmo nome na floresta de Sherwood  respondeu Halbert.  Onde o encontrou, sargento?
      A poucos passos de uma casa onde mora um homem chamado Gilberto Head.
      Estava sozinho?
      Sozinho.
      Devia encontrar-se acompanhado de duas pessoas, porque o Robin que estava preso no castelo fugiu acompanhado de dois outros prisioneiros; de resto ele no 
dispunha de armas nem de montaria, fugiu a p, e no lhe seria possvel alcanar uma tal distncia em to pouco tempo, a menos que estivesse montando um bom trotador 
como os nossos.
      Tenha a bondade, jovem aspirante a escudeiro  atalhou o sargento com ironia,  de me explicar como sabe que os fugitivos eram em nmero de trs. E mais uma 
vez te intimo a dizer-me porque andas vagabundeando a esta hora da noite em plena floresta. Tambm me dirs desde quando conheces Robin Hood.
      Sargento, o senhor parece querer trocar a sua jaqueta de soldado por uma batina de confessor.
      Nada de gracejos, menino espirituoso; responde categoricamente s minhas perguntas.
      Eu no estou gracejando, sargento, e como prova responderei s suas perguntas cate... como?... Ah, sim! categoricamente. Comearei pela sua ltima pergunta; 
convm-lhe sargento?
      Vamos logo!  berrou o sargento impaciente;  seno mando-te pr uns ferros nas mozinhas.
      Est bem, vamos logo.  Eu conheo Robin porque hoje mesmo o vi entrar no castelo.
      E mais?
      Percorro a floresta, primeiro, em obedincia a uma ordem do baro Fitz-Alwine, senhor de ns todos; o senhor conhece essa ordem. Segundo, em virtude tambm 
de uma ordem de sua adorada filha, lady Christabel. Est satisfeito, sargento?
      E mais?
      Sei que so trs os prisioneiros evadidos, porque mestre Herbert Lindsay, guarda-chaveiro do castelo e pai de minha irm de leite, a formosa Maude, me deu 
essa informao. Est satisfeito, sargento?
     O sargento irritava-se com a irnica serenidade dessas respostas, e no sabendo mais o que dizer, gritou:
      Qual foi a ordem que recebeste de lady Christabel?
      Ah! Ah! Ah!  volveu o rapaz com um riso grosso;  O sargento tome cautela em no querer penetrar os segredos de milady... Ah! Ah! Ah! Chega a ser inacreditvel. 
Mas no se zangue, sargento; mande-me regressar ao castelo a toda a brida, eu darei parte do seu desejo a milady, e com certeza milady me remeter de novo ao seu 
encontro, sempre a toda a brida, para submeter  sua apreciao as ordens que ela me deu. Ora! Belo capito, tu atrapalhas-te, metes os ps pelas mos, e devo felicitar-te 
por essa captura de Robin Hood; o baro Fitz-Alwine h de gratificar-te largamente, no duvido, quando lhe apresentares essa contrafao de Robin Hood que lhe levas 
como sendo o original.
      Ah! Tagarela  berrou o sargento furioso,  eu te estrangularia se tivesse tempo para isso!... A caminho, rapazes!
      A caminho!  berrou tambm o prisioneiro;  e hurra! Por Nottingham!
     A cavalgada dava meia volta quando Robin se lanou  frente do cavalo do sargento e disse com voz forte:
      Alto! Eu  que sou Robin Hood.
     Antes de tomar essa resoluo, o valente moo segredara ao ouvido de Allan estas palavras:
      Se preza a sua vida e a lady Christabel, senhor, conserve-se imvel como estes troncos de rvore e deixe-me liberto de ao.
     E Allan consentira que Robin falasse, mesmo desconhecendo as suas intenes.
      Traste-me, Robin!  gritou inconsideradamente Will Escarlate.
     A essas palavras o chefe do esquadro estendeu o brao e segurando Robin pela gola do gibo perguntou a Hal:
       este o verdadeiro Robin?
     Halbert, muito manhoso para responder categoricamente como dizia o sargento, iludiu a pergunta e respondeu:
      Desde quando me acha bastante perspicaz, senhor, para recorrer s minhas luzes? Serei acaso um co de fila para levantar a caa em seu proveito? Um lince 
para ver o que o senhor no v? Um feiticeiro, para adivinhar o que o senhor ignora? O senhor no tinha absolutamente o hbito de me perguntar a cada instante: Hal, 
que  isto? Hal, que  aquilo?
      No te faas de imbecil e responde-me qual destes dois velhacos  Robin Hood, pois do contrrio torno a prometer-te as algemas!
      O recm-chegado poder muito bem responder-lhe pessoalmente.  Bastar interrog-lo.
      J lhe disse que sou Robin Hood, o autntico Robin Hood!  gritou o pupilo de Gilberto.  O jovem que o senhor leva amarrado a esse cavalo  um dos meus bons 
amigos, mas no passa de um Robin Hood de contrabando.
      Nesse caso os papis vo mudar  volveu o sargento,  e para incio vais tomar o lugar desse gentleman de cabelos vermelhos.
     Will, liberto das cordas, correu para Robin Hood, e os dois amigos abraaram-se efusivamente; em seguida Will desapareceu, depois de ter apertado com fora 
a mo de Robin, dizendo-lhe em voz baixa:
      Conta comigo.
     Estas palavras constituam sem dvida alguma uma resposta aos murmrios que Robin lhe segredara ao ouvido, enquanto os dois se abraavam.
     Os soldados amarraram Robin ao cavalo e o esquadro tomou o caminho do castelo.
     Eis as causas da priso de William. Ao sair da casa de Gilberto Head, o Escarlate deixara seu primo Joo-Pequeno voltar sozinho ao solar de Garnwell, e encaminhara-se 
para os lados de Nottingham na esperana de encontrar Robin. Depois de ter andado uma hora ouviu um trotar de cavalos, e na ntima convico de que eram Robin e 
seus companheiros que se aproximavam, Will entoara com toda a fora dos seus pulmes e da sua voz, a mais abominavelmente falsa, essa balada de Gilberto que termina 
assim:
     Vera comigo, meu amor, meu querido Robin Hood!
     Os soldados do baro, iludidos por aquela invocao a Robin Hood, haviam-no cercado e amarrado, gritando:  Vitria!
     Will, percebendo ento que um perigo ameaava o seu camarada, no se deu a conhecer. O resto j  do nosso conhecimento.
     Distanciado o esquadro que levava Robin, Allan e o frade saram do seu esconderijo, e Will, surgindo de entre um silvado, apareceu-lhes  maneira de um fantasma.
      Que lhe disse Robin?  perguntou Allan.
      Foi o seguinte, palavra por palavra,  respondeu Will. Meus dois companheiros, um cavaleiro e um frade, esto escondidos aqui perto. Dize-lhes que venham 
encontrar-se comigo amanh pela manh ao romper do sol, no vale de Robin Hood, que eles j conhecem; tu e os teus irmos acompanhai-os, pois necessitarei de braos 
vigorosos e de coraes valentes para levar a bom termo a minha empresa; temos senhoras a proteger. Nada mais. Por conseqncia, senhor cavaleiro  acrescentou 
Will,  aconselho-o a vir imediatamente ao solar de Garnwell; est a menor distncia daqui do que a casa de Gilberto Head.
      Preciso de abraar minha irm esta noite, e ela est em casa de Gilberto Head.
      Perdo, cavaleiro; a dama que chegou ontem a casa de Gilberto acompanhada de um fidalgo, est neste momento no solar de Garnwell.
      No solar de Garnwell?  Mas no  possvel!
      Peo novamente perdo, cavaleiro; miss Mariana est em casa de meu pai, e pelo caminho lhe contarei como ela l chegou.
      Robin no disse que amanh teramos senhoras para proteger?  perguntou o frade.
      Foi o que ele disse, meu reverendo.
      Feliz birbante!  resmungou frei Tuck;  vai roubar Maude. Oh! As mulheres! As mulheres! Sim, elas tm mais malcia num s cabelo do que ns homens em todos 
os plos da nossa barba!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XII



     O BARO prestava uma ateno negligente  leitura das contas de um mordomo, quando Robin, flanqueado por dois soldados e precedido pelo sargento Lambic, cujo 
nome havamos esquecido, foi introduzido em seu quarto.
     Imediatamente o impetuoso baro imps silncio ao leitor e avanou para o pequeno grupo dardejando olhares que nada pressagiavam de bom.
     O sargento ergueu os olhos para o seu senhor, cujos lbios frementes se entreabriam, e entendeu ser um ato de cortesia deixar que ele fosse o primeiro a interrog-lo; 
mas o velho Fitz-Alwine no era homem para esperar pacientemente que o sargento lhe apresentasse o seu relatrio verbal e aplicou-lhe uma forte bofetada como para 
lhe dizer: Estou escutando.
      Eu estava  espera...  balbuciou o pobre Lambic.
      Eu tambm estava  espera. E qual de ns dois deve esperar, se fazes favor? No percebes, imbecil, que eu estou de ouvido  escuta h uma hora? Mas fica sabendo 
desde j, tratante, que estou perfeitamente a par dos teus movimentos, e que todavia quero conceder-te a graa de ouvir nela segunda vez, e da tua prpria boca, 
o que tens a dizer-me.
      Halbert j lhe ter contado, monsenhor...?
      O qu! Pois tens a audcia de me interrogar? Sim senhor, grande novidade!  Sua Senhoria interroga-me!  Ah! Ah!
     Lambic referiu, tremendo todo, o episdio da priso do verdadeiro Robin.
      Esqueces uma pequena circunstncia, meu caro; no me disseste haver relaxado, depois de o teres em teu poder, a priso do patife em quem eu estava justamente 
mais interessado.  Isso revela uma grande subtileza da tua parte.
      Permita-me milorde dizer-lhe que est laborando em erro.
      Eu no cometo nunca erros, senhor! Sim, capturaste um jovem que disse chamar-se Robin Hood, e deixaste-lo em liberdade quando apareceu este rapaz de Sherwood.
       verdade, milorde  respondeu Lambic que omitira por prudncia esse detalhe da sua expedio  floresta.
      Oh! No se pode duvidar de que mestre Lambic, sargento de uma companhia dos meus homens de armas,  o mais esperto, o mais fogoso, o mais penetrante e astuto 
soldado  bradou o baro com desdm, acrescentando a seguir: No te recordavas ento das feies daqueles que poucas horas antes havias metido no calabouo? Rei 
dos idiotas, morcego, intil e invlido caranguejo!
      Eu no tinha visto nenhum dos prisioneiros, milorde.
      Realmente? Tinhas ento um emplasto nos olhos? Aproxima-te, Robin!  gritou o baro com voz trovejante e deixando-se cair numa cadeira de braos.
     Os soldados empurraram Robin para diante do baro.
      Ora at que enfim, jovem buldogue! Continuas latindo forte como antes? Vou dizer-te o que j te disse h pouco: responders francamente s minhas perguntas, 
ou ento ordenarei aos meus homens que te desanquem, ests ouvindo?
      Interrogai-me  respondeu friamente Robin.
      Ah! Arrependes-te enfim, j no recusas falar; muito bem!
      Interrogai-me, milorde!
     O olhar do baro, que se abrandara, flamejou de novo e cravou-se em Robin; mas Robin sorriu.
      Como conseguiste fugir, pequeno lobo?
      Saindo do meu calabouo.
      No me seria muito difcil adivinhar isso; quero saber quem te ajudou a fugir.
      Eu mesmo.
      E mais quem?
      Ningum.
      Mentes! Sei muito bem que no pode ser; no podias ter passado pelo buraco da fechadura e com certeza algum te abriu a porta.
      Ningum me abriu a porta, e se eu no era bastante delgado para passar atravs do buraco da fechadura, pelo menos no era to gordo que no pudesse resvalar 
entre os barrotes do postigo da priso; de l saltei para a muralha, onde encontrei uma porta aberta, e uma vez franqueada essa porta atravessei escadas, galerias, 
ptios, at que cheguei  Ponte levadia... e me vi livre, milorde.
      E o teu companheiro, como conseguiu ele fugir? 
      No sei, milorde.
      Contudo  indispensvel que mo digas. 
      Impossvel.  Ns no estvamos juntos; s viemos a encontrar-nos mais tarde.
      Em que ponto do castelo viestes a encontrar-vos to a propsito?
      No conheo o interior do castelo, de modo que no posso designar esse ponto.
      E onde se encontrava esse patife quando o sargento Lambic te prendeu?
      Tambm no sei. Havamo-nos separado momentos antes, eu ia sozinho para casa de meu pai.
      Era ele, ento, que havia sido preso antes de ti?
      No.
      Mas onde  que ele est? Onde foi parar?
      A quem vos referis, milorde?
      Sabes perfeitamente a quem me refiro, velhaco; falo de Allan Clare, teu cmplice, teu amigo.
      Vi Allan Clare antes de ontem, pela primeira vez.
      Que pouca vergonha, santo Deus! Ousam mentir-nos na cara, estes viles de hoje! J no h boa-f, no h mais respeito desde que as crianas aprendem a decifrar 
garatujas e a rabiscar papel! At minha filha sofreu a influncia desse vcio e se corresponde por meio das letras infernais com esse miservel Allan Clare. Pois 
bem! J que ignoras onde est escondido esse maroto, ajuda-me pelo menos a adivinhar onde ele se encontra; em troca, prometo recompensar-te com a liberdade.
      Milorde, no tenho por costume passar o tempo a decifrar enigmas.
      Nesse caso vou obrigar-te a consagrar vrias horas por dia a esse til exerccio. Ol! Lambic, mete este buldogue na enxovia, e se ele tornar a fugir s Deus 
poder livrar-te da forca!
      No, agora ele no fugir mais!  respondeu o sargento esboando um magro sorriso.
      Vamos, fora daqui, e no te esqueas da corda!
     O sargento levou Robin de corredor em corredor, de escada em escada, at uma pequena porta que dava para uma estreita galeria; uma vez a, tomou das mos de 
um criado que viera alumiando, uma tocha acesa, e obrigou Robin a entrar num cubculo cujo nico mobilirio consistia num monte de palha.
     O nosso jovem arqueiro  relanceou os olhos pelo buraco; nada mais hediondo que um tal calabouo; nenhuma outra sada alm da porta, feita de grossas tbuas 
chapeadas de ferro. Como sair dali? E tentava mentalmente encontrar um meio, um expediente para tornar inteis as minuciosas precaues do seu carcereiro, sem achar 
nenhum, quando de repente viu brilhar na escurido do corredor, atrs dos soldados, o olhar claro e lmpido de Halbert. Essa viso devolveu-lhe a esperana e ele 
j no duvidou da sua prxima libertao, certo de que devotados coraes se compadeciam de sua misria.
      Aqui est o seu quarto de dormir  disse Lambic;  entre, senhor, e deixe-se de tristezas! Todos ns devemos morrer um dia, como  do seu conhecimento; que 
seja hoje, amanh ou depois, no importa! Que importa tambm o gnero de morte? Morrer de um modo ou de outro, tudo  morrer.
      Tens razo, sargento  respondeu Robin com toda a calma;  compreendo muito bem que lhe seja indiferente morrer como sempre viveu... isto : como um co!
     Assim dizendo, Robin examinava disfaradamente a porta ainda aberta, observando a posio dos soldados que estavam do lado de fora. O criado que cedera a tocha 
a Lambic j se havia retirado, bem como o jovem Hal; exaustos de fadiga, os soldados, em nmero de quatro, mantinham-se indolentemente encostados s muralhas, prestando 
pouca ateno  conversa do seu chefe com o preso.
     Hbil em conceber e pronto em executar, o jovem lobo de Sherwood aproveitou a desateno dos homens de armas e a relativa fraqueza de Lambic, cujos movimentos 
eram dificultados pela tocha que segurava na mo direita, e dando um pulo de gato selvagem empurrou a tocha contra o rosto de Lambic, apagando-a bruscamente e correndo 
para fora do calabouo.
     Apesar da escurido e das dores atrozes que lhe causavam as queimaduras da face, Lambic, seguido dos seus homens, empreendeu uma caada enrgica ao fugitivo. 
Mas nunca uma lebre solta partira to agilmente, nunca uma raposa com a matilha no encalo deu mais voltas e desvios: debalde os solados do baro rugiram revistando 
todos os cantos e recantos das enormes galerias;  Robin escapou-lhes.
     E havia j alguns instantes que o moo apenas apressava 58 Passos, sem saber onde se encontrava, de braos estendidos para a frente a fim se desviar dos obstculos, 
quando se chocou com um ser humano que no pde conter um grito de pavor.
      Quem ?  perguntou uma voz revelando certa emoo. Robin pensou reconhecer a voz de Halbert.
      Sou eu, meu caro Hal  respondeu o moo arqueiro. 
      Eu, quem?
      Eu, Robin Hood; acabo de fugir, eles vm em minha perseguio;  esconde-me em qualquer parte.
      Siga-me, senhor  disse o valente rapaz;  d-me a sua mo, caminhe bem junto de mim, e sobretudo nem uma palavra.
     Depois de mil voltas e giros na escurido, rebocando sempre o fugitivo, Halbert parou e bateu levemente a uma porta cujas tbuas mal juntas deixavam filtrar 
alguns raios de luz; uma voz muito meiga perguntou o nome do visitante noturno.
      Teu irmo Hal! 
     A porta abriu-se imediatamente.
      Que notcias me trazes, querido irmo?  perguntou Maude tomando as mos do rapaz.
      Trago-te alguma coisa melhor do que notcias, querida Maude;  vira-te para c e olha.
      Justos cus,  ele!  sussurrou Maude saltando ao pescoo de Robin.
     Surpreendido e perturbado por um acolhimento revelando uma paixo que estava longe de partilhar, Robin pretendeu relatar os episdios da sua volta ao castelo 
e da sua nova evaso, mas Maude no lhe deixou tempo de falar.
      Salvo! Salvo! Salvo!  balbuciava ela entre lgrimas, risos, soluos e beijos;  Salvo! Salvo!
      Que estranha pessoa s, Maude  observou o inocente novio de escudeiro;  imaginei que te dava alegria trazendo-te aqui o senhor Robin Hood, e eis-te a chorar 
como uma Madalena!
      Hal tem razo  acrescentou Robin,  ests prejudicando os teus lindos olhos, Maude; precisas ficar alegre como estavas esta manh.
       impossvel  respondeu a moa com um profundo suspiro.
      No vejo porque  volveu Robin inclinando-se sobre a cabea de Maude e pousando os lbios nas madeixas de negros cabelos que lhe emolduravam o rosto. Maude 
ressentiu-se talvez da frieza que o jovem mateiro punha naquelas simples palavras: No vejo porque, pois fez-se muito plida e rompeu a soluar amargamente.
      Querida Maude, no chores mais, eu estou aqui!  dizia Robin;  conta-me a causa da tua tristeza.
      No me pergunte isso hoje; mais tarde saber tudo. Lady Christabel e eu pensvamos no meio de lhe dar a liberdade... Oh! que alegria quando ela souber que 
j est livre; o senhor Allan Clare recebeu a carta?  Que resposta lhe traz?
      O senhor Allan no teve possibilidade de escrever apenas de conversar comigo; mas eu conheo as suas intenes e desejo, com o auxlio de Deus e o teu concurso, 
querida Maude arrancar do castelo lady Christabel e lev-la para junto de seu noivo.
      Vou  correndo  prevenir  milady    disse  vivamente Maude;  no me demorarei muito tempo, espere aqui a minha volta. Hal, vem comigo!
     Robin, quando se viu sozinho sentou-se  beira do leito da moa e ps-se a meditar. Como j dissemos, apesar da sua juventude Robin falava e agia como um homem. 
Essa razo precoce devia-a aos cuidados de Gilberto com a sua educao. Gilberto ensinara-lhe a pensar sozinho, a agir sozinho e a agir bem; mas no lhe revelara 
que outras simpatias alm das da amizade podem nascer fortuitamente e tornar-se irresistveis entre duas pessoas de sexo diferente. A conduta de Maude, desde o furtivo 
beijo que lhe depusera na mo ao sair da capela, surpreendia-o muito. Mas  fora de pensar nisso, e como por intuio, compreendeu que devia tratar-se de amor; 
compreendeu tambm que era amor o que Maude sentia por si, e afligiu-se muito com aquilo pois nada sentia por ela, nada a no ser que a achava bonita, graciosa, 
amvel e cheia de devotamento.
     Por isso, preocupado com aquela indiferena involuntria que experimentava por Maude, chegou a censurar-se por essa mesma indiferena e a perguntar-se se no 
devia, sob pena de carecer de probidade, esforar-se por devolver a Maude amor por amor. O ingnuo  adolescente ia pois dar-lhe o corao que ainda julgava livre, 
quando de repente a querida imagem de Mariana lhe passou diante dos olhos.
      Oh! Mariana, Mariana!  exclamou tomado de entusiasmo.
     Mas a esse entusiasmo sucederam imediatamente a dvida e a tristeza. Mariana, assim como Christabel, pertencia a uma nobre famlia, e Mariana desdenharia com 
certeza o amor de um obscuro mateiro. Talvez at amasse j algum belo cavaleiro da corte. Mariana dera-lhe sem dvida alguns ternos olhares, mas o que poderia provar-lhe 
que esses ternos olhares no eram unicamente inspirados pela gratido?
      medida que Robin se fazia essas perguntas, e muitas outras ainda s quais tinha de responder com desvantagem para si a causa de Maude ia-se fortalecendo.
     Maude, linda, to linda quanto Mariana e Christabel, no era nobre, no tinha fidalgos por adoradores, e um humilde mateiro poderia lutar contra os outros admiradores 
que ela tivesse; Maude dava ternos olhares a Robin, e esses olhares no eram provocados pela gratido; pelo contrrio, Robin  que devia bastante gratido a Maude.
     O moo experimentava estranhas sensaes durante esses devaneios e abandonava-se a eles com alternativas de felicidade e pesar, quando um rumor de passos pesados 
e muito diferentes dos da ligeira Maude ressoaram no corredor; o barulho aproximou-se do quarto e Robin apagou a luz  primeira vigorosa batida que deram na porta.
      Que  isso, Maude  perguntou o visitante do lado de fora,  por que apagas a luz?
     Robin no deu resposta alguma e encolheu-se no espao entre a cama e a parede.
      Maude, abre, sou eu!
     Impaciente por no receber resposta, o visitante abriu a porta e entrou. Se no fosse a escurido, Robin poderia ter visto um homem de elevada estatura e de 
corpulncia proporcionada.
      Maude, Maude, no respondes? Tenho a certeza de que ests aqui; vi brilhar a luz pelas fendas da porta.
     E o homem de grossa voz spera procurava s apalpadelas por todo o quarto.
     Robin, para maior segurana, escorregou para debaixo da cama.
      Diabo de mveis!  rugiu o homem que batera com a cabea contra um armrio e tropeara numa cadeira.  Com a breca! O mais seguro  sentar-me no cho.
     Seguiu-se um longo silncio; Robin respirava apenas  raros intervalos e o mais devagar possvel.
      Mas, onde estar ela?  continuava o estranho estendendo o brao e correndo a mo pelas cobertas do leito.  Deitada no est! Pela salvao de minha, alma, 
comeo a acrepitar que Gaspar Steinkoff me disse a, verdade, uma verdade que alis, at valeu um bom soco! Tua filha, Herbert Lindsay. disse-me ele,  beija, os 
homens com tanta facilidade quanto eu bebo um copo de cerveja." Patife de Gaspar! Atreve-se a dizer que uma filha que me pertence, e da qual sou pai, anda beijando 
os prisioneiros!... Patife!... Contudo... acho muito extraordinrio que a uma hora to adiantada Maude no esteja em seu quarto. Ao p de lady Christabel no deve 
estar; por onde andar ento? Meu Deus! Sinto o inferno, na cabea. Onde estar ela, a minha querida Maude, onde estar ela? Santa Me de Deus, se Maude der algum 
mau; passo, eu... mas que  isto! Afinal estou-me mostrando to indigno quanto Gaspar Steinkoff... insultando o meu sangue, a minha vida, o meu corao, a minha 
filha, a minha Maude querida. Ah! velha cabea tonta que eu sou! esquecia-me de que Halbert saiu do castelo para ir em busca de um mdico, porque milady est doente 
e Maude est junto de milady.  Oh! Como fico contente, bem contente por me haver lembrado disso!  Merecia ser espancado por ter albergado maus alisamentos a respeito 
de minha querida filha.
     Robin, imvel debaixo da cama tivera tambm maus pensamentos, e alm deles um certo tremor de cime antes de reconhecer no visitante noturno o guarda-chaves 
do castelo, o honrado pai de Maude, Herbert Lindsay.
     Passos leves e precipitados, um roar de vestido, o acender de uma candeia interromperam o monlogo de Herbert, que logo se ps de p.
     Maude ao v-lo no pde conter um grito de susto, dizendo-lhe com grande ansiedade: 
      Por que est o senhor aqui, meu pai? 
      Para conversar contigo, Maude. 
      Amanh conversaremos, meu pai; agora  muito tarde, estou cansada e preciso de dormir.
      Tenho apenas umas palavras a dizer-te.
      Agora no quero ouvir coisa alguma, querido pai; vou beij-lo e fico surda;  boa-noite.
      Desejo apenas fazer-te uma pergunta; to depressa respondas irei embora.
      Estou surda, j lhe disse, e vou tambm ficar muda. Boa-noite, boa-noite, boa-noite  acrescentou Maude aproximando a fronte dos lbios do velho.
      Nada de despedidas ainda, minha filha  volveu Herbert num tom grave;  quero saber de onde vens a esta hora e porque motivo no ests ainda deitada.
      Venho do quarto de minha ama que se encontra muito doente.
      Bem; agora outra pergunta: por que motivo te mostras to prdiga dos teus beijos em relao a certos presos? Por que beijas um estranho como se ele fosse 
teu irmo? No achas que isso  um modo censurvel de agir, Maude?
      Eu, beijei algum estranho, eu? E quem foi que inventou semelhante calnia?
      Gaspar Steinkoff.
      Gaspar Steinkoff mentiu, meu pai;  mas no teria mentido se lhe contasse a minha clera e a minha indignao Quando ele teve a audcia de tentar seduzir-me. 
      Como! Pois ele atreveu-se?...  rugiu Herbert sulcado pela indignao.
       como lhe digo  afirmou a jovem com energia.  em seguida, desfazendo-se em lgrimas, acrescentou:  Eu resisti, fugi-lhe, e ele ento ameaou-me com a 
sua vingana.
     Herbert manteve a filha apertada contra o peito, e aps alguns instantes de silncio, observou com calma, uma dessas calmas em cujo fundo se adivinha o sangue 
frio de uma fria implacvel:
      Se Deus perdoar a Gaspar Steinkoff, que lhe conceda a paz no outro mundo! Quanto a mim, no poderei gozar de paz enquanto estiver neste, sem antes castigar 
esse infame como ele merece... Beija-me, minha filha, beija o teu velho pai que te ama, te respeita, e roga aos cus que velem pela tua honra.
     E o tio Herbert Lindsay regressou ao seu posto.
      Robin  balbuciou imediatamente a jovem,  onde  que est escondido?
      Aqui, linda Maude  respondeu Robin saindo do seu esconderijo.
      Estaria perdida se meu pai tivesse dado pela sua presena.
      No, querida Maude  volveu o rapaz com admirvel candura;  muito ao contrrio eu teria dado testemunho da tua inocncia. Mas dize-me, quem  esse Gaspar 
Steinkoff? Por acaso j o vi?
      J; era ele que estava de sentinela ao calabouo quando o senhor foi preso pela primeira vez.
      Foi ele ento que nos surpreendeu quando nos... quando estvamos conversando?
      Ele mesmo  respondeu Maude que no pde impedir-se de corar um pouco.
      Pois deixa estar que te vingarei; lembro-me bem da sua cara, e quando o encontrar...
      No se preocupe com esse homem, no vale a pena; despreze-o do mesmo modo que eu o desprezo... Lady Christabel quer falar consigo; mas antes de o levar junto 
dela, tenho uma coisa a dizer-lhe... Eu sou muito infeliz, senhor Robin, e...
     Maude parou, sufocada pelos soluos.
      Mais lgrimas!  observou carinhosamente Robin.  Vamos, Maude, no chores assim. Poderei servir-te em alguma coisa? Poderei contribuir para a tua felicidade? 
Dize, e eu me colocarei de corpo e alma ao teu servio; no hesites em contar-me as tuas penas; um irmo deve devotar-se a sua irm, e eu sou como teu irmo.
      Eu choro, senhor Robin, porque sou forada a viver neste horrvel castelo onde no h outras mulheres alm de lady Christabel e eu, exceto as serventes da 
cozinha e do quintal; fui educada com milady, e apesar da diferena das nossas condies estimamo-nos como se fssemos duas irms, eu sou a confidente dos seus desgostos 
e partilho tambm as suas alegrias; mas a despeito dos esforos da boa senhora, compreendo, sinto que no passo de uma criada sua e no me atrevo a pedir-lhe conselhos 
nem consolaes. Meu pai, to bom, to honrado e to valente, apenas me protege de longe, e eu confesso que necessitaria de ser protegida de perto... Todos os dias 
os soldados do baro me requestam... e me insultam iludindo-se com a aparente leviandade do meu carter, a minha alegria, as minhas risadas e as minhas canes... 
No, eu no me sinto mais com fora para suportar esta abominvel existncia! Se ela no se modificar, morrerei! Eis aqui, senhor Robin, o que eu tinha a dizer-lhe, 
e se lady Christabel vai abandonar o castelo, peo-lhe que me leve com ela.
     O jovem arqueiro apenas pde responder com uma exclamao de surpresa.
      No recuse o que lhe peo, leve-me tambm!  continuou Maude num tom apaixonado.  Eu morrerei, eu me matarei, hei de matar-me se o senhor atravessar sem 
mim a ponte levadia.
      Esqueces, querida Maude, que eu no passo ainda de uma criana e no tenho o direito de te levar  casa de meu pai.  Talvez meu pai recusasse receber-te.
      Uma criana!  replicou  moa com despeito  uma criana que ainda esta manh tanto falava de amor!
      Esqueces tambm teu velho pai que morreria de tristeza... Ainda h pouco o estive ouvindo; abenoou-te, jurou castigar um caluniador!
      Ele me perdoar sabendo que fugi para acompanhar minha ama.
      Mas tua ama pode fugir! O senhor Allan  seu noivo.
      Tem razo, senhor Robin, eu no passo de uma pobre abandonada.
      Parece-me, contudo, que frei Tuck talvez pudesse...
      Oh! Faz mal, muito mal em dizer isso!  volveu Maude indignada.  Tenho rido, cantado, conversado muito com o frade, mas inocentemente, est ouvindo? Inocentemente. 
Meu Deus! Meu Deus! Todos me acusam, para todos sou uma mulher perdida! Ah! Sinto que vou enlouquecer!
     E com a face escondida entre as mos, Maude ajoelhou-se soluando.
     Robin estava profundamente comovido.
      Levanta-te  disse ele com doura.  Est bem, fugirs com tua ama, irs para casa de meu pai Gilberto,  sers sua filha e minha irm.
      Deus te abenoe, nobre corao!  respondeu a moa apoiando a cabea ao ombro de Robin;  serei tua serva tua escrava.
      Sers minha irm. Vamos, Maude, um sorriso agora um lindo sorriso em troca dessas feias lgrimas.
     Maude sorriu.
      O tempo urge; leva-me  presena de lady Christabel. 
     Maude tornou a sorrir mas no se moveu.
      Ento, querida, que ests esperando?
      Nada, nada;  vamos!
     E essa palavra vamos! foi dita entre dois beijos nas faces coradas do nosso heri.
     Lady Christabel esperava com toda a impacincia o mensageiro de Allan.
      Posso contar consigo, senhor?  perguntou ela quando Robin se apresentou em seu quarto.
      Inteiramente, senhora.
      Deus o recompensar; estou pronta.
      E eu tambm, querida ama!  acrescentou Maude.  A caminho! no temos um instante a perder.
      No temos!  repetiu Christabel surpreendida.
      Sim, sim, milady, ns, ns ambas!  respondeu a camareira rindo.  Acredita ento, senhora, que Maude possa viver longe da sua querida ama?
      Como!  Pois queres acompanhar-me?
      No somente quero, como ainda morreria de desgosto se minha ama o no consentisse.
      Eu tambm participo da viagem  exclamou Halbert que at ento se mantivera de lado;  milady toma-me ao seu servio. Senhor Robin, eis aqui o seu arco e 
as suas flechas, das quais me apoderei quando o prenderam na floresta.
      Obrigado, Hal  disse Robin.  A partir de hoje seremos amigos.
      Para a vida e para a morte, senhor!  tornou o rapaz com sincero orgulho.
      Vamos ento  atalhou Maude.  Hal, vai  nossa frente, e milady dar-me- a sua mo. Agora, o mais completo silncio; o menor sussurro, o menor rudo poder 
trair-nos.
     O castelo de Nottingham comunicava com o exterior por imensos subterrneos cuja entrada se abria na capela e iam dar  floresta de Sherwood.  Halbert conhecia-os 
muito bem para poder servir de guia;  a passagem desses subterrneos era de resto difcil, mas antes de mais nada era necessrio chegar  capela.  Ora, a porta da 
capela j no estava livre como no comeo da noite, pois o baro Fitz-Alwine mancara ali postar uma sentinela;  felizmente para os fugitivos essa sentinela entendera 
de montar guarda do lado de dentro da capela, e, vencida pela fadiga adormecera num banco, exatamente como um cnego numa cadeira de coro.
     Os quatro jovens penetraram ento no santo lugar sem acordar o soldado e at mesmo sem dar pela sua presena, tal era a escurido reinante; e estavam j  entrada 
dos subterrneos quando Halbert, que ia adiante, esbarrou contra um mausolu e caiu pesadamente.
      Quem vive!  perguntou imediatamente a sentinela, que se julgou apanhada em flagrante delito de sono.
     S o eco repetiu o trovejante Quem vive!, e as suas prolongadas ressonncias de pilar em pilar e de abbada em abbada abafaram o rudo das vozes e dos movimentos 
dos fugitivos. Hal escondeu-se atrs do tmulo, Robin e Christabel sob a escada do plpito, apenas Maude no teve tempo de se esconder; a luz de uma tocha iluminou 
a capela e o guarda exclamou:
      Com a breca!  Maude, Maude, a penitente de frei Tuck! Sabes, minha linda, que fizeste tremer os bigodes de Gaspar Steinkoff, acordando-o assim to de repente 
enquanto ele sonhava com os teus encantos? Santo nome de Deus! Pensei que o velho javali de Jerusalm, o nosso amvel senhor, andava passando revista s sentinelas. 
Mas viva a alegria! O bom homem ronca e a beldade acorda-me!
     Dizendo isso o soldado plantou a tocha num candelabro do coro, e avanou para Maude de braos abertos, como para a colher pela cintura.
     Maude.respondeu-lhe com frieza:
      Sim, eu venho rezar a Deus por lady Christabel, que est muito doente;  deixa-me pois rezar, Gaspar Steinkoff.
      Ah!  disse consigo Robin colocando silenciosamente uma flecha no arco;   o caluniador...
      Deixa as oraes para mais tarde, minha linda,  tornou o soldado cujas mos tocavam j o corpete da moa;  no sejas esquiva e d um beijo a Gaspar, dois 
beijos, trs beijos, muitos beijos...
      Para trs, atrevido!  gritou Maude recuando por sua vez.
     O soldado deu um novo passo  frente.
      Para trs, caluniador; tu tentaste fazer-me amaldioar por meu pai, a fim de te vingares do desprezo com que repeli os teus odiosos galanteios! Arreda, monstro 
que nem sequer respeita a santidade destes lugares! Toma cautela!
      Com mil raios!  gritou Gaspar espumando de raiva e segurando a moa pelo meio do corpo;  Com mil raios! Hs de pagar essas insolncias!
     Maude resistiu firmemente, certa de que Halbert e Robin viriam em sua ajuda; mas ao mesmo tempo receava que o estrpito de uma luta atrasse a ateno dos soldados 
do posto mais prximo; absteve-se por isso de gritar e respondeu ao soldado:
      Tu, sim, hs de ser... castigado...
     Uma flecha disparada por mo que jamais errava o seu alvo, atravessou de repente o crnio do bandido, prostrando-o morto sobre as lajes do templo. Menos rpido 
que a flecha, Hal corria para defender a irm, mas ela j desmaiava, murmurando:
      Obrigada, Robin, obrigada!...
     A trmula chama da tocha comeou por iluminar dois corpos inanimados que jaziam lado a lado no cho; um estava isolado na morte, e junto ao outro coraes devotados 
aguardavam, olhos amigos observavam os sintomas de um regresso  vida. Robin colhia gua benta das pias s mos ambas, molhando com ela docemente as tmporas da 
jovem; Hal batia com as suas mos nas palmas das dela, e Christabel prodigalizava-lhe os mais carinhosos nomes, invocando o socorro da Virgem; todos trs, enfim, 
se esforavam por trazer  vida a pobre Maude, e teriam preferido renunciar  fuga do que abandon-la naquele estado. Decorreram alguns minutos antes que Maude abrisse 
os olhos, e esses minutos pareceram sculos; mas quando as suas plpebras se ergueram, um longo olhar, o primeiro, um celeste olhar cheio de gratido e amor se fixou 
em Robin; um sorriso lhe escapou dos lbios descorados, gradaes rseas foram substituindo o frio palor das faces, o peito dilatou-se-lhe, seus braos uniram-se 
aos braos estendidos para a levantar do cho e sacudindo a sua letargia ela foi a primeira a dizer:
      Partamos!
     A marcha atravs do subterrneo durou uma longa hora.
      Chegamos enfim  avisou Hal;  curvem as costas, que a porta  baixa, e tomem cautela com os espinhos de um silvado que disfara a sada desta passagem pelo 
lado de fora; voltem  esquerda; bem; sigam pelo caminho ao longo do silvado... e agora, adeus  tocha e viva o luar! estamos livres!
      Chegou a minha vez de servir de piloto  disse Robin levantando-se;  isto  como se fosse a minha casa.  A floresta pertence-me.  Nada receiem, senhoras, 
e ao romper do dia encontraremos o senhor Allan Clare.
     A pequena caravana prosseguiu lestamente atravs dos bosques e matagais, apesar da fadiga das duas jovens. A prudncia mandava que no trilhassem os caminhos 
ou atravessassem as clareiras, para onde o baro decerto j mandara os seus esbirros, e embora se arriscassem a rasgar as roupas e ferir os ps e as pernas era imperioso 
avanar como os gamos, de mata em mata, de picada em picada. Robin pareceu preocupado durante alguns minutos e Maude perguntou-lhe timidamente a causa dessa preocupao.
      Querida irm  respondeu ele,  precisamos separar-nos antes que seja dia; Halbert vai acompanhar-te, at a casa de meu pai, e tu explicars ao bom velho 
o motivo pelo qual eu no regressei ainda de Nottingham;  til e prudente avis-lo de que estou levando sem demora milady ao encontro do senhor Allan Clare.
     Os fugitivos separaram-se portanto depois de ternas despedidas, e Maude engoliu as lgrimas e abafou os soluos seguindo Halbert pelo caminho que lhes indicou 
Robin.
     Lady Christabel e o seu cavaleiro, porque desde agora Robin  um autntico cavaleiro, alcanaram prontamente a grande estrada de Nottingham a Mansfeldwoohaus, 
e Robin antes de enveredar por ela trepou a uma rvore e explorou com o olhar as paragens em redor.
     Nada de suspeito apareceu a princpio, e to longe quanto a sua vista podia alcanar, a estrada pareceu-lhe desimpedida; Mas quando o jovem se dispunha a descer 
do seu observatrio certo de estar sendo favorecido pela sorte, viu apontar no alto de uma das encostas da estrada um cavaleiro que avanava a toda a brida.
      Escondei-vos, milady, a nessa fossa, atrs da moita a meus ps, e pelo amor de Deus no faais nenhum movimento nem solteis o menor grito de susto.
      H algum perigo?  Temeis alguma coisa, senhor?  perguntou Christabel vendo Robin colocar uma flecha em seu arco e postar-se de emboscada atrs de um tronco 
de rvore.
      Depressa, milady, escondei-vos, um cavaleiro avana em nossa direo e no posso dizer se  um amigo ou um inimigo...  De qualquer modo, se fr um inimigo 
no passa de um homem, e uma flecha bem disparada consegue sempre deter um homem.
     Robin no ousou acrescentar, com medo de assustar ainda mais a sua companheira, que aos primeiros alvores da manh reconhecia as cores do baro Fitz-Alwine 
sobre o pendo do cavaleiro. Christabel por sua vez adivinhou as intenes hostis de Robin, e teria desejado gritar: Basta de sangue! Basta de mortes! Esta libertao 
vai-nos custando muito cara!; mas Robin segurava com uma das mos o arco, e com a outra imps-lhe silncio com um gesto autoritrio, enquanto o cavaleiro se aproximava 
a toda a velocidade.
      Em nome de Deus, escondei-vos, senhora!  murmurou Robin de dentes cerrados e como engolindo a voz;   escondei-vos.
     Christabel obedeceu e com a cabea oculta sob o manto dirigiu  Virgem uma prece mental. Enquanto isso o cavaleiro aproximava-se, aproximava-se, e Robin, postado 
atrs da rvore, de arco reteso e flecha apontada, espreitava a sua passagem. O cavaleiro passou... passou rpido como um raio... mas, mais rpida ainda uma flecha 
venceu-o na velocidade, tocou a anca do cavalo, deslizou obliquamente, entre o flanco e o coxim da sela e cravou-se-lhe no ventre at s pernas;  animal e cavaleiro 
rolaram na poeira da estrada.
      Fujamos, milady!  gritou Robin;  fujamos! 
     Christabel, mais morta do que viva, tremia em todos os seus membros e balbuciou estas palavras:
      Matou-o! Matou-o! Matou-o!
      Fujamos, milady  insistiu Robin;  fujamos, o tempo urge!              
      Matou-o!  repetia Christabel num desvario.
      No, no o matei, milady.
      Ele soltou um grito horrvel, um grito de agonia!
      Soltou apenas um brado de surpresa.
      Que dizeis?
      Digo que este cavalheiro tinha sido lanado no nosso encalo, e que estaramos perdidos se eu no colocasse o seu cavalo na impossibilidade de o conduzir 
por mais tempo. Depressa, senhora, compreender-me-eis melhor quando deixardes de tremer.
     Christabel, mais sossegada, acompanhou Robin to depressa quanto possvel.
      O cavaleiro no est ento ferido?  perguntou ela uma centena de metros adiante.
      No tem sequer uma arranhadura, milady; o seu pobre cavalo  que realizou o ltimo galope. Esse cavaleiro tinha muitas vantagens sobre ns; podia ir de Mansfeldwoohaus 
a Nottingham e voltar antes de conseguirmos abandonar a nossa rota era portanto urgente impedir a sua carreira. Agora as possibilidades so iguais para ambos; que 
digo? As nossas so superiores; ele est a p, e ns tambm estamos a p,  verdade, mas nossos ps so geis e sem entraves, ao passo que os dele no o so. Coragem, 
milady, j estaremos longe aqui quando esse cavaleiro puder desembaraar-se do animal e dos arreios, e se puser a caminho com as suas pesadas botas, que j no so 
botas de sete lguas. nimo, senhora, que Allan Clare no deve andar longe.  nimo!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XIII
   
   
     
     COM a fronte, as plpebras, ou melhor o rosto inteiramente crestado pelas chamas da tocha a que acabava de servir de extintor, o sargento Lambic teve ainda 
a pouca sorte de tomar, perseguindo Robin, uma direo completamente oposta  do fugitivo.
     No tempo em que se passa esta histria, o castelo de Nottingham possua uma quantidade prodigiosa de passagens subterrneas cavadas nos rochedos da colina em 
cujo cimo se erguiam as suas torres e muralhas guarnecidas de ameias; poucas pessoas, mesmo entre os mais antigos habitantes da cidadela feudal, conheciam com exatido 
a topografia desse sombrio e misterioso labirinto. Lambic e seus homens puseram-se ento a vaguear por ele ao acaso, e o acaso serviu-os mal, to mal que uns e outros 
se perderam e separaram sem dar por isso.
     Lambic, quase cego como j tivemos oportunidade de dizer, voltou as costas a Robin, e deixando os seus homens afastarem-se para a esquerda chegou diante da 
grande escadaria do castelo no alto da qual lhe pareceu ouvir os passos desses homens.
      Bem!  disse consigo,  decerto eles agarraram o patife e esto-no conduzindo  presena do baro; preciso chegar ao mesmo tempo que eles, se no monsenhor 
atribuir a esses brutos todo o mrito da vigilncia!
     Assim resmungando, o valente soldado chegou  porta dos aposentos do baro, e prudente  fora de experincia, quis, antes de se mostrar, saber como o velho 
Fitz-Alwine acolhia o regresso dos seus homens na companhia do preso; colou portanto o ouvido ao buraco da fechadura e escutou o seguinte dilogo:
      Quereis ento dizer que essa carta me anuncia que sir Tristo Goldsborough no pode vir a Nottingham.
      Justamente, monsenhor; ele  obrigado a ir  corte.
      Desagradvel contratempo!
      E previne que vos esperar em Londres.
      Pior ainda! Indica ao menos o dia em que nos devemos encontrar?
      No, monsenhor; pede apenas que o senhor baro se ponha a caminho to depressa quanto lhe fr possvel.
      Bem! Partirei esta manh; dai ordens para que preparem os cavalos. Quero ser acompanhado por seis homens de armas.
      Sereis obedecido, monsenhor. 
     Lambic muito surpreendido de que Robin ali no estivesse, imaginou que os soldados o tinham reconduzido ao calabouo e correu a certificar-se; mas a porta do 
calabouo estava esgancarada, o cubculo vazio, e a tocha fumegante jazia ainda por terra.
      Como! Ento estou perdido!  exclamou o sargento.  Que hei de fazer?
     E voltou maquinalmente  porta do baro, ainda esperanado em que os seus homens para ali conduzissem o malfadado arqueiro. Pobre Lambic! Sentia j em torno 
do pescoo o n corredio de uma corda nova. Contudo a esperana, a esperana que nunca abandona completamente os desgraados, tornou a sorrir-lhe quando ao aplicar 
outra vez o ouvido ao buraco da fechadura, percebeu que tudo no quarto era calma e silncio.  O soldado fez ento o seguinte raciocnio:
      Se o baro dorme,  porque no est enfurecido;  se no est enfurecido,  porque ignora que o maldito arqueiro  me escorregou das mes como uma enguia;  
e se ignora a fuga do arqueiro, no me supe repreensvel, castigvel, enforcvel; posso portanto apresentar-me diante dele sem qualquer temor, e dar-lhe conta da 
minha misso como se a houvesse desempenhado do modo mais satisfatrio; assim ganharei tempo e poderei saber o que foi feito desse infernal Robin, afim de o tornar 
a meter no calabouo ou l o segurar se esses dois animais dos meus subordinados tiveram a sorte de cumprir bem o seu dever.  Posso portanto apresentar-me sem temor... 
sim, sem temor diante do meu terrvel e todo-poderoso senhor... Entremos.  Mas ele est dormindo, est dormindo!  Nesse caso seria a mesma coisa que aproximar-me 
deu m tigre esfaimado e tentar acariciar-lhe o lombo! No, No serrei to louco que v acordar o meu amo.  No, no! Contudo  prosseguiu monologando o pobre Lambic, 
ora trmulo, ora animado, ora tmido, ora fanfarro,  e se o baro no estivesse dormindo?  Tanto melhor! A  que seria verdadeiramente o momento de entrar, pois 
provaria mais uma vez que ele ignora a minha falta.  Realmente, se ele no est dormindo, esta calma e este silncio constituem um verdadeiro prodgio! Ora tentemos 
arranhar um pouco a madeira da porta, se esse rudo no for bem acolhido terei tempo de fugir.
     Lambic arranhou levemente com a unha no centro da porta, no ponto onde ela devia ter maior sonoridade. Essa espcie de provocao no teve resultado e nada 
perturbou o silncio que reinava no interior.
      Decididamente est dormindo  pensou de novo Lambic.  Qual o que, seu imbecil!  exclamou ele de repente;  Com certeza saiu, est no quarto da filha, seno 
eu o ouviria; e mesmo que estivesse dormindo eu o ouviria, pois ele dorme roncando.
     Levado por uma curiosidade diablica, o sargento manobrou cautelosamente a chave da porta, que girou nos gonzos sem chiar, permitindo-lhe introduzir a cabea 
para dar uma vista de olhos ao quarto inteiro.
      Misericrdia!
     Este brado de terror expirou nos lbios de Lambic, tolheram-no o frio e a imobilidade da morte e ele ficou entalado na abertura da porta, enquanto o baro, 
por sua vez mudo de espanto e surpreendido com tanta audcia o fulminava com os olhos.
     A m sorte perseguia sempre o desventurado Lambic, um gnio mau parecia encarniar-se contra a sua pessoa, e quis a fatalidade que ele fosse interromper o baro 
no exato momento em que o endurecido pecador, ajoelhado aos ps do sacerdote, pedia uma absolvio antes de partir para a corte de Londres.
      Miservel! Tratante! Sacrlego infame! Espio do confessionrio! enviado de Sat! Traidor vendido ao diabo! que vens tu fazer aqui?  gritou o baro quando 
pde enfim respirar e abrir as comportas  sua fria.  Quem  ento neste castelo o amo e o criado? s tu o amo? Sou eu o criado? Corda no pescoo  o que vais 
ter, hs de ser pasto para os corvos!   no montarei a cavalo enquanto no tiveres subido a escada da minha forca.
      Acalmai-vos, meu filho!  interveio o velho frade confessor.  Deus  misericordioso.
      Deus no pode ser servido por tais sacripantas!  prosseguiu o baro erguendo-se louco de furor.  Vem aqui, bandido!  acrescentou ele depois de ter dado 
uma volta ao quarto como uma hiena em sua jaula;  aqui de joelhos, no meu lugar, e confessa-te antes de morrer!
     Lambic no despegava da soleira da porta, e embora tivesse perdido toda a faculdade de raciocnio tentava contudo aproveitar-se de alguma pausa na clera do 
amo para arriscar qualquer justificativa.  O baro, cujos pensamentos e palavras sucediam com a maior incoerncia, ofereceu-lhe, sem o querer, uma ocasio para se 
desculpar.
      Que queres?  perguntou ele de repente.  Fala!
      Milorde, eu bati vrias vezes  porta  respondeu humildemente o sargento,  imaginei que no havia aqui ningum pensei...
      Ah! Pensaste em aproveitar-te da minha ausncia para me roubar.
      Oh, milorde!...
      Para me roubar!
      Eu sou um soldado, milorde!  replicou Lambic com um fio de altivez.
     Aquela acusao de roubo reanimou-lhe a coragem natural, fazendo com que ele no mais temesse a priso, as bastonadas e a corda.
      Caramba! Que nobre indignao!  exclamou o baro rindo ironicamente.
      Sim, milorde, eu sou um soldado, um soldado ao servio de Vossa Senhoria, e Vossa Senhoria nunca teve ladres por soldados!
      A minha Senhoria pode quando quer, se lhe apraz, chamar ladres aos seus soldados; a minha Senhoria no tem que se preocupar com as suas virtudes privadas; 
a minha Senhoria, enfim, dispe de suficiente bom-senso para admitir que a sua visita, senhor Lambic, visita com que honrava justamente quando me supunha ausente, 
no tem outro fim seno provar-me que o senhor  um homem honrado. Em resumo: ladro ou homem honrado, que vieste fazer aqui? Que tens a dizer-me a respeito do encarceramento 
do nosso jovem arqueiro?
     Lambic estremeceu outra vez; a pergunta do baro provava-lhe que a fuga de Robin no era ainda conhecida, e ele temia uma crise das mais violentas quando explicasse 
ao baro a causa das queimaduras do seu rosto; ficou pois imvel diante do terrvel senhor, os olhos estupidamente arregalados, a boca aberta, os braos pendentes.
      Eh! De onde vens tu?  gritou de repente o baro observando o rosto de Lambic.  Por Deus!  u tinha razo ainda h pouco de te chamar evadido do inferno; 
s fazendo uma visita ao diabo podes ter chamuscado desse modo o focinho!
      Foi uma tocha que me queimou, milorde.
      Uma tocha!
      Perdo, milorde; mas Vossa Senhoria no sabe que essa tocha...
      Que histria  essa? Vamos logo; de que tocha ests falando?
      Da tocha de Robin.
      Outra vez Robin!  berrou o baro com voz trovejante, indo despendurar a sua espada.
      Bem! Aqui estou decididamente embalado e expedido para o outro mundo  pensou Lambic encolhendo-se instintivamente no vo da porta e aprontando-se para fugir 
ao primeiro bote que lhe atirasse o baro.
      Outra vez Robin! Onde est esse Robin?  gritou o baro sacudindo no ar a durindana;  onde est ele, para que eu vos atravesse a ambos juntamente?
     Lambic tinha j metade do corpo fora do quarto, e agarrava-se com as mos  folha da porta, resolvido a pux-la para si se a ponta do espado o ameaasse perto 
demais.
      Meu filho  interveio o velho frade,  os filisteus iam ser batidos, mas fizeram as suas oraes a Deus e a espada reentrou na sua bainha.
     Fitz-Alwine jogou a espada para cima da mesa e correu para Lambic que no dava a menor impresso de querer fugir.
      Estou perguntando  disse ele segurando-o pela gola do gibo e arrastando-o para o meio do quarto,  estou perguntando o que vieste fazer aqui. Desejo ainda 
saber que relaes existem entre Robin, uma tocha e essa tua medonha cara. Responde prontamente e claramente, do contrrio haver aqui uma outra espada que a clemncia 
no far entrar na bainha.
     Assim dizendo, Fitz-Alwine apontava com o dedo, num canto do aposento, a grossa e comprida bengala de casto de ouro, o junco quase fenomenal a que costumava 
apoiar-se nos seus passeios pela fortaleza.
      Milorde  replicou vivamente o sargento que acabava de inventar um expediente para se furtar a uma resposta categrica,  eu vinha, milorde, perguntar-lhe 
o que Vossa Senhoria conta fazer desse Robin Hood.
      Eh, com todos os diabos! Quero que ele permanea no calabouo onde est encerrado.
      Querer milorde dizer-me qual  esse calabouo, para que eu fique de sentinela?
      Ento no sabes? No o conduziste l tu mesmo, no h ainda uma hora?
      Mas ele j l no est, milorde. Eu tinha dado aos soldados ordem para o trazer  vossa presena, e pensei que Vossa Senhoria tivesse determinado outra priso. 
E foi nesse calabouo, milorde, que ele me queimou o rosto.
      Ah! isso  demais!  rugiu Fitz-Alwine dando um passo na direo da bengala de casto de ouro, enquanto Lambic girava a meio a cabea, calculando com olho 
inquieto se lhe ficaria tempo para fugir antes que a tempestade escalasse.
     As bengaladas iam portanto desabar como um aguaceiro, porque apesar da sua gota o baro no era maneta, quando Lambic levado aos extremos, esquecido da inviolabilidade 
do seu senhor, pulou ao seu encontro, arrancou-lhe o junco das mos, segurou-lhe ambos os braos  altura dos punhos, e com tanto respeito quanto o permitia a circunstncia 
obrigou-o vivamente a recuar, empurrou-o para a sua vasta poltrona de gotoso e largou a fugir a toda a pressa.
     A toda a pressa tambm o velho Fitz-Alwine, a quem a excitao do momento devolvera uma certa agilidade, desejou perseguir o audacioso vassalo; mas os dois 
soldados que atravessavam da sua expedio  procura de Robin pouparam-lhe essa canseira, pois aos seus gritos de Pra! pra! barraram a passagem ao sargento, 
que ainda no sara da antecmara.
      Afastem-se!  disse o sargento empurrando os dois subordinados;  Afastem-se! 
     Mas Fitz-Alwine correu a fechar a porta de sada, e como desde ento qualquer resistncia se tornava intil, o desgraado Lambic esperou, mergulhado em sombria 
expectativa, que prouvesse ao seu alto e poderoso senhor manifestar-se a respeito da sua sorte.
     Por um desses fenmenos curiosos, inexplicveis, e que so ta vez na ordem moral o que so os seus anlogos na ordem fsica da natureza, a clera do baro pareceu 
diminuda aps esse episdio de rebelio, do mesmo modo que um grande vento decai aps uma chuva ligeira.
      Pede-me perdo  disse tranquilamente Fitz-Alwine, que arquejando de cansao se deixou cair, agora voluntariamente, na sua vasta poltrona;  vamos, sargento 
Lambic, pede-me perdo!
     O baro talvez no manifestasse essa tranqilidade, essa singular mansido, seno porque j no dispunha de foras suficientes para manter a sua fria no diapaso 
habitual; mas aquilo no podia ficar muito tempo assim, e  medida que as tmidas hesitaes de Lambic se prolongavam, e  medida tambm que a respirao do tirano 
se regularizava, as efervescncias da clera iam aumentando de intensidade e a exploso dessa clera tornava-se iminente.
      Ah! Recusas ento pedir-me perdo! pois bem  acrescentou Fitz-Alwine num tom cruelmente sarcstico,  podes fazer o teu ato de contrio:  uma coisa muito 
til antes da morte.
      Milorde, aqui est o que se passou, e estes dois homens podero testemunhar a verdade.
      Dois marotos como tu!
      Eu no sou to culpado quanto Vossa Senhoria pensa, milorde; eu ia fechar a porta do calabouo, quando Robin Hood...
     No acompanharemos o sargento no seu copioso relato, entrecortado de reticncias em seu favor, pois os nossos leitores no recolheriam dele qualquer novo detalhe; 
o baro escutou-o, no sem alguns rugidos de furor, batendo com os ps no cho e agitando-se na cadeira tanto quanto o diabo, segundo dizem, quando uma pia de gua 
benta lhe serve de banheira, e terminou por resumir as suas ameaas de castigo por esta frase de pavoroso laconismo:
      Se  verdade que Robin fugiu do castelo, vs outros no haveis de fugir; para ele a liberdade, para vs a morte.
     De repente bateram com violncia  porta do quarto.
      Entre!  gritou o baro. 
     Um soldado entrou dizendo:
      Que o muito honrado lorde me perdoe se ouso apresentar-me diante da sua muito honrada pessoa, sem ser mandado por sua muito alta Senhoria; mas o acontecimento 
que acaba de verificar-se  to extraordinrio, to terrvel, que eu acreditei cumprir um dever vindo anunci-lo imediatamente ao muito honrado senhor deste castelo.
      Fala; mas sem esses interminveis rodeios.
      Cumprirei as determinaes de vossa muito alta Senhoria; a histria que tenho para contar tem um fim, e procurarei que ela seja to curta quanto  realmente 
apavorante; eu sei que um bom soldado deve dar tanto trabalho ao seu arco quanto deixar em descanso a sua lngua, e como me considero um bom...
      Vamos logo  histria, imbecil! Venha essa histria!  gritou o baro furioso.
     O soldado inclinou-se com toda a cortesia e prosseguiu:
       ... como me considero um bom soldado, no esqueo jamais esse princpio.
      Infernal tagarela! Cala essa boca se no tens outra coisa a dizer seno falar dos teus mritos, ou ento conta logo a histria.
     O soldado inclinou-se mais uma vez e prosseguiu imperturbavelmente:
      Meu dever ordenava-me...
      O qu! Pois continuas?  vociferou Fitz-Alwine.
      Meu dever ordenava-me render a sentinela do santurio ...
      Ah! At que enfim  pensou o baro dispondo-se a ouvir atentamente.
      De modo que me encaminhei para l, h de haver uns cinco ou dez minutos, conforme aprouver a vossa muito honrada Senhoria; chegando  porta do santo lugar, 
no encontrei l vestgios de sentinela; contudo era foroso que ali estivesse uma, pois eu prprio ia rend-la. Deve haver uma por aqui  pensei eu,  o essencial 
 encontr-la; procuremos. Procurei, chamei, ningum respondeu, ningum apareceu. Ter adormecido? Estar embriagada? Tambm pode ser  pensei eu. Vamos ao posto, 
vamos solicitar ajuda para prender o delinqente, e a fim de que lhe seja infligida uma punio exemplar,  parte a punio que lhe infligir meu chefe. Cheguei 
ao posto, gritando: Sargento, mande sair a guarda!; ningum saiu do posto; entrei: no havia ningum l dentro.  Oh! Oh! extraordinrio!  pensei eu...
      Vai para o diabo com os teus pensamentos, maldito tagarela!  Conta logo o fato!  gritou o baro impaciente.
     O soldado executou de novo a sua saudao militar e continuou com perfeita serenidade:
      Oh! Oh! Extraordinrio!  pensei eu,  os deveres do soldado parece que so desconhecidos no castelo de Nottingham. A disciplina encontra-se relaxada e as 
conseqncias deste relaxamento...
      Com mil diabos!  trovejou o baro;  no acabars de uma vez com essas divagaes, cretino palrador, co prolixo!
      Co prolixo!  murmurou para si o soldado, interrompendo-se quele epteto;  co prolixo! todavia eu, que sou um grande caador, no conheo ainda essa raa 
de ces. Mas no tem importncia, continuemos. As conseqncias desse relaxamento podem ser funestas; no me foi difcil encontrar os homens do posto abancados na 
cantina, e empreendemos imediatamente uma visita minuciosa e inteligente s proximidades do santo lugar e ao seu interior. Nas proximidades nada de especial, a no 
ser a ausncia persistente da sentinela; mas no interior foi encontrada presente essa mesma Sentinela, e em que estado, grande Deus! presente como os mortos no campo 
de batalha, quero dizer deitada por terra, sem vida, banhada em seu sangue e com o crnio varado por uma flecha...
      Santo Deus!  exclamou o baro.  Quem poderia ter cometido semelhante crime?
      Ignoro-o, pois no estava presente; mas...
      Quem era esse morto?
      Gaspar Steinkoff... um valente soldado.
      E no sabes quem  o assassino?
      J tive a honra de dizer a vossa alta Senhoria que no estava presente quando se verificou o crime; mas, com o intuito de facilitar as investigaes de monsenhor, 
tive a idia  de me apoderar da flecha homicida... aqui est ela.
      Esta flecha no provm do meu arsenal  observou o baro depois de a ter examinado atentamente.
      Mas, com todo o respeito devido a vossa honrada Senhoria  continuou o soldado,  permitir-me-ei fazer-lhe notar que esta flecha, no provindo do seu arsenal, 
deve ter vindo de fora, e eu creio ter notado outras semelhantes no carcs que trazia esta noite um dos novios escudeiros.
      Que novio?
      Halbert. O carcs e o arco que vimos nas mos desse jovem, pertencia a um dos prisioneiros de Sua Senhoria, a um que se no me engano usa o nome de Robin 
Hood.
      Depressa, vai buscar Halbert e traze-o  minha presena  ordenou o baro.
      H pouco mais ou menos uma hora  acrescentou o mesmo soldado,  vi Halbert, acompanhado da senhorita Maude, encaminhando-se para os aposentos de Lady Christabel.
      Acende uma tocha e acompanha-me!  gritou o baro. Seguido de Lambic e da escolta, o baro, que no sentia mais a sua gota, marchou rapidamente para os quartos 
da filha. Chegado  porta, bateu; mas como no obtivesse resposta, abriu e precipitou-se para o interior. Profunda escurido, silncio completo. Em vo o baro percorreu 
o gabinete e as restantes dependncias do apartamento: em toda a parte o mesmo silncio e a mesma escurido.
      Fugiu! Ela fugiu!  murmurou o baro angustiado;  e com voz desgarradora, chamou:  Christabel! Christabel!
     Mas Christabel no respondeu.        .
      Fugiu! Fugiu!  repetia o baro torcendo as mos e deixando-se cair sobre a mesma cadeira onde a surpreendera escrevendo a Allan Clare.  Fugiu com ele! Oh, 
minha filha, minha Christabel!
     Entretanto, a esperana de alcanar ainda a filha em sua fuga restituiu ao pobre pai alguma energia.
      Vamos! Vs outros  gritou ele trovejando;  Vamos! Dividi-vos em dois grupos: um esquadrinhar o castelo de alto a baixo, ao longo e ao largo, procurando 
por toda a parte, sem esquecer absolutamente nada... o outro a cavalo, que nem um bosque, uma moita, um silvado de floresta de Sherwood escape s vossas investigaes... 
Ide...
     Os soldados movimentavam-se para sair, quando o baro pitou ainda:
      Digam a Herbert Lindsay, o porta-chaves, que venha aqui; foi Maude Jezabel, sua condenada filha, quem organizou a fuga, e ele vai pagar por ela. Digam tambm 
a vinte dos meus cavaleiros que selem os seus corcis e se mantenham prontos a partir  primeira ordem. Depressa, depressa, miserveis!
     Os soldados partiram a toda a brida, e Lambic aproveitou a circunstncia para se colocar fora do alcance das garras de seu irascvel amo e senhor.
     Uma vez sozinho, o baro entrou em sucessivas divagaes, levado pelos frenesis da clera e pelas desolaes do corao. Amava sinceramente a filha, e a vergonha 
que sentia da sua fuga com um homem era menor ainda que a sua dor ao pensar que da em diante no a veria mais, no a beijaria mais, e nem mesmo a tiranizaria mais.
     Foi durante essas alternativas de furor e desespero que o velho Herbert Lindsay apareceu. Infelizmente para ele, chegava antes do fim de um acesso de clera.
      J que eles no sabem desempenhar o seu ofcio de soldados  vociferava o baro,  eu os exterminarei a todos; no deixarei sobre a terra a sombra de um fantasma, 
de um s desses malditos, porque essa sombra poderia dizer: Eu ajudei Christabel a enganar seu pai! Sim, sim, juro-o Por todos os santos apstolos e pelas barbas 
dos meus ancestrais, no pouparei um nico!... Ah! Chegaste enfim, mestre Herbert Lindsay, guardio chaveiro do castelo de Nottingham! Chegaste enfim!
      Vossa Senhoria mandou-me chamar  disse o velho aparentando a maior calma.
     O baro no lhe deu resposta, mas em compensao saltou-lhe ao pescoo como saltaria um animal feroz, e arrastando-o para o meio do aposento disse-lhe sacudindo-o 
com brutalidade:
      Bandido! Minha filha, onde est minha filha? Responde se no queres que te estrangule!
      Vossa filha, milorde? Mas eu no sei dela  respondeu Herbert mais surpreendido que assustado com a fria do seu senhor.
      Mentes!
     Herbert conseguiu libertar-se das mos do baro e respondeu com grande frieza:
      Milorde, fazei-me a honra de me explicar o motivo da vossa estranha pergunta, e eu vos responderei... Mas deveis ficar sabendo, milorde, que eu no passo 
de um pobre homem honrado, franco e leal, que em toda a sua vida no teve de corar uma s vez de qualquer falta. Ainda que me matsseis aqui mesmo neste lugar, no 
me importaria de morrer sem confisso porque nada tenho a censurar-me; sois meu senhor e meu amo, interrogai-me e eu responderei a todas as vossas perguntas, no 
por temor, mas por dever e respeito...
      Quem saiu deste castelo nas ltimas duas horas?
      No o poderia dizer, milorde; justamente h duas horas entreguei as chaves ao meu ajudante Micael Walden.
      Ests falando a verdade?
      To verdade quanto vs serdes meu senhor e amo.
      Quem saiu enquanto tu ainda estavas de guarda?
      Halbert, o moo escudeiro, que me disse: Milady est doente, tenho ordem de ir buscar um mdico.
      Ah! Eis a a conspirao!  gritou Fitz-Alwine.  Ele mentiu-te. Christabel no estava doente e Hal saiu para preparar a sua fuga.
      Como! Milady abandonou-vos, monsenhor?
      Sim, essa ingrata abandonou seu velho pai, e tua filha fugiu juntamente com ela.
      Maude? Oh, no, monsenhor, isso no  possvel! Eu vou procur-la;  deve estar em seu quarto.
     O sargento Lambic, que estava ansioso por mostrar o seu desvelo, entrou precipitadamente.
      Milorde!  exclamou ele,  Os vossos cavaleiros esto prontos. Em vo procurei Halbert por todo o castelo; ele voltou aqui juntamente comigo e com Robin, 
e no tornou a sair pela porta principal,  o que Micael Walden afirma sob juramento; ningum passou a ponte levadia nestas duas ltimas horas.
      Agora nada disso importa!  volveu o baro.  A morte de Gaspar no  um crime intil. Lambic!  acrescentou Fitz-Alwine aps um instante de silncio.
      Milorde.
      Foste esta noite at  casa de um guarda chamado Gilbert Head, no longe de Mansfeldwoohaus? 
      Fui, milorde.
      Pois bem!  l que mora esse infernal Robin Hood,  sem dvida l que minha ingrata filha deve ter ido encontrar-se com um patife que... Mas no falemos disso... 
Lambic, monta a cavalo com os teus homens, corre a essa casa, apodera-te dos fugitivos e no voltes aqui seno depois de ter incendiado esse covil de malfeitores.
      Assim se far, milorde.
     E Lambic desapareceu. Herbert Lindsay, que regressara da sua busca alguns minutos antes, permanecia de p, afastado, melanclico, silencioso, de braos cruzados 
e cabea baixa.
      Meu velho servidor  disse-lhe Fitz-Alwine,  eu no quero que a raiva me faa esquecer que h longos anos vivemos um ao p do outro; sempre me foste fiel, 
salvaste-me duas vezes a vida; no, meu velho irmo de armas, esquece as minhas cleras, as minhas brutalidades, at mesmo as minhas injustias, e se amas tua filha 
como eu amo a minha, empresta-me mais uma vez o socorro da tua coragem e da tua experincia para reconduzir ao aprisco as duas ovelhas desgarradas... porque Maude 
sem dvida alguma fugiu com Christabel.
      Ai! Monsenhor, seu quarto est vazio  respondeu o pobre velho soluando.
     Essa sincera aflio devia provar a Fitz-Alwine que Herbert no era cmplice da fuga das duas jovens; mas o singular gentil-homem, to desconfiado quanto irascvel, 
estava convencido de que um inferior procura sempre enganar o seu superior, o vilo ao nobre, o simples padre ao prelado, o soldado ao seu oficial, e assim por diante. 
De modo que sups estender uma armadilha a Herbert, dizendo-lhe:
      No existe nas passagens subterrneas do castelo uma sada que d para a floresta de Sherwood?
     O baro conhecia perfeitamente a existncia dessa sada, todavia ignorava a sua exata posio; Herbert e sua filha estacam decerto melhor informados do que 
ele.
      Ah!  pensou ao fazer essa pergunta;  se a senhorita Maude guiou minha filha por baixo da terra, eu lhe pairei  luz do dia, e generosamente, os gastos da 
conduo.
     Herbert, franco e leal como j o dissemos, estava no propsito de ajudar o amo a encontrar a jovem lady;  era alis to interessado quanto o baro em apanhar 
as fugitivas, de maneira que se apressou a responder:
      Sim, milorde, os subterrneos tm uma sada para a floresta, e eu conheo todas as voltas que l vo dar.
      Maude tambm conhece esses caminhos?
      No, milorde, pelo menos assim o penso.
      A no seres tu, nenhuma outra pessoa conhece ento esse segredo?
      Trs outras pessoas o conhecem, milorde: Micael Walden, Gaspar Steinkoff e Halbert.
      Halbert!  gritou o baro tomado de novo acesso de raiva;  Sempre Halbert! Ento foi ele que lhes serviu de guia. Ol! Vs outros, uma tocha, muitas tochas, 
percorramos o subterrneo!
     Herbert fora recompensado pela sua franqueza; o baro no desconfiava mais dele, prodigalizando-lhe nomes amistosos e juramentos de eterna gratido.
      Coragem, meu senhor!  dizia o velho enquanto se preparavam as tochas e os homens acorriam para compor a escolta;  coragem, Deus h de devolver-nos nossas 
filhas.
     O desespero dos dois velhos era emocionante. Separados pelo nascimento, pelo orgulho de raa, pelo gnero de vida, uniam-se para conjurar uma desgraa comum, 
mostravam-se iguais na dor.
     O baro e Herbert, seguidos de seis homens de armas, atravessaram a capela sem se deter diante do cadver de Gaspar e mergulharam no subterrneo.  E mal tinham 
dado ainda alguns passos, quando um longnquo rumor de vozes chegou aos ouvidos de Fitz-Alwine.
      Ah!  exclamou ele,  Apanhamo-los! Avana, Herbert, avana!
     Herbert caminhava  frente.
     O rumor ouvido pelo baro recomeou.
      Monsenhor  observou o velho porta-chaves,  o rumor que estais ouvindo no provm da passagem que leva  floresta.
      No importa, devem ser eles;  avana, avana logo.  A passagem bifurcava-se nesse ponto e o grupo enveredou para o lado de onde vinha o rudo. Bruscamente 
esse rudo aumentou, ressoaram brados.
      Olha, olha, esto gritando por socorro! Estamos aqui minhas filhas, estamos aqui!
      Nesse caso enganaram-se no caminho  notou Herbert.
      Tanto melhor  volveu o baro, cuja paternal ternura ia j cedendo lugar a uma sede de vingana das mais ardentes;  tanto melhor!
     Herbert, que marchava alguns passos adiante, deteve-se para escutar melhor.
      Milorde  tornou ele,  juro-vos que esses clamores no vm dos fugitivos; ns deixamos o caminho certo indo por este lado, e o que estamos  perdendo tempo.
      Vem comigo!  gritou o baro atirando um furioso olhar ao porta-chaves, que recomeava a suspeitar de inteligncia com os fugitivos.  Vem comigo, e vs outros, 
esperai-nos aqui!
      Estou s vossas ordens, milorde  respondeu Herbert. Os dois velhos avanaram ao encontro dos rumores; de minuto em minuto os brados iam-se tornando mais 
distintos.
      Pela minha alma!  murmurava Herbert, meu amo est louco; ele acha ento que quem foge faz um barulho desses? Quem quer que a esteja berra a plenos pulmes 
e o que me parece  que eles vm ao nosso encontro.
     Mal acabava essas palavras quando dois soldados surgiram aos olhos espantados do baro.
      De onde vindes, marotos?
      De perseguir o preso Robin Hood  responderam os desgraados, arquejando de fadiga e tremendo de susto.  Extraviamo-nos, milorde  acrescentaram eles;  
estvamos certos de nos havermos perdido para sempre quando a providncia enviou vossa honrada Senhoria em nosso socorro; ouvimos quando o grupo estava ainda longe, 
e corremos ao vosso encontro para vos poupar caminho.
     Fitz-Alwine j no sabia a que diabo se apegar no seu desapontamento quando um dos soldados entendeu de lhe contar as peripcias da fuga de Robin Hood.
      Silncio, silncio, imbecis!  berrou ele.  Desde que vos perdsteis neste subterrneo, onde devereis ser condenados a morrer de fome, no ouvsteis acaso 
algum rumor suspeito pelas galerias?
      Absolutamente nada, milorde.
      Corramos, Herbert, corramos  preciso recuperar o tempo perdido!
     Justamente esse tempo perdido salvara os fugitivos. Um quarto de hora depois o pequeno grupo desembocava na floresta, e j no era possvel duvidar que os fugitivos 
tivessem seguido esse caminho. A porta do subterrneo, ordinariamente fechada, estava escancarada.
      Meus pressentimentos no me tinham enganado!  exclamou o baro.  Ide, soldados, ide, batei a floresta em todos os sentidos; prometo cem peas de ouro a 
quem reconduzir ao castelo lady Christabel e os infames que a levaram.
     O baro, acompanhado apenas de Herbert, voltou para trs e meteu-se no quarto. Depois, em vez de se dar um breve repouso de que to necessitado estava, revestiu 
uma cota de malha, cingiu o espado, e brandindo a sua lana de pendo enfeitado com as cores da sua casa, montou  pressa a cavalo e lanou-se  frente de vinte 
homens pela estrada de Mansfeldwoohaus.
XIV
     
     
     
     OS dramatis personae que j entraram nesta histria percorrem neste momento a velha floresta de Sherwood.
     Robin e Christabel tentam alcanar o ponto onde sir Allan Clare os deve esperar, e por consequncia marcham em sentido contrrio ao do sargento Lambic, que 
recebeu ordem de incendiar a morada do pai adotivo do jovem Robin.
     Seguido de vinte boas lanas, o baro, remoado por uma clera persistente, acaba de lanar-se  procura da filha; deixemo-lo galopar a toda a brida pelos verdejantes 
atalhos da floresta, e vamos reunir-nos a sir Allan Clare que, ajudado por Joo-Pequeno, frei Tuck, Will Escarlate e pelos seis outros filhos do nobre sir Guy de 
Garnwell, se encaminha a toda a pressa para o vale de Robin Hood, enquanto Maude e Halbert buscam a cabana do velho guarda florestal.
     Maude deixou de ser a criatura esperta, infatigvel, corajosa e alegre de sempre. Maude repassa tristemente em sua memria as indicaes que lhe deu Robin para 
se orientar entre os mil carreiros que se cruzam e entrecruzam. Maude, enfim, embora sob a proteo do intrpido rapaz, parece uma pobre abandonada, e suspira, suspira 
pelo fim dessa longa caminhada.
      Estamos ainda muito longe da casa de Gilberto?  Pergunta ela.
      No, Maude  responde Hal jovialmente;  apenas seis milhas, creio eu.
      Seis milhas!
      Coragem, Maude, coragem!  tornou Halbert;  Estamos trabalhando para Lady Christabel... Mas olha para alm: no vs passar um cavaleiro acompanhado de um 
frade 6 <te alguns mateiros?  o senhor Allan,  frei Tuck. Salve Chores! Nunca um encontro foi to a propsito!
      E lady Christabel e Robin, onde esto?  perguntou vivamente sir Allan reconhecendo Maude.
      Devem estar a caminho do vale para vos esperarem   respondeu Maude.
      Graas a Deus!  exclamou Allan depois de ter reclamado a Maude um relato minucioso de todas as peripcias da sua fuga do castelo.  Valente Robin! Devo-lhe 
tudo, minha bem-amada e minha irm!
      amos prevenir o velho Gilberto dos motivos da ausncia de Robin  disse Hal.
      E no poderias agora ir sozinho, irmo Hal?  perguntou Maude que ardia em desejos de se aproximar de Robin.  Minha ama deve estar precisando muito dos meus 
servios.
     Allan no viu nenhum inconveniente em aceitar a oferta de Maude e ps-se de novo em marcha.
     Frei Tuck, silencioso e isolado a princpio, no tardou a acercar-se da moa; tentou fazer-se amvel, sorriu, falou menos bruscamente do que costumava, chegou 
quase a ter esprito; mas as tentativas do pobre frade foram acolhidas com extrema reserva.
     Essa mudana nas maneiras de Maude, afligindo Tuck, tiraram-lhe todo o entusiasmo; afastou-se para um lado e ps-se a caminhar olhando pensativamente a jovem, 
sempre to pensativa quanto ele.
     Enquanto isso, alguns passos atrs de Tuck avanava uma pessoa que parecia desejar vivamente um olhar de Maude; essa pessoa recompunha a desordem em que trazia 
as suas roupas, limpava com o antebrao as mangas e as abas da sua jaqueta, erguia a pena de gara que lhe enfeitava o gorro, alisava a densa cabeleira, enfim, entregava-se 
em plena floresta a esse pequeno trabalho de faceirice que todo o enamorado principiante executa por instinto.
     A pessoa a que nos referimos outra no era que o nosso amigo Will Escarlate.
     Maude resumia para ele o ideal da beleza; via-a pela primeira vez, mas era a ela que em seus sonhos escolhera para reinar em seu corao. Uma fronte branca 
e levemente arqueada, sublinhada por sobrancelhas delicadas e escuras, uns olhos negros cujo brilho era amenizado pelo anteparo dos clios longos e sedosos, faces 
rseas e aveludadas, um nariz como os modelavam os estaturios da antiguidade, uma boca entreaberta para deixar falar ou respirar o amor, lbios de comissuras onde 
se aninhavam sorrisos meigos e finos, um queixo cuja covinha prometia to naturalmente o prazer como a cicatriz da semente promete a flor, um pescoo e uns ombros 
unidos por uma verdadeira linha serpentina, um talhe esbelto, movimentos flexveis e ps pequeninos para os quais os caminhos da floresta deveriam cobrir-se de flores: 
tal era Maude, a linda filha de Herbert Lindsay.
     William no era bastante tmido para se contentar com uma admirao silenciosa;  o desejo, a necessidade de sentir os olhos da jovem erguerem-se para ele, fizeram 
com que no tardasse a aproximar-se.
      Conhece Robin Hood, senhorita?  perguntou Will.
      Conheo, sim senhor  respondeu graciosamente Maude.
     Sem o saber, Will tocara a corda sensvel e ganhava a ateno da linda Maude.
      E gosta muito dele?
     Maude no respondeu mas as suas faces cobriram-se de rubor. Era preciso que Will fosse um verdadeiro principiante para interrogar assim  queima-roupa o corao 
de uma mulher; ele agia como um cego que caminhasse sem receio | beira de um precipcio, e h muitas pessoas assim cuja valentia  apenas o resultado da ignorncia.
      Estimo tanto Robin Hood  prosseguiu ele,  que a ficaria detestando, senhorita, se o no apreciasse.
      Sossegue, senhor; posso garantir-lhe que o acho um moo encantador.  Conhece-o talvez h muito tempo?
      Somos amigos de infncia, e preferia antes perder a minha mo direita do que a sua amizade; isto quanto  estima. Quanto ao apreo, acho que no h em todo 
o condado um arqueiro  que se lhe compare; seu carter  to reto quanto as suas flechas;  valente,  bom, e a modstia iguala nele a bondade e a bravura. Em companhia 
dele no temeria o universo inteiro.
      Que entusiasmo na expresso dos seus sentimentos, senhor!  No haver algum exagero nesses elogios?
      To certo como eu me chamar William de Garnwell, e ser um moo honesto, estou falando a verdade, senhorita, nada mais que a verdade.
      Maude  perguntou Allan,  ser que o baro j se apercebeu da fuga de lady Christabel?
      Com certeza, senhor cavaleiro; porque Sua Senhoria devia partir esta manh para Londres com milady.
      Silncio! Silncio!  veio dizer Joo-Pequeno que ia adiante como batedor;  escondam-se no lugar mais espesso peste cerrado; ouo um rumor de cavalgada; 
se os que a vem nos descobrirem, saltaremos sobre eles de improviso, e nossa contra-senha ser o nome de Robin Hood... depressa, Escondam-se  insistiu Joo-Pequeno 
correndo ele prprio para trs de um tronco de rvore.
     Imediatamente surgiu um cavaleiro montando um animal que transpunha todos os obstculos, fossas, rvores derrubadas, moitas e valados, com fantstica velocidade; 
esse cavaleiro, a quem com grande dificuldade seguiam quatro homens igualmente a cavalo, estava acocorado mais do que sentado em seu fogoso corcel; tinha perdido 
o chapu, e os longos cabelos esparsos, sacudidos pelo vento, davam-lhe ao rosto onde se estampava o pavor, um aspecto estranho e diablico  passou de raspo junto 
ao cerrado onde se escondera o pequeno grupo, e Joo-Pequeno avistou uma flecha cravada, como a baliza de um agrimensor, na garupa do cavalo.
     O cavaleiro logo desapareceu nas profundezas da floresta, sempre seguido pelos seus quatro homens.
      Que o cu nos proteja!  gritou Maude.   o baro!
       o baro!  repetiram Allan e Halbert.
      E se eu no me engano  acrescentou Will,  a flecha que serve de leme ao seu cavalo saiu da aljava de Robin; hein, que dizes a isto, primo Joo-Pequeno?
      Sou da tua opinio, Will, e concluo da que a jovem senhora e Robin esto correndo perigo. Robin  demasiado prudente para desperdiar as suas flechas sem 
ser obrigado a isso; o melhor  apressarmos o passo.
     Uma palavra para explicar a desagradvel situao do nobre Fitz-Alwine, alis excelente cavaleiro, no ser intil.
     O baro, metendo-se pela floresta dentro, dera ordem ao seu melhor trotador para percorrer a grande estrada de Nottingham a Mansfeldwoohaus e de vir fazer-lhe 
um relato do que encontrasse numa certa encruzilhada. J sabemos o que aconteceu ao trotador: Robin desmontou-o. O acaso quis que Robin e Lady Christabel entrassem 
por um dos caminhos que iam dar  encruzilhada escolhida como ponto de encontro, enquanto o baro l chegava por outro. Os dois fugitivos tiveram a sorte de se esconder 
num pequeno bosque sem ser vistos, e o baro com os seus quatro escudeiros detiveram-se no meio da encruzilhada, numa eminncia do terreno, aguardando o regresso 
do batedor.
      Procurai pelos arredores  ordenou o baro;  dois por aqui e dois por ali.
      Estamos perdidos  pensou Robin.  Que havemos de fazer? Como fugir? Se sairmos do bosque, os cavalos nos alcanaro em dois tempos; se tomarmos por uma picada 
interior, o barulho atrair a ateno dos soldados; que fazer?
     Enquanto assim refletia, Robin distendia o seu arco e escolhia na aljava uma flecha de ponta de ferro mais aguada.  Christabel, embora aniquilada pelo susto 
notou esses preparativos, e como a piedade filial sobrepujasse nela o desejo de se reunir a Allan, suplicou ao jovem que lhe poupasse o pai.
     Robin sorriu, e fez com a cabea um sinal afirmativo.
     O sinal queria dizer: descanse, que hei de poup-lo; o sorriso:  lembre-se do cavaleiro desmontado.
     Os soldados percorriam atentamente a orla da encruzilhada, mas o prmio de cem escudos de ouro que lhes estimulava o zelo no tinha a virtude de lhes dar faro. 
Contudo a posio de Robin e Christabel ia-se tornando cada vez mais crtica, porque os cachorros policiais, sados dois a dois de pontos postos para fazerem a volta 
da clareira, no podiam reunir-se sem os encontrarem.
     Enquanto isso o velho Fitz-Alwine, postado como uma sentinela nas alturas que dominam o campo inimigo, entregava-se a um ensaio geral do terrvel sermo que 
contava dirigir  filha quando ela reentrasse outra vez no domiclio paterno. Imaginava tambm os refinamentos dos diversos castigos a infligir a Robin, a Maude 
e a Halbert, e calculava quantas polegadas mais ou menos de altura devia ter a forca de Allan; sonhava, o excelente senhor, com as convulses daquele que ousara 
roubar-lhe Christabel. Deixaria apodrecer o seu cadver no patbulo durante o ms da lua de mel, e sorria j  idia  de ser av no ano prximo por intermdio de 
sir Tristo de Galdsborough.
     Mas de repente, em meio a esses encantadores devaneios, o cavalo do baro empinou-se, sacudiu as ancas, torceu o lombo, atirou coices e agitou vivamente o velho 
guerreiro, que em vo procurou domin-lo como dominava outrora os indomveis corcis rabes.  Baldadas tentativas! Homem e animal no se entendiam;  Fitz-Alwine 
permaneceu to firme na sela como a flecha que acabava de cravar-se na garupa do cavalo, e tanto o animal como os sonhos do baro tomaram o freio nos dentes e teve 
incio pela floresta essa corrida desordenada, louca, fantstica, que os levou ao p de Allan Clare e os arrastou no se sabe at onde.  Os quatro escudeiros saram 
em socorro do amo, e o hbil arqueiro, levando a companheira pela mo, atravessou a encruzilhada.
     Que teria acontecido ao baro? Na verdade mal ousamos contar o episdio que deu fim a essa corrida desabalada, to extraordinrio e maravilhoso se nos afigura; 
mas as crnicas da poca garantem-lhe a autenticidade, e aqui o relatamos: Os escudeiros logo perderam o baro de vista, e talvez ele tivesse sido arrebatado atravs 
da Inglaterra at  beira do Oceano, se o animal, passando sob um carvalho junto ao qual jazia um pedao de tronco de rvore, no tivesse tropeado.
     O nosso baro, que no perdera a faculdade de raciocnio quis evitar uma queda cuja violncia podia ser-lhe mortal, e deixando as rdeas segurou-se com ambas 
as mos a um dos ramos do carvalho muito felizmente ao seu alcance. Esperava poder ao mesmo tempo conter o cavalo apertando-o entre os joelhos; mas o corcovo forado 
do animal foi to profundo que Fitz-Alwine teve de abandonar a sela e ficou suspenso pelas mos ao ramo do carvalho, enquanto o cavalo se erguia outra vez aliviado 
e empreendia uma nova corrida.
     Pouco habituado a ginstica, o baro mediu prudentemente a distncia que o separava do cho antes de se deixar cair, quando de repente viu flamejar na meia 
obscuridade da manh, e justamente debaixo dos seus ps, qualquer coisa incandescente como dois pedaos de carvo aceso. Esses dois pontos gneos pertenciam a certa 
massa escura que se agitava, tornejava e se aproximava por instantes e por meio de saltos, das pernas do inditoso baro.
      Oh!  um lobo!  pensou o fidalgo sem poder conter um grito de pavor e esforando-se por subir para se escarranchar no ramo; mas no o conseguiu e um suor 
gelado, o suor do medo inundou-o quando sentiu escorregar sobre o couro da sua bota e ranger no metal das suas esporas, os dentes do lobo que pulava, estendia o 
focinho, punha a lngua de fora e farejava a sua presa  medida que se lhe iam inteiriando os braos, ele tentava segurar-se pelo queixo ao ramo e encolhia as pernas 
at ao peito.
     A luta era desigual; o fio que retinha no ar aquela gulodice de animal feroz ia quebrar-se, o velho lorde estava no extremo das foras; assim, enviando um derradeiro 
pensamento a Christabel e recomendando a sua alma a Deus, fechou os olhos, abriu as mos. .. e caiu.
     Mas,  milagre da Providncia! Caiu como uma laje sobre a cabea do lobo, que no esperava um to pesado quinho, e ao cair, o peso do seu corpo, tombando pelo 
lado em que apresenta maior amplido, desconjuntou as vrtebras cervicais do lobo e quebrou-lhe a espinal medula.
     De modo que se os quatro escudeiros tivessem alcanado o local do sinistro encontrariam o seu amo desmaiado, estendido ao lado de um lobo morto; mas outras 
pessoas que no os escudeiros deviam trazer de novo  vida o nobre senhor de Nottingham.
     Ao p do velho carvalho cujos ramos se inclinam para o riacho que atravessa o vale de Robin Hood, estava sentada lady Christabel; de p, alguns passos adiante, 
Robin Hood apoiava-se no seu arco, e ambos esperavam com alguma impacincia a chegada de sir Allan Clare e dos seus outros companheiros.
     Depois de terem esgotado os temas de conversa a respeito da sua situao presente, puseram-se a falar de Mariana, e os ternos elogios que Christabel prodigalizou 
ao doce e encantador carter da irm de Allan foram ouvidos por Robin com a ardente sofreguido do amor.
     O jovem bem desejaria fazer uma pergunta a Christabel, perguntar-lhe se, como Allan Clare, Mariana no teria j dado o seu corao a algum formoso cavaleiro 
da nobreza, mas no se atrevia. Se assim for  pensava ele,  estou perdido; que possibilidades terei de lutar contra semelhante rival, eu que no passo de um pobre 
filho da floresta?
      Milady  disse ele de repente corando e com voz trmula e emocionada,  lamento sinceramente miss Mariana se ela abandonou alguma terna afeio para acompanhar 
o irmo numa viagem to cheia, se no de perigos reais, pelo menos de dificuldades e canseiras.
      Mariana  respondeu Christabel,  tem a desgraa, ou talvez a felicidade de no possuir outra afeio alm da de seu querido Allan.
      Custa-me a acreditar nisso, milady; uma pessoa to linda, to sedutora como miss Mariana deve possuir o que lady Christabel possui, algum que lhe seja devotado, 
como vos  devotado o cavaleiro Allan.
      Por muito estranho que isso lhe possa parecer, senhor,  respondeu a moa corando,  afirmo que Mariana ignora se existe algum amor que no seja o amor fraterno.
     Esta resposta, dada num tom bastante frio, obrigou Robin a mudar de assunto.
     O sol dourava j o cimo das grandes rvores, e Allan sem aparecer.  Robin dissimulava a sua inquietao para no alarmar a moa, mas entregava-se a sombrias 
hipteses sobre as causas de semelhante atraso. Bruscamente uma voz sonora ressoou a distncia, Robin e Christabel estremeceram.
      Ser algum chamado dos nossos amigos?  perguntou ansiadamente a jovem.
      Infelizmente, no.  Will,  meu amigo  de infncia,  e Joo-Pequeno seu primo, que acompanham o senhor Allan, conhecem perfeitamente o ponto onde os esperamos, 
e o caso em que estamos empenhados exige tanta prudncia para ser levado a bom termo que eles no se divertiriam a brincar com os ecos da floresta.
     A voz aproximou-se, e um cavaleiro com as cores de Fitz-Alwine atravessou rapidamente o vale.
      Vamos embora, milady, estamos aqui perto demais do castelo. Eu enterro esta flecha no cho ao p deste carvalho, e se os meus amigos chegarem durante a nossa 
ausncia, compreendero ao v-la que estamos escondidos pelas proximidades.
      Estou de acordo, senhor; entrego-me inteiramente  sua boa e leal guarda.
     Os dois jovens acabavam de transpor algumas moitas  procura de um lugar conveniente para descansar, quando avistaram o corpo de um homem estendido, imvel 
e como morto ao p de um tronco de rvore.
      Misericrdia!  gritou Christabel;   meu pai, meu pobre pai que est morto!
     Robin tremeu, supondo-se culpado da morte do baro. No teria a ferida do cavalo sido a causa principal desse desenlace?
      Virgem Santa!  murmurou Robin,  concedei-nos a graa de que ele esteja apenas desmaiado!
     Dizendo essas palavras o moo arqueiro  correu a ajoelhar-se ao p do velho, enquanto Christabel, toda entregue  sua dor e ao seu arrependimento, soltava longos 
gemidos. Um leve ferimento na fronte do baro deixava filtrar algumas gotas de sangue.
      Como! Ser que ele teve de bater-se com um lobo? Ah! Ele matou o lobo!  exclamou alegremente Robin;  e est apenas desmaiado. Milady, milady, acredite-me, 
o senhor baro no tem seno uma arranhadura; milady, levante-se. Oh!  tornou Robin,  No faltava agora seno isso, ela tambm desmaiou. Ah! Meu Deus! Meu Deus! 
Que fazer? No a posso deixar aqui... e o velho leo que est acordando, j mexe os braos, j resmunga. Ah! Isto  de um homem ficar doido! Milady, responda-me 
alguma coisa! Mas no, ela est to insensvel quanto um tronco de rvore. Ah! Porque no tenho nos braos e nos rins a fora que sinto no corao? Desse modo a 
levaria daqui como uma ama levaria a sua criana.
     E Robin tentou levar Christabel.
     Enquanto isso, ao voltar a si o pensamento do baro no foi para a filha, mas para o lobo, o nico e ltimo ser vivo que avistara antes de fechar os olhos; 
estendeu ento os braos para segurar a fera, que imaginava ocupada a devotar-lhe uma perna ou uma coxa, embora no sentisse nenhuma dor das mordidelas, e agarrou-se 
 saia da filha jurando defender a vida at ao derradeiro suspiro.
      Monstro vil!  gritava o baro ao lobo estendido a alguns passos de distncia,  monstro faminto da minha carne, sequioso do meu sangue, ainda h vigor nos 
meus cansados membros, como vais ver... Ah! Pe a lngua de fora, eu estrangulo-o... Ah! Ah! J estrangulei muitos outros!... Sim, sim, podem vir todos os lobos 
de Sherwood, podem vir!... Ah! Mais um, mais outro!  Ento estou perdido, meu Deus! Tende piedade de mim!  Pater noster qui es in...
      Ele est louco, completamente louco!  dizia Robin consigo, colocado ansiosamente entre um dever a cumprir e sua segurana pessoal a garantir;  se fugisse, 
abandonaria aquela que jurara conduzir at  presena de Allan; se ficasse,  os rugidos do louco podiam atrair os homens que davam a batida  floresta.
     Muito felizmente o acesso do baro aplacou-se, e sempre de olhos fechados ele compreendeu que nenhuma presa de fera lhe dilacerava os membros; ento quis levantar-se. 
Mas Robin, ajoelhado por trs da sua cabea pesou-lhe fortemente sobre os ombros, desempenhando por assim dizer o papel de uma fadiga extrema que o mantivesse irremediavelmente 
estendido por terra.
      Por So Benedito!  murmurava o lorde,  parece-me sentir nos ombros o peso de cem mil libras... Oh, meu Deus e meu santo padroeiro! Juro mandar construir 
uma capela ao oriente da fortaleza se me conservardes a vida e me derdes foras para regressar ao castelo! Libera nos, quoe-sumus, Domine!
     Uma vez terminada a prece experimentou um novo esforo;  mas Robin, que esperava ver Christabel recuperar os sentidos, pesou sobre ele, cada vez mais firme.
      Domine exaudi orationem meam,  continuou Fitz-Alwine batendo no peito, rompendo a seguir a gritos estridentes.
     Como, porm, esses gritos no convinham a Robin, por serem perigosos demais para a segurana dos fugitivos, o quieto rapaz no sabendo como interromp-los disse 
brutalmente:
      Cale-se!
     Ao som dessa voz humana o baro abriu os olhos, e qual no foi o seu espanto ao reconhecer, inclinado sobre o seu rosto, o rosto de Robin Hood, e a lado deste, 
estendida no cho, sua filha desmaiada.
     Semelhante apario varreu toda a loucura, febre e cansao do irascvel lorde, o qual, como se estivesse senhor da situao em seu castelo e cercado pelos seus 
soldados, bradou quase triunfante:
      At que enfim te apanhei, jovem buldogue!
      Cale-se  volveu energicamente o imperioso Robin;  cale-se! nada de ameaas nem de gritarias fora de propsito;  por enquanto quem o apanhou fui eu!
     E Robin continuou a pesar com toda a fora sobre os ombros do indignado baro.
      Com efeito!  disse Fitz-Alwine que no teve dificuldade em libertar-se da presso do adolescente e se ps enfim de p;  com efeito pareces mostrar os dentes, 
pedao de cachorro!
     Christabel continuava desfalecida, e nesse momento assemelhava-se a um cadver tombado entre aqueles dois homens, pois Robin recuara imediatamente alguns passos 
e estava colocando uma flecha no seu arco.
      Mais um passo, milorde, e sers morto!  declarou o rapaz apontando  cabea do baro.
      Ah! Ah!  exclamou Fitz-Alwine pondo-se lvido e recuando lentamente para se colocar atrs de uma rvore;  sers bastante covarde para matar, para assassinar 
um homem sem defesa?
     Robin sorriu.
      Milorde  continuou ele visando-lhe sempre a cabea,  prossiga no seu movimento de retirada; bem, agora est abrigado por essa rvore. Preste ateno ao 
que lhe vou ordenar, ou antes, ao que lhe vou pedir para fazer; ateno, no ponha o nariz para fora dessa rvore, nem mesmo um s dos cabelos da sua cabea, tanto 
 direita como  esquerda; mantenha-se direito, seno...   a morte!
     Sem tomar em considerao aquelas ameaas, o baro, bem protegido pela rvore, avanou para fora o dedo indicador ameaando o jovem arqueiro; mas logo se arrependeu 
cruelmente, porque esse dedo foi em seguida levado por uma flecha.
      Assassino! Bandido miservel! Vampiro! Vassalo!  rugiu o ferido.
      Silncio, baro, ou quer que lhe aponte  cabea?
     Fitz-Alwine, colado contra a rvore, vomitava a meia voz torrentes de maldies, mas escondia-se com a mxima cautela por imaginar Robin  espreita, a alguns 
passos dali, com o arco tenso e a flecha apontada, espiando o menor dos seus gestos arriscados para fora da perpendicular do tronco da rvore.
     Mas Robin pondo o seu arco  bandoleira carregou docemente Christabel aos ombros e desapareceu atravs dos silvados.
     No mesmo instante foi ouvido o rumor de uma cavalgada e quatro cavaleiros surgiram diante da rvore que servia de pra-choque ao desventurado baro.
      A mim, tratantes!  berrou ele, pois esses quatro homens outros no eram que os do seu esquadro distanciados h muito tempo do cavalo que galopava de flecha 
na garupa.  A mim! Agarrai-me esse desgraado que me quer assassinar e roubar minha filha!
     Os soldados no atinavam com os motivos de semelhante ordem, no vendo ali por perto nem bandido nem mulher roubada.
      Alm, alm, no o vedes fugindo?  tornou o baro refugiando-se entre as pernas dos cavalos;  olhai, est dando a volta ao macio.
     Com efeito, Robin no tinha ainda vigor para levar rapidamente para longe um fardo da natureza do corpo de uma mulher, e apenas algumas centenas de passos o 
separavam dos seus inimigos.
     Os cavaleiros saram ento no seu encalo, mas os gritos do baro feriram ao mesmo tempo os ouvidos de Robin e ele compreendeu que a sua salvao j no estava 
na fuga.
     Dando portanto meia volta ps um joelho em terra, deitou Christabel de travs sobre a outra perna e gritou, com ambas as mos no arco e visando novamente Fitz-Alwine:
      Parem! Juro pelo cu que se derem um passo mais na minha direo vosso senhor ser morto!
     Ainda Robin no tinha acabado essas palavras e j o baro estava escondido atrs da rvore que lhe servia de anteparo, embora continuando a gritar:
      Apanhem-no! Matem-no! Ele feriu-me!... Como! Hesitais ento?  Ah! Covardes! Mercenrios!
     A firme atitude do intrpido arqueiro  intimidava realmente os interditos soldados.
     Um deles, contudo, ousou rir desse receio.
      No canta mal, o franguinho  disse ele,  mas no quer dizer nada; j ides ver como ele  brando e submisso.
     E o soldado apeando-se do cavalo avanou para Robin.
     Robin, alm da flecha colocada em seu arco segurava uma outra nos dentes, de modo que disse num tom abafado mas imperioso:
      J tive ocasio de pedir que ningum se aproximasse mas agora ordeno-o... Desgraado daquele que tentar impedir-me de continuar em paz o meu caminho.
     O soldado ps-se a rir com ar trocista e continuou avanando.
      Uma! Duas! Trs! Pra!
     O soldado continuou a rir e no parou.
      Morre ento!  gritou Robin.
     E o homem tombou, com o peito trespassado por uma flecha.
     S o baro usava uma cota de malha; os seus homens de armas estavam equipados como para uma caada.
      Cachorros! Caiam sobre ele!  prosseguia vociferando Fitz-Alwine.  Oh! Os covardes, os covardes! Qualquer arranho os assusta.
      Sua senhoria chama a isto um arranho  murmurou um dos trs cavaleiros, pouco desejoso de executar manobra igual  do seu defunto camarada.
      Olhem!  exclamou outro soldado erguendo-se nos estribos para ver melhor ao longe,  Parece que nos chega reforo.  Por Deus!  Lambic, monsenhor.
     Realmente, Lambic e a sua escolta chegavam a toda a brida.
     O sargento estava to contente e ao mesmo tempo to apressado por contar ao baro o sucesso da sua expedio, que nem avistou Robin e gritou com toda a fora 
dos pulmes:
      No encontramos os fugitivos, monsenhor, mas em compensao a casa ficou em cinzas.
      Pois sim, pois sim!  respondeu impacientemente Fitz-Alwine;  mas olha para o ursinho que esses covardes no ousam submeter.
      Oh! Oh!  tornou Lambic reconhecendo o demnio da tocha e rindo com desprezo;  Oh! Oh! O franguinho selvagem, vou enfim passar-te um freio! Sabes, animalzinho 
indomvel, que acabo de chegar da tua cocheira? Pensei encontrar-te l, e com franqueza isso me contrariou; terias podido ver um magnfico fogo de vistas e danar, 
na companhia de tua boa mame, uma jiga no meio das labaredas.  Mas console-te;  como tu no estavas l, desejei poupar  pobre velha sofrimentos inteis e mandei-lhe 
previamente uma flecha ao...
     Lambic no acabou: um grito rouco lhe escapou dos lbios, e largando a rdea do cavalo ele desabou... uma flecha certeira atravessara-lhe a garganta.
     Um indizvel terror cravou nos lugares onde se encontravam as testemunhas daquela vingana. Robin aproveitou-se disso, mau grado a violenta emoo que lhe causaram 
as derradeiras palavras de Lambic, e carregando Christabel aos ombros desapareceu no cerrado.
      Correi, correi!  gritava o baro no paroxismo da fria;  correi, marotos! Se o no apanhardes sereis todos enforcados! Assim o juro, todos enforcados!
     Os soldados jogaram-se abaixo dos cavalos e correram no encalco do rapaz. Robin, vergado sob o peso perdia em cada minuto uma parte do seu avano; quanto maiores 
esforos fazia para se afastar, mais sentia que esses esforos se tornavam inteis, e para cmulo de desgraa, a moa, que comeava a recuperar os sentidos, agitava-se 
convulsivamente e soltava agudos gritos. Esses movimentos desordenados entravavam a velocidade da marcha de Robin, e embora ele conseguisse esconder-se atrs de 
algum espesso matagal, os gritos de Christabel no deixariam de atrair os perseguidores.
      Bem!  decidiu ele;  se  foroso morrer, morramos defendendo-nos.
     E num relance de olhos Robin procurou um lugar propcio para depositar Christabel, pronto a voltar em seguida sozinho para enfrentar os homens do baro.
     Um olmeiro cercado de mato e de pequenos arbustos pareceu-lhe conveniente para servir de esconderijo  noiva de Allan, e sem revelar a Christabel os perigos 
que a ameaavam Pousou-a junto a essa rvore, estendeu-se ao p dela, conjurou-a a ficar imvel e silenciosa, e deteve-se figurando em sua imaginao um espetculo 
horrvel: o incndio da casinha onde vivera, depois Gilberto e Margarida expirando entre as labaredas.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XV
     
     
     
     ENQUANTO isso os soldados iam-se aproximando sempre mas com cautela, parando a cada passo, abrigados por macios de folhagem, para atender aos conselhos do 
baro que no queria que eles se servissem do arco a fim de no ferir a filha.
     Essa ordem agradava pouco aos soldados, pois eles compreendiam que Robin no os deixaria aproximar-se bastante para empregarem a lana antes de ter morto alguns.
      Se eles tiverem a idia de me cercar  pensou Robin,  ento estarei perdido.
     Uma aberta na folhagem no tardou a permitir-lhe avistar Fitz-Alwine, e o desejo da vingana mordeu-o no corao.
      Robin  murmurou ento a jovem,  agora sinto-me forte. Que  feito de meu pai? Espero que no lhe tenha feito mal algum.
      No, no lhe fiz mal nenhum, milady  respondeu Robin estremecendo:  mas...
     E com o dedo fez brilhar a corda do arco.
      Mas, qu?  exclamou Christabel apavorada por aquele gesto sinistro.
      Ele  que me fez um grande mal. Ah! milady, se soubesse...
      Onde est meu pai, senhor?
      A poucos passos daqui  respondeu Robin com frieza,   e Sua Senhoria no ignora que ns tambm estamos a poucos passos dele; mas os seus soldados no ousam 
atacar-me, temem as minhas flechas. Escute-me bem, milady  continuou Robin aps um minuto de reflexo,  cairemos inevitavelmente em suas mos se ficarmos aqui. 
Resta-nos apenas uma possibilidade de salvamento, a fuga, a fuga sem ser vistos, e para o conseguir necessitamos de muita coragem, muito sangue frio e sobretudo 
muita confiana na proteo divina. Preste bastante ateno: se continuar tremendo assim no compreender todas as minhas palavras; agora  a sua vez de agir; envolva-se 
na capa, cuja cor escura no desperta a ateno, e resvale por baixo da folhagem, bem rente ao cho, arrastando-se se tanto for preciso.
      Mas eu tenho ainda menos foras que coragem  respondeu chorando a pobre Christabel;  eles me mataro antes que eu tenha dado vinte passos. Salve-se, senhor, 
e no se preocupe mais comigo; o senhor j fez tudo quanto lhe era possvel para me levar junto de meu amado: Deus no o permitiu, que seja feita a sua santa vontade 
e que a Sua santa bno o acompanhe! Adeus, senhor... parta; diga ao meu querido Allan que meu pai no exercer por muito tempo seu poder sobre mim... meu corpo 
est ferido como o meu corao;  morrerei breve.  Adeus!
      No, milady  replicou o corajoso moo,  no, no agirei. Fiz uma promessa ao senhor Allan, e para cumprir essa promessa irei sempre adiante, at que a morte 
me detenha... Cobre nimo. Allan talvez j tenha alcanado o vale, e vendo a minha flecha  possvel que esteja por a  nossa procura...  Deus ainda nos no abandonou.
      Allan, Allan, querido Allan! Por que no vens?  exclamou Christabel desvairada.
     Subitamente, e como em resposta a esse desesperado apelo, ressoou atravs do espao o uivo prolongado de um lobo.
     Christabel, ajoelhada, estendeu os braos para o cu de onde nos vem todo o socorro; mas Robin, com as faces animadas de um vivo rubor, levou ambas as mos 
em concha  boca e produziu um uivo exatamente igual.
      Vamos receber ajuda  disse ele em seguida alegremente,  temos a socorro, milady; esse uivo  um sinal combinado entre frequentadores da floresta; j respondi 
e nossos amigos no tardaro a aparecer. Bem v que Deus no nos abandona.  Vou dizer-lhes que se apressem.
     E com uma s mo colocada a modo de funil diante dos lbios, Robin imitou o grito da gara perseguida por um abutre.
      Isso significa, milady, que nos encontramos em dificuldades.
     Um grito semelhante de gara assustada se fez ouvir a pequena distncia.
       Will,  o meu amigo Will!  exclamou Robin.  Coragem, milady! esconda-se debaixo das folhas, ficar bem abrigada; pode surgir alguma flecha perdida.
     O corao da moa batia com incrvel violncia; mas apoiada pela esperana de ver em breve Allan, obedeceu e correu a esconder-se, gil como uma cobra, na espessura 
do .atado.
     Para ganhar tempo Robin soltou um grande brado, ao sair do esconderijo, e de um s pulo foi colocar-se atrs de uma outra rvore.
     Uma flecha veio imediatamente cravar-se na casca dessa rvore; o nosso heri, pronto  resposta, saudou o tiro com uma gargalhada cheia de ironia, e trocando 
flecha por flecha derrubou logo em seguida o infeliz soldado.
      Para a frente, imbecis! Covardes! para a frente!  vociferava Fitz-Alwine,  Do contrrio ele vos matar a todos do mesmo modo, uns aps outros.
     O baro exortava assim a sua gente ao combate, fazendo um anteparo de cada rvore, quando uma saraivada de flechas anunciou a entrada em campo de Joo-Pequeno, 
dos sete irmos Garnwell, de Allan Clare e de frei Tuck.
      vista daquele intrpido bando, a gente de Nottingham jogou as armas ao cho e pediu quartel. S o baro no capitulou e correu para dentro do matagal, rugindo.
     Robin, apercebendo os amigos lanou-se no encalo de Christabel, mas Christabel em vez de parar a pequena distncia tinha continuado a correr, por terror invencvel, 
por esquecimento dos conselhos de Robin, ou por fatalidade.
     O jovem arqueiro  descobria com facilidade os vestgios da passagem da moa, mas em vo a chamava, s o eco respondia  sua voz. Robin acusava-se j de imprevidncia, 
quando bruscamente um gemido de dor lhe feriu os ouvidos. Pulou na direo de onde partira o gemido e avistou um cavaleiro do baro que segurava Christabel pela 
cintura e fugia com ela no seu cavalo.
     Mais uma das suas flechas vingadoras partiu: o cavalo ferido em pleno peito empinou-se, e soldado e Christabel rolaram na poeira do caminho.
     O soldado abandonou Christabel, buscando, de espada na mo, em quem vingar a morte da sua montada; mas nem sequer teve tempo de saber quem era o seu adversrio, 
tombando por sua vez imvel junto ao animal, e Robin arrancou Christabel de perto desse novo cadver, receoso de que o sangue que lhe escorria de um ferimento na 
cabea pudesse macular a jovem.
     Quando Christabel abriu os olhos e deparou com a nobre fisionomia do jovem arqueiro  debruada sobre ela, corou e estendeu-lhe a mo com esta nica palavra:
      Obrigada!
     Mas essa nica palavra foi dita com um tal sentimento de gratido, com uma emoo to profunda, que Robin, contido por sua vez, beijou com respeito a mo que 
lhe era tecida. 
      Por que se afastou tanto e to depressa, milady, e como se deixou surpreender por esse mercenrio? Os outros depuseram as armas e pedem quartel ao senhor 
Allan.
      Allan!... Esse homem reconheceu-me, apoderou-se de mim gritando: Cem escudos de ouro! Hurra! Cem escudos de ouro!  Mas o senhor diz que Allan...
      Repito que o senhor Allan est  sua espera.
     A jovem tomou asas nos ps, j to fatigados, mas deteve-se estupefata, interdita diante do cortejo que cercava o cavaleiro.
     Robin tomou a mo de Christabel e ajudou-a a dar alguns passos na direo do grupo; mas apenas Allan a avistou, sem tomar em considerao a presena dos outros 
homens, tambm sem poder articular uma s palavra, correu ao seu encontro, apertou-a contra o peito e cobriu-lhe a fronte dos mais ternos beijos. Christabel palpitante, 
inebriada de alegria, atenuada pelo excesso de felicidade, era apenas entre os braos de Allan uma forma humana; toda a fora vital lhe aflura aos olhos, aos lbios 
frementes, s loucas palpitaes do corao.
     Enfim lgrimas e suspiros, suspiros de felicidade e lgrimas de alegria, correram livremente; ambos retomaram conscincia dos seus estados e puderam entender-se 
por meio de longos olhares em que o fluido do amor substitua o fluido luminoso.
     A emoo dos espectadores daquele encontro, ou antes daquela fuso de duas almas, era enorme. Maude, como se experimentasse certa inveja, aproximou-se de Robin, 
tomou-lhe as duas mos e quis sorrir-lhe; mas esse sorriso arrancou-lhe uma a uma grossas lgrimas que lhe escorriam pelas faces aveludadas, lgrimas que rolavam 
sem se desfazer como rolam as gotas de gua sobre as folhas.
      E minha me, e Gilberto?  perguntou o moo apertando nas suas as mos de Maude.
     Maude confessou tremendo a Robin que no havia alcanado a sua casa, e que Halbert l tinha ido sozinho. 
      Joo-Pequeno  perguntou Robin,  viste meu pai esta manh?  No lhe tinha acontecido mal nenhum?
      Nenhum mal, caro amigo, mas sucederam coisas estanhas que te hei de contar; deixei teu pai sossegado e bem disposto esta manh, quero dizer, s duas horas 
da madrugada.
      Por que te hs de inquietar assim, Robin?  Perguntou Will aproximando-se do jovem arqueiro  para ficar mais perto de Maude.
      Tenho motivos muito srios para me preocupar: um sargento do baro Fitz-Alwine disse-me ter incendiado esta manh a casa de meu pai e jogado minha me s 
chamas.
      E que lhe respondeste tu?  gritou Joo-Pequeno.
      Eu no lhe respondi: matei-o... Mas ter ele dito a verdade? Mentiu? Preciso ir certificar-me, quero ver meu pai e minha me  acrescentou Robin com a voz 
cheia de lgrimas;   irm Maude, vamos embora...
      Miss Maude  tua irm?  exclamou Will.  Na verdade no te sabia to feliz h oito dias.
      H oito dias eu ainda no tinha irm, caro Will., hoje tenho a felicidade de ser irmo  volveu Robin diligenciando sorrir.
      Quanto a mim, apenas desejaria uma coisa a minhas irms  acrescentou alegremente Will,   que elas em tudo se parecessem com esta senhorita.
     Robin cravou em Maude um olhar curioso. A moa estava chorando.
      Onde est teu irmo Halbert?  perguntou Robin.
      J lho disse, Robin, Hal est a caminho da morada de Gilberto.
      Pela salvao da minha alma, creio que o estou vendo!  interveio vivamente o frade Tuck;  Olhem...
     Com efeito Hal chegava a toda a brida, montando o mais belo cavalo das cocheiras do baro.
      Vejam, meus amigos  gritou orgulhosamente o rapaz,  vejam, embora separado de vs bati-me muito bem; ganhei o melhor animal de todo o condado. Ah! Esto 
todos convencidos de que entrei num combate! Pois no! Apenas encontrei o cavalo sem cavaleiro, pastando a erva da floresta.
     Robin sorriu reconhecendo a montada do baro, o animal que lhe servira de alvo.
     Reuniram-se em conselho.
     Nessa poca em que os grandes possessores de feudos agiam como soberanos sobre os seus vassalos, guerreavam com os vizinhos e se entregavam  pilhagem, ao assalto, 
ao assassnio, sob o pretexto de exercerem os direitos de alta e baixa justia, freqentemente se desencadeavam lutas terrveis de castelo para castelo, entre uma 
povoao e outra, e uma vez acabada a batalha vencedores e vencidos retiravam-se cada para o seu lado, prontos a recomear tudo na primeira ocasio favorvel.
     O baro de Nottingham, derrotado nessa noite de frteis acontecimentos, podia portanto tentar nesse mesmo dia uma desforra. Seus homens, que haviam recebido 
quartel, encaminhavam-se j para o castelo, ele possua ainda bom nmero de lanas que no tinham sado a campo, e a gente do solar de Garnwell, nicos partidrios 
de Allan Clare e de Robin, no constituam fora para lutar muito tempo contra um to poderoso senhor; era pois preciso, a fim de conservar a vantagem, suprir a 
falta de braos pela prudncia, pela astcia, e tanto pela atividade como pela coragem.
     Eis porque os nossos amigos se reuniram em conselho, no entanto o baro, acompanhado de dois ou trs servidores, regressava lastimosamente ao seu castelo. A 
presena de Christabel impedia que algum se preocupasse com a sua retirada.
     Ficou resolvido que o cavaleiro Allan e Christabel se refugiassem imediatamente no solar pelo caminho mais curto. Will Escarlate, os seis irmos e o primo Joo-Pequeno 
os acompanhariam.
     Robin, Maude, Tuck e Halbert iriam  morada de Gilberto Head. Durante a noite trocariam mensagens, e conservariam sempre prontos para o caso de terem de reunir-se 
em determinado ponto.
     William no aprovava essas disposies, empregando toda a sua eloqncia para convencer Maude da necessidade em que se achava de acompanhar a sua ama ao solar.
     Maude, tomando seriamente a peito o seu novo ttulo de irm de Robin, no queria ouvir falar nisso; mas Will tanto insistiu que Christabel terminou por associar-se 
aos seus desejos sem lhes compreender o fim, e constrangeu Maude a segui-la.
      Robin Hood  disse Allan tomando nas suas as mos do jovem arqueiro,  Robin Hood, foi arriscando duas vezes a tua vida que salvastes a minha e a de lady 
Christabel, portanto para mim mais do que um amigo, s um irmo. Ora, entre irmos tudo  comum: so teus, pois, meu corao, meu sangue, minha fortuna,  teu tudo 
quanto eu possuo;  quando eu deixar de te ser grato,  porque deixei de viver.  Adeus! 
      Adeus, cavaleiro! 
     Os dois homens abraaram-se e Robin levou respeitosamente aos lbios os brancos dedos da formosa noiva de Allan.
      Adeus, vs todos!  gritou Robin enviando uma ltima doao aos Garnwell.
      Adeus!  responderam eles, agitando no ar os seus gorros.                       
      Adeus!  murmurou uma doce voz,  Adeus!
      At  vista, querida Maude  tornou Robin;  at a vista!  No te esqueas de teu irmo!
     Allan e Christabel, montados no cavalo do baro, foram os primeiros a partir.
      Que a Santa Virgem os proteja  disse Maude tristemente.
      O fato  que o cavalo agenta bem  notou Halbert
      Criana!  sussurrou Maude; e um profundo suspiro lhe escapou dos lbios.
     O nobre animal que transportava Lady Christabel e Allan Clare para o solar de Garnwell caminhava rapidamente, mas com uma brandura, uma infinita cautela de 
movimentos, como se adivinhasse a natureza do seu precioso fardo; a rdea flutuava-lhe sobre o pescoo graciosamente arqueado, mas ele no tirava os olhos do cho 
no receio de interromper, com um passo em falso, o dilogo dos dois apaixonados.
     De vez em quando Allan voltava a cabea, e as suas palavras encontravam-se com as palavras de Christabel, que, para se manter na sela, segurava entre os braos 
a cintura do cavaleiro.
     Que podiam eles dizer-se aps uma to terrvel noite? Tudo o que o delrio da felicidade inspira, s vezes muito, outras vezes nada; uns tm a felicidade eloqente, 
outros a tm silenciosa.
     Christabel dirigia-se censuras por causa da conduta que tivera com o pai; via-se condenada, repelida pelo mundo por haver fugido com um homem, e perguntava-se 
se mais tarde o prprio Allan no viria a desprez-la. Mas essas censuras, esses escrpulos, esses temores, no os exprimia seno para ter o prazer de os ouvir reduzir 
a nada pela persuasiva eloqncia do cavaleiro.
      Que seria de ns se meu pai tivesse o poder de nos separar, querido Allan?
      No o h de ter por muito mais tempo, adorada Christabel; dentro em breve sers minha esposa, no somente diante de Deus como hoje, mas tambm diante dos 
homens. Eu tambm terei soldados  acrescentou orgulhosamente o jovem cavaleiro, e os meus soldados valero os de Nottingham. Basta de preocupaes, querida Christabel, 
abandonemo-nos ao gozo da nossa felicidade e  proteo divina.
      Deus faa com que meu pai nos perdoe!
      Se temes a proximidade de Nottingham, minha bem-amada, iremos viver para as ilhas do sul, onde h sempre um lindo cu, quentes raios de sol, flores e frutos. 
Dize apenas uma palavra, e eu encontrarei para ti um paraso terrestre.
      Tens razo, querido Allan, ns seramos mais felizes l longe do que nesta fria Inglaterra.
      Deixarias ento sem pesar a Inglaterra?
      Sem pesar?... Para viver contigo eu deixaria at o cu  acrescentou sentidamente Christabel.
      Pois bem! Logo que casarmos partiremos para o continente;  Mariana ir conosco.
      Escuta!  bradou ela de repente,  Escuta... Allan, estamos sendo perseguidos.
     O cavaleiro deteve o cavalo.  Christabel no se havia enganado, o som de um tropel chegava at eles, e de minuto em minuto, de segundo em segundo, esse rumor, 
a princpio distante, crescia de intensidade e aproximava-se.
      Fatalidade! porque viemos adiante dos nossos amigos de Garnwell?  murmurou Allan esporeando o cavalo para dar meia volta e mergulhar entre os arvoredos baixos, 
pois nessa altura encontravam-se  beira de um caminho.
     Nesse momento um mocho, acordado pelo barulho, saiu de um tronco de rvore prxima, soltou um pio lgubre e passou voando de raspo pelas narinas do cavalo 
que ia obedecer  espora. O cavalo assustado empinou-se, e em vez de fugir na direo escolhida por Allan, lanou-se a toda a brida ao longo do caminho.
      nimo, Christabel!  gritou o jovem lutando inutilmente contra a loucura do animal,  nimo! Segura-te bem! Um beijo, Christabel, e que Deus nos proteja!
     Um bando de cavaleiros com as cores do baro apresentou-se em linha tomando toda a largura da estrada.
     A fuga era impossvel voltando as costas aos cavaleiros, e s miraculosamente se poderia escapar forando essa linha.
     Allan viu o perigo e no teve outra idia  seno a de o enfrentar. Cravando ento as rosetas das suas esporas nos flancos do cavalo, acometeu de cabea baixa 
pelo meio dos homens de armas e passou... passou como o raio que atravessa a nuvem...
      Meia volta! Meia volta!  comandou o chefe do grupo exasperado com aquele gesto de audcia.  Visai o animal  rugiu ele,  e desgraado de quem ferir milady!
     Uma chuva de flechas caiu em redor de Allan; mas o nobre cavalo no diminua a corrida, nem Allan perdia a coragem.
      Diabos do inferno! Vo escapar-nos!  uivava o chefe
      Aos jarretes, atirai aos jarretes!
     Momentos depois os cavaleiros cercavam os dois amantes atirados sobre a relva pela queda mortal do pobre animal!
      Rendei-vos, cavaleiro!  disse o chefe com uma ironia corts.
      Nunca!  respondeu Allan, que j de p desembainhara a espada,  Nunca! Haveis matado lady Fitz-Alwine . acrescentou ele apontando Christabel desmaiada a 
seus ps.  Agora morrerei vingando-a.
     A luta desigual no foi de grande durao; Allan caiu varado de ferimentos, e os soldados retomaram o caminho de Nottingham, levando Christabel como uma criana 
adormecida.
     William teve um rebate de conscincia e foi juntar-se a Robin; acreditava poder ser-lhe til, e prometeu a si mesmo regressar imediatamente ao solar para se 
entregar  admirao dos belos olhos de miss Herbert Lindsay.
     Mas Joo-Pequeno, muito formalista, chamou-o.
      Convm  disse ele,  que sejas tu o introdutor no solar destes novos amigos.  Eu acompanharei Robin.
     William concordou; jamais lhe passaria pela cabea recusar os deveres que lhe impunha a amizade.
     Foi justamente durante esse curto dilogo que Allan e Christabel se distanciaram dos Garnwell, e o prprio Robin, pensando encurtar o seu caminho, marchou ainda 
algum tempo em companhia deles at encontrar um certo atalho muito seu conhecido.
     Hal e Maude haviam tambm tomado a dianteira, mas frei Tuck demorara-se um pouco para esperar o grosso do bando.
     Trocando idias os jovens chegaram  pequena encruzilhada onde Robin devia separar-se deles, e no longe da qual frei Tuck esperava preguiosamente deitado 
na relva; pensava na cruel Maude, o pobre frade!
     Os ltimos votos de boa caminhada repetiam-se pela milsima vez quando os olhos de alguns dos Garnwell descobriram a pequena distncia o corpo ensanguentado 
de um homem estendido no cho.
      Uma vtima de Robin!  acrescentaram outros.
      Cus! uma espantosa desgraa aconteceu!  exclamou Robin que reconheceu imediatamente Allan Clare.  Ah! Meus amigos, vede... a erva pisada pelas patas dos 
cavalos. Houve luta aqui... Meu Deus! Meu Deus! Ele est talvez morto... Christabel, onde estar ela?
     Todos os amigos formaram crculo em redor do corpo que parecia sem vida.
      No est morto, sosseguem!  bradou Tuck.
      Bendito seja Deus!  repetiu o grupo.
      O sangue escorre desta grande ferida no alto da cabea, o corao bate...  Allan, senhor cavaleiro, est cercado de amigos, abra os olhos!
      Revistem os arredores  determinou Robin,  procurem lady Christabel.
     Esse doce nome pronunciado por Robin reanimou em Allan a vida prestes a extinguir-se.
      Christabel!  murmurou ele.
      Est em segurana, senhor  respondeu o frade que se ocupava de colher algumas plantas teis naquelas circunstncias.
      Responde por ele, frei Tuck?  perguntou Robin ao frade.
      Respondo; uma vez pensada a ferida lev-lo-emos para o solar numa padiola feita de ramos de rvore.
      Ento, adeus, senhor Allan  disse Robin debruado tristemente sobre o ferido;  em breve nos veremos.
     Allan apenas pde responder com um fraco sorriso.
     Enquanto os robustos braos dos Garnwell transportavam lentamente para o solar o pobre Allan Clare, Robin, devorado pela inquietao, avanava com rapidez para 
a morada de seu pai adotivo. O infortnio de Allan e seus receios pessoais comprimiam-lhe o corao; maldizia a distncia, o espao; desejaria voar mais rapidamente 
do que voam as andorinhas, desejaria varar a espessura da floresta, abraar Margarida e Gilberto para ter a certeza de que eles ainda viviam.
      Tens pernas de gamo  disse-lhe Joo-Pequeno.
      Sempre as temos assim quando queremos  respondeu Robin.
     Chegando ao vale dos lamos que levava  casa de Gilberto, os dois jovens constataram aterrados a espantosa veracidade das palavras de Lambic. Uma espessa nuvem 
de fumo turbilhonava ainda por cima das rvores, e os acres odores do incndio impregnavam a atmosfera.
     Robin lanou um grito de desespero, e seguido de Joo Pequeno, no menos penalizado, lanou-se a correr atravs da alameda.
     A alguns passos dos negros escombros, l onde na vspera sorria ainda pelas suas janelas iluminadas a alegre moradia estava ajoelhado o pobre Robin, e suas 
mos apertavam convulsivamente as frias mos de Margarida estendida  sua frente.
      Pai! Pai!  gritou Robin.
     Uma surda exclamao partiu dos lbios de Gilberto; em seguida ele deu alguns passos ao encontro de Robin e caiu soluando nos braos estendidos do jovem.
     Contudo a energia natural do velho guarda florestal fez parar um momento os queixumes, as lgrimas e os soluos.
      Robin  comeou ele num tom firme,  tu s o legtimo herdeiro do conde de Huntington; no te admires:  verdade... sers portanto um dia poderoso, e enquanto 
houver um sopro de vida em meu cansado corpo, ele te pertencer... ters assim, por ti, a fortuna de um lado e o meu devotamento do outro. Agora bem! Olha-a morta, 
assassinada por um miservel, aquela que te amava ternamente, sinceramente, como teria amado o filho das suas entranhas.
      Sim, sim, ela amava-me!  murmurou Robin ajoelhado junto ao corpo de Margarida.
      Aqui est o que eles fizeram de tua me: um cadver; aqui est o que eles fizeram da tua casa: uma runa! Conde de Huntington, no vingars tua me?
      Descanse que eu a vingarei!
     E erguendo-se altivamente o moo acrescentou:
      O conde de Huntington esmagar o baro de Nottingham, e a morada senhorial do nobre lorde ser, como o humilde tugrio do guarda florestal, devorada pelas 
chamas!
      Tambm por minha vez juro no dar repouso nem trguas a Fitz-Alwine  disse Joo-Pequeno,  nem aos seus homens e vassalos.
     No dia seguinte, o corpo de Margarida transportado para o solar por Lincoln e Joo-Pequeno, foi piedosamente dado  sepultura no cemitrio da aldeia de Garnwell.
     Os memorveis acontecimentos dessa noite extraordinria haviam unido como uma s famlia, para se vingar do baro Fitz-Alwine, os diversos personagens da nossa 
histria.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XVI



     ALGUNS dias aps o sepultamento da pobre Margarida, Allan Clare referiu a seus amigos porque concurso de circunstncias inesperadas lady Christabel fora uma 
vez mais arrebatada ao seu amor.
     Halbert, enviado ao castelo pelo pobre apaixonado, to fatalmente iludido em suas esperanas, veio anunciar que Fitz-Alwine partira para Londres com a filha, 
e que de Londres o baro devia dirigir-se  Normandia, onde alguns negcios importantes reclamavam a sua presena.
     A fulminante notcia dessa partida to sbita e imprevista causou ao moo fidalgo uma dor profunda, e essa dor tornou-se to violenta que Mariana, Robin e os 
filhos de sir Guy esgotaram para o acalmar todas as consolaes que inspiram a afeio e o devotamento.  Um conselho do jovem Hood, conselho fortemente apoiado pela 
aprovao de todos os membros da famlia Garnwell, trouxe um raio de esperana ao corao de Allan.
     Dizia Robin:
      Allan deve seguir Fitz-Alwine a Londres, de Londres  Normandia, e no parar seno onde por sua vez parar o furioso baro.
     Esta idia  no tardou a mudar-se em projeto, e de projeto em execuo.  Allan preparou-se para a partida, e a instncias do moo, a doce e resignada Mariana 
consentiu em esperar a sua volta na  encantadora solido do solar de Garnwell.                                       
     
     Deixaremos o senhor Allan seguir de Londres  Normandia os passos de lady Christabel e passaremos a ocupar-nos de Robin Hood, ou, para dizer mais exatamente, 
do jovem conde de Huntingdon.
     Antes de iniciar as diligncias legais de uma demanda to difcil como a que tinha de propor no interesse de seu filho adotivo, Gilberto achou que devia submeter 
a questo a Sir Guy de Garnwell e dar-lhe a conhecer nos menores detalhes a estranha histria contada por Ritson moribundo.  Quando o velho terminou o relato da 
odiosa usurpao dos direitos de Robin, sir Guy confiou por sua vez a Gilberto que a me de Robin era filha de seu irmo Guy de Coventry. Por conseqncia dava-se 
o caso de que Robin era sobrinho do baronete, e no seu neto, como o tinham dado a entender a Gilberto as palavras de Ritson. Infelizmente, sir Guy de Coventry no 
existia, e seu filho, nico rebento desse ramo mais novo da famlia dos Garnwell, estava nas cruzadas. Mas  acrescentou o excelente fidalgo,  a ausncia desses 
dois parentes no deve constituir um entrave s providncias que voc pretende tomar, valente Gilberto; meu corao, meu brao, minha fortuna e meus filhos pertencem 
a Robin. Desejo vivamente ser-lhe til e quero v-lo tomar posse aos olhos de todos de uma fortuna que lhe pertence aos olhos de Deus.
     A justa reclamao de Robin foi submetida aos tribunais e o processo instaurado. O abade de Ramsay, adversrio do moo, membro riqussimo da todo-poderosa Igreja, 
repeliu energicamente a demanda e declarou fraco, mentiroso e perverso o relato de Gilberto. O xerife ao qual o senhor de Beasant confiara o dinheiro necessrio 
 defesa do sobrinho foi chamado  presena dos juzes, mas, homem vendido de corpo e alma ao audacioso detentor dos bens do conde de Huntingdon, negou o depsito 
e recusou reconhecer Gilberto.
     A nica testemunha do pretendente, seu nico protetor e protetor tratado de louco e visionrio, era portanto seu pai adotivo, apoio demasiado dbil, h de convir 
para lutar com vantagem contra um adversrio to bem colocado na sociedade com era o abade Ramsay.  verdade que sir Guy de Garnwell assegurou por meio de juramento 
que a filha de seu irmo desaparecera de Huntingdon na poca indicada por Ritson; mas a isso se limitava, sobre o conhecimento dos fatos, o depoimento do velho. 
Ainda que Robin conseguisse interessar os juzes, ainda que conseguisse tirar-lhes toda a dvida moral a respeito da legitimidade dos seus direitos, em compensao 
era-lhe muito difcil, para no dizer impossvel, vencer os obstculos materiais que se opunham ao triunfo da sua causa.
     A distncia que separa Huntingdon de Garnwell, a carncia de poderio militar impediam Robin de conquistar os seus direitos pela fora das armas, ao permitida 
nessa poca ou pelo menos tolerada; foi portanto constrangido a suportar com pacincia as insolentes bravatas do inimigo, e obrigado a procurar um meio pacfico 
e legal, desde que nenhum julgamento fora ainda proferido, para entrar sem luta no gozo de seus bens. Esse meio foi encontrado por sir Guy, e aps o conselho do 
velho, Robin recorreu diretamente  justia de Henrique II.  Enviada a mensagem, esperou, antes de tomar qualquer nova determinao, a resposta favorvel ou desfavorvel 
de Sua Real Majestade. Decorreram seis anos, seis anos que foram absorvidos pelas agonias de um processo abandonado e retomado segundo o capricho dos juzes ou dos 
advogados.  Devorados pelas preocupaes da expectativa, esses seis anos no tiveram para os habitantes do solar de Garnwell mais que a durao de um dia. Robin 
e Gilberto continuaram na hospitaleira casa de sir Guy; mas a despeito da afeio e dos ternos cuidados do filho, Gilberto, o alegre Gilberto no era mais que a 
sombra de si mesmo.  Margarida levara consigo a alma e a alegria do velho.
     Mariana contava-se igualmente entre os hspedes de Garnwell. A gentil criatura de fronte coroada pelas rosas desabrochadas das suas vinte primaveras, estava 
ainda mais encantadora do que no dia em que o apaixonado Robin tanto e to ingenuamente se extasiara diante dos encantos do seu lindo rosto.  Amada dos homens com 
respeito, querida das mulheres com um sentimento de abnegada ternura, apenas faltava para a felicidade de Mariana a presena  do  irmo. Allan morava em Frana, 
e nas raras cartas que enviava no falava nunca de felicidade presente nem de regresso prximo. Melhor do que ningum no solar, e sobretudo mais do que ningum, 
Robin admirava, apreciava e encarecia as perfeies fsicas e morais de Mariana;  mas essa admirao, vizinha da idolatria, no se exprimia por olhares, por palavras 
ou gestos.  O isolamento em que vivia a jovem tornava-a aos olhos de Robin to digna de respeito como uma presena de me; alm disso, a incerteza do seu futuro 
interditava  delicadeza do moo a confisso de um amor que a sua posio presente lhe no permitia sancionar pelos srios liames do casamento.
     Poderia a nobre irm de Allan Clare descer at Robin Hood?
     Por outro lado teria sido impossvel, mesmo ao observador mais atento, dar-se conta dos pensamentos ntimos da jovem;  ter-lhe-ia sido impossvel descobrir 
nas aes de Magana, nas suas palavras ou nos seus olhares, no somente a parte que ela dava de seu corao a Robin, mas at mesmo se ela compreendera o ardente 
amor de que a cercava o devotado e silencioso jovem.
     A doce voz de Mariana tinha indistintamente para todos as mesmas musicais modulaes. A ausncia de Robin no punha calor na sua face nem devaneio em seus olhares; 
seu regresso imprevisto em nada lhe alterava a cor do rosto, e no mantinha com ele conversas particulares ou encontros fortuitos. Melanclica sem tristeza, Mariana 
parecia viver com a recordao do irmo, com a esperana de vir a saber que amado de Christabel, Allan podia abertamente deixar ler no semblante o orgulho e a alegria 
que lhe acarretava esse amor.
     Os habitantes do solar de Garnwell formavam em redor de Mariana mais uma corte do que uma sociedade; porque, sem ser para ningum fria, orgulhosa ou altiva, 
a jovem colocara--se involuntariamente acima dos que a cercavam. A irm de Allan Clare parecia ser a rainha do solar. Rainha j pela beleza, dir-se-ia ainda que 
um ttulo mais srio lhe dava a esse os direitos, e esse ttulo era uma superioridade incontestvel, reconhecida e respeitada. As maneiras aristocrticas da jovem, 
a sua conversao inteligente e sria, erguiam-na muito visivelmente acima dos seus hospedeiros para que na sua leal e rstica franqueza eles no fossem os primeiros 
a reconhecer-lhe o mrito.
     Maude Lindsay, cujo pai morrera quase cinco anos antes, ficara impossibilitada de regressar ao castelo ou de acompanhar a sua ama a Frana. Morava pois no solar 
de Garnwell e procurava tornar-se til na medida das suas foras.
     O irmo colao de Maude, o gentil Halbert, continuava desempenhando no castelo as funes de guarda. Mais de uma vez, apressemo-nos a diz-lo, o desejo de mandar 
s urtigas a libr do baro assaltara o esprito do rapaz; mas uma razo mais poderosa que o seu desejo, uma razo fortemente apoiada pelo corao, retinha Hal acorrentado 
ao velho baro; essa razo chamava-se Graa May, e a eloqncia dos belos olhos que brilhavam a pequena distncia de Nottingham reduzia sempre a nada os viris projetos 
da almejada emancipao. O enamorado Hal suportava pois a servido com um misto de alegria e de tristeza, e para se consolar fazia de vez em quando uma longa visita 
a Garnwell. Os alegres filhos de sir Guy haviam notado que as primeiras palavras do rapaz entrava no solar eram invariavelmente estas:
      Querida irm Maude, trago-te um beijo da minha formosa Graa.
     Maude aceitava o beijo. O dia passava-se em diverses, risos, festins e conversas; depois, no momento de despedida, Hal tornava a dizer no mesmo tom que empregara 
 chegada:
      Querida Maude, d-me para Graa May um beijo dos teus lbios.
     Maude concedia o beijo de despedida como j recebera o da chegada, e Hal partia alegremente.
     Amava tanto a sua noiva, o alegre e bom rapaz! O nosso amigo Giles Sherborne, o jovial frei Tuck, trmita por compreender a indiferena do corao expressa 
pelos olhos friamente polidos da linda Maude.  Os primeiros dias que se seguiram a essa desoladora descoberta foram empregados por Tuck em gemer sobre a inconstncia 
das mulheres em geral e de Maude em particular.  Quando os queixumes, lamentaes e os arrependimentos acalmaram a efervescncia da sua dor, Tuck jurou renunciar 
ao amor; jurou nunca mais amar outra coisa que no fosse a bebida, os prazeres da mesa e uma paulada bem aplicada, acrescentando in petto que preferiria eternamente 
dar estas ltimas em vez de as receber. O juramento de Tuck foi apoiado pelo reforo de um bom almoo, pela absoro de uma prodigiosa quantidade de cerveja,  qual 
se juntaram ainda uma larga meia dzia de copos de vinho velho. Terminado gloriosamente esse vasto banquete, Tuck abandonou a hospitaleira sala sem se dignar erguer 
os olhos para Maude, pensativamente debruada a uma janela, esquecido de apertar a mo aos seus generosos hospedeiros, e envolto na sua resoluo como numa ampla 
capa, afastou-se com majestade do solar de Garnwell.
     Maude amara, Maude amava ainda Robin Hood. Mas quando a pobre moa veio a conhecer Mariana, quando o feipo e um contato dirio lhe revelaram as raras qualidades 
da irm de Allan Clare, compreendeu a fidelidade de Robin e perdoou-lhe os descasos da sua indiferena; e no somente lhe perdoou, a boa e devotada moa, no somente 
compreendeu a sua inferioridade, mas ainda aceitou, resignando-se a desempenh-lo sem qualquer idia  preconcebida, sem qualquer esperana futura, talvez at sem 
pesar, o seu papel de irm. Com a sutil perspiccia da mulher realmente apaixonada, Maude adivinhou o segredo de Mariana. Esse segredo, oculto aos prprios olhos 
daquele a quem interessava, no ficou sendo por muito tempo um mistrio para Maude, que leu nos olhos calmos e aparentemente to indiferentes de Mariana este pensamento 
que faria, em duas palavras, a felicidade do pobre rapaz:
     Amo Robin!
     Maude empreendeu afogar o seu sonho sob o peso esmagador desta realidade; tentou expulsar do corao a imagem ferida e to ternamente acalentada que simbolizava 
a felicidade e se chamava Robin Hood; tentou mostrar-se aos olhos de todos descuidada e alegre: quis esquecer, e no conseguiu  seno chorar e recordar-se. Essa 
luta interior, luta sem trguas, que punha constantemente em presena um do outro o corao e a razo, terminou por deixar vestgios da fadiga nos belos traos da 
encantadora Maude. A mimosa e risonha filha do velho Lindsay no tinha dentro em pouco mais de si mesma que um retrato meio apagado e onde se procuraria com emocionada 
surpresa o seu belo e sorridente rosto. Reagindo exteriormente, aquele sofrimento moral lanara sobre as faces de Maude uma tocante palidez, e essa aparncia doentia 
foi atribuda  tristeza que lhe acarretara a morte do pai.
     No nmero das pessoas que diligenciavam distrair Maude da sua dor, no nmero dos que constantemente lhe testemunhavam benevolncia e bondade, podia-se notar 
um gentil rapaz, de temperamento vivo e alegre, maneiras amveis e atenciosas, que se preocupava mais sozinho em debelar as tristezas de Maude do que certamente 
o faria um dono de casa obrigado a distrair sessenta convidados. Durante o dia inteiro viam correr da casa para os jardins, dos jardins para os campos e destes para 
a floresta, o fiel amigo de Maude. Esse perptuo vaivm, essas infatigveis idas e vindas no tinham outro propsito que a busca de alguma coisa preciosa ou nova 
para dar a Maude, outro fim que a descoberta de um contentamento a oferecer-lhe, de uma surpresa a proporcionar-lhe. Esse gentil amigo, to jovialmente atencioso, 
outro no era que o nosso antigo conhecido, o excelente Will Escarlate.
     Uma vez por semana, e isso com uma regularidade e uma constncia dignas de melhor sorte, William fazia a Maude a sua declarao de amor. Com uma regularidade 
e uma constncia em nada inferiores s do rapaz, Maude recusava essa declarao.
     Pouquissimamente intimidado e sobretudo nada desanimado com as pacientes recusas da jovem, Will resignava-se a am-la em silncio desde segunda-feira at domingo; 
mas nesse dia o seu amor, mudo durante a inteira durao de uma semana, no podendo mais conter-se chegava ao paroxismo. As calmas recusas de Maude lanavam uma 
pouca de gua fria sobre aquele incndio devorador, e William calava-se at ao domingo seguinte, dia de descanso que lhe permitia entregar-se sem constrangimento 
s expanses do seu corao.
     O jovem Garnwell no compreendia a estranha delicadeza de sentimentos que interdizia a Robin a confisso do seu amor por Mariana. William considerava uma tolice 
essa delicadeza, e longe de lhe imitar a reserva, espreitava todas as ocasies favorveis para uma confisso j cem vezes feita, para a confidncia de alguma palavra 
que tivesse a misso de assegurar a Maude que ela era amada, bem ternamente amada por William de Garnwell.
     Maude era para esse apaixonado da vida, a nica mulher que lhe seria possvel amar.  Maude era o alento de William, sua alegria, a sua felicidade, o seu prazer, 
o seu sonho, a sua esperana.  Will dera o nome de Maude ao seu cachorro de caa favorito; as suas armas preferidas tinham igualmente esse nome; seu arco chamava-se 
Maude; sua lana, a branca maude; suas flechas,  as finas  Maude.  Insacivel em seu amor pelo nome da sua bem-amada, William ambicionava a posse do cavalo do enamorado 
de Graa May, e isso unicamente porque esse cavalo tinha o nome do seu dolo.  Hal recusou abertamente as ofertas fabulosas que William lhe fez para conseguir esse 
cavalo, e o nosso amigo correu imediatamente a Mansfeld, comprou uma gua magnfica e deu-lhe o nome da incomparvel Maude. O lindo nome de miss Lindsay logo se 
tornou conhecido nas vizinhanas de Garnwell, andando como andava sem cessar nos lbios de Will; ele pronunciava-o vinte vezes por hora e sempre com uma expresso 
de crescente simpatia.  No satisfeito com dar aos objetos que o cercavam dos quais diariamente se servia, o nome da sua amada, William batizava ainda com ele todas 
as coisas que de qualquer modo agradavam  moa.
     Maude era de tal maneira idealizada no corao do entusistico rapaz que j no parecia surgir-lhe sob a forma de uma mulher, antes spb o aspecto de um anjo, 
de uma fada, de um ser superior a todos os seres, menos perto da terra do que do cu; numa palavra, miss Lindsay era toda a religio de Will.
     Se somos obrigados a reconhecer que o impetuoso filho do baronete de Garnwell amava a linda Maude de um modo to rude quanto sincero, somos igualmente obrigados 
a dizer que esse amor, to curioso na sua expresso, no deixava de exercer certa influncia no corao de miss Lindsay.
     As mulheres raramente detestam os homens que as amam, quando encontram um corao realmente devotado, quase sempre devolvem uma parte do amor que inspiram. 
Cada dia dava lugar a uma cortesia, uma gentileza, uma amabilidade da parte de Will, gestos que todos tinham por efeito e recompensa a alegria de Maude. Sucedeu 
enfim que essa ruidosa ternura, misto de paixo, de respeito e de platonismo, fez brotar no corao da moa uma viva gratido.  Se as provas do amor de William no 
eram cercadas da delicadeza de forma que os espritos sensveis julgam essencialmente necessria a sua manifestao, isso se devia apenas a que a brusquido natural 
do seu temperamento e das suas maneiras no podia conceber nem admitir essa delicadeza.
     Maude conhecia o gnio fogoso e arrebatado de Will. Alis, qual  a mulher que no compreende imediatamente a fora e a grandeza de uma bondade que tem a sua 
nascente no corao?
     Por gratido, talvez tambm por um sentimento de generosidade, Maude tentou merecer por sua vez a gratido de Will, mas para conseguir essa gratido no empregou 
de nenhum modo uma faceirice orlada de esperana. No, essa conduta enganosa era indigna de tal jovem; ela teve para William cuidados de me, atenes de amiga, 
cortesias de irm. Infelizmente as amabilidades de Maude foram mal interpretadas por Will, que  mais insignificante palavra afetuosa, perante o mais ligeiro olhar 
de cordial amizade, caa em xtases de adorao, em transportes de amor insensato.
     Depois de lhe ter jurado um amor eterno, depois de lhe ter oferecido o seu nome, o seu corao e a sua fortuna, William terminava invariavelmente as suas apaixonadas 
declaraes por esta simples e ingnua pergunta:
      Maude, tardars ainda muito a amar-me? Poderei esperar ser amado algum dia?
     No querendo dar esperanas ao rapaz nem desejando tirar-lhe as iluses de uma correspondncia futura, Maude iludia a pergunta.
     A conduta de miss Lindsay no era guiada, como j dissemos, por um sentimento de tola vaidade, e menos ainda pelo desejo, sempre lisonjeiro para a vaidade de 
uma mulher, de conservar um adorador. Maude, que se sabia apaixonadamente amada, que conhecia o irrefletido arrebatamento do carter de William, temia com toda a 
razo as perigosas conseqncias de uma recusa sria e irrevogvel. Nos primeiros momentos de dor, Will poderia sofrer cruelmente com essa decepo amorosa. De resto, 
 preciso confessar com toda a franqueza que os receios de receber uma recusa inapelvel jamais tinham perturbado o corao ou a idia  do moo. O pobre rapaz acreditava 
firmemente que se Maude recusava hoje o seu amor, terminaria por aceit-lo amanh. J havia perguntado trezentas vezes  jovem se ela tardaria muito a am-lo, e 
j lhe tinha dito seiscentas vezes que a adorava, e trezentas vezes Will fora brandamente repelido.  Mas isso tinha importncia, o rapaz pretendia renovar mais outras 
trezentas vezes as suas ofertas.
     O corao de Maude, contudo, no era de natureza a repelir um assdio to prolongado, pois era um corao bom, franco e fiel. William sabia isso e esperava 
que uma bela manh, por ocasio da sua milsima declarao de amor, Maude lhe estendesse a pequenina mo branca, a fronte pura e lhe dissesse enfim: William, eu 
te amo!
     Esquecemo-nos de acompanhar o olhar de Maude quando jovem o erguia, com afetuosa gratido, para o seu apaixonado servidor. Nosso amigo tinha, tanto no fsico 
como no moral, imperfeies que ordinariamente no so o apangio dos heris dos nossos romances modernos, nem por isso essas imperfeies tinham o direito ou o 
poder de afastar o amor. Will era alto, bem proporcionado; seu rosto oval de traos finos no era prejudicado pela colorao vermelha de uma frescura juvenil posta 
em relevo pelo emoldurado de uma cabeleira de um encarnado um tanto vivo. Essa curiosa tonalidade, que j lhe valera a alcunha de Escarlate, podia contudo ser considerada 
um defeito, somos obrigados a reconhec-lo. Mas devemos acrescentar que os cabelos de William eram naturalmente encaracolados e lhe caam sobre os ombros com uma 
graa digna de admirao. A me de Will concebera a esperana, ao acariciar a cabea do filho, de que o tempo daria  cor singular dos seus cabelos uma tonalidade 
mais escura; mas, longe de realizar a esperana da boa senhora, o tempo dera-se ao prazer de os recobrir de uma camada carmim ainda mais vivo, e William tornou-se 
uma segunda edio de Guilherme o Ruivo.
     Encantadoras belezas fsicas e preciosas qualidades morais compensavam amplamente esse estranho capricho da natureza; porque Will tinha olhos azuis talhados 
em amndoa, de expresso umas vezes cheia de ternura, outras vezes cintilando malcia. Ao meigo olhar desses belos olhos vinha juntar-se um ar de bom humor to 
franco, to afetuoso e to amvel que melhorava consideravelmente o conjunto um tanto bizarro do nosso querido amigo.
     Estimada pela famlia Garnwell, adorada por Willie, desejosa de agradar a todos, Maude chegou enfim a prender-se ao rapaz; mas havia tantas vezes repelido a 
oferta do seu amor que, sentindo-se agora desejosa de lhe corresponder, j no sabia como se comportar.
     Eis portanto a situao em que se encontravam os nossos personagens no ano de 1182, seis anos aps o assassnio da doce Margarida.
     
     Durante uma bela noite dos comeos de junho, uma expedio noturna foi preparada por Gilberto Head.  Essa expedio, que tinha por fim apanhar um bando de homens 
pertencentes ao baro Fitz-Alwine, devia, sendo bem sucedida, facilitar os desgnios do velho, porque o esposo de Margarida no havia de modo algum renunciado aos 
seus projetos de vingana.  As informaes que haviam prevenido Gilberto da passagem desses homens pela floresta de Sherwood davam a entender que eles iam acompanhando 
o seu senhor ao castelo de Nottingham, e a inteno de Gilberto era vestir o seu bando com a libr dos soldados do baro e introduzir-se no castelo sob esse disfarce. 
Somente l dentro teriam lugar as represlias, represlias impiedosas, que cobrariam assassnio por assassnio e incndio por incndio.
     Mais tagarela do que prudente, Hal satisfizera todas as perguntas de Gilberto. O ingnuo rapaz no percebera que as suas respostas indiscretas faziam correr 
nuvens de tormenta nos olhos do sombrio e atento velho.
     Robin e Joo-Pequeno haviam jurado a Gilberto ajud-lo a castigar o baro, e fiis a esse juramento tinham-se colocado ambos  sua disposio. A pedido de Gilberto, 
Joo-Pequeno armou um grupo de homens ousados e corajosos, incluiu nas suas fileiras os filhos de sir Guy, e essa pequena tropa, formada de combatentes resolvidos 
a vencer, ps-se s ordens do velho guarda florestal.
     Gilberto queria matar pelas prprias mos o baro Fitz-Alwine, porque na extrema exasperao da sua dor encarava essa morte como um tributo a pagar aos amados 
restos da sua inditosa companheira.
     Robin no tinha a tal respeito as mesmas idias de seu pai adotivo, e sem se considerar faltoso ao juramento que fizera diante do cadver de Margarida, tinha 
a inteno de defender o baro da fria do velho.
     Um pensamento de amor devia interpor-se como um escudo entre a arma de Gilberto e o peito do baro Fitz-Alwine.
     Meu Deus!  dizia-se mentalmente Robin,  concedei-me a graa de preservar esse homem dos golpes de meu pai; a doce criatura que habita junto de vs no reclama 
vingana. Concedei-me a graa de tocar o corao de Fitz-Alwine, de ficar sabendo por ele a sorte de Allan Clare, a fim de dar alguma felicidade quela que amo.
     Alguns minutos antes da hora marcada para a partida Robin dirigiu-se a um quarto que ficava prximo do aposento de Mariana, com a inteno de se despedir da 
jovem.
     
     De mos unidas... juraram um ao outro amor constante e eterno...
     
     Ao entreabrir sem rudo a porta desse quarto, Robin avistou Mariana encostada a uma janela e falando consigo mesma, como sucede freqentemente s pessoas que 
vivem num isolamento repleto dos seus sonhos.
     Interdito e perturbado, Robin estacou em silncio, de chapu na mo, no limiar da porta.
      Santa me de Deus  murmurava a jovem numa voz entrecortada,  ajudai-me, protegei-me, dai-me foras para suportar a esmagadora monotonia desta existncia! 
Allan, meu irmo, meu nico protetor, meu nico amigo, porque me abandonaste? As tuas esperanas de felicidade eram a minha nica alegria, Christabel e tu reis 
toda a minha vida! Partiste h seis anos, meu irmo, e como uma flor esquecida no jardim de uma casa deserta, tenho crescido longe de ti. As pessoas a quem a tua 
ternura confiou o cuidado da minha vida so boas, boas demais talvez, porque a sua generosidade me acabrunha, faz com que eu sinta ainda mais o meu isolamento e 
o meu abandono. Sinto-me desgraada, Allan, bem desgraada, e para cmulo do meu infortnio, uma paixo devoradora empolgou todo o meu ser, meu corao no me pertence 
mais.
     Acabando estas dolorosas palavras, Mariana escondeu a cabea entre as brancas mos e rompeu a chorar amargamente.
      Meu corao no me pertence mais,  repetiu Robin estremecendo de angstia, enquanto um profundo rubor lhe fazia compreender que fora uma testemunha indiscreta 
das lgrimas da formosa criatura...  Mariana!  exclamou vivamente Robin avanando para o meio do quarto,  querer consentir em conversar alguns instantes comigo? 
     Mariana surpreendida teve um ligeiro grito.
      De boa vontade, senhor  respondeu ela com brandura.
      Mariana  prosseguiu Robin de olhos baixos e voz trmula,  acabo de cometer involuntariamente uma falta imperdovel. Apelo para a sua extrema indulgncia 
a fim de que oua esta confisso sem clera. Encontro-me no limiar desta porta h alguns instantes, as suas palavras to profundamente tristes tiveram um ouvinte.
     Mariana enrubesceu.
      Ouvi sem querer,  apressou-se a acrescentar Robin, acercando-se timidamente da moa.
     Um meigo sorriso entreabriu os lbios da encantadora lady.
      Senhorita  continuou Robin animado por esse divino sorriso,  permita-me responder a algumas das suas palavras. Miss Mariana no tem parentes, vive afastada 
de seu irmo e quase sozinha no mundo. Minha vida ressente-se das mesmas dores, tambm eu sou rfo. Exatamente como milady tenho o direito de queixar-me da sorte, 
como milady tenho o direito de chorar, no pelos ausentes, mas por outros que j no existem. Todavia no choro, porque o futuro e Deus so a minha esperana. Coragem, 
Mariana, confie e espere: Allan voltar, e com ele a nobre e bela Christabel. E enquanto no chega a hora sem dvida prxima desse feliz regresso, conceda-me a graa 
de lhe servir de irmo; no me repila, Mariana, e em breve compreender que a sua confiana repousa num homem que dar a sua vida para a fazer feliz.
      Sois generoso, Robin  respondeu a moa num tom profundamente emocionado.
      Tenha confiana em mim, querida lady; e sobretudo no pense que a oferenda de meu corao, da minha vida e dos meus cuidados lhe seja feita irrefletidamente. 
Oua, Mariana  acrescentou o rapaz num tom de voz mais expressivo e menos trmulo,  vou dizer-lhe a verdade inteira: amo-a desde o dia em que pela primeira vez 
nos encontramos.
     Uma exclamao, misto de alegria e de surpresa, escapou dos lbios de Mariana.
      Se lhe fao hoje esta confisso  tornou Robin emocionado,  se lhe abro o meu corao h seis anos fechado sobre a sua imagem, no  de modo algum com a 
esperana de obter a sua afeio, mas apenas para lhe fazer compreender quanto sou devotado  sua querida pessoa. As suas palavras to involuntariamente ouvidas 
feriram-me o corao. No lhe pergunto o nome daquele a quem ama... quando me julgar digno de substituir seu irmo, dignar-se- ento nome-lo. Escolha-o bem, Mariana, 
e eu respeitarei essa escolha, alis to digna de inveja... J me conhece h seis anos e deve ter-lhe sido fcil julgar-me pelas minhas aes. Mereo o ttulo sagrado 
de seu protetor. No chore, Mariana, d-me a sua mo e diga-me que eu serei um dia seu amigo e seu confidente.
     Mariana atendeu ao jovem inclinado para ela as suas duas mos trmulas.
      Escuto as suas palavras, Robin  respondeu ela,  com um sentimento de admirao to vivo que me torna impotente para lhe exprimir a minha felicidade. Conheo-o 
h vrios anos, e cada dia tem contribudo para melhor o apreciar-lhe, durante a ausncia de Allan o senhor tem desempenhado junto a mim os deveres do melhor dos 
irmos, e isso ocultamente, em silncio e quase sem agradecimentos. Sinto-me profundamente emocionada, caro amigo, pelo generoso sacrifcio que deseja fazer dos 
seus sentimentos em benefcio da pessoa desconhecida a quem pertence meu corao. Pois bem! No me agradaria ser ultrapassada em grandeza de alma, nem mesmo por 
si, Robin. Quero mostrar-me to sincera quanto o senhor tem sido devotado  minha pessoa.
     Um vivo rubor tingiu as faces de Mariana, que se manteve em silncio por alguns instantes.
      No faa m opinio do meu recado de mulher  tomou a jovem com voz comovida,  se em recompensa de todas as suas bondades para comigo declaro ser a si mesmo 
que o meu corao pertence. Alis, creio no dever envergonhar-me desta confisso, pois ela  um testemunho da minha gratido e da minha lealdade.
     No repetiremos aqui as fervorosas palavras que se escalparam, como uma torrente, do corao daqueles jovens; seis Imos de um amor silencioso haviam acumulado 
nele tesouros de ternura.
     De mos unidas, olhos cheios de lgrimas e sorriso nos lbios, juraram um ao outro amor constante e eterno, amor que no devia evolar-se para o cu seno com 
o derradeiro alento das suas vidas.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XVII



      MAUDE, Maude, miss Maude!  gritava uma voz alegre perseguindo a moa que passeava sozinha e pensativa nos jardins de Garnwell... Maude, encantadora Maude! 
 repetia essa voz com um assento de ternura impaciente,  onde est?
      Estou aqui, William, estou aqui  respondeu miss Lindsay avanando com uma pressa benevolente ao encontro do rapaz.
      Sinto-me muito feliz por a encontrar, Maude  disse jovialmente Will.
      Eu tambm me sinto muito satisfeita com este encontro, visto que ele lhe d tanto prazer  respondeu a moa com infinita graa.
      Certamente que ele me d um imenso prazer, Maude. Que linda noite, no  verdade?
      Lindssima, William; mas no tem para me dizer nada mais do que isso?
      Peo perdo, Maude, tenho outra coisa a dizer-lhe  respondeu William rindo;  mas a calma deliciosa deste crepsculo faz-me pensar que ele seria propcio 
a um passeio pelo bosque.
      No ser inteno sua ir preparar os caminhos de uma caada para amanh?
      No, Maude, ns no vamos  floresta com essa pacfica inteno; vamos... Ah! Ia-me esquecendo... no devo falar disso a ningum. Contudo, vou fazer uma coisa 
da qual talvez me possa resultar uma perna que... Estou dizendo tolices, Maude, no faa caso. Vim desejar-lhe uma boa, uma feliz noite, e dizer-lhe adeus...
      Adeus, Will! Que significa essa expresso? Vai por acaso empreender alguma perigosa expedio?
      Bem! Se assim fosse, com um arco e um bordo solidamente preso  mo firme, facilmente se consegue a vitria. Mas... caluda!... Todas as minhas palavras so 
ociosas, no significam absolutamente nada.
      Parece querer enganar-me, William; est fazendo segredo da sua sortida noturna.
      Assim o exige a prudncia, queridssima Maude; uma palavra inconsiderada poderia tornar-se muito perigosa. Os soldados... Ah! Estou ficando louco... louco 
de amor pela sua encantadora pessoa, Maude. Aqui est simplesmente a verdade: Joo-Pequeno, Robin e eu vamos percorrer a floresta. Antes de sair quis dizer-lhe adeus, 
Maude, um adeus bem terno porque talvez nunca mais possa ter a felicidade de... Estou falando criancices, Maude, nada mais que criancices. Vim dizer-lhe adeus unicamente 
porque me  impossvel afastar-me do solar sem lhe apertar as mos; esta  a verdade, Maude, a grande verdade, asseguro-lhe.
      Com efeito, isso  verdade, Will.
      E por que motivo lhe digo eu sempre adeus ou at  vista, Maude?
      No compete a mim explic-lo, Will.
      Ah! Est claro, Maude  volveu o rapaz num tom jovial,  no  a si que compete explic-lo! Ignora porventura esse motivo, Maude? Ignora talvez que a amo 
mais do que amo meu pai, meus irmos, minhas irms e meus bons amigos? Posso deixar o solar com a inteno de ficar longe dele semanas inteiras sem dizer adeus a 
ningum, com exceo talvez de minha me, e  impossvel afastar-me de si, ainda que apenas por algumas horas, sem apertar nas minhas as suas pequeninas mos brancas, 
sem levar comigo,  maneira de uma bno, estas doces palavras: Boa viagem e breve regresso, Will. Contudo, Maude no me ama  acrescentou quase com tristeza 
o pobre rapaz. Mas essa nuvem no escureceu os olhos de Will, porque logo em seguida ele prosseguiu num tom mais alegre:  Espero que me venha a amar um dia, Maude; 
espero-o e tenho pacincia para esperar at que a minha linda Maude a isso se resolva; no se apresse, no se atormente, no imponha ao seu corao um sentimento 
que ele no quer aceitar. Isso acontecer, querida Maude, e um belo dia dir enfim a si mesma: Est bem! amo William, amo-o um pouco... um pouquinho. Depois, ao 
cabo de alguns dias, de algumas semanas, de alguns meses, querer-me- mais ainda. E o seu amor ir crescendo progressivamente at que chegue a igualar em fora e 
em paixo a imensidade do meu. Mas isso no ser possvel, Maude, no acontecer jamais. Amo-a tanto que seria insensato pedir ao cu, quanto mais rezar-lhe, para 
que lhe ponha no corao um amor semelhante. H de amar-me conforme puder, segundo a sua fantasia, conforme o seu capricho, e um dia me dir: Will, amo-o! Ento 
eu lhe responderei... Ah! Ah! Ah! No sei o que lhe irei responder, Maude;  mas com certeza pularei de alegria, beijarei minha me, ficarei louco de felicidade Oh! 
Maude! Diligencie amar-me, comece por um ligeiro sentimento de preferncia e amanh talvez me ame um pouco depois de amanh mais, e no fim da semana decerto me dir 
Will, amo-o!
      Ama-me ento sinceramente, Will?
      Que deverei fazer para lhe dar a prova?  volveu o moo num tom grave.  Que deverei fazer?  Diga-me... Desejo provar-lhe que a amo de todo o corao, com 
toda a minha alma, com todas as minhas foras, desejo provar-lho visto que o no sabe ainda.
      Suas palavras e suas aes so provas que no necessitam ser apoiados por novos testemunhos, caro William, e a pergunta no tem outro fim seno o de provocar 
entre ns uma sria explicao, no dos seus sentimentos, que j me so conhecidos, mas dos que me enchem o corao. Sei que me ama, Will, que me ama sinceramente; 
mas se atra a sua ateno, no devemos esquec-lo, foi sem o querer; jamais procurei inspirar-lhe amor.
      Bem o sei, bem o sei, Maude  to modesta quanto bela;  eu amo-a porque a amo, eis tudo.
      Will,  prosseguiu a moa com uma certa ansiedade no olhar,  nunca imaginou ento que eu j podia ter dado meu corao mesmo antes de o conhecer?
     quela assustadora idia  que nunca viera perturbar os sonhos de William nem alterar a doce quietao do seu paciente amor, o rapaz sentiu no corao um choque 
to doloroso que empalideceu, e prestes a desmaiar se encostou a uma rvore.
      Espero que ainda no tenha dado a ningum seu corao, Maude!  murmurou ele num tom suplicante.
      Acalme-se, caro William  tornou docemente a jovem,  acalme-se e escute. Creio em seu amor como creio em Deus, e de todo o corao desejaria poder corresponder-lhe, 
caro e bom Will.
      No me diga que lhe  impossvel amar-me, Maude!  bradou violentamente o rapaz;  No me diga isso, porque eu sinto pelas palpitaes do meu corao, pelo 
calor do sangue que corre nas minhas veias como uma lava ardente, sinto que me seria impossvel ouvi-la, escutar as suas palavras.
      Deve contudo ouvi-las, Will, e solicito-lhe a graa de me prestar alguns momentos de ateno. Conheo as dores do amor sem esperana, meu amigo, j lhes sofri 
uma a uma todas as torturas; no existe na terra dor comparvel  que lana no corao um amor desdenhado.  Desejo ardentemente poupar-lhe as cruis angstias de 
uma tal situao.
      Will; escute-me, peo-lhe, sem amargura e sobretudo sem clera. Antes de o conhecer, antes de ter deixado o castelo de Nottingham, eu tinha dado meu corao 
a uma pessoa que me no ama, que nunca me amou e jamais vir a amar-me.
     William estremeceu.
      Maude  disse ele com voz palpitante,  Maude, se assim o quiser esse homem a amar, ele a amar, Maude  Insistiu o pobre rapaz com os olhos cheios de lgrimas. 
 Pela santa missa! Esse homem precisa tornar-se seu escravo, precisa tornar-se seu escravo ou eu o espancarei todos os dias. Sim Maude, eu o espancarei at que 
ele a ame.
      No espancar ningum, Will  respondeu Maude sorrindo sem o querer do singular expediente que pretendia empregar o pobre rapaz,  no somente o amor no 
se impe, especialmente de to rude maneira, mas ainda a pessoa de que lhe falo no merece de nenhum modo esse indigno tratamento. Deve compreender, William, que 
eu no aguardo nem espero a afeio desse homem, e compreender melhor ainda que seria necessrio no ter corao nem alma para ficar insensvel e indiferente aos 
testemunhos do seu afeto. Pois bem, Will, meu caro Will! profundamente tocada pelas suas generosas palavras, quero exprimir-lhe a minha gratido pelo dom da minha 
mo, pela segurana de um afeto que empregar toda a sua fora em conquistar, em merecer, em igualar o seu.
      Agora escute-me por sua vez, Maude  respondeu o moo com voz trmula.  Sinto-me envergonhado por ter acalentado a esperana de merecer um dia o seu amor, 
envergonhado por no haver compreendido as razes da sua indiferena.  Peo-lhe que me perdoe a confisso arrancada ao seu corao.  Por bondade de alma, Maude, 
consente em aceitar o nome do pobre William, por bondade de alma ainda consente em sacrificar-se para a felicidade dele.  Mas no esquea, Maude, que essa mesma 
felicidade  a perda das suas esperanas, talvez at a do seu sossego.  Eu no posso nem devo aceitar semelhante sacrifcio.  No somente no creio ser digno dele, 
como ainda me envergonharia de lhe falar mais longamente do meu amor.  Perdoe-me os aborrecimentos que lhe tenho causado, perdoe-me o t-la amado e continuar a am-la 
ainda, perdoe-me que eu juro nunca mais lhe falar acerca dos meus sentimentos.
      William, William, onde ests?  interveio de repente uma voz forte e sonora.
      Esto-me chamando, Maude, adeus! Que a Virgem Maria se digne velar por si, que a sua divina proteo a preserve de todo o mal! Seja feliz, Maude; mas se no 
me tornar a ver, se eu nunca mais voltar, lembre-se algumas vezes do pobre Will, pense naquele que a ama e que para sempre a h de amar.
     Acabando estas palavras, ditas num tom de voz entrecortada pelas lgrimas, o jovem abraou Maude pela cintura, apertou contra o corao a jovem criatura palpitante, 
beijou-a apaixonadamente, e fugiu sem voltar a cabea, sem responder a uma doce voz que tentava ret-lo.
      Ele no me deu tempo de lhe exprimir de um modo claro a delicadeza da minha confisso  murmurou Maude toda triste com a brusca partida de William.  Amanh 
lhe direi que o meu corao no tem nenhuma saudade do passado; e ele ficar bem feliz, esse caro William.
     Mas a! O dia seguinte devia ser precedido de longos dias de melanclica espera.
     Uma vintena de robustos vassalos armados de lanas, espadas, arcos e flechas, cercava a uma distncia respeitosa um grupo de homens composto dos filhos de sir 
Guy de Garnwell, de Joo-Pequeno seu sobrinho e de Gilberto Head.
      Estou muito admirado de ver que Robin se faz esperar tanto  disse o velho aos seus jovens companheiros;  no est nos hbitos de meu filho ser preguioso
      Pacincia, mestre Gilberto  respondeu Jo Pequeno erguendo a sua alta estatura para lanar ao largo um olhar investigador;  Robin no  o nico a faltar 
 hora combinada, meu primo Will tambm se est fazendo esperar. No  sem algum motivo, sou capaz de apostar, que eles esto atrasando a nossa partida de alguns 
minutos.
      A esto eles!  gritou um dos homens. Will e Robin aproximaram-se rapidamente.
      Como, meus filhos, esquecsteis a hora do encontro?  perguntou Gilberto estendendo a mo aos dois rapazes.
      No, meu pai, e peo-lhe desculpa por o ter feito esperar.
      Vamos ento!  exclamou Gilberto.  Joo-Pequeno,  acrescentou ele voltando-se para o moo,  teus amigos conhecem bem claramente o fim da nossa expedio?
      Perfeitamente, mestre Gilberto, e juraram segui-lo com coragem e servi-lo com fidelidade.
      Posso portanto ter toda a confiana no apoio deles?
      Toda a confiana.
      Muito bem. Apenas mais uma palavra: a fim de alcanar Nottingham pelo caminho mais curto, nossos inimigos atravessaro Mansfeld, enveredaro pela grande estrada 
que divide em duas a floresta de Sherwood, e atingiro uma encruzilhada junto  qual ficaremos de emboscada. .. Creio que no preciso dizer-te mais nada, Joo-Pequeno, 
tu conheces as minhas intenes.
      Perfeitamente  respondeu o moo.  Rapazes!  gritou Joo-Pequeno a um sinal do velho,  tereis bastante coragem para enterrar os vossos dentes saxnios 
nos corpos desses lobos normandos?  Tereis nimo para vencer ou morrer?
     Um enrgico brado afirmativo respondeu  dupla pergunta formulada pelo jovem. 
      Escutem, meus valentes, avante!...
      Hurra! pela guerra!  exclamou William acompanhando com Robin o belicoso bando.
      Hurra! Hurra!  gritaram alegremente os homens. O eco da negra floresta repetiu ao longe:
      Hurra! Hurra! Hurra!
      Que tens tu, amigo Will?  perguntou Robin segurando o  brao ao pensativo camarada.  Dir-se-ia que uma nuvem de negra melancolia escurece o teu rosto jovial. 
Ser que os brados dos combater-tes j no possuem mais harmonia para o simptico William, temer ele os perigos da nossa incurso?
      Estas me fazendo uma pergunta bem estranha, Robin  respondeu William voltando para o amigo um olhar carregado de melancolia.  Pergunta ao lebru se ele 
gosta de perseguir o cervo, ao falco se lhe agrada arremessar-se do alto das nuvens sobre o modesto pssaro, mas no me perguntes se eu receio o perigo.
      Minha pergunta tinha por fim distrair o teu esprito dos sombrios pensamentos que o ocupam, caro Will  tornou Robin;  esses sombrios pensamentos apagaram 
o brilho dos teus olhos e espalharam na tua fronte uma inquietadora palidez. Tens uma tristeza, amigo Will, uma verdadeira tristeza; confia-ma, que para isso sou 
teu amigo.
      No tenho tristeza alguma, Robin, sou hoje o que era ontem e o que serei amanh; como de costume vers que hei de ser o primeiro na luta que se travar.
      No duvido absolutamente da tua coragem, caro Will, mas duvido muito, isso sim, da tranqilidade da tua alma; h alguma coisa que te entristece, tenho a certeza. 
S franco amigo, posso talvez ser-te de alguma utilidade, carregar cnego o fardo dos teus desgostos, e por isso mesmo torn-los menos pesados.  Se tens alguma questo 
com algum  s dizer-mo, as tuas razes sero as minhas.
      O motivo da minha tristeza no  bastante importante nem bastante srio, caro Robin, para continuar por muito tempo um mistrio. Se eu me tivesse dado ao 
trabalho de raciocinar, no teria ficado surpreendido nem aflito com o que me sucede... Perdoa a minha hesitao, mas h em mim um sentimento que, embora contra 
a vontade, fecha o meu corao a toda a confidncia. Ser orgulho ou timidez? No sei; mas um amigo como tu  como se fosse um desdobramento d meu ser. As tuas 
perguntas encontram em mim um eco, a tua amizade triunfa da minha falsa vergonha, eu...
      No, no, caro Will  atalhou vivamente Robin,  guarda o teu segredo: o sofrimento tem o seu pudor, e peo-te que me perdoes a amistosa impertinncia das 
minhas interrogaes.
       a mim que compete pedir perdo pelo egosmo da minha dor, caro Robin  volveu Will entrecortando as palavras de um riso mais triste do que um pranto.  
Eu sofro, sofro verdadeiramente, e quero sondar diante de ti a ferida que rasga a minha alma. Sers o confidente da minha primeira mgoa como foste o companheiro 
dos meus primeiros brinquedos; porque ns estamos mais estreitamente ligados pela amizade do que o estaramos pelos laos do sangue, e eu quero ser enforcado, Robin, 
se a minha afeio por ti no  a do mais dedicado dos irmos.
      Tuas palavras so verdadeiras, Will, o afeio tornou-nos irmos. Onde esto os dias da nossa bela infncia? A felicidade que ento gozamos no voltar mais.
      A felicidade ainda vir para ti, Robin, mas sob outras formas; trar outras roupas, outro nome, mas ser sempre a felicidade. Eu por mim nada mais espero, 
no desejo mais nada, meu corao est desfeito. Conheces, Robin, o amor que tenho dedicado a Maude Lindsay... no encontro palavras que possam realmente fazer-te 
compreender a paixo invencvel que ligou minha vida ao simples nome dessa criatura. Pois bem! agora sei, agora sei...
     Uma dolorosa suspeita atravessou o esprito de Robin.
      Ento? Agora sabes o qu?  perguntou ele num tom cheio de ansiedade.
      Quando me foste procurar ao jardim do solar  continuou William,  eu estava ao p de Maude, acabava de repetir-lhe o que todos os dias lhe repito h muito 
temP0' que o meu mais caro sonho seria d-la por filha a minha me por irm a minhas irms.  Perguntei a Maude se ela no quereria tentar amar-me um pouco, e Maude 
respondeu-me que antes de vir para o solar de Garnwell j havia dado a outro a sua afeio. Ento, Robin, vi destrurem-se todas as minhas esperanas, senti que 
alguma coisa estalava dentro de mim: era o meu corao, Robin, era o meu corao; agora podes compreender como sou bem desgraado.
      Maude confiou-te o nome daquele a quem ama?  perguntou cautelosamente Robin.
      No  respondeu Will,  disse-me apenas que esse homem a no ama. Podes compreender uma coisa destas, Robin? Existe um homem que no ama Maude e  amado por 
ela! um homem a quem o seu olhar procura e que foge desse olhar! Que insigne estpido! Que miservel! Ofereci a Maude apoderar-me dele, obrig-lo a dar o amor que 
recusa. Ofereci-me para lhe dar umas surras, mas ela recusou.  Oh! Ela ama-o, ela ama-o! Depois de ter acabado esta triste e penosa confisso  acrescentou William, 
a pobre e generosa Maude ofereceu-me a sua mo. Naturalmente recusei. A razo, a lealdade e a honra impuseram silncio ao meu amor... Dize adeus ao risonho e alegre 
Will, Robin; ele est morto e bem morto.
      Vamos, vamos, William, uma pouca de coragem  interveio Robin carinhosamente;  teu corao est enfermo,  preciso trat-lo,  preciso cur-lo, e eu quero 
ser o seu primeiro mdico. Conheo Maude melhor ainda do que tu; ela te amar um dia, se  que j te no ama. Asseguro-te, William, que interpretaste muito mal as 
confidncias dessa moa; elas foram ditadas por um sentimento de extrema delicadeza, deviam fazer-te compreender as felicidades passadas e ao mesmo tempo tornar-te 
mais preciosa uma oferta to consideradamente recusada. Acredita-me, William, Maude  uma jovem encantadora, to honesta quanto formosa e verdadeiramente digna do 
teu amor.
      Isso sei eu!  exclamou o rapaz.
      No deves pois exagerar a profundeza das mgoas de miss Lindsay, meu amigo, nem atormentar o teu esprito com suposies quimricas.  Maude j te quer muito 
bem, tenho a certeza, e um dia h de amar-te ainda mais.
      Pensas isso, Robin, meu querido Robin?  exclamou Will agarrando-se com avidez quele raio de esperana.
      Assim penso; somente, peo-te que me deixes falar sem ser interrompido; repito-te, e hei de repetir-to todas as vezes que perderes a coragem, Maude ama-te; 
a oferta da tua mo no era um devotamento ou um sacrifcio, mas antes um impulso do corao.
      Acredito-te, Robin, quero acreditar-te!  exclamou Will;  amanh perguntarei outra vez a Maude se ela realmente quer dar outra filha a minha me.
      s um excelente rapaz, William; agora retoma coragem e apressemos o passo, pois estamos pelo menos um quarto de milha atrs dos nossos companheiros, e francamente, 
esta lentido de marcha no nos empresta um ar suficientemente marcial.
      Tens razo, amigo, e at j me parece ouvir a voz resmungona do nosso general chefe.
     Quando o pequeno grupo atingiu o ponto designado por Gilberto como sendo propcio a uma emboscada, o velho distribuiu seus homens, deu a cada um novas e breves 
explicaes, ordenou a toda a linha um profundo silncio e foi pessoalmente colocar-se atrs de um tronco de rvore a alguns passos de distncia de Joo-Pequeno, 
cujos ouvidos j estavam alertas para qualquer rudo.
     Um pio de ave acordada, o canto melodioso do rouxinol, o murmrio da brisa passando entre a folhagem, eram os nicos sons perturbando o calmo silncio da noite. 
Mas a esses murmrios indistintos veio em breve juntar-se um rumor de passos, ainda afastado, um rumor quase imperceptvel e que s o apurado ouvido dos homens da 
floresta podia distinguir entre os rumores harmoniosos dos queixumes do vento, da voz das aves e do estalar das ramagens.
       um viajante a cavalo  disse Robin a meia voz;  parece-me reconhecer o passo curto e rpido de um pnei  das nossas terras.
      Tua observao  perfeitamente justa  respondeu Joo-Pequeno no mesmo tom de prudncia;  o viajante  algum amigo, ou ento um transeunte inofensivo.
      Ateno, em todo o caso!
      Ateno!  repetiram os homens uns aos outros.
     A pessoa que desse modo excitava a inquieta curiosidade do pequeno bando, prosseguia alegremente o seu caminho, entoando com voz forte uma balada composta em 
sua prpria honra e sem dvida alguma por ela mesma.
      Maldito sejas tu!  gritou de repente o cantor dirigindo ao seu cavalo aquela frase amvel.  Pois qu! animal sem gosto, enquanto verdadeiras torrentes de 
harmonia se desprendem dos meus lbios, no ficas em silncio, embevecido e maravilhado? Em vez de ergueres as compridas orelhas e de me ouvires com a gravidade 
que convm, moves a cabea para a direita e para a esquerda, misturas  minha a tua falsa voz, gutural e desafinada?  Mas s uma fmea, e portanto de temperamento 
implicante, rebelde, teimoso e obstinado.  Se desejo ver-te marchar a um lado da estrada, imediatamente te diriges para o lado oposto, fazes constantemente o que 
no deves fazer e no fazes nunca o que  necessrio e imperioso.  Sabes que te estimo, desavergonhada, e  justaste por teres adquirido a certeza dessa afeio 
que gostas de contrariar o teu dono.  s como ela, como so enfim todas mulheres, caprichosa,  inconstante,  voluntariosa e cheia de vaidades.
      Por que motivo declamas assim contra as mulheres, gringo?  disse Joo-Pequeno que sara silenciosamente do esconderijo, segurando de improviso as rdeas 
do cavalo.
     Parecendo pouco assustado, o desconhecido replicou:
      Antes de responder, teria muito gosto em saber o nome daquele que assim faz parar um homem pacato e inofensivo, o nome de quem acrescenta a essa atitude de 
malfeitor a impertinncia de chamar amigo a um homem que lhe  muito superior  acrescentou orgulhosamente o desconhecido.
      Pois fica sabendo, reverendo clrigo de Copmanhurst, pois a ruidosa gritaria dos teus cantos me revela o teu nome, que ests detido, no por um malfeitor, 
mas por um homem muito difcil de intimidar, e que se coloca em relao a ti a sua altura igual  que momentaneamente te empresta o teu cavalo  respondeu num tom 
calmo e frio o sobrinho de sir Guy de Garnwell.
      Fica sabendo tu, co vadio da floresta, porque a grosseria das tuas maneiras tambm me revela o teu nome, que ests interrogando um homem pouco habituado 
a responder a perguntas impertinentes, um homem que te dar o devido castigo se no largares imediatamente as rdeas do seu cavalo. 
      As pessoas que muito falam realizam quase sempre muito pouco  respondeu o moo com um ar de infinita ironia,  e eu vou responder s tuas ameaas apresentando-te 
um jovem mateiro que te obrigar a pedir misericrdia com teu prprio bordo.
      Obrigar-me a pedir misericrdia com o meu prprio bordo!  gritou o desconhecido completamente furioso;  seria um caso raro, se no fosse impossvel. Traze 
l o teu amigo, traze-o aqui neste instante.
     E acabando de vociferar estas ltimas palavras, o viajante saltou do seu cavalo.
      Bem! Onde est ento esse lutador profissional?  Continuou o desconhecido dardejando a Joo-Pequeno olhares indignados.  Onde esta ele?  Quero abrir-lhe 
o crnio a fim de ter em seguida o prazer de te castigar, idiota de pernas altas.
      Vai depressa, Robin  interveio Gilberto,  vai depressa que o tempo urge; d a esse tagarela insolente uma rpida e boa lio.
     Ao ver o desconhecido, Robin tomou Joo-Pequeno pelo brao e disse-lhe em voz baixa:
      Ento no reconheces esse viajante?  frei Tuck o nosso alegre frade.
      O qu! Ser mesmo?
      Sem dvida, mas no digas nada; h muito tempo que desejo trocar umas bordoadas com esse valente Gil, e como esta meia luz noturna me garante o incgnito 
quero aproveitar este curioso encontro.
     As formas elegantes e afeminadas de Robin arrancaram um sorriso desdenhoso aos lbios do estranho.
      Meu rapaz  disse ele rindo,  ests certo de ter o crnio bastante duro para agentar sem morrer a saraivada de golpes que merece a tua impudncia?
      Meu crnio  slido, embora no tenha a espessura do seu, senhor estrangeiro  respondeu o moo falando o dialeto de Yorkshire a fim de dissimular o tom da 
sua voz;  em todo o caso resistir aos seus golpes, caso eles consigam atingi-lo, possibilidade que ponho em dvida com tanta confiana quanta fanfarronice  o  
senhor  pe  em  proclam-la.
      Vamos ver como te arranjas, espcie de pega descarada. E agora chega de palavras que os fatos so mais eloqentes. Em guarda!
     Como o intuito de assustar o seu jovem adversrio, Tuck realizou com o seu bordo um pavoroso molinete e deu a impresso de querer dirigir a primeira pancada 
s pernas de Robin; mas o rapaz, demasiado esperto para desconhecer as reais intenes do frade, parou o bordo no momento em que, guiado por mo firme ele ia bater-lhe 
na cabea. Em seguida, no contente com essa hbil parada, assestou nos ombros, nos rins e na cabea de Tuck uma girndola de golpes, to rpida, to violenta e 
to metodicamente aplicada, que o monge, atordoado, modo, com os olhos cegos, pediu, no propriamente misericrdia mas uma suspenso da luta.
      Manejas bastante bem o cacete, meu jovem amigo  disse o frade arquejante, tentando dissimular a sua fadiga,  e parece que as pauladas ressaltam sobre os 
teus membros flexveis sem os ferir.
      Talvez ressaltassem se eu as recebesse, senhor  respondeu jovialmente Robin;  mas at este momento ainda s senti o contato do seu famoso bordo.
       o teu orgulho que fala, rapaz, porque com certeza te toquei mais de uma vez.
      Esqueceu ento, frei Tuck, que esse mesmo orgulho sempre me impediu de mentir?  volveu Robin tornando  jua voz natural.
      Quem s tu?  berrou o frade.
      Olhe para o meu rosto.
      Ah! Por So Benedito, nosso bem-aventurado patrono!  Robin Hood, o hbil arqueiro. 
      Eu mesmo, alegre Tuck.
      Alegre Tuck, alegre Tuck, sim, mas antes da poca em que me roubaste a minha namorada, a linda Maude Lindsay.
     Ainda o eco dessas palavras se no perdera e j o brao de Robin era empolgado com violncia por mo de ferro, e sua voz furiosa murmurava surdamente: 
      O que ele est dizendo  verdade?
     Robin voltou a cabea e viu, plido, os lbios trmulos, os olhos injetados de sangue, o medonho rosto de Will.
      Silncio, William  respondeu brandamente Robin,  silncio que eu responderei daqui a pouco  tua pergunta. Meu caro Tuck  prosseguiu ele,  eu no roubei 
aquela a que to levianamente chamou a sua namorada. Miss Maude, como digna e honesta moa, repeliu um amor que no podia partilhar. A sua sada do castelo de Nottingham 
no foi um mau passo, mas apenas o cumprimento de um dever: ela acompanhou sua ama, Lady Christabel Fitz-Alwine.
      Eu no proferi votos monsticos, Robin  tornou o frade  maneira de desculpa,  e poderia oferecer o meu nome a miss Lindsay. Se a caprichosa moa repeliu 
o meu amor devo atribu-lo ao teu lindo rosto, ou antes  inconstncia de corao peculiar s mulheres.
      Basta, frei Tuck!  exclamou Robin;  caluniar as mulheres  uma infmia; nem mais uma palavra! Miss Maude  rf, miss Maude  infeliz, miss Maude tem direito 
 venerado de todos ns.
      Herbert Lindsay morreu?  perguntou Tuck com tristeza.  Deus vele pela sua alma!
      Sim, Tuck, morreu. Muitas coisas extraordinrias se passaram; mais tarde lhe contarei tudo. E enquanto espera a possibilidade de uma larga conversa, ocupemo-nos 
do motivo que provocou o nosso encontro. Estamos necessitando de sua ajuda.
      Para qu?  perguntou Gil.
      Vou explicar-lho do modo mais breve possvel, O baro Fitz-Alwine mandou queimar pelos seus esbirros a casa de meu pai, como  do seu conhecimento; minha 
me morreu entre os escombros do incndio, e Gilberto quer vingar a sua morte. Ns estamos aqui esperando o baro, que volta do estrangeiro e regressa a Nottingham. 
A nossa inteno  penetrar a seguir, e de surpresa, no interior do castelo. Se est desejoso de trocar umas boas cacetadas, no pode haver ocasio melhor.
      timo! Eu nunca recuso uma satisfao, mas no esperem que eu pense em conseguirmos a vitria, porque o nosso corpo de exrcito no  forte se apenas se compe 
destes belos rapazes, alm de ns ambos.
      Meu pai e um forte grupo de mateiros esto de emboscada no mato a vinte passos daqui.
      Nesse caso seremos vencedores!  exclamou o frade fazendo girar o seu bordo com entusiasmo.
      Que estrada usou para chegar  floresta, meu reverendo padre?  perguntou Joo-Pequeno.
      A de Mansfeld a Nottingham, meu frgil amigo  respondeu o monge.  Na verdade  acrescentou ele,  no posso perdoar a cegueira dos meus olhos e aperto-te 
as mos de todo o corao, meu caro Joo-Pequeno.
     O sobrinho de sir Guy respondeu com afeto aos amistosos cumprimentos do frade.
      Por acaso no avistou pelo caminho uma cavalgada militar?  perguntou-lhe o rapaz.
      Um bando de homens chegados da terra santa estava descansando num albergue de Mansfeld; mas esse bando, embora parecesse muito disciplinado, era composto 
de homens meio mortos de canseira, esgotamento e privaes. Acreditais que ele faa parte da escolta que acompanha o baro Fitz-Alwine?
      Sem dvida, porque esses cruzados que esto sendo aguardados no castelo de Nottingham so homens dele. Quer dizer que o encontro com esses ilustres personagens 
no tardar. Frei Tuck, trate de se esconder no mato ou atrs de alguma rvore.
      De bom grado; mas onde hei de colocar esta teimosa gua? Ela tem tantos defeitos como uma mulh... cala-te, boca!... Apesar disso sou-lhe muito afeioado.
      Vou conduzi-la para um lugar seguro; pode deix-la a meu cargo e trate de se esconder.
     Joo-Pequeno amarrou o animal pelas rdeas a uma rvore pouco distante da estrada e veio em seguida juntar-se aos Camaradas.
     A agitao nervosa de Will no lhe permitiu aguardar um momento propcio para uma explicao; e apoderando-se de Robin, com boa vontade ou sem ela, o impetuoso 
rapaz obrigou o amigo a fazer-lhe um relato minucioso dos acontecimentos ligados  fuga de Nottingham.
     Robin foi verdico, sincero, e sobretudo generoso em relao  linda Maude.
     Will escutou de corao palpitante, e quando o amigo terminou o relato, perguntou-lhe: 
      No houve mais nada? 
      Mais nada. 
      Obrigado. 
     E os dois excelentes coraes apertaram-se ternamente um a mo do outro.
      Eu sou apenas seu irmo  acrescentou Robin.
      Pois eu serei seu marido!  declarou William alegremente.  E agora, ao combate!
     Pobre William!
     A espera dos mateiros prolongou-se muito pela noite a dentro, e no foi seno as trs horas da manh que um relinchar de cavalo varou as profundezas da floresta. 
A gua de Tuck respondeu amavelmente quela voz fraterna.
      A minha jovem amiga est-se saindo  observou Tuck;  deixaste-a bem amarrada, Joo-Pequeno?
      Pelo menos assim o creio  respondeu o rapaz.
      Silncio!  atalhou Robin;  estou ouvindo passos de cavalos.
     Alguns minutos depois, uma tropa que no parecia fazer mistrio algum da sua aproximao, porque os homens, menos fatigados do que julgara Tuck, riam, conversavam 
e cantavam, surgiu na encruzilhada.
     No mesmo instante o cavalo de Tuck precipitou-se para fora da mata, passou como uma flecha pela frente do seu amo e galopou deliberadamente ao encontro dos 
soldados.
     O frade ensaiou um movimento para correr atrs da desertora.
      Est louco?  murmurou Joo-Pequeno segurando o frade pelo brao;  se der um passo  frente liquido-o.
      Mas eles vo-me tomar o meu pnei   gemeu Tuck;  deixa-me, eu vou...
      Cala-te, desgraado! Vais denunciar a nossa presena; pneis h muitos, meu tio te dar um...
      Sim, mas no ter sido benzido pelo abade do nosso convento, como o foi a minha gentil Mary; larga-me imediatamente. Que significa esta violncia, amigo torreo? 
Eu quero o meu cavalo, quero o meu cavalo e ningum me impede de o ir buscar!
      Pois vai ento!  rosnou Joo-Pequeno empurrando o frade;  vai, fanfarro estouvado, cabea desmiolada!
     Tuck ficou escarlate, seus olhos despediram raios e ele berrou com a voz trmula de clera:
      Escuta, torreo, campanrio andante, coluna ambulante, depois da luta recebers a sova que mereces!
      Ou talvez sejas tu a levar a sova  respondeu Joo-Pequeno.
     Tuck lanou-se  estrada, e enquanto corria para os soldados viu a sua gua caracolar, empinar-se, levantar em torno de si nuvens de poeira e resistir aos esforos 
dos que pretendiam pr um freio s suas joviais loucuras.
     Um soldado atingiu o pnei  com a lana; mas o golpe foi-lhe devolvido com usura por Tuck, pois o pobre diabo resvalou da montada soltando um grito de dor.
      Mary, Mary, devagar, minha filha  dizia Tuck;  vem c, queridinha, vem...
     Aquela voz conhecida fez erguer as orelhas ao cavalo que relinchou alegremente e trotou logo em seguida ao encontro do dono.
      Que  isso, seu patife!  berrou o chefe do bando num tom furioso;  ento massacras os meus homens?
      Mais respeito por um membro da Igreja  respondeu Tuck aplicando na cabea do cavalo montado pelo chefe uma violenta bastonada.
     O animal pulou para trs, o chefe cambaleou e perdeu o apoio dos estribos.
      No vs o hbito que eu uso?  prosseguiu Tuck num tom que pretendia ser imponente.
      No!  rugiu o chefe,  No! No vejo o teu hbito mas vejo a tua insolente ousadia. Sem respeito por um e sem clemncia pela outra, vou abrir-te a cabea.
     O golpe de lana alcanou Tuck e a dor exasperou to loucamente o bom frade que este se atirou ao chefe da cavalgada gritando com toda a fria de que era capaz:
      A mim, Hood!  Hood, a mim! A mim!
     Mas os clamores de Tuck no assustaram o chefe. Seu bando, composto de uns quarenta homens podia socorr-lo ao menor sinal, e por muito destro e vigoroso que 
fosse o frade, tratava-se de um inimigo bastante fcil de vencer.
      Para trs, maroto!  bradou ele num tom de voz terrvel,  Para trs!
     E a sua lana repeliu Tuck, enquanto que, violentamente puxado pelo seu cavaleiro, o cavalo se jogou contra o frade.
     O beneditino deu um salto prodigioso, e com uma formidvel bordoada fendeu a cabea do chefe.
     Vinte lanas e outras tantas espadas ameaaram logo a vida do intrpido religioso.
      Socorro, Hood, socorro!  berrava Tuck indo encostar-se, como um leo acuado, ao tronco de uma rvore.
      Hurra! Hurra pelos de Hood!  gritaram furiosamente os mateiros;  Hurra! Hurra!
     E o grupo comandado por Gilberto lanou-se como um s homem em socorro do frade.
     Vendo correr sobre eles aquele bando armado e de atitudes hostis, os soldados romperam num brado de reunio, ocuparam a estrada em toda a sua largura e preparavam-se 
para derrubar o inimigo, esmagando-o sob as patas dos seus cavalos.
     Uma revoada de flechas conteve o mpeto dessa primeira manobra de defesa, e meia dzia de soldados rolaram feridos de morte no campo de batalha.
     Percebendo que o nmero de inimigos era bem superior ao seu pequeno grupo, Gilberto determinou que se concentrassem  beira do talude da estrada a fim de aproveitarem 
a proteo das trevas e a muralha constituda pelas rvores.
     Essa manobra hbil deixava os soldados entregues aos impactos mortferos das flechas, pois os mateiros no erravam nunca o alvo, to grande era a preciso e 
a eficcia de tiro que o hbito lhes dera.
      Desmontem!  gritou o homem cuja autoridade o levara a assumir automaticamente o lugar de chefe.
     Os cruzados obedeceram e o bando de Gilberto avanou intrepidamente ao encontro deles. Travou-se ento uma luta corpo a corpo, uma luta mortal onde s a fora 
imperava.
      Hood! Hood!  bradavam os mateiros;  Vingana! Vingana!
      Que no haja quartel! Abaixo os ces saxes! Abaixo os ces!  vociferavam os soldados.
      Acautelai-vos contra os dentes desses ces!  berrou Will cravando uma flecha no peito do atrevido que acabava de soltar esse brado de morte.
     Joo-Pequeno, Robin e Gilberto batiam-se do mesmo lado, os Garnwell realizavam maravilhas de destreza e de coragem; quanto ao valente frade, cada movimento 
do seu prodigioso bordo fazia rolar por terra um homem.
     William corria de um lado para outro como um gamo derrubando um soldado aqui, abrindo alm a cabea de um outro, mas velando sempre pela vida dos amigos, sobretudo 
pela de Robin, que em duas ocasies diferentes salvou de um perigo quase mortal.
     A despeito de todos estes esforos, a despeito da coragem individual de cada um e da fora combinada de uma resistncia coletiva, o resultado vitorioso da luta 
inclinava-se visivelmente para o lado da tropa pertencente ao baro. Essa tropa, bem disciplinada, acostumada s fadigas e em nmero dobrado em relao aos mateiros, 
recuperava de minuto a minuto o terreno que perdera ao iniciar a luta. Joo-Pequeno avaliou num relance a situao quase desesperada, e no momento em que a efuso 
de sangue se estava tornando apenas uma carnificina intil, convenceu-se de que era imprescindvel dar-lhe um paradeiro. No ousando, porm, agir sem a autorizao 
de Gilberto, saiu  sua procura.
     As proezas de William haviam atrado sobre ele a ateno de quatro soldados reunidos em conselho para se apoderarem de um dos chefes dos mateiros; consideraram 
como sendo um desses chefes o terno apaixonado da linda Maude, e apesar da sua enrgica resistncia conseguiram derrub-lo. Robin percebeu o resultado do ataque, 
e obedecendo apenas ao seu bom corao, varou com um golpe de lana o peito de um dos adversrios, levantou William com mo vigorosa, e auxiliado pelo amigo ps 
em prtica uma tentativa de retirada vitoriosa para o corpo de mateiros j reunidos por Joo-Pequeno.
     O perigo que Will correra parecia estar conjurado, e ele ia, sempre ajudado por Robin, juntar-se ao grupo amigo que erguia uma muralha diante dos soldados, 
quando um grito de Robin, grito de furioso desespero, fez perder de vista ao ousado rapaz os soldados que no haviam sucumbido na luta.
      Meu pai! Meu pai!  gritava Robin;  eles vo matar meu pai!
     O jovem arqueiro lanou-se em socorro de Gilberto, e William novamente agarrado e arrastado, mal teve tempo de ver Robin cair de joelhos ao p de Gilberto, 
cujo crnio fora aberto por um golpe de machada.
     Em meio aos clamores erguidos pela morte do ancio e pela pronta desforra que dela tirou Robin matando o soldado assassino, o rapto de William passou despercebido.
     O combate, um momento abrandado, tornou-se mais terrvel.  Robin e Tuck feriam de morte todos os que procuravam atingi-los, e Joo-Pequeno secundou eficazmente 
os esforos desesperados do amigo para fazer retirar o corpo de Gilberto.
     Um quarto de hora aps a partida do triste cortejo, Robin gritou com voz potente:
      Para o bosque, rapazes!
     Os mateiros dispersaram-se como um bando de aves escorraadas, e os soldados lanaram-se em perseguio deles, bradando:
      Vitria! Vitria! Agarremos os ces! Matemos os ces!
      Os ces no se deixaro matar sem morder!  gritou Robin; e os arcos tensos despediram nova chuva de mortferas flechas.
     Mas a ousada perseguio logo se patenteou impossvel e os soldados tiveram o bom-senso de o admitir.
     Faltavam seis homens no grupo de Joo-Pequeno, Gilberto Head estava morto e William contava-se entre o nmero dos desaparecidos.
      Eu no abandonarei William  disse Robin fazendo parar o grupo;  continuai o vosso caminho, meus valentes, que eu vou procurar Will: ferido, morto ou prisioneiro, 
preciso encontr-lo.
      Eu acompanho-te  interveio imediatamente Joo-Pequeno.
     Os homens continuaram a sua marcha e os dois jovens refizeram a toda a pressa o caminho que acabavam de percorrer.
     O campo de batalha j no oferecia aos olhos deles nenhum vestgio de combate. Os mortos, soldados ou mateiros, haviam desaparecido todos. Algumas pegadas de 
cavalos indicavam aqui e ali a passagem de uma tropa numerosa, mas nada mais: destroos de armas, varas de flechas e outros vestgios de luta, tudo os cruzados haviam 
recolhido e levado consigo.
     Contudo um ser vivo errava ainda pela encruzilhada, atirando  direita e  esquerda olhares inteligentes de uma ansiosa busca:  esse ser era o cavalo do frade.
      vista daqueles jovens, o pnei  trotou ao encontro deles com ar de satisfao; mas reconhecendo aquele que o havia amarrado, relinchou, empinou-se e desapareceu.
      A gentil Mary proclamou a sua independncia  observou Joo-Pequeno,  e com certeza antes do amanhecer tornar-se- propriedade de algum fora da lei.
      Tentemos apoderar-nos dela  props Robin;  com a sua ajuda talvez me seja possvel alcanar os soldados.
      E fazer-te matar por eles, meu amigo  respondeu sabiamente o sobrinho de sir Guy;  essa tentativa seria garanto-te, to intil quanto imprudente, o melhor 
 regressarmos ao solar, amanh veremos o que nos cumpre fazer.
      Pois sim, regressemos ao solar  concordou Robin  um doloroso dever exige a minha presena l hoje mesmo!
     No dia seguinte quela funesta jornada, o corpo de Gilberto, junto ao qual frei Tuck piedosamente rezou, foi amortalhado e posto em condies de ser transportado 
para a sua derradeira morada.
     Robin, que pedira insistentemente para ficar sozinho junto aos restos do querido e bom velho, orou com fervor pelo descanso eterno daquele que tanto bem lhe 
quisera na vida.
      Adeus para sempre, meu querido pai  disse ele,  adeus, tu que acolheste em tua casa o menino estranho e sem famlia; adeus, tu que to nobremente deste 
a essa criana uma extremosa me, um pai devotado e um nome sem mcula, adeus, adeus, adeus!... A morte que separa os nossos corpos, no separa contudo as nossas 
almas.  meu pai! Vivers eternamente em meu corao, e nele vivers amado, respeitado e honrado do mesmo modo que Deus. Nem o tempo, nem as vicissitudes da vida, 
nem mesmo a felicidade diminuiro a minha filial ternura. Muitas vezes me disseste,  meu venerado pai! Que a alma dos justos guarda e protege aqueles que ela amou. 
Vela pelo teu filho, por aquele a quem deste um nome que sempre ser conservado digno de ti. Juro-te, meu pai, com a minha mo na tua mo, e os olhos postos no cu, 
juro-te que Robin Hood jamais cometer uma ao, se for boa que no seja guiada por ti, se for m que no seja atenuada pela recordao da tua leal justia.
     A estas palavras sucederam alguns minutos de calma, em seguida o moo ergueu-se, chamou os amigos, e de cabea descoberta, seguido por todos os membros da famlia 
Garnwell, acompanhou os restos mortais do velho guarda florestal.
     Atrs do triste cortejo caminhava Lincoln, mais plido que o morto, e por fim um cachorro manquejante, um pobre cachorro que ningum via e no qual ningum pensava, 
um pobre cachorro fiel at ao exlio final da tumba.
     Quando o corpo, vestido e amortalhado num lenol, foi estendido em sua ltima morada, quando as armas de Gilberto foram colocadas a seu lado, o bom e velho 
Lance acercou-se da beira da cova, uivou tristemente e saltou para junto do corpo.
     Robin ainda quis retirar o animal.
      Deixe o velho servidor junto ao seu dono, senhor Robin  interveio gravemente Lincoln,  dono e cachorro esto mortos.
     O ancio dissera a verdade, Lance deixara de existir.
     Tapada a cova Robin ficou sozinho, porque as grandes dores no querem consolaes nem testemunhas.
     O sol escondia-se num manto de prpura, as primeiras estrelas cintilavam no cu, os doces raios da lua vinham iluminar a solido de Robin quando duas sombras 
brancas surgiram a poucos passos do mancebo.
     O leve contacto de duas mos simultaneamente pousadas em seus ombros arrancou Robin a esse torpor do desespero, mais triste que os soluos.
     Ele ento ergueu a cabea; de um lado estava Maude em lgrimas, do outro Mariana pensativa.
      A esperana, a recordao e o meu afeto pertencem-te doravante, Robin  disse Mariana num tom de voz comovido.  Quando Deus nos d a dor, d-nos igualmente 
foras para a suportar.
      Eu cobrirei esta tampa com as flores da saudade, Robin  acrescentou Maude,  e juntos recordaremos sempre aquele que j no existe.
      Obrigado, Mariana; obrigado, Maude  respondeu Robin.
     E no podendo traduzir em palavras a sua profunda gratido, o jovem ergueu-se, apertou as mos de Maude, inclinou-se diante de Mariana e afastou-se precipitadamente.
     As duas moas ajoelharam no mesmo lugar onde estivera Robin e puseram-se a rezar silenciosamente.
     
XVIII
     
     
     
     NA manh seguinte, s primeiras horas do dia, Robin e Joo-Pequeno entravam num albergue da pequena cidade de Nottingham, com o intuito de fazer a sua primeira 
refeio. A sala do albergue estava na ocasio repleta de soldados, ao servio, conforme indicavam os seus trajes, do baro Fitz-Alwine.
     Enquanto almoavam, os dois amigos prestaram ouvido atento s conversas dos soldados.
      Ainda no sabemos  dizia um dos homens do baro,  com que espcie de inimigos os cruzados tiveram de haver-se. Sua Senhoria imagina que os atacantes eram 
proscritos, ou ento vassalos comandados por algum seu inimigo. Felizmente para monsenhor, a sua chegada ao castelo atrasou-se de algumas horas.
      Os cruzados ficaro por muito tempo no castelo, Gofredo?  perguntou o dono da casa quele que estava falando.
      No; creio que partem amanh para Londres, para onde vo escoltar os prisioneiros.
     Robin e Joo-Pequeno trocaram um olhar eloqente.
     Algumas palavras sem importncia para os nossos dois amigos seguiram-se a essa resposta; depois os soldados continuaram a beber entretidos no jogo.
      William est no castelo  murmurou Robin quase ininteligivelmente;  precisamos ir l procur-lo ou esperar a sua sada, precisamos usar de fora, de astcia, 
de agilidade, enfim, precisamos absolutamente libert-lo.
      Estou pronto para o que for preciso  respondeu Joo-Pequeno no mesmo tom de voz.
     Os dois jovens ergueram-se dos seus lugares e Robin foi pagar a conta.
     No momento em que os dois amigos atravessavam o crculo formado pelos soldados, em direo  porta, o indivduo designado pelo nome de Gofredo disse a Joo-Pequeno:
      Por So Paulo, amigo! A tua cabea parece ter uma singular simpatia pelas traves do teto, e se tua me consegue beijar-te o rosto sem te fazer ajoelhar a 
seus ps, merece sem dvida alguma um posto de relevo nas cruzadas. 
      Ser que a minha alta estatura ofende os teus olhos, soldado amigo?  volveu Joo-Pequeno com um ar de condescendncia.
      No me ofende absolutamente, orgulhoso estrangeiro; mas devo dizer-te com toda a franqueza que me surpreende muitssimo. At hoje sempre me considerei o homem 
mais desenvolto e vigoroso do condado de Nottingham.
      Pois sinto-me muito feliz em poder dar-te uma visvel prova do contrrio  respondeu jovialmente Joo-Pequeno.
      Aposto um cangiro de cerveja  tornou Gofredo dirigindo-se aos que o rodeavam,  em como a despeito da fora aparente, este homem no ser capaz de me tocar 
com o seu bordo.
      Aceito a aposta!  gritou um dos assistentes.
      Bravo!  exclamou Gofredo.
      Mas, caro amigo  volveu por sua vez Joo-Pequeno, nem sequer me perguntas se eu aceito o desafio?
      No serias capaz de recusar um quarto de hora de distrao a quem, sem te conhecer, apostou por ti  interveio o homem que aceitara a aposta de Gofredo.
      Antes de responder  amistosa proposta que me  feita  replicou Joo-Pequeno , gostaria de fazer ao meu adversrio o seguinte aviso: eu no estou propriamente 
convencido da minha fora, contudo devo dizer que no encontrei quem lhe resistisse; devo acrescentar ainda que pretender lutar comigo  ir em busca de uma derrota, 
s vezes de uma desgraa, freqentemente de uma ferida de amor-prprio. At hoje nunca fui vencido.
     O soldado ps-se a rir escancaradamente.
      A meus olhos no passas do maior fanfarro deste mundo, caro estrangeiro  disse ele num tom de zombaria , e se no queres que eu acrescente o qualificativo 
de covarde ao de orgulhoso, consentirs em bater-se comigo sem demora.
      Visto que assim o desejas absolutamente, vou satisfazer-te com a melhor vontade, mestre Gofredo. Mas antes de te dar as provas da minha fora, permite-me 
dizer algumas palavras a meu companheiro. To depressa fique livre, prometo utilizar o meu tempo de modo a castigar devidamente o teu atrevimento.
      Espero que no vs fugir  volveu Gofredo com um tom de escrnio na voz.
     Os assistentes romperam s gargalhadas.
      Se eu fosse normando  respondeu Joo-Pequeno cheio de clera,  talvez agisse desse modo: mas sou saxo. Se no aceitei imediatamente o teu desafio belicoso, 
foi apenas por bondade. Mas visto que no tomas em considerao os meus escrpulos, estpido tagarela, visto que me desembaraas de toda a considerao por ti, chama 
o estalajadeiro, paga a tua conta e trata j de conseguir ligaduras; porque to certo como tu dares o nome de cabea a essa v bola de sebo que se balana entre 
os teus ombros, no passar muito tempo antes que precises grandemente delas.  Meu caro Robin  prosseguiu ele indo ao encontro do amigo, que se detivera a poucos 
passos do albergue,  dirige-te a casa de Graa May, onde sem dvida encontrars Halbert. Seria perigoso para ti, e sobretudo muito comprometedor para o salvamento 
de Will, se viesses a ser reconhecido por algum servidor do castelo. Eu sou obrigado a dar uma lio a esse soldado idiota; a lio ser curta e boa, podes ficar 
certo, e convm que te ponhas ao abrigo de qualquer encontro desagradvel.
     Robin obedeceu contra a vontade aos prudentes conselhos de Joo-Pequeno, pois afastou-se sem dizer que teria grande contentamento em assistir ao espetculo 
de uma luta da qual o seu amigo devia triunfar com toda a facilidade.
     Quando Robin desapareceu, Joo-Pequeno regressou  estalagem. O nmero de bebedores tinha aumentado consideravelmente, porque a notcia de uma luta entre Gofredo 
o forte, e um estranho que nada lhe ficava a dever em vigor e audcia, correra j a pequena cidade e atrara os amadores desse gnero de combates.
     Depois de haver percorrido a multido com um olhar indiferente e tranqilo, Joo-Pequeno aproximou-se do adversrio.
      Estou  tua disposio, normando  disse ele.
      E eu  tua  respondeu Gofredo.
      Antes de comear a luta  acrescentou Joo-Pequeno,  desejo agradecer a amabilidade do generoso amigo, que fiado numa desconhecida competncia, se arriscou 
a perder uma aposta. Quero ainda, respondendo  cortesia da sua confiana, jogar tambm cinco shillings e apostar que no somente te farei medir o cho em todo o 
comprimento do teu corpo, mas ainda que te alcanarei a cabea com o meu bordo. Quem ganhar os cinco shillings oferecer as bebidas a esta jovial assemblia.
      Aceito  respondeu Gofredo com alegria,  e at por minha vez me ofereo para dobrar a soma, caso possas conseguir ferir-me ou derrubar-me no cho.
      Hurra!  gritaram os espectadores, certos de que naquelas combinaes tinham tudo a ganhar e nada a perder.
     Tumultuosamente acompanhados pela multido, os dois adversrios retiraram-se da sala e foram colocar-se um em frente do outro, no centro de um vasto relvado 
cujo felpudo tapete convinha admiravelmente  circunstncia.
     Os espectadores formaram um largo crculo em redor dos combatentes, e um profundo silncio sucedeu  algazarra reinante.
     Joo-Pequeno nenhuma alterao fizera nos seus trajes, contentando-se em pegar nas armas e arrancar as manoplas; Gofredo foi mais cuidadoso nas suas disposies. 
Desembaraou-se da parte mais pesada das suas roupas e exibiu o busto estreitamente apertado num gibo de cor escura.
     Os dois homens examinaram-se um momento com persistente fixidez. O rosto de Joo-Pequeno apresentava uma expresso calma e sorridente; o de Gofredo revelava, 
ainda que ele o no quisesse, uma vaga inquietao.
      Estou aguardando  disse o jovem saudando o soldado.
      Estou s suas ordens  respondeu Gofredo com no menor polidez.
     Num movimento simultneo ambos se estenderam as mos, um aperto cordial os aproximou durante um segundo.
     A luta comeou. No tentaremos descrev-la, apenas nos limitaremos a dizer que no foi de longa durao. A despeito dos vigorosos esforos para uma enrgica 
resistncia, Gofredo perdeu o equilbrio e, por um movimento de inesperada fora e uma agilidade at ento nunca vista, Joo-Pequeno retirou o adversrio por cima 
da cabea obrigando-o a ir rolar a vinte passos de distncia.
     O soldado, furioso com aquela vergonhosa derrota, ergueu-se ao som dos alegres clamores de todos os assistentes, que gritavam e jogavam os bons ao ar:
      Hurra! Hurra pelo belo mateiro!
      Ganhei honestamente a primeira parte da nossa aposta, Senhor soldado  declarou Joo-Pequeno,  e estou pronto para dar incio  segunda.
     Vermelho de clera, Gofredo respondeu a essa observao Por um aceno afirmativo.
     Procedeu-se  medio dos bordes de ambos os homens, e a luta recomeou mais viva, mais encarniada, mais ardente.
     Gofredo foi outra vez vencido.
     Os aplausos entusisticos da multido celebraram as triunfantes proezas de Joo-Pequeno, e um mar de cerveja espumou nos copos em honra do valente mateiro.
      No guardemos rancor, intrpido soldado  disse Joo-Pequeno estendendo a mo ao adversrio.
     Gofredo recusou a oferta amistosa que lhe era feita e replicou em tom amargo:
      No preciso da ajuda do teu brao nem das tuas ofertas de amizade, senhor mateiro, e aconselho-te a no pr tanto orgulho nas tuas maneiras. Eu no sou homem 
para suportar passivamente a vergonha de uma derrota, e se os deveres do meu servio me no chamassem ao castelo de Nottingham, devolver-te-ia uma a uma as pancadas 
recebidas.
      Vamos, meu corajoso amigo  insistiu Joo-Pequeno que apreciava em seu devido valor a real intrepidez do soldado,  no te mostres descontente nem despeitado. 
Sucumbiste diante de uma fora superior  tua: o mal no foi grande, e tenho a certeza de que logo encontrars meios de reabilitar a tua reputao de sangue frio 
e destreza. Fao o maior empenho em reconhecer, e consente-me at que o proclame, que no somente s muito forte na arte de manejar um bordo, como s ainda o atleta 
mais difcil de derrubar que pode desejar um corao firme e um brao poderoso. Acolhe, pois, com sinceridade, a oferta da minha mo, que te  estendida com a mxima 
lealdade e franqueza.
     Aquelas palavras, ditas num tom de real apreo, pareceram demover o rancoroso normando.
      Aqui est a minha mo  disse ele estendendo-a ao adversrio;  ela reclama da tua um aperto de amigo. E agora, meu rapaz  acrescentou Gofredo num tom de 
esforada amabilidade,  concede-me a graa de conhecer o nome do meu vencedor.
      No posso por agora aceder ao que me pedes, mestre Gofredo;  mais tarde me darei a conhecer.
      Esperarei para quando o julgares oportuno, estrangeiro; mas antes de te deixar sair deste albergue, creio ser de meu dever advertir-te de que qualificando-me 
de normando cometes um erro: eu sou saxo.
      Caramba!  exclamou alegremente Joo-Pequeno,  fico contentssimo em saber que pertences  mais nobre raa que pisa o solo ingls; isso redobra a estima 
e a simpatia que me inspiras. No tardaremos a encontrar-nos de novo, e ento serei contigo mais explcito e confiante. Agora at  vista, os assuntos que me trouxeram 
a Nottingham esto reclamando a minha partida.
      Como! Queres ento deixar-me to depressa, nobre mateiro? No o consentirei e vou acompanhar-te at onde necessitas ir.
      Peo-te, amigo soldado, que me deixes a liberdade de ir ao encontro do meu companheiro; j perdi um tempo precioso.
     A notcia da partida de Joo-Pequeno correu de boca em boca e levantou um verdadeiro tumulto. Vinte vozes gritaram:
      Estrangeiro, ns vamos acompanhar-te, queremos proclamar por toda a parte a tua grandeza de alma e a tua valentia!
     Pouco desejoso de receber os ameaadores testemunhos daquela sbita popularidade, Joo-Pequeno, que via aproximar-se com verdadeira preocupao a hora marcada 
para o seu encontro com Robin, disse vivamente dirigindo-se a Gofredo:
      Queres prestar-me um servio?
      Com a melhor vontade.
      Ajuda-me ento a desembaraar-me discretamente deste bando de beberres.  Quero afastar-me sem chamar a ateno de ningum.
      Perfeitamente  respondeu Gofredo, que acrescentou aps um instante de reflexo:  Para conseguir o que desejas, dispomos apenas de um meio a empregar.
      Qual?
      Este: acompanha-me at ao castelo de Nottingham, que eles no ousaro seguir-nos alm da ponte levadia. Depois que estivermos dentro do castelo eu te levarei 
a um atalho deserto que, aps algumas voltas, te deixar  entrada da cidade.
      O qu!  exclamou Joo-Pequeno;  no ser possvel encontrar outro meio para me libertar da companhia desses imbecis?
      No vejo outro. Tu no conheces, amigo, a estpida vaidade desses tagarelas; eles faro um cortejo atrs de ti, no por ti mesmo mas para serem vistos em 
tua companhia, e poderem dizer aos vizinhos, aos parentes e aos conhecidos: "Passei agora duas horas com o valente moo que derrotou o forte Gofredo; ele  meu amigo, 
entramos juntos na cidade no h muito tempo; alis vocs devem ter-me visto, eu estava  sua direita, ou  sua esquerda, etc, etc.
     Joo-Pequeno viu-se, bem contra a vontade, constrangido a seguir o conselho de Gofredo.
      Aceito a tua proposta  disse ele;  vamos ento embora o mais depressa possvel.
      Estarei contigo dentro de um segundo. Meus amigos!  gritou Gofredo dirigindo-se  multido,  preciso voltar ao castelo e este digno mateiro vai acompanhar-me. 
Peo-vos, portanto, que nos deixeis sair tranquilamente; se algum dentre vs se permitir seguir-nos, ainda que seja  distncia de vinte passos, considerarei essa 
teimosia como um verdadeiro insulto, e, por So Paulo! Farei com que se arrependa cruelmente.
      Mas  arriscou uma voz,  a minha casa encontra-se no caminho que ides seguir e eu preciso de voltar a minha casa.
      No precisars regressar antes de dez minutos  replicou Gofredo.  De modo que, bom dia para todos e lembranas para cada um!
     Dito isto Gofredo deixou a sala, e um formidvel hurra! acompanhou Joo-Pequeno at ao limiar da porta.
     Foi assim que Joo-Pequeno penetrou na morada senhorial do baro Fitz-Alwine.
     Depois de ter deixado Joo-Pequeno, Robin encaminhara-se para a casa de Graa May. A linda noiva de Halbert era uma desconhecida para Robin, no sentido de que 
ele jamais, a no ser pelos olhos do seu devotado amigo, admirara os encantos da bela moa; e se nos  permitido falar com o corao de Robin, devemos acrescentar 
que um sentimento de viva curiosidade o atraa para a residncia de Graa May.
     Por muito tempo bateu  porta sem lograr a menor resposta de quem quer que fosse; depois, cansado de esperar, ps-se a cantarolar a meia voz o estribilho de 
uma cantiga que lhe ensinara o pai.
     Aos primeiros murmrios desse canto melanclico um passo rpido e vivo acordou os adormecidos ecos da velha morada, e a porta bruscamente aberta deu passagem 
a uma jovem que, sem se dar ao trabalho de olhar o visitante, rompeu num tom alegre:
      Eu bem sabia, querido Hal, que virias esta manh; at disse a minha me... Ah! perdo, senhor , acrescentou a esperta moa, que outra no era seno Graa 
May,  mil vezes perdo!
     E enquanto assim se desculpava diante de Robin, Graa corava at  raiz dos cabelos; a vivacidade irrefletida dos seus movimentos motivava esse rubor, pois 
ela atirara-se inadvertidamente aos braos do atnito Robin.
       a mim senhorita  respondeu o jovem num tom de voz muito meigo,   a mim que compete pedir-lhe perdo por no ser aquele que certamente esperava.
     Atrapalhada e confusa Graa May acrescentou:
      Posso saber, senhor, a que motivo devo atribuir a inesperada honra da sua visita?
      Senhorita  volveu Robin,  eu sou um amigo de Halbert Lindsay e desejava falar-lhe. Um motivo srio e que seria muito longo de explicar, impede-me de o ir 
procurar ao castelo; ficar-lhe-ia, pois, muito reconhecido, se me quisesse conceder a permisso de esperar aqui que ele a venha visitar.
      De muito boa vontade, senhor; os amigos de Hal so sempre bem acolhidos na casa de minha me;  pode entrar.
     Robin inclinou-se cortesmente diante de Graa e entrou com ela numa vasta sala do andar trreo.
      J almoou, senhor?  perguntou a jovem.
      Sim, senhorita, muito obrigado.
      Permita-me que lhe oferea um copo de cerveja; a que temos em casa  excelente.
      Aceito para ter o prazer de beber em honra de Hal, meu amigo muito feliz  disse Robin galantemente.
     Os olhos da linda Graa brilharam de alegria.
       muito amvel, senhor  agradeceu ela.
      Sou apenas um sincero admirador da beleza, senhorita; nada mais do que isso.
     A moa corou.
      O senhor est chegando de longe?  perguntou ela como para dar outro curso  conversao.
      Com efeito, senhorita, estou chegando de uma pequena aldeia  situada nos arredores de Mansfeld.
      No ser da aldeia de Garnwell?  acrescentou Graa com vivacidade.
      Justamente. Conhece por acaso essa aldeia?  perguntou Robin interessado.
      Conheo, sim senhor  respondeu a jovem sorrindo,   conheo-a muitssimo bem, apesar de nunca l ter ido.
      Como  possvel ento?...
      Oh!  muito simples: a irm de leite de Halbert, miss Maude Lindsay, mora no castelo de sir Guy. Halbert vai freqentemente visitar a irm, e no regresso 
fala-me dela e conta-me as notcias da aldeia, levando-me desse modo  acrescentou graciosamente a jovem,  a conhecer e estimar os hspedes de sir Guy. Entre esses 
hspedes h sobretudo um de que Halbert me fala com extrema simpatia.
      Qual?  perguntou o moo rindo.
      O senhor mesmo; porque, se a memria no me falha, posso com toda a certeza cumpriment-lo pelo nome de Robin Hood. Hal fez-me do senhor um retrato to parecido 
que no posso ter-me enganado. Descreveu-me Robin Hood  prosseguiu a jovem com volubilidade,  como um senhor alto, bem proporcionado, de grandes olhos negros, 
cabelos magnficos, um ar de nobreza.
     Um sorriso de Robin conteve a expansiva descrio de Graa May; ela calou-se e baixou os olhos.
      O bom corao de Hal deu-lhe relativamente a mim uma grande indulgncia de apreciao, senhorita; a seu respeito, contudo, mostrou-se mais severo, e verifico 
que tudo o que ele me disse de si est longe da verdade.
      Em todo o caso tenho a certeza de que ele nada disse que me possa melindrar  volveu Graa com essa admirvel confiana que d o amor retribudo.
      No, disse-me apenas que a senhorita  uma das mais encantadoras jovens de todo o condado de Nottingham.
      E o senhor no acreditou nas suas palavras?
      Perdoe-me, mas acabo de verificar que ca num grande logro acreditando-o.
      Como!  exclamou alegremente a moa;  estou encantada de o ouvir falar com tanta sinceridade.
      Com toda a sinceridade. Disse-lhe ainda h pouco que Hal se mostrou muito severo a seu respeito, e acrescentei que designando-a como uma das mais encantadoras 
jovens de todo o condado estava-me induzindo a laborar num grande erro.
      Realmente, senhor; mas  preciso perdoar os exageros de um corao que os sentimentos inclinam  parcialidade.
      Mas  que no houve exagero, senhorita, houve cegueira; no se trata de uma das mais formosas jovens de todo o condado, mas seguramente da mais formosa de 
todas.
     Graa ps-se a rir.
      Permita-me  continuou ela,  no ver nas suas palavras mais do que um amvel galanteio, e estou certa de que se cometesse a loucura de acreditar nelas o 
senhor me consideraria, uma louquinha. Maude Lindsay  uma beleza perfeita, e acima de Maude h no castelo de Garnwell uma outra jovem dama que o senhor com certeza 
acha cem vezes mais linda do que Maude, mil vezes mais linda do que eu; sucede, porm, que o senhor  to discreto quanto amvel, e no ousa dizer abertamente o 
que pensa.
      No receio jamais falar com franqueza, senhorita  respondeu Robin,  e estou dizendo a verdade quando lhe asseguro que no seu gnero de beleza a senhorita 
est acima de todas as moas de Nottingham. A jovem dama a que alude tem, como a senhorita, direito  primeira categoria no tipo do seu gracioso rosto. Mas parece-me 
que a nossa conversa est entrando no terreno da lisonja  acrescentou Robin,  e eu no quero que o meu amigo Hal me possa acusar de lhe dirigir galanteios.
      Tem razo, senhor;  conversemos como amigos.
      De acordo. Miss Graa, responda francamente  pergunta que lhe vou fazer: como sucedeu que, sem mesmo ter tempo de ver o meu rosto, a senhorita se jogou em 
meus braos?
      A sua pergunta  realmente embaraosa, sir Robin  disse Graa,  mas eu vou tentar responder-lhe. O senhor trauteava uma cano que est sempre na boca de 
Hal, e naturalmente pareceu-me reconhecer a voz dele. Hal  um amigo de infncia, fomos por assim dizer educados juntos nos joelhos de minha me; tenho para com 
Hal familiaridades de irm, ns vemo-nos todos os dias.  Isso lhe explica o motivo porque me mostrei to  expansiva.   Peo-lhe  que me desculpe.
      No precisa absolutamente desculpar-se, miss Graa. Agora que tive o prazer de a ver sinto na verdade inveja de Hal, e j no me admirarei de o ouvir proclamar-se 
a toda a hora o homem mais feliz da terra.
      Sir Robin  tornou alegremente a moa,  apanhei-o mais uma vez em flagrante delito de mentira. Essa felicidade de que o senhor se declara to invejoso, no 
a trocaria por aquela que  o alvo de todas as suas esperanas.
      Minha encantadora Graa  respondeu tranquilamente Robin,  quando sucede a um homem ou a uma mulher depositar a sua afeio num corao honesto, nunca mais 
a recuperamos, e tenho a certeza de que se me viesse  idia tentar suplantar Halbert em seu corao, eu seria mal recebido.
      Oh! no  replicou ingenuamente Graa;  mas eu no gostaria de revelar a Halbert o fundo real do meu pensamento, pois ele ficaria muito orgulhoso.
     A conversa to alegremente iniciada prolongou-se ainda por mais uma hora.
      Parece-me  atalhou de repente Robin,  que Hal est demorando muito;  os apaixonados so sempre impacientes e ordinariamente antecipam-se  hora do encontro.
       coisa muito natural, no acha?  perguntou Graa.
      Sim, muito natural.
     Por fim ouviu-se a aldrava da porta; a ria cantada por Robin subiu no ar, e Graa, dando ao jovem um olhar que parecia dizer-lhe: Como v, o meu equvoco 
era perfeitamente perdovel, correu ao encontro do recm-chegado.
     A presena de Robin no impediu a vivaz criatura de ralhar com Hal sobre o seu atraso na chegada, e de o beijar fingindo-se um pouco amuada.
      Como! Por aqui, senhor Robin?  exclamou Hal.  E Maude, a minha querida irm Maude? D-me notcias da sua sade.
      Maude est um pouco adoentada.
      Irei visit-la.  Mas no  nada de grave, hein?
      Absolutamente nada.
      No me admiro de o ver por aqui  tornou Halbert.  Soube, ou antes, adivinhei que tivesse vindo a Nottingham, e aqui est por que motivo. Tendo ido  cidade 
a servio do castelo, ouvi dizer que ia ter lugar uma luta de bordo entre Gofredo, o forte, conhece-o, no  verdade, Graa? E um mateiro.  Imediatamente me ocorreu 
ir divertir-me um pouco nessa pequena festa.
      E eu aqui  sua espera, senhor  interveio Graa estendendo num amuo o lindo lbio rosado.
      No era minha inteno ficar mais do que alguns instantes entre os espectadores. Cheguei ao terreiro no momento em que Joo-Pequeno atirava Gofredo por cima 
da cabea, Gofredo, o forte, Gofredo, o gigante, como ns lhe chamamos no castelo; imagina, Graa, que esplndido feito! Ia pedir notcias suas a Joo-Pequeno, mas 
foi impossvel aproximar-me dele. Ento percorri a cidade, e por fim, nada mais tendo a fazer para a minha misteriosa busca, fui procur-lo ao castelo.
      Ao castelo!  exclamou Robin;  e procuraste-me pelo meu nome?
      No, no, sossegue. O baro regressou ontem, e se eu cometesse a tolice de revelar a sua presena em suas terras, o senhor seria perseguido como um animal 
feroz.
      Meu caro Hal, o meu receio era uma verdadeira criancice; conheo a tua prudncia e sei que sabes guardar um segredo. O fim da minha viagem era em primeiro 
lugar encontrar-me contigo e em seguida pedir-te informaes a respeito dos prisioneiros que se encontram no castelo. Sabes naturalmente o que se passou esta noite 
na floresta de Sherwood.
      Sim, sei; o baro est furioso.
      Tanto pior para ele. Voltemos aos prisioneiros; entre eles encontra-se um rapaz que desejo salvar a qualquer preo: William Escarlate.
      William!  exclamou o outro;  e como se explica a presena dele no bando de proscritos que atacou os cruzados?
      Meu caro Hal  prosseguiu Robin,  no houve encontro algum com proscritos, e sim com valentes rapazes que cometeram a tolice de agir sem discernimento, supondo 
atacar, no a cruzados, mas ao baro Fitz-Alwine e aos seus soldados.
      reis vs!  bradou o pobre Hal dolorosamente surpreendido.
     Robin fez um sinal afirmativo.
      Agora compreendo tudo;  da vossa destreza que falam os cruzados, dizendo haver um homem no bando que disparava a morte na ponta de cada uma das suas flechas. 
Ah! Meu pobre Robin, o resultado dessa luta foi-vos bem funesto.
      Sim, Hal, bem funesto  concordou Robin tristemente;  meu pai foi morto.
      Morto, o digno Gilberto!  exclamou Halbert com lgrimas na voz;  Ah! Meu Deus!
     Por um momento ambos ficaram em silncio, mergulhamos numa dor comum.  Graa j no sorria; perturbavam-na a tristeza de Hal e o desespero de Robin.
      E o caro Will caiu ento nas mos dos soldados do baro?  tornou Halbert intentando reconduzir as idias de Robin para a sorte do pobre amigo.
       verdade  respondeu Robin,  e eu vim justamente procurar-te, meu caro Hal, na esperana de que consintas em prestar-me o teu auxlio para entrar no castelo. 
No sairei de Nottingham antes de ter devolvido a liberdade a William.
      Conte comigo, Robin,  respondeu vivamente o rapaz,  farei tudo o que de mim depender para lhe prestar uma ajuda nesta dolorosa circunstncia. Vamos voltar 
ao castelo, no me ser difcil introduzi-lo l dentro;  mas quando l estiver precisar cuidar de si mesmo, ter pacincia e mostrar-se prudente.  Desde que o baro 
regressou, a vida tornou-se um verdadeiro inferno para todos ns; ele grita, pragueja, anda de um lado para outro, acabrunhando-nos com a sua presena.
      Lady Christabel regressou com ele?
      No, ele trouxe apenas o confessor; os soldados que o acompanharam so estrangeiros.
      No conseguiste saber nada a respeito da sorte de Allan Clare?
      Nem uma palavra; no h ningum no castelo a quem seja possvel pedir notcias.  Quanto a lady Christabel est na Normandia e, segundo todas as probabilidades, 
num convento.   portanto de presumir que o senhor Allan se mantenha nas proximidades desse convento.
      No deves andar longe da verdade  respondeu Robin  pobre Allan! Seu fiel amor ser recompensado, assim o espero.
      Sem dvida  interveio Graa;  h uma providncia para os apaixonados.
      Confio-me  bondade dessa boa providncia  disse Halbert lanando um terno olhar  sua noiva.
      Eu tambm  acrescentou Robin, com o corao palpitante  lembrana de Mariana.
      Caro Robin  continuou Hal,  se nos for possvel tentar alguma coisa para a salvao de William, precisamos agir esta mesma tarde; os prisioneiros devem 
partir para Londres cerca da meia-noite, a fim de serem julgados e condenados conforme aprouver ao rei.
      Ento apressemo-nos, apressemo-nos; eu prometi a Joo-Pequeno ir esper-lo  entrada da ponte levadia do castelo.
      Querida Graa  disse Hal timidamente,  no brigars amanh comigo por te haver deixado hoje to depressa?
      No, no, Hal, podes, ficar sossegado. Vai corajosamente em socorro do teu amigo e no te preocupes comigo; eu vou rezar ao cu para que ele vos ajude.
      s a melhor e a mais amada das mulheres, querida Graa,  volveu Hal beijando as faces vermelhas da noiva.
     Robin saudou graciosamente a moa e os dois amigos lanaram-se em passo rpido na direo do castelo.
      Com efeito  respondeu Robin,   Joo-Pequeno. Que poder significar essa aparente intimidade?
      Aposto a minha cabea  continuou Hal,  em como Gofredo se tomou de sbita amizade por Joo-Pequeno, e o leva ao castelo com a inteno de lhe oferecer de 
beber. Gofredo  um excelente rapaz, mas muito imprudente. Est ao servio do baro h pouco tempo ainda, e haver barulho na certa se ele se entregar levianamente 
ao prazer de esvaziar garrafas.
      Podemos depositar toda a confiana na costumada sobriedade de Joo-Pequeno  respondeu Robin;  ele obrigar o companheiro a manter-se nos limites razoveis.
      Preste ateno, Robin  disse vivamente Hal;  Joo-Pequeno j nos viu e acaba de lhe fazer um sinal.
     Robin dirigiu os olhos para o lado do amigo. 
      Ele aconselha-me a esperar  tornou Robin;  vai ao castelo; mas eu vou dar-lhe a entender que estou em tua companhia e que nos encontraremos l dentro em 
qualquer ptio.
      Muito bem. Acompanhe-me at  cantina, direi que  um dos meus amigos. L procuraremos descobrir, atravs da tagarelice dos soldados, em que parte do torreo 
esto encerrados os presos e o nome do encarregado de velar por eles; se conseguirmos roubar as chaves do castelo, poremos William em liberdade; mas para sair ser 
absolutamente necessrio atravessar outra vez os subterrneos. Chegados  floresta...
      Consentirei que nos persigam e at que nos alcancem, se puderem!  terminou alegremente Robin.
     A ponte levadia desceu a pedido de Hal e Robin no tardou a encontrar-se no interior do castelo de Nottingham.
     Vendo-se obrigado a acompanhar Gofredo, Joo-Pequeno resolveu aproveitar-se, no interesse do primo, da brusca simpatia que lhe testemunhava o soldado normando.
     Foi fcil ao mateiro conduzir a conversa para os sucessos da noite; Gofredo prestou-se com a melhor vontade do mundo ao desejo do seu novo amigo e confiou-lhe 
que estava encarregado da vigilncia dos trs prisioneiros.
      Entre eles,  acrescentou,  encontra-se um bonito rapaz, que tem verdadeiramente uma aparncia notvel.
      Ah!  disse Joo-Pequeno com ar de indiferena.
      Com efeito; talvez voc nunca visse em sua vida cabelos de uma cor to extraordinria: so quase vermelhos; apesar disso  muito bonito, tem uns olhos magnficos, 
e dir-se-ia que eles contm agora uma brasa do inferno, to brilhantes se tornaram por efeito da clera. Monsenhor fez uma visita ao pobre moo enquanto eu estava 
de sentinela; mas no pde arrancar-lhe uma s palavra, e saiu furioso jurando que o mandaria enforcar dentro de vinte e quatro horas.
      Pobre Will!  disse para si Joo-Pequeno.  Ser que o infeliz moo est ferido?  perguntou em voz alta.
      Passa to bem quanto voc e eu  respondeu Gofredo;  o que est  de muito mau humor.
      Os calabouos do ento para as muralhas?  tornou a perguntar Joo-Pequeno;   coisa bastante rara.
      Voc est enganado, estrangeiro; aqui na Inglaterra sucede isso em vrios castelos.
      Em que ponto esto situados, nos ngulos?
      Na maioria dos casos, mas nem todos so habitveis, por exemplo, aquele onde est encerrado o rapaz de que lhe falo, e que se acha a oeste, no  mau;  possvel 
viver l dentro sem grande sofrimento. Olhe  acrescentou Gofredo,  pode-se ver daqui o ponto onde ele est situado: ali, ao p da barbac, est vendo?
      Estou.
      Pois em cima h uma abertura bastante larga para dar passagem ao ar e  luz, por baixo daquela porta.
      Estou vendo; ento o moo de cabelos vermelhos est l dentro?
      Sim, para sua desgraa.
      Pobre diabo!  triste, hein, amigo Gofredo?
      Tristssimo, amigo estrangeiro.
      Quando a gente pensa  continuou Joo-Pequeno com o ar de quem estivesse fazendo uma simples reflexo,  que se acha ali entre quatro paredes, atrs de uma 
porta chapeada de ferro, um moo vigoroso e bem parecido, que afinal de contas no fez grande mal, e que sem dvida esgota as suas foras em vos esforos!  Est 
guardado  vista por sentinelas?
      No, est sozinho; se ele tivesse amigos, no lhe seria muito difcil evadir-se. O ferrolho da porta  do lado de fora; seria suficiente pux-lo, e, crac! 
A porta rolaria nos gonzos; o difcil, seno impossvel, seria atravessar a muralha do lado oeste.
      Por qu?
      Porque ela  a todo o instante percorrida pelos soldados, ao passo que a do lado leste, estando abandonada, seria um caminho de toda a segurana.
      Desse lado no h guardas?
      No; essa parte do castelo est completamente vazia; dizem que  freqentada por almas do outro mundo, de modo que um sentimento de terror afasta de l toda 
a gente.
      Caramba!  exclamou Joo-Pequeno,  Eu nunca induziria o preso a tentar os azares de uma fuga to incerta, pois mesmo que ele conseguisse sair do calabouo, 
como se arranjaria para transpor os muros de semelhante fortaleza?
      Uma pessoa estranha, e que naturalmente ignora as passagens secretas, seria agarrada antes de ter dado dez passos; mas eu, por exemplo, se tentasse fugir, 
dirigir-me-ia para o lado leste das muralhas, em direo a um quarto desabitado cuja janela abre sobre as fossas; prximo a essa janela,  distncia de um brao, 
encontra-se um velho arcobotante que pode servir de degrau. Da pode-se descer para um estrado de madeira que flutua sobre a gua; essa ponte volante deve ter servido, 
penso eu, para os homens do baro que regressavam ao castelo depois da hora do cobre-fogo. Uma vez do outro lado resta apenas reclamar a salvao  agilidade das 
prprias pernas.
      Para tudo isso o pobre preso necessitaria de um amigo muito inteligente  observou Joo-Pequeno.
      Sim, mas no o tem.
      No o tem  repetiu Joo-Pequeno como um eco.
      Bom mateiro  atalhou Gofredo,  vais consentir que te deixe sozinho alguns instantes, pois tenho deveres a cumprir; se quiseres percorrer o castelo tens 
a minha permisso, e se por acaso te interrogarem d a palavra de passe, que  de boa vontade e honestamente, e assim todos sabero que s um amigo.
      Agradeo-te, mestre Gofredo  disse Joo-Pequeno verdadeiramente reconhecido.
      Em breve ters de me agradecer ainda mais, cachorro saxo!  resmungou Gofredo saindo do aposento onde se encontravam.  Na verdade este campons toma-me 
por um dos seus iguais;  eu sou normando, um autntico normando, e vou dar-lhe a prova de que Gofredo o forte no  impunemente derrotado.  Ah! Maldito mateiro, 
fizeste dobrar diante de ti um homem que nunca sentiu pesar sobre os ombros o basto de um adversrio; mas fica tranqilo; hs de arrepender-te da tua imprudncia. 
Ah! Ah! Ah!  exclamou Gofredo entre duas gargalhadas,  Caste na armadilha, meu robusto mateiro; vieste certamente com o intuito de salvar os teus amigos, porque 
foram bandidos da tua espcie que atacaram os cruzados. Pois bem, fars uma viagem ao servio de Sua Majestade, se antes disso a minha faca te no entrar no corao. 
Como ele mordeu depressa o anzol! Aposto a minha vida em como daqui a pouco o encontrarei na muralha de leste; ser uma boa oportunidade para lhe pagar de uma s 
vez tudo quanto lhe devo.
     Assim resmungando, Gofredo pensava encarecer o mrito da sua vigilncia junto ao baro, e ao mesmo tempo vingar-se de Joo-Pequeno.
     Logo que se viu sozinho, o nosso amigo Joo ps-se a refletir.
      Este Gofredo  talvez um homem  pensou o sobrinho de sir Guy,  pode ter boas intenes; mas eu no acredito na sua honestidade nem na sua benevolncia. 
No  comum a um indivduo de to nfima categoria ter a grandeza de alma de perdoar, mais do que isso, de experimentar um sentimento de interesse por um adversrio 
triunfante; de modo que Gofredo engana-me, fui evidentemente apanhado numa rede.  Preciso sair dela e velar pela salvao de William.
     Joo-Pequeno saiu do quarto, e sem outro guia alm do acaso, encaminhou-se por uma vasta galeria cuja extremidade devia provavelmente conduzir a leste das muralhas.
     Depois de haver percorrido durante uma boa meia hora uma enfiada de corredores e passagens completamente desertas, encontrou-se diante de uma porta. Joo-Pequeno 
abriu-a e avistou um velho, debruado sobre um cofre no qual amontoava com cuidado pequenas sacolas cheias de peas de ouro. Entretido nos clculos da sua operao, 
o velho no se apercebeu da inslita presena do estranho.
     Joo-Pequeno estava perguntando a si prprio que resposta devia dar  inevitvel pergunta do ancio, quando este, erguendo a cabea, viu diante de si o gigantesco 
intruso. Uma expresso de visvel espanto se lhe pintou no rosto; deixou cair um dos sacos, e o ouro, chocando-se contra o soalho, produziu um som que fez estremecero 
seu proprietrio.
      Quem s tu?  perguntou ele com voz trmula.  Eu dei ordem para que proibissem a entrada em meus aposentos! Que me queres?
      Sou um amigo de Gofredo; estava a caminho da muralha de oeste, mas parece que me enganei.
      Ah! Ah!  exclamou o velho, com um estranho sorriso nos lbios;  s ento um amigo de Gofredo o forte, o valente Gofredo? Escuta, belo mateiro, porque em 
verdade s o mais belo moceto que ainda vi em toda a minha vida; queres trocar a tua roupa de campons pelo uniforme de um soldado?  Eu sou o baro Fitz-Alwine.
      Ah! Sois o baro Fitz-Alwine?  exclamou Joo-Pequeno.
      Sou, e um dia te felicitars, se tiveres a boa idia  de aceitar a minha proposta, por teres tido a sorte de me encontrar.
      Mas que proposta?  perguntou Joo-Pequeno.
      A de entrar ao meu servio.
      Antes de responder, permita-me tambm que lhe faa algumas perguntas  disse Joo-Pequeno indo com ar muito pacato fechar com duas voltas a porta do aposento.
      Que ests fazendo, belo mateiro?  perguntou o baro tomado de sbita inquietao.
      Estou prevenindo interrupes indiscretas, ponho um obstculo a visitas que poderiam ser importunas  respondeu o moo num tom perfeitamente calmo.
     Um claro de furor atravessou os olhinhos cinzentos do ladro.
      Estais vendo isto?  perguntou o mateiro colocando sob os olhos de Sua Senhoria uma comprida correia de pele de veado.
     O velho, sufocado pela clera, contentou-se em responder a essa inquietadora pergunta por um aceno afirmativo.
      Ento escutai-me com ateno  prosseguiu o moo;  tenho uma graa a pedir-vos, e se acontecer que sob um pretexto qualquer vos recuseis a conceder-ma, sereis 
enforcado sem misericrdia na cornija desse mvel que estou vendo alm. Ningum acudir aos vossos gritos, pela melhor das razes: porque vos impedirei de gritar. 
Possuo armas, uma vontade de ferro, uma coragem igual  minha vontade, e sinto-me com foras para defender contra vinte soldados a entrada desse quarto. De qualquer 
maneira, compreendei bem, sois um homem morto se recusardes obedecer-me.
      Bandido miservel!  pensou o baro,  eu te farei moer  pancada se conseguir libertar-me do teu infernal domnio.  Que desejas, bravo mateiro?  perguntou 
Sua Senhoria com voz dulorosa.
      Desejo a liberdade...
     Nesse momento um passo rpido se fez ouvir ao longo do corredor, e uma pancada violenta abalou as ombreiras da porta. Joo-Pequeno arrancou da cintura uma faca 
de lmina afiada, segurou o dbil velho e disse-lhe em voz baixa e num tom ameaador:
      Se soltares um grito, se disserdes uma palavra que seja perigosa para a minha segurana, mato-vos. Perguntai quem  que est batendo  porta.
     O baro, apavorado obedeceu.
      Quem est a?
      Sou eu, monsenhor.
      Tu, quem, imbecil?  soprou Joo-Pequeno.
      Tu, quem, imbecil?  repetiu o baro.
      Gofredo.
      Que queres, Gofredo?
      Monsenhor, venho comunicar-lhe uma notcia muito importante.
      Que notcia?
      Tenho em meu poder o chefe dos bandidos que atacaram os vassalos de Vossa Senhoria.
      Ah! Conseguiste?  murmurou Joo-Pequeno com sarcasmo.
      Ah! Conseguiste?  repetiu o pobre baro.
      Sim, milorde, e se Vossa Senhoria me permite, eu lhe contarei porque astucioso meio logrei apoderar-me desse malfeitor.
      Agora estou ocupado, no posso receber-te; volta daqui a meia hora.
     O baro mastigou por assim dizer as palavras dessa resposta, que lhe era soprada por Joo-Pequeno.
      Daqui a meia hora ser tarde demais  volveu Gofredo num tom de visvel mau humor.
      Obedece, maroto! Vai-te embora; torno a repetir-te que estou muito ocupado.
     O baro, louco de furor, daria com satisfao os sacos de ouro que guardava no cofre para ter a possibilidade de reter Gofredo e de o chamar em seu socorro. 
Infelizmente este ltimo, forado a obedecer  ordem peremptria que lhe fora dada, afastou-se to rapidamente como tinha vindo, e o baro encontrou-se sozinho com 
o seu gigantesco inimigo.
     Quando o rumor dos passos do soldado se perdeu na profundeza dos corredores, Joo-Pequeno tornou a guardar a faca na cintura e disse a lorde Fitz-Alwine:
      Agora, senhor baro, vou dizer-vos o que pretendo. Na noite passada houve um combate na floresta de Sherwood entre os vossos soldados que regressavam da Terra 
Santa e uma companhia de valentes saxes. Seis homens foram feitos prisioneiros: pretendo a liberdade desses seis homens, e quero ainda que ningum os acompanhe 
ou siga; detesto a espionagem e no consinto que a faais.
      De boa vontade concordaria em ser-te agradvel nesse ponto, belo mateiro, mas...
      Mas no o quereis. Escutai, senhor baro, eu no disponho de tempo para dar ouvidos s vossas falsidades, nem pacincia para lhes suportar a monotonia. Dai-me 
a liberdade desses pobres rapazes, ou no respondo pela vossa vida, mesmo por um quarto de hora que seja.
      s muito exigente, rapaz! Est bem: vou obedecer-te. Aqui est o meu selo: procura uma das sentinelas da fortaleza, mostra-lhe este sinete e dize-lhe que 
te concedi a graa desses patifes... desses prisioneiros. A sentinela te levar  presena do encarregado de vigiar os teus protegidos, e imediatamente te ser aberta 
a porta da cela onde os mantenho fechados; porque esses valentes rapazes no esto presos nos calabouos.
      As vossas palavras parecem-me muito sinceras, senhor baro  respondeu Joo-Pequeno;  em todo o caso no me sinto animado a aceit-las com muita confiana. 
Esse sinete, essa sentinela, esse vaivm de um lugar para outro, tudo isso me parece to confuso que receio no poder desembaraar-me com facilidade. Por conseqncia, 
o melhor que tendes a fazer  acompanhar-me, de boa ou m vontade,  presena do homem que est encarregado dos meus amigos; dar-lhe-eis a ordem para os deixar em 
liberdade, e em seguida nos deitareis sair tranquilamente do recinto deste senhorial castelo.
      Duvidas da minha palavra?  perguntou o baro com um modo escandalizado.
      Inteiramente; e at acrescento que se, por uma palavra, um gesto, um aceno, tentardes fazer-me cair numa armadilha, vos cravarei no prprio instante e sem 
qualquer aviso prvio, a minha faca no corao.
     As ameaas de Joo-Pequeno eram feitas num tom to decidido, a sua face exprimia uma resoluo to imutvel que no seria lcito duvidar um s momento de que 
das palavras ao fato medeasse apenas o gesto.
     O baro encontrava-se numa situao muito perigosa, e isso por sua culpa. Habitualmente uma companhia de soldados velava pela sua segurana, quer junto aos 
seus aposentos, quer ao alcance de uma chamada fcil. Mas nesse dia, desejoso de ficar sozinho a fim de poder arrumar secretamente a prodigiosa quantidade de ouro 
amontoada em seus cofres (nessa poca no existiam banqueiros), ele afastara os seus guardas e proibira que, sob nenhum pretexto algum ousasse aproximar-se dele. 
Desesperadamente convencido da sua solido, o orgulhoso fidalgo no se atrevia a infringir a proibio formal de Joo-Pequeno, e com espantosos clamores abafados 
na garganta, conservava um profundo silncio. Lorde Fitz-Alwine apegava-se singularmente  vida, e o desejo de ir reunir-se aos seus ancestrais ainda no chegara 
para ele. Entretanto parecia bem prximo de realizar essa melanclica viagem, porque a luta que ia travar com Joo-Pequeno tinha poucas probabilidades de sucesso: 
a liberdade prometida e to imperiosamente exigida dos jovens saxes era um fato irrealizvel, pela simples razo de que, s primeiras horas da madrugada, acorrentado 
uns aos outros e confiados  guarda de um grupo de vinte soldados, os prisioneiros haviam partido para Londres. Dizimado pelas guerras desastrosas da Normandia, 
o exrcito de Henrique II estava muito debilitado, e embora o reino estivesse em plena paz, Henrique II fazia recrutar, tanto quanto lhe era possvel, os moos de 
sade robusta e alta estatura.
     A fim de atender ao desejo do rei, os senhores suzeranos enviavam para Londres bom nmero dos seus vassalos, e lorde Fitz-Alwine apenas voltara a Nottingham 
para escolher entre os seus homens um grupo digno de enfileirar nesse corpo de exrcito. A boa presena de Joo-Pequeno, a sua aparncia viril e o vigor hercleo 
de toda a sua pessoa, haviam subitamente inspirado ao baro o desejo de o remeter para Londres. E era com essa secreta inteno que propusera ao moo para entrar 
para o seu servio e revestir o capote militar. Constrangido a obedecer a uma nova imposio de Joo-Pequeno, o baro decidiu esconder-lhe a verdade, e lev-lo sob 
o pretexto de uma visita aos prisioneiros, a um ponto d castelo onde seria possvel obter pronto socorro.
      Estou disposto a atender ao teu pedido  disse ele erguendo-se da cadeira.
      Asseguro-vos que andais com o mximo juzo  volveu o jovem,  e se pretendeis adiar para uma poca ainda longnqua a visita que deveis a Satans, apressemo-nos 
a deixar esta sala.  Ah! Ainda uma palavra  acrescentou Joo-Pequeno.
      Podes dizer  gemeu o baro.
      Onde est vossa filha?
      Minha filha?  exclamou Fitz-Alwine no cmulo da surpresa;  Minha filha!
      Sim, vossa filha, Lady Christabel.
      Na verdade, belo mateiro,  essa uma estranha pergunta que me fazes. No importa; respondei com franqueza. Lady Christabel est na Normandia.
      Em que parte da Normandia?
      Em Rouen.
      Isso  verdade?
      A pura verdade;  mora num convento dessa cidade.
      Que foi feito de Allan Clare?
     O rosto do baro cobriu-se de sbito rubor, os seus dentes mordendo os lbios trmulos abafaram um grito de raiva e ele cravou no rapaz um olhar de indizvel 
clera. Joo, que com a sua imponente estatura dominava aquele fraco inimigo, repetiu lentamente a pergunta.
      Que foi feito de Allan Clare?
      No sei.
      Mentes!  gritou Joo-Pequeno furioso;  Mentes! Ele deixou-nos h seis anos para seguir Lady Christabel, e estou certo de que sabes o que foi feito desse 
desventurado moo.  Onde est ele?
      No sei.
      No o viste ento em todo o decorrer destes seis anos?
      Vi-o, sim, esse misero obstinado!...
      Nada de injrias, por favor, senhor baro. Onde o visteis?
      O primeiro encontro que tivemos  prosseguiu lorde Fitz-Alwine em tom amargo  verificou-se num lugar que devia ser interdito a esse vagabundo sem pudor. 
Encontrei-o no aposento de minha filha, encontrei-o ajoelhado aos ps de lady Christabel. Nessa mesma noite minha filha entrou para um convento; no dia seguinte 
ele teve a audcia de se apresentar diante de mim e de me pedir a mo de minha filha. Mandei-o expulsar pelos meus homens; a partir de ento no o tornei a ver, 
mas soube ultimamente que ele entrou para o servio do rei de Frana.
      Por vontade prpria?  perguntou Joo.
      Sim, a fim de preencher as condies de um tratado feito entre ns ambos.
      Que tratado? A que se comprometeu Allan? Que lhe haveis prometido?
      Ele comprometeu-se a restaurar a sua fortuna, a reentrar na posse das suas terras, seqestradas em virtude das ligaes do seu pai com Toms Becket.  Eu prometi-lhe 
a mo de minha filha se durante sete anos ele se mantivesse afastado e sem procurar v-la.  Se ele faltar  palavra, disporei de lady Christabel como melhor entender.
      A que data remonta esse compromisso?
      Foi tomado h trs anos.
      Muito bem. Agora ocupemo-nos dos prisioneiros. Vamos p-los em liberdade.
     O peito do altivo fidalgo encerrava um verdadeiro vulco; ardia, mas o seu plido rosto nada revelava dos sinistros projetos que lhe ocupavam a mente. Antes 
de seguir Joo-Pequeno fechou com dupla volta a preciosa caixa, assegurou-se de que no deixava qualquer vestgio revelador dos seus imensos tesouros, e disse ao 
outro num tom de grande serenidade:
      Vamos, corajoso saxo.
     Joo-Pequeno no era homem para aceitar cegamente o itinerrio escolhido pelo baro, e foi-lhe fcil perceber que lorde Fitz-Alwine enveredava por um caminho 
oposto quele que deveria desembocar nas muralhas.
      Senhor baro  disse ele assentando a robusta mo no ombro do velho,  parece-me que escolheis um caminho que nos distancia do ponto onde queremos chegar.
      Como sabes?  perguntou o baro.
      Porque os prisioneiros esto encerrados nos calabouos da muralha.
      Quem te deu essa informao?
      Gofredo.
      Ah! O patife!
      Sim,  um patife; pois no contente com dizer-me em que parte do castelo esto os meus amigos, ainda me indicou um meio para os fazer evadir.
      Sim senhor!  exclamou o baro.  No me esquecerei de o recompensar pelos seus bons servios. Mas, embora traindo-me ele divertiu-se  custa da tua credulidade: 
afinal, os prisioneiros no esto nessa parte do castelo.
       possvel, mas desejo certificar-me disso em vossa companhia.
     Por baixo da galeria em que se encontravam os nossos dois personagens, fez-se de repente ouvir um rudo de marcha que denunciava o passo de vrios homens. Apenas 
uma escada separava lorde Fitz-Alwine daquele socorro providencial; bruscamente, aproveitando-se da distrao do mateiro, ocupado em dar-se conta do lugar onde iriam 
ter as profundezas daquela galeria, ele lanou-se com uma agilidade extraordinria para a sua idade em direo  porta cuja abertura mergulhava na escada. Ali chegado, 
e no momento em que ia descer os degraus de quatro em quatro, sentiu como um punho de ferro segur-lo pelo ombro. O desditoso ancio soltou um grito estridente e 
precipitou-se pela escada abaixo. Impassvel e limitando-se a estender o passo, Joo-Pequeno seguiu o baro na sua corrida insensata, tornada a cada minuto mais 
viva e mais rpida. Levado pela esperana de encontrar algum socorro, o baro prosseguia loucamente na corrida, gritando e clamando por algum. Mas esses gritos 
entrecortados ficavam sem eco e perdiam-se na interminvel solido das galerias. Por fim, aps um quarto de hora daquela estranha fuga, o baro deteve-se diante 
de uma porta, e empurrou-a com tanta fora que os dois batentes se escancararam e ele foi cair desorientado nos braos de um homem que correu ao seu encontro.
      Salva-me! Salva-me!  um assassino!  gritou o baro;  Agarra-o! Mata-o!  E acabando de vociferar esses apelos furiosos, lorde Fitz-Alwine, esgotadas as 
suas foras, escorregou de entre as mos que tentavam segur-lo e caiu estendido no soalho.
      Para trs!  bradou Joo-Pequeno procurando repelir o protetor do baro;  para trs!
      Que  isso, Joo-Pequeno  disse uma voz conhecida  ser que a clera te cega a ponto de no reconheceres os amigos?
     Joo-Pequeno teve uma exclamao de surpresa.
      Como! Pois s tu, Robin? Viva Deus! Eis um acaso grandemente feliz para esse traidor; porque se no fosse este outro, juro que teria chegado a sua ltima 
hora.
      Mas quem  este desgraado a quem persegues to encarniadamente, meu bravo Joo?
       o baro Fitz-Alwine  segredou Halbert ao ouvido de Robin, procurando esconder-se atrs do jovem arqueiro .
      O baro Fitz-Alwine!  exclamou Robin;  Estou verdadeiramente encantado com este encontro, que me vai permitir fazer-lhe algumas perguntas da mais alta importncia 
a respeito de certas pessoas da minha particular estima.
      No vale a pena dares-te ao incmodo de interrogar Sua Senhoria  interveio Joo-Pequeno;  j soube dele tudo o que queria saber, tanto sobre a sorte de 
Allan Clare, como sobre a situao dos nossos amigos; eles esto presos aqui, e o baro ia-me conduzindo ao calabouo a fim de os pr em liberdade, ou antes, o traidor 
fingia levar-me at l, porque se aproveitou de um minuto de distrao para tentar fugir.
     O pesar de o no ter conseguido arrancou ao baro um gemido lgubre.
      Quando te prometeu a liberdade dos nossos amigos, caro Joo, ele no fazia seno enganar-te: os pobres rapazes j iam a caminho de Londres quando ns ainda 
almovamos na estalagem.
      No  possvel!  bradou Joo-Pequeno.
       perfeitamente exato  volveu Robin Hood;  Hal acaba de ter a confirmao disso e ns andvamos  tua procura para te fazer sair da caverna do leo.
     Ouvindo pronunciar o nome de Halbert, o baro ergueu a cabea, lanou um olhar furtivo ao rapaz, e inteiramente edificado a respeito da fidelidade do seu guia 
regressou  sua posio de vencido, resmungando para si mil imprecaes contra o pobre Hal. O movimento do baro no escapara  inquieta preocupao de Halbert. 
      Robin  disse ele,  Sua Senhoria acaba de me dardejar uns olhos que me prometem grandes recompensas pela amizade que vos dedico.
      Sim, com efeito  murmurou surdamente lorde Fitz-Alwine;  no hei de esquecer a tua traio.
      Pois bem, meu caro Hal  respondeu Robin,  visto que a tua permanncia aqui se tornou impossvel, visto que a nossa presena no castelo se tornou intil, 
o melhor que temos a fazer  retirarmos-nos todos.
      Espera um pouco  interveio Joo-Pequeno,  eu acho que prestarei um grande servio a todo o condado libertando-o para sempre da tirnica dominao deste 
maldito normando.  Vou expedi-lo a Sat.
     Esta ameaa fez pular o baro, que logo se endireitou nas suas magras pernas.
     Hal e Robin foram fechar as portas.
      Bom mateiro  murmurou o velho,  honrado arqueiro, meu pequeno Hal, no vos mostreis impiedosos! Eu no tenho culpa da desgraa que sucedeu aos vossos amigos; 
eles atacaram os meus homens, os meus homens defenderam-se, no  uma coisa natural? Esses valentes rapazes que caram em minhas mos, em vez de serem enforcados 
como devi... como mereci... quero dizer como seria de esperar, foram poupados e remetidos para Londres. Eu no podia adivinhar que vs vireis hoje pedir-me a sua 
liberdade; se o tivesse previsto, certamente os bons rapazes... no teriam a esta hora nada mais a desejar. Deveis proceder com reflexo; em vez de vos deixardes 
levar pela clera, sede juzes e no carrascos. Juro-vos que pedirei o indulto de vossos amigos. Tambm vos juro perdoar a Halbert a indigni... a leviandade da sua 
conduta e conservar-lhe o bom lugar que desempenha junto de mim.
     Enquanto assim falava o baro prestava ouvidos ao menor rudo, esperando, mas em vo, um socorro que lhe no chegava.
      Baro Fitz-Alwine  disse gravemente Joo-Pequeno,  devo agir segundo as leis que regem as nossas florestas: ides morrer.
      No! No!  suplicou Sua Senhoria.
      Peo-vos que escuteis, senhor baro. Estou falando sem rancor. H seis anos passados mandsteis incendiar a casa deste moo; sua me foi morta por um dos 
vossos soldados, e foi sobre o corpo dessa pobre mulher que juramos punir o seu assassino.
      Tende piedade de mim!  gemeu o velho.
      Joo-Pequeno  interveio Robin,  poupa este homem em ateno  anglica criatura que lhe d o nome de pai. Milorde  acrescentou Robin voltando-se para o 
baro,  prometei-me conceder a Allan Clare a mo daquela a quem ele ama, e tereis a vida salva.
      Fica prometido, jovem arqueiro.
      Mantereis a vossa palavra?  perguntou Joo-Pequeno.
      Manterei.
      Deixa-o livre, Joo; o juramento que ele acaba de fazer fica registrado no cu. Se ele o trair, votar a alma  condenao eterna.
      Para mim ela j est condenada, amigo  respondeu Joo,  e no posso resignar-me a deix-lo assim sem nenhum castigo.
      No vs ento que ele j est meio morto de medo?
      Vejo, vejo; mas to depressa estejamos a cem passos daqui ele nos mandar perseguir por toda a sua tropa. Precisamos dificultar essa perigosa hiptese.
      Fechemo-lo neste quarto  sugeriu Hal.
     Lorde Fitz-Alwine enviou ao rapaz um olhar carregado de dio.
       isso mesmo  concordou Robin.
      E os gritos que ele soltar logo que se vir sozinho? O alvoroo que far?  J penssteis nisso?
      Nesse caso amarrai-o a uma poltrona  disse Robin,  com a faixa de pele de veado que vos serve de cinturo, e amordaai-o com o cabo do seu prprio punhal.
     Joo-Pequeno apoderou-se do baro, que no ousou resistir, e amarrou-o fortemente ao espaldar do cadeiro.
     Tomada essa precauo, os trs jovens ganharam a toda a pressa o ptio onde estava a ponte levadia, e o guarda, que era amigo de Hal, no fez qualquer dificuldade 
para os deixar passar.
     Enquanto os nossos amigos se dirigiam rapidamente para a morada de Graa May, Gofredo, irritado pela impacincia subia aos aposentos do baro.
     Ao chegar diante da porta comeou por bater bem levemente; mas depois, no recebendo resposta, bateu com mais fora. Ningum respondeu. Assustado com aquele 
silncio, Gofredo chamou o baro, mas o eco da sua prpria voz foi a nica resposta que obteve. Ento, com a ajuda dos seus poderosos ombros meteu a porta dentro.
     O quarto estava vazio.
     Gofredo percorreu salas, corredores, passagens, galerias gritando com todas as foras:
      Monsenhor! Monsenhor! Onde estais?
     Enfim, aps uma longa busca, Gofredo teve o prazer de se encontrar em presena do amo.
      Milorde! Senhor! Que aconteceu?  exclamava Gofredo enquanto desamarrava o baro.
     Este, plido de furor, respondeu numa voz sufocada pela indignao:
      Manda erguer a ponte levadia! Que no deixem sair ningum! Percorre o castelo, descobre-me o patife de um enorme mateiro que deve estar escondido por a, 
amarra-o e traze-o  minha presena; manda prender Hal. Depressa, imbecil, anda logo!
     O baro arrastou-se para o seu quarto, esgotado pela fadiga, e Gofredo, com o corao animado da sedutora esperana de se apoderar de Joo-Pequeno, foi dar 
as ordens mltiplas que acabava de receber.
     Uma hora depois, e enquanto esquadrinhavam o castelo para encontrar Joo-Pequeno, Hal, que fora despedir-se da linda Graa May, atravessava com seus amigos 
a floresta de Sherwood, na direo de Garnwell.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XIX
     
     
     
     QUANDO o baro Fitz-Alwine se sentiu inteiramente refeito do terror e das fadigas, ordenou  sua gente que fizesse uma investigao na cidade de Nottingham 
a fim de descobrir vestgios da passagem do mateiro.  claro que o baro esperava obter uma ruidosa desforra do insulto inadmissvel que lhe havia sido feito.
     Gofredo contou ao baro a fuga de Halbert, e ao receber essa derradeira notcia a clera do castelo atingiu o cmulo da intensidade.
      Bandido miservel!  gritou ele a Gofredo,  Se cometeres ainda a inpcia de deixar escapar o malfeitor que se apresentou diante de mim com o ttulo de teu 
amigo, sers enforcado sem piedade!
     Ansioso por recuperar a estima e a confiana de seu amo, o robusto. servidor entregou-se conscienciosamente  busca do mateiro. Percorreu a cidade, esquadrinhou 
os arredores, interrogou os estalajadeiros da regio, e de tal modo se movimentou que chegou a saber que o primeiro guardio da floresta de Sherwood, sir Guy de 
Garnwell, tinha um sobrinho cujos sinais correspondiam em tudo aos do guapo mateiro. Gofredo soube ainda que esse jovem morava na casa do tio, e que a julgar pela 
descrio feita pelos cruzados, o chefe desse bando noturno, esse indivduo parente de sir Guy de Garnwell outro no era que o antagonista do baro e o vencedor 
de Gofredo.
     O homem que deu ao soldado essas preciosas informaes acrescentara ainda que um moo arqueiro, cuja destreza no arco se tornara por assim dizer lendria, chamado 
Robin Hood, habitava igualmente o solar de Garnwell.
     Como  fcil de supor, Gofredo correu a toda a pressa a comunicar ao baro o que acabava de saber.
     Lorde Fitz-Alwine escutou com calma o prolixo relato do seu servidor, o que revelava da sua parte uma grande dose de pacincia, e imediatamente teve a compreenso 
de tudo o que se passava. Lembrou-se de que Maude, ou Isabel, como ele chamava muitas vezes a aia da filha, encontrara asilo no solar de Garnwell, e que sem dvida 
ali se teriam reunido
     Robin Hood, o chefe do bando, bem como Joo-Pequeno e os homens que compunham o atrevido grupo.
     Novas informaes vieram confirmar a exatido do relato de Gofredo e Lorde Fitz-Alwine resolveu sem perda de tempo depor aos ps do trono de Henrique II uma 
severa queixa contra os guardas florestais.
     O momento era bem escolhido. Nessa poca, Henrique II que se ocupava ativamente da polcia interior do seu reino, procurando introduzir nele o respeito pela 
propriedade territorial, ouvia com ateno as narrativas de roubos e pilhagens que lhe eram feitas pelos seus informadores.
     Por ordem do rei, os culpados, apanhados em flagrante delito, comeavam por ser encarcerados; depois das prises do Estado passavam, ou para os postos subalternos 
do exrcito, ou para as cobertas dos navios em cruzeiro.
     Lorde Fitz-Alwine obteve uma audincia da justia de Henrique II, e exps ao rei, exagerando-a muito, a causa dos seus agravos contra Robin Hood. Esse nome 
atraiu vivamente a ateno do prncipe, que pediu novas explicaes, vindo ento a saber que esse mesmo Robin Hood era aquele que reivindicava os direitos ao ttulo 
e aos bens do derradeiro conde de Huntingdon, pretendendo descender em linha direta de Waltheof, a quem o condado de Huntingdon fora concedido por Guilherme I. O 
pedido de Robin Hood, como se sabe, fora recusado, e o seu adversrio, o abade de Ramsay, continuava de posse da herana do jovem.
     Percebendo que o agressor do baro outro no era que o pretenso conde de Huntingdon, o rei tomou-se de grande clera e condenou Robin Hood  proscrio. Decretou 
alm disso que a famlia Garnwell, protetora declarada de Robin Hood, fosse despojada dos seus bens e expulsa do seu territrio.
     Um amigo de sir Guy, informado da cruel sentena decretada contra o pobre ancio, apressou-se a enviar-lhe uma mensagem. A desastrosa notcia espalhou a consternao 
no pacato solar de Garnwell; os aldees, imediatamente informados da desgraa que acabava de ferir o seu senhor, reuniram--se  volta do castelo e instaram com sir 
Guy para que defendesse as proximidades do solar, confessando-se dispostos a morrer combatendo antes de cederem uma polegada de terra. Sir Guy possua uma bela propriedade 
no condado de Yorkshire; sabendo disso e aconselhado por Joo-Pequeno, Robin Hood suplicou ao velho que abandonasse Garnwell e levasse a sua famlia para esse retiro 
seguro.
      Pouco me preocupam os dias que ainda me restam para viver  respondeu o baronete enxugando com mo trmula as lgrimas que lhe avermelhavam as plpebras. 
 Sou como esses velhos carvalhos das nossas florestas, aos quais a mais ligeira brisa arrebata uma a uma as derradeiras folhas. Meus filhos podero abandonar hoje 
mesmo esta casa em runas, mas eu por mim no tenho foras nem coragem para desertar do teto que cobriu meus pais. Aqui nasci, aqui hei de morrer. No peas a minha 
partida, Robin Hood: o lar de meus ancestrais h de servir-me de tmulo; como eles dormirei no torro que me viu nascer, como eles defenderei a minha porta contra 
toda a invaso estranha. Levai minha esposa e minhas filhas... Meus filhos, tenho a certeza, no abandonaro seu velho pai; com ele defendero o bero da nossa raa.
     A insistncia de Robin e as splicas de Joo-Pequeno esbarraram contra a determinao do velho fidalgo; foi preciso renunciar  esperana de o afastar de Garnwell, 
e como as circunstncias reclamavam uma grande rapidez de ao, ocuparam-se imediatamente em organizar a partida de todas as senhoras da casa.
     Lady Garnwell, suas filhas, Mariana, Maude e as criadas da casa, entregues a um grupo de fiis aldees, deviam, ao cair da noite, retirar-se do solar.
     Quando os preparativos para essa dolorosa retirada ficaram prontos, a famlia reuniu-se no enorme salo, e Robin Hood, depois de se certificar da ausncia de 
Mariana, encaminhou-se a toda a pressa para os aposentos da moa.
      Robin!  exclamou de repente uma voz entrecortada pelos soluos.  Robin!
     O rapaz voltou a cabea e deparou com miss Maude desfeita em lgrimas.
      Caro Robin  tornou a moa,  desejo falar consigo antes de deixar o solar.  Ai, meu Deus! Talvez nunca mais nos tornemos a ver!
      Querida Maude, peo-te que sossegues, e no te deixes dominar por uma idia to triste. Juro-te que dentro em breve estaremos outra vez reunidos.
      Gostaria de poder acreditar nisso, Robin, mas no me  possvel: conheo o perigo que nos ameaa, a defesa que ides tentar apresenta dificuldades quase intransponveis. 
A hora da despedida aproxima-se; permita-me, Robin, testemunhar-lhe a minha gratido pelas constantes bondades que tem tido comigo.
      Querida Maude, repito que no deve existir jamais entre ns reconhecimento ou gratido; lembra-te do pacto de amizade que fizemos juntos h seis anos: eu 
comprometi-me a estimar-te como um irmo e tu me prometeste a ternura de uma irm. Devo acrescentar que tens mantido a tua palavra e chegaste a ser para mim a mais 
carinhosa das amigas e a melhor das irms. A partir dessa poca, cada dia tens crescido mais na minha estima.
      Estima-me realmente, Robin?
      Sem dvida, Maude; deves ver em mim um irmo devotado  tua completa felicidade.
      Sempre agiu de modo a convencer-me da sua afeio, caro Robin; e  por sentir bastante confiana na lealdade do seu carter que desejo dizer-lhe...
     Sem poder acabar o que dizia, a moa desfez-se em lgrimas.
      Vamos, Maude, que tens tu? Fala, bobinha; na verdade pareces to tmida como um pequenino coro.
     A jovem, com a cabea escondida nas mos, continuava a soluar.
      Vamos, Maude, vamos, coragem! Que significa esse desespero? Que desejas dizer-me? Estou ouvindo, fala sem receio.
     Maude deixou cair as mos, ergueu os olhos, tentou um sorriso e disse por fim:
      Sofro muito... Estou muito preocupada por causa de uma pessoa que tem sido para mim cheia de amabilidades e atenes...
       William que te preocupa?  interrompeu vivamente Robin.
     A moa corou intensamente.
      Bravo!  exclamou Robin.  Ah! Maude querida, amas ento esse valente moo, graas a Deus! Daria tudo no mundo para ver William ajoelhado a teus ps. Ele 
seria felicssimo ouvindo-te dizer: William, amo-te!
     Maude tentou negar que amava William tanto quanto Robin parecia pensar, mas viu-se coagida a confessar que,  fora de ouvir o moo chegara a experimentar por 
ele um vivo sentimento de afeio. Depois dessa penosa confisso, difcil de fazer sobretudo a Robin, Maude interrogou-o a respeito da ausncia de William.
     Robin respondeu que essa ausncia, determinada por um assunto importante nada tinha de inquietadora, e que dentro de poucos dias William regressaria para junto 
de sua famlia.
     Essa carinhosa mentira devolveu a calma e a serenidade ao corao de Maude; ela estendeu a Robin as faces coloridas pelas lgrimas, e depois de haver recebido 
o seu beijo fraternal apressou-se a descer novamente  sala. Por outro lado, Robin penetrou nos aposentos de Mariana. 
      Querida Mariana  comeou ele tomando entre as suas as delicadas mos da jovem,  estamos a ponto de nos separar, e talvez por muito tempo.  Permite-me, antes 
que nos separemos, falar-te com toda a sinceridade da minha alma.
      Estou pronta a ouvir-te, caro Robin  respondeu afetuosamente a jovem.
      Sabes muito bem, Mariana  prosseguiu o rapaz num tom fremente,  que te amo de todo o corao.
      As tuas aes diariamente o tm provado, meu amigo.
      Tens confiana em mim, no  verdade? Tens uma f inteira, completa, absoluta, na sinceridade do meu amor, na terna abnegao do meu devotamento?
      Sem dvida que tenho; mas porque motivo me perguntas se te considero um homem honesto, um valente corao, um verdadeiro amigo?
     Em lugar de responder  pergunta de Mariana, Robin ps-se a sorrir tristemente.
      A verdade  que me ests assustando, Robin; fala, suplico-te. A sria expresso do teu rosto, a gravidade das tuas maneiras e as estranhas perguntas que me 
diriges, fazem-me recear o anncio de alguma desgraa ainda maior do que as que h tanto tempo me acabrunham.
      Tranquiliza-te, Mariana  disse Robin docemente,  graas a Deus no tenho qualquer m notcia a comunicar-te. O que tenho a dizer-te  a respeito de ti mesma, 
e se me torno insistente no deves querer-me mal por isso.  Mau grado todo o raciocnio o amor  egosta, e o meu amor vai ficar submetido a uma rude prova.  Vamos 
separar-nos, Mariana, e talvez para sempre.
      No, Robin, precisamos ter confiana na infinita bondade de Nosso Senhor.
      Ah! Querida Mariana, vejo tudo desabar em torno de mim e meu corao est partido. Repara nessa digna e hospitaleira famlia: porque ela me estendeu a sua 
mo caridosa quando eu vivia errante e sem asilo, condenam-na ao banimento, confiscam-lhe os bens, expulsam-na da sua casa. Vamos defender o solar, e enquanto houver 
uma pedra sobre outra pedra na aldeia de Garnwell, eu ficarei de p ao lado dela. A providncia da qual esperas um socorro nunca me abandonou em momentos de perigo, 
e como tu, Mariana, confio nela; lutarei, e ela me proteger. Mas pensa bem Mariana, uma ordenao do rei proscreve-me do reino, posso ser enforcado em qualquer 
rvore  beira de qualquer estrada, ou enviado ao patbulo por qualquer espio, porque a minha cabea est posta a prmio.  Robin Hood, conde de Huntingdon  acrescentou 
orgulhosamente o jovem, nada mais . Pois bem, Mariana! Persistes em continuar acreditando em mim, juras vir a ser a minha amada companheira?
      Juro, Robin, juro!
      Esse juramento, querida Mariana, quero apag-lo do meu corao; essa promessa desejo vot-la ao esquecimento. Mariana, minha adorada Mariana, devolvo-te a 
liberdade, aqui te desligo de todo o compromisso.
      Oh, Robin!  exclamou a jovem num tom de censura.
      Eu seria indigno do teu amor, Mariana,  continuou Robin  se na situao em que me encontro conservasse a esperana de vir a chamar-te minha esposa. Deixo-te 
portanto livre de dispor da tua mo, apenas te pedindo que penses algumas vezes com amizade no desventurado proscrito.
      Tens uma bem triste opinio do meu carter, Robin  volveu a jovem num tom magoado.  Como pudeste acreditar um s momento que aquela que te ama fosse a esse 
ponto indigna do teu amor? Como pudeste acreditar que a minha afeio mudasse ao sopro da desgraa?
     Acabando essas palavras, Mariana desfez-se em lgrimas.
      Mariana! Mariana!  gritou Robin desvairado,  Pelo amor de Deus, escuta-me sem ressentimento. Amo-te to ardentemente que sinto vergonha de te condenar a 
partilhar o meu desgraado destino. Imaginas que no me sinto profundamente humilhado pela cruel desonra ligada ao meu nome, e que a idia  de me separar de ti no 
penetra a minha alma de um amargo sofrimento? Se no fosse o teu amor, Mariana, eu j teria mergulhado um punhal em meu corao; o teu amor  o nico lao que me 
prende  vida. Tu que ests acostumada ao luxo, querida Mariana, virias a sofrer cruelmente ao contacto da pobreza, se tivesses de tornar-te a esposa de Robin Hood, 
e eu juro que preferia perder-te para sempre a saber-te desgraada em minha companhia.
      Sou tua esposa diante de Deus, Robin, e tua vida ser a minha. Agora consente que te faa algumas recomendaes. Cada vez que puderes, em segurana, dar-me 
notcias tuas, envia-me uma mensagem, e se tiveres possibilidade de vir ver-me, no deixes de o fazer que me dars uma grande felicidade.  Meu irmo regressar para 
junto de ns, e por meio dele, assim o espero, conseguiremos fazer revogar o injusto decreto que te condenou. 
     Robin sorriu com tristeza.
      Querida Mariana  volveu ele,  no deves embalar o corao em esperanas quimricas. Eu nada espero do rei. Tracei-me uma linha de conduta e tomei a firme 
resoluo de jamais me afastar dela. Se ouvires dizer mal de mim, Mariana, fecha os teus ouvidos  calnia; porque, pela minha santa me te juro ser sempre merecedor 
da tua estima e do teu amor.
      Que mal poderei ouvir dizer de ti, Robin, e quais to esses projetos de que falas?
      No me interrogues a esse respeito, querida Mariana; eu acho que as minhas intenes so honestas; se o futuro demonstrar que elas o no so, serei o primeiro 
a reconhecer meu erro.
      Sei que s um homem leal e valente, Robin, e pedirei a Deus que te proteja em todos os teus empreendimentos.
      Obrigado, minha adorada Mariana; e agora adeus  acrescentou Robin limpando as lgrimas que lhe banhavam as plpebras.
     Enlaada pelos braos do seu desditoso amigo, a jovem ao ouvir aquela palavra de despedida sentiu que as ltimas foras a abandonavam. Escondeu o rosto em pranto 
nos ombros de Robin e rompeu a soluar desgarradoramente.
     Durante alguns instantes os dois jovens assim permaneceram mudos e desorientados. Por fim, uma voz que chamava Mariana veio arranc-los quele derradeiro abrao.
     Desceram juntos, e Mariana que j envergava um traje de amazona, saltou para o cavalo que lhe fora destinado.
     Lady Garnwell e suas filhas estavam de tal modo perturbadas pela dor que mal podiam manter-se em suas selas.
     As criadas da casa, em sua maioria casadas, seus filhos alguns velhos, completaram a cavalgada. Aps uma cena altamente emocionante, as portas do solar fecharam-se 
sobre os fugitivos, os quais, acompanhados de um bando de homens resolutos, tomaram o caminho da floresta.
     Decorreu uma semana. Cada dia dessa semana de ansiosa expectativa foi empregado em fortificar Garnwell. Os moradores do povoado viviam por assim dizer nas torturas 
o receio, pois cada hora lhes trazia o pavor do dia seguinte. Sentinelas foram postadas em redor do solar, e sob a direo |e Robin foram erguidas duas linhas de 
barricadas que deviam servir, seno para deter a marcha do inimigo, ao menos para por  sua aproximao os entraves de uma sria defesa.
     Essas barricadas, construdas  altura de um homem, permitiam aos camponeses proteger-se contra as flechas assassinas dos inimigos, dando-lhes ao mesmo tempo 
oportunidade para uma certeira pontaria.
     Contudo no devemos imaginar que sir Guy tinha iluses a respeito do sucesso das suas defesas, que ele sabia inteis, alm de perigosas; mas o nobre e valente 
saxo no queria render-se sem haver combatido.
     Robin era a alma daquele pequeno exrcito; vigiava os trabalhos, animava os aldees, fabricava armas, multiplicava-se por todos os lugares e atividades. A aldeia 
de Garnwell, outrora to calma e tranqila, estava agora cheia de animao e de vida, o terror cedera lugar ao entusiasmo e os pacficos habitantes mostravam-se 
orgulhosos e contentes por entrar em luta aberta com os normandos.
     Quando todos os preparativos do combate ficaram terminados, uma espcie de torpor caiu sobre Garnwell; dir-se-ia que a calma, expulsa pelo eco dos clamores 
guerreiros, regressara quelas pacficas paragens; mas esse silncio comparava-se ao que se estende sobre a natureza alguns minutos antes da borrasca. Os olhos permanecem 
inquietos, o ouvido atento, esperam-se com angstia os ribombos do trovo.
     O inimigo ainda tardou dez dias.
     Enfim, um dos vigias da estrada que haviam sido postados na floresta veio anunciar a aproximao de um bando de homens a cavalo.
     A notcia voou de boca em boca, o sino tocou a rebate e os camponeses lanaram-se como um s homem aos diferentes postos que lhes tinham sido designados. Escondidos 
por trs das paredes das suas barricadas, conservaram-se mudos, de arco estendido, atentos a seguir com um olhar a rpida marcha do inimigo.
     No avistando ningum, no ouvindo rudo algum que pudesse revelar uma tentativa de defesa, o chefe dos soldados de Henrique II esfregava alegremente as mos 
na persuaso em que estava de surpreender os moradores de Garnwell. Todavia esse chefe, que conhecia o temperamento dos saxes, que sabia por experincia, tendo-o 
aprendido  sua prpria custa, que esses homens valentes se batiam muito bem, preparara-se para encontrar obstculos em sua marcha. O silncio que reinava na plancie 
causava-lhe portanto um vivssimo prazer, levando-o a crer que poderia chegar de improviso.
     A tropa normanda compunha-se de uns cinqenta homens, os aldees eram em nmero de cem; como se v, a fora destes ltimos era bem superior  do inimigo, sem 
contar a excelncia da sua posio.
     Sempre convencido de que ia cair sobre a aldeia como o faz a ave de rapina sobre um pssaro inocente, o chefe normando ordenou aos seus homens que ativassem 
a marcha nos cavalos. Estes obedeceram, e num passo vivo subiram rapidamente a colina.
     Mal tinham, porm, atingido o alto dessa colina, quando uma revoada de flechas, de dardos e de pedras os envolveu dos ps  cabea. A surpresa dos soldados 
foi to grande que uma segunda nuvem de flechas os alcanou antes mesmo que eles tivessem pensado em responder ao inesperado ataque.
     A queda de trs ou quatro soldados mortalmente atingidos provocou nos normandos um grito de indignao; s ento avistaram as barricadas, se lanaram contra 
a primeira e carregaram com verdadeiro furor.
     Valentemente recebidos e repelidos com violncia pelos saxes, invisveis nos seus esconderijos, os soldados compreenderam no lhes restar outro partido seno 
o de se baterem com coragem. Conseguiram apoderar-se da primeira barreira; atrs dessa encontrava-se uma segunda, e havia ainda uma terceira para os deter. Tinham 
j perdido vrios homens, e para cmulo de decepo era-lhes impossvel constatar se chegavam a abater ou no alguns dos seus inimigos. Os saxes, que na sua maior 
parte eram arqueiros muito experimentados, no erravam nunca o alvo e as suas flechas semeavam a morte e a destruio em meio ao pequeno exrcito.
     Os soldados, furiosos por no poderem encontrar-se frente a frente com o inimigo, comeavam a lamentar-se. O chefe, que apanhou no ar aqueles murmrios de descontentamento, 
ordenou aos seus homens que operassem uma falsa retirada, a fim de obrigar os saxes a abandonar o seu secreto asilo. Esse ardil de guerra foi imediatamente posto 
em prtica: os normandos fingiram retirar-se em ordem, e encontravam-se j a uma certa distncia das barricadas quando um grande brado anunciou a apario dos vassalos 
de sir Guy.
     Sem deter a marcha da sua tropa, o chefe normando lanou um olhar  retaguarda.
     Os aldees corriam tumultuosamente e em aparente desordem em perseguio dos seus inimigos.
      No vos volteis, rapazes!  gritou o chefe;  deixai que eles se aproximem mais. Ns os apanharemos! Ateno! Muita ateno! Continuai a retirada.
     Os soldados, animados pela esperana de uma desforra espetacular, continuaram a afastar-se.
     Mas de repente, para a grande surpresa do chefe normando, os saxes em vez de tentarem diminuir a distncia que os separava dos soldados, acomodaram-se de novo 
na primeira barricada que lhes havia sido arrebatada, e desse posto despediram, com incomparvel destreza, uma outra nuvem de flechas contra os fugitivos.
     O chefe, exasperado, reconduziu os seus homens para o caminho j percorrido, e num salto furioso do seu cavalo, colocou-se  dianteira da pequena tropa.
     Subitamente uma chuva de flechas disparadas por mos hbeis cobriu o desventurado normando; ele vacilou na sela, e sem exalar um grito rolou qual massa inerte 
aos ps do seu cavalo, que, ferido tambm, pulou para fora das fileiras e foi cair morto a alguns passos do cadver do dono.
     Abatidos j pelo insucesso dos seus esforos, os soldados ficaram completamente desmoralizados diante daquela nova desgraa. Recolheram o corpo do chefe, e 
sem se darem ao trabalho de contar os mortos e de levar consigo os feridos, retiraram-se do campo de batalha to depressa quanto o permitiam os seus vigorosos cavalos.
     Depois de haverem celebrado com gritos de jbilo a fuga dos soldados, os camponeses ocuparam-se, no a segui-los, mas a recolher os feridos e a dar sepultura 
aos mortos. Dezoito normandos tinham sucumbido na luta, inclusive o chefe levado pelos seus homens.
     Os bons aldees ficaram to contentes com a vitria alcanada que j pensavam em mandar reconduzir as suas mulheres para Garnwell, mas Joo-Pequeno deu claramente 
a entender aos seus ingnuos companheiros que o rei no limitaria a sua vingana a essa nica remessa de soldados, e que necessitavam preparar-se para receber a 
visita de um nmero de homens mais considervel.
     Como servidores devotados de sir Guy, os vassalos submeteram-se aos conselhos daquele jovem chefe, e dedicaram-se a fortificar as barreiras e a fabricar novas 
armas. Graas aos cuidados de Joo-Pequeno, o solar foi aprovisionado de uma grande quantidade de vveres e colocado em situao de agentar as conseqncias de 
um verdadeiro cerco. Uns trinta outros camponeses, aliados e amigos dos proprietrios de Garnwell, vieram juntar-se  tropa defensora, e armados at aos dentes, 
de esprito alerta, constantemente na defensiva, os valentes saxes ficaram aguardando a volta dos sanguinrios normandos.
     O ms de julho ia chegando ao fim, e havia quinze dias que os aldees esperavam os seus perigosos visitantes; prepararam-se para ser atacados s primeiras horas 
da manh, por isso que, segundo toda a probabilidade, os normandos fatigados por uma rpida marcha em um tempo de calor, tomariam em Nottingham uma noite de repouso.
     Uma tarde, dois habitantes da aldeia que acabavam de chegar de Mansfeld, onde tinham ido fazer algumas compras, anunciaram aos seus amigos que uma tropa de 
soldados composta de trezentos homens chegara nesse dia a Nottingham, onde tencionava passar a noite a fim de alcanar sem fadiga o solar de Garnwell.
     Essa notcia produziu, como era de esperar, uma grande emoo, mas essa emoo logo deu lugar a um sentimento de vigilante entusiasmo.
     No dia seguinte ao romper da manh, os aldees, reunidos em torno de frei Tuck, ouviram piedosamente a missa, e Joo-Pequeno que unira as suas preces s daqueles 
homens, instalou-se no meio deles, e com voz branda e sonora assim se exprimiu:
      Meus amigos, desejo falar-vos antes de nos dirigirmos todos ao posto onde o dever nos chama; mas eu sou um homem pouco letrado e a eloqncia no pertence 
ao nmero das minhas escassas virtudes. Todo o homem possui uma inclinao especial para uma dada atividade, a minha consiste em saber manejar um bordo e em disparar 
habilmente uma flecha. Desculpai-me, portanto, se me exprimo mal, e escutai-me com ateno. O inimigo aproxima-se: no deveis sair dos vossos esconderijos a no 
ser em caso de extrema necessidade.  Se fordes forados a atacar o inimigo corpo a corpo, procedei com calma, sem precipitao; lembrai-vos bem de que, se vos acontecer 
a desgraa de perderdes o vosso sangue frio, descuidar-vos-eis, inevitavelmente, dos atos mais importantes da vossa defesa pessoal. Sabeis muito bem, meus amigos, 
que uma coisa que precisa de ser bem feita no pode ser realizada s pressas. Disputai passo a passo cada polegada de terreno, empenhai sem clera as vossas armas 
e cuidai de no falhar um s dos vossos tiros, porque a perda da vida ser o resultado do vosso erro. Mostrai aos nossos inimigos que cada palmo da nossa terra natal 
vale a existncia de um cachorro normando. Mais uma vez vos repito, meus rapazes, sede calmos, valentes e firmes, vendei por alto preo aos soldados de Henrique 
as vantagens que a fora do nmero e das armas lhes pode fazer conseguir. Hurra por Garnwell e pela nossa coragem de saxes.
      Hurra!  gritaram alegremente os vassalos.
     Com mo firme todos apanharam as suas armas, com o olhar brilhante todos esperaram ao longe a apario do inimigo.
      Meus amigos!  exclamou Robin correndo por sua vez para o lugar que Joo-Pequeno acabava de ocupar,  no esqueais que vos bateis pelos vossos lares, recordai-vos 
de que defendeis o teto que abriga as vossas mulheres, que cobre o bero dos vossos filhos; lembrai-vos de que os normandos so os vossos opressores, que marcham 
sobre as nossas cabeas, que tiranizam os fracos, e que jamais estendem a mo a no ser para incendiar, matar ou destruir! lembrai-vos de que esta foi a morada dos 
nossos ancestrais, e que estais na obrigao de a defender contra qualquer ataque. Batei-vos com entusiasmo, meus camaradas, batei-vos enquanto vos restar nos lbios 
um sopro de vida!
      Sim, sim, ns nos bateremos com entusiasmo!  responderam os homens com uma s voz.
     Trs horas aps o nascer do sol, o som de uma trompa anunciou a aproximao do inimigo.
     Os batedores de estrada regressaram a Garnwell, e dentro em pouco, do mesmo modo que no ataque anterior os defensores do solar se fizeram invisveis.
     O corpo inimigo avanava lentamente, e era fcil avaliar, pela extenso de terreno que ocupava, que se compunha na verdade de duzentos ou trezentos homens.
     Os cavaleiros reuniram-se ao p da colina que era necessrio subir antes de avistar Garnwell, e aps um concilibulo de alguns minutos a tropa dividiu-se em 
quatro partes.
     A primeira lanou-se a galope em direo  colina, a segunda desmontou e seguiu os cavaleiros, a terceira rodeou a colina pelo lado esquerdo e a ltima encaminhou-se 
para a direita.
     Essa manobra, que havia sido prevista, foi devidamente enfrentada; defesas tinham sido erguidas junto s rvores existentes no alto da colina, e os intervalos 
entre essas rvores estavam eriados de silvas e ramagens to naturalmente entrelaadas que os soldados se felicitavam pelo encontro de um abrigo ao p do qual lhes 
seria permitido reunirem-se to depressa chegassem ao alto da colina.
     Ao aproximarem-se dessas rvores protetoras os normandos receberam uma revoada de tiros de flecha, que, ao mesmo tempo que feria os homens fazia empinar os 
cavalos, lanou a confuso entre os soldados e obrigou essa parte da tropa a descer a colina muito mais rapidamente do que a havia subido.
     Os grupos enviados pelos dois lados opostos da colina, receberam uma acolhida to desastrosa quanto a dos seus companheiros.  Em conseqncia disso ficou decidido 
que o avano, tornado impossvel com os cavalos, passaria a ser feito a p.
     Os soldados abandonaram as suas montarias, e protegidos pelos escudos enveredavam resolutamente pelos trs caminhos designados pelo seu chefe, enquanto uma 
parte da tropa, deixada em reserva, devia esperar na base da colina o resultado de um primeiro ataque contra as barreiras.
     Os normandos atingiram rapidamente as defesas, que, de uma altura de sete ps, eram de espao a espao cortadas de seteiras para a passagem das flechas. Em 
lugar de perderem um tempo precioso a visar um inimigo protegido contra os seus disparos, puseram-se a escalar aquela muralha vegetal.
     Os aldees no tentaram opor uma resistncia que seria intil, e contentaram-se em passar para a segunda barreira; os normandos, excitados por esse primeiro 
sucesso, lanaram--se confusamente em perseguio dos camponeses e atacaram a nova barricada com indizvel furor. Por um momento os dois partidos lutaram quase corpo 
a corpo, e a luta ia-se tornando sangrenta quando um sinal chamou os saxes levando-os a recuar para o abrigo da terceira barricada.
     Essa retirada fez ento compreender aos normandos que eles perdiam a cada instante o terreno ganho.
     O capito reuniu os seus homens a fim de se entender com eles sobre um novo plano de ataque, e depois de lhes ter ouvido a opinio, ps-se a olhar atentamente 
em redor de si.
     Garnwell achava-se colocada no centro de uma vasta plancie, e a colina que de alguma sorte lhe servia de proteo era ao mesmo tempo um caminho impraticvel 
para os cavalos e cheio de perigos para os homens.
     O capito perguntou aos seus soldados se no haveria entre eles algum que conhecesse a localidade.
     Essa pergunta do capito, correndo de boca em boca, levou  sua presena um campons que pretendia conhecer a aldeia de Garnwell onde tinha um parente.
      Tu s saxo, rapaz?  perguntou-lhe o oficial carregando o sobrolho.
      No, meu capito, sou normando.
      Esse teu parente  aliado dos rebeldes?
      Penso que sim, capito, porque ele  saxo.
      Ento como diabo  ele teu parente?
      Porque se casou com minha cunhada.
      Conheces a aldeia?
      Conheo, meu capito.
      Podes guiar os meus homens at Garnwell por outro caminho que no seja este?
      Posso, meu capito; h no sop da colina um atalho que conduz diretamente ao solar de Garnwell.
      Ao solar de Garnwell?  interrogou o oficial.  Onde est situado esse solar?
      L adiante,  sua esquerda, meu capito;  aquele grande edifcio, cercado de rvores.   l que mora sir Guy.
      O velho rebelde a quem viemos sujeitar? Com a breca! O rei Henrique bem poderia dar-me uma tarefa mais fcil que a de fazer sair da sua toca esse cachorro 
saxo. Dize c, maroto, posso ter confiana em ti?
      Absoluta confiana, meu capito; e se seguir as minhas indicaes, ver que no lhe estou mentindo.
      Fao votos de que assim seja para garantia das tuas orelhas  respondeu o oficial num tom ameaador.
      Creio que j lhe prestei algum servio guiando-o at este ponto  volveu o homem.
      Sem dvida, sem dvida; mas por que motivo no me indicaste desde logo esse caminho?
      Porque os saxes se teriam apercebido do movimento da tropa e tomariam precaues para lhe deter a marcha. Um punhado de valentes pode proteger esse atalho 
contra um milheiro de homens.
      Dizes tu que ele est situado no sop da colina?  tornou a perguntar o chefe.
      Justamente, meu capito, na orla da floresta.
     O oficial, encantado com aquela informao, ordenou a uma parte da sua tropa que se preparasse para seguir o guia, enquanto ele, a fim de chamar para outro 
ponto a ateno dos saxes, ia dar incio a um novo ataque de diverso.
     Mas os projetos do capito estavam destinados ao fracasso.
     O cunhado do guia, que com efeito se contava entre os defensores de sir Guy, reconheceu o parente, e mostrando-o a Joo-Pequeno fez-lhe notar a espcie de concilibulo 
que parecia ter lugar entre ele e seu chefe.
     Joo-Pequeno adivinhou imediatamente a traio do campons, e chamando mais ou menos uns trinta homens, colocados sob o comando de um dos seus primos, mandou-os 
vigiar as proximidades do caminho que supunha ameaado de invaso.
     Tomada essa precauo, Joo-Pequeno mandou chamar Robin Hood.
      Caro amigo  disse-lhe ele,  poders atingir com uma das tuas flechas um objeto qualquer visvel no alto da colina?
      Acho que sim  respondeu modestamente o jovem.
      Bem, para melhor dizer, tens a certeza disso  volveu Joo-Pequeno.  Pois bem! Segue o meu olhar. Ests vendo aquele homem colocado  esquerda do soldado 
que traz na cabea uma grande penacho? Esse homem, caro amigo,  um traidor de primeira, e estou convencido de que deu ao seu chefe as indicaes necessrias que 
o faro alcanar Garnwell pelo atalho da floresta.  Trata de derrubar esse miservel.
      Com a melhor vontade.
     Robin estendeu o seu arco, e dois segundos depois o homem apontado por Joo-Pequeno deu um pulo de dor, soltou um grito e caiu para no mais se levantar.
     O chefe normando reuniu prontamente os seus homens e decidiu tomar de assalto as barreiras.
     Os saxes defenderam-se com a maior bravura, mas sendo inferior em nmero no puderam impedir a escalada e retiraram-se em ordem na direo de Garnwell.
     Transpostas as barricadas, os normandos facilmente ganharam terreno; penetraram na aldeia, e uma espcie de terror pnico se apoderou dos camponeses. Estes 
preparavam-se j para fugir, quando uma voz potente lhes gritou a plenos pulmes:
      Saxes, parai! Aquele que tiver coragem seguir o seu chefe!  Avante! avante!
     Essa voz, que era a de Joo-Pequeno, levantou os nimos combalidos dos aldees apavorados, os quais voltando-se envergonhados da sua fraqueza, se dispuseram 
a seguir o chefe.
     Este precipitou-se como um leo ao encontro de um homem de alta estatura que partilhava com o chefe principal o comando da tropa, e que pela violncia dos seus 
golpes causara o pavor dos camponeses.
     Ao avistar Joo-Pequeno, que avanava ao seu encontro derrubando como canios flexveis os soldados que tentavam opor-se  sua passagem, o homem de que falamos 
armou-se de um machado e correu ousadamente a enfrent-lo.
      At que enfim nos encontramos novamente, senhor mateiro!  gritou o homem que outro no era seno Gofredo.  Posso agora vingar-me com um s golpe de todo 
o mal que me tens feito.
     Joo-Pequeno sorriu desdenhosamente, e quando Gofredo, depois de ter feito rodopiar a sua machada, tentou faz-la descer sobre a cabea do adversrio, este, 
num gesto rpido como o pensamento, arrancou-lha das mos arremessando-a a vinte passos de distncia.
      No passas de um miservel  bradou Joo-Pequeno,  e merecias a morte; mas ainda uma vez tenho piedade de ti: defende a tua vida!
     Os dois homens, ou para melhor dizer os dois gigantes, porque Gofredo o forte, como todos devem estar lembrados, era de uma estatura to surpreendente quanto 
a de Joo-Pequeno, deram incio a um terrvel combate. Muito tempo durou a luta, e a vitria, que por largo espao se manteve incerta, decidiu-se bruscamente a favor 
de Joo-Pequeno, o qual, concentrando todo o seu vigor num supremo esforo, assestou um poderoso golpe de espada no ombro de Gofredo, fendendo-lhe o corpo at  
espinha dorsal.
     O vencido caiu sem exalar um grito, e os dois campos rivais, que haviam assistido em silncio a esse estranho combate, olhavam com um espanto misturado de horror 
o terrvel ferimento causado pela mortfera cutilada.
     Joo-Pequeno no se demorou diante do corpo do rival; ergueu com mo firme acima da cabea a espada coberta de sangue e atravessou as fileiras normandas como 
se fosse o prprio deus da guerra, da devastao e da morte.
     Ao chegar a uma elevao do terreno o moo olhou ento para trs de si, percebendo que apesar de toda a sua coragem, cercados pelos normandos, os vassalos se 
encontravam na impossibilidade de resistir.
     Imediatamente empunhou a sua trompa e deu uma ordem de retirada, e precipitando-se outra vez contra as fileiras inimigas abriu caminho para os seus homens. 
A sua fulminante espada manteve durante alguns instantes os soldados em respeito, e os saxes, secundando os esforos do seu chefe, foram pouco a pouco alcanando 
o ptio do solar. Reunidos num s corpo e batendo-se com desespero conseguiram transpor as portas do castelo, preparados j para resistir aos ataques de um cerco.
     Os normandos atiraram-se s portas de machada na mo, mas essas portas, de carvalho macio, resistiram ao furioso assalto. Puseram-se ento a correr em redor 
da vasta construo, na esperana de descobrir uma entrada mal defendida. Mas essas tentativas, alm de inteis no tardaram a revelar-se perigosas, porque os saxes 
jogavam do alto das janelas pedras imensas e varavam-nos de flechas.
     O capito normando, aterrado com os claros que faziam entre seus homens os projteis lanados pelos sitiados, chamou-os a si, e depois de ter colocado uma centena 
deles em redor do solar, desceu para a aldeia. Como se sabe, as casas de Garnwell estavam vazias. Os soldados, com a permisso do chefe, esquadrinharam todas as 
moradias; mas para sua grande mortificao encontraram-nas no somente desertas como tambm vazias de toda a presa e munio de boca.
     Contando com os recursos resultantes de uma pronta vitria eles no tinham trazido vveres, de modo que se encontravam agora em tremendo embarao. As manifestaes 
de descontentamento logo se produziram. Imediatamente o chefe remeteu para a floresta uma dzia de homens reputados como bons caadores, a fim de tentarem a captura 
de alguns veados. A caada teve um xito brilhante; os esfaimados conseguiram refazer-se, e o capito, que estabelecera o seu acampamento na aldeia, deu ordem para 
que metade da tropa descansasse, enquanto a outra metade preparava as armas para um ataque noturno ao edifcio onde se abrigavam os saxes.
     Mais felizes do que os seus inimigos, os camponeses tinham feito um excelente repasto e dormido um pouco depois de haverem recolhido os seus mortos e cuidado 
dos feridos.
     Ao cair da noite uma forte claridade revelou aos saxes a derradeira manobra dos seus inimigos: a aldeia estava em chamas.
      Observa, meu caro Joo-Pequeno  disse Robin Hood mostrando ao seu camarada o lgubre claro,  aqueles miserveis esto queimando sem piedade as cabanas 
dos nossos camponeses.
      E sem dvida tambm poro fogo ao solar, meu amigo  respondeu Joo-Pequeno com tristeza;  precisamos preparar-nos para suportar essa nova desgraa. A velha 
manso est cercada de rvores e arder como um monte de palha.
      Com que resignao dizes isso!  estranhou Robin.   No haver um meio qualquer de prevenir essa odiosa tentativa?
      Empregaremos todos os meios que estiverem ao nosso alcance, meu caro Robin; mas no tenhas muitas iluses, o fogo  um inimigo difcil de vencer.
      Olha, Joo, l est outra cabana ardendo; ser que eles pretendem incendiar toda a povoao?
      Pois ainda tens alguma dvida, meu caro Robin? Sim, eles destruiro a nossa querida Garnwell, e quando tiverem acabado l a sua obra diablica, viro tentar 
pr fogo aqui.
     Os camponeses, desesperados, observavam aquele espetculo soltando indignadas exclamaes; queriam sair do solar e satisfazer naquele mesmo instante o violento 
desejo de vingana que lhes mordia o corao;  mas Joo-Pequeno, avisado por um dos primos, correu para o meio deles e disse-lhes num tom emocionado:
      Compreendo o vosso furor, valentes companheiros, mas por quem sois, esperai! Se conseguirmos defender-nos at ao romper do dia, sairemos vencedores. Esperai, 
esperai, dentro de um quarto de hora esses miserveis estaro aqui.
      J a esto!  exclamou Robin.
     Com efeito os normandos avanavam para o castelo, soltando grandes gritos e carregando s mos ambas ties inflamados.
      Cada qual para o seu posto, meus valentes, cada qual para o seu posto!  berrou o sobrinho de sir Guy;  dirigi as vossas flechas com ateno, apontai com 
cuidado para no perderes um nico tiro. Tu, Robin, fica ao p de mim para ferir de morte aqueles que eu designar.
     Os normandos cercaram o edifcio, e mantendo-se a uma relativa distncia das janelas e das barbacs atiraram contra as portas as suas tochas acesas; mas as 
tochas, imediatamente atingidas pelas torrentes de gua que os camponeses despejavam, extinguiam-se sem causar qualquer dano aprecivel.
     O fogo foi impedido e uma espcie de alegre rugido vindo dos soldados atraiu a uma janela Robin e Joo-Pequeno.
     Precedidos do chefe, uma dezena de soldados arrastava um instrumento que, segundo toda a probabilidade, devia destinar-se a arrombar a porta. No momento em 
que, sob a direo do capito, os normandos iam instalar a mquina no lugar que ela devia ocupar, Joo-Pequeno disse a Robin:
      Manda-me uma flecha quele maldito capito; vejo que no h outro remdio.
      No desejo outra coisa; mas ser difcil atingi-lo mortalmente porque ele est revestido de uma cota de malha, e s mesmo acertando-lhe no rosto.
      Muita ateno, Robin  disse Joo,  prepara o teu arco... atira, atira agora! Ests vendo a face dele iluminada pelo claro da tocha?  A morte desse homem 
nos salvar.
     Robin, que acompanhava os movimentos do chefe, disparou no momento exato. A flecha partiu. O capito, atingido entre as sobrancelhas, caiu para trs. Os soldados 
perplexos reuniram-se confusamente em torno do chefe e uma espantosa desordem lhes dispersou as fileiras.
      Agora, saxes!  bradou Joo-Pequeno com voz vibrante,  mandai uma nuvem de flechas sobre aqueles incendirios!
     Essa nova descarga foi de tal modo destruidora que os soldados que ficaram de p se sentiram perdidos.
     Iam fugindo todos quando um normando, servindo-se da prpria autoridade para se colocar  frente dos companheiros, lhes props empregarem um derradeiro meio 
para obrigar os camponeses a sair da fortaleza. Um pequeno grupo de rvores, principalmente composto de pinheiros, achava-se colocado diante da fachada interior 
do edifcio, isto , do lado dos jardins. Os normandos conduzidos pelo seu novo chefe, cortaram ao meio os troncos das rvores mais prximas do telhado da residncia, 
depois de terem previamente ateado fogo aos ramos mais altos. Joo-Pequeno que observava, tomado de verdadeira angstia, os rpidos progressos dessa infernal artimanha, 
deixou escapar um brado de furor e disse a Robin:
      Eles encontraram um meio para nos obrigar a sair; as rvores vo comunicar fogo ao teto, e dentro de alguns instantes o solar estar envolvido pelas chamas. 
Robin, precisas derrubar os portadores das tochas, e vs, meus amigos, no poupeis as vossas flechas. Morte aos lobos normandos! Morte aos lobos!
     As rvores, rapidamente esbraseadas, tombaram sobre o teto com espantoso fragor, e um claro vermelho em breve coroou o cimo do edifcio.
     Joo-Pequeno reuniu os seus homens no grande salo, dividiu-os em trs partes, colocou-se juntamente com Robin Hood  frente da primeira, entregou a frei Tuck 
o comando da segunda, confiou a terceira  direo do velho Lincoln e cada um dos grupos preparou-se para sair do solar por uma porta diferente.
     Sir Guy assistiu com atitude impassvel aos preparativos para essa retirada; mas quando o sobrinho o veio convidar a deixar a sala com ele, o velho fidalgo 
exclamou:
      Desejo morrer sob as runas da minha casa.
     Joo-Pequeno, Robin e os jovens Garnwell debalde suplicaram ao velho que sasse, em vo lhe apontaram a rubra labareda que projetava na sala uma sangrenta claridade, 
em vo lhe falaram da mulher e das filhas queridas; o velho saxo permaneceu surdo a todas as preces, insensvel a todas as lgrimas.
      Cuidado! Cuidado!  gritou subitamente Robin Hood;  o teto no tardar a cair!
     Joo-Pequeno segurou o tio, apertou-o em seus braos, e a despeito dos protestos do velho e das suas lamentaes, carregou-o para fora do perigoso salo.
     Mal os saxes haviam transposto as portas do solar quando um sinistro fragor se fez ouvir: os soalhos sobrecarregados com o peso do teto desabaram uns aps 
outros, e a velha morada senhorial lanou pelas suas aberturas turbilhes de fogo e de fumaa.
     Joo-Pequeno entregou sir Guy aos cuidados de alguns homens escolhidos, ordenando-lhes que tomassem a toda a pressa o caminho sabido de Yorkshire.
     Com o esprito tranqilo desse lado, o invencvel Joo-Pequeno armou-se novamente da sua triunfante espada e lanou-se contra o inimigo gritando:
      Vitria! Vitria!  Pedi quartel! Pedi misericrdia!
     A apario de Tuck, envergando o seu hbito de monge, espalhou um terror pnico entre os normandos; nenhum deles ousou defender-se contra um membro da santa 
Madre Igreja, e tomados de sbito pavor romperam a fugir, perseguidos pelos saxes, para o ponto onde estacionavam os cavalos, saltaram agilmente para as selas e 
afastaram-se a toda a brida. Dos trezentos normandos que haviam chegado de manh restavam apenas setenta. Os aldees, embriagados pela vitria cercaram Joo-Pequeno, 
o qual depois de ter mandado recolher os feridos e mortos assim falou aos seus companheiros de luta:
      Saxes! Destes hoje a prova de que sois dignos de usar este nobre nome; mas, ai! Apesar da vossa incontestvel valentia, os normandos alcanaram o fim que 
se propunham; incendiaram as vossas cabanas, fizeram de vs uns pobres banidos. A vossa permanncia aqui tornou-se desde agora impossvel; em breve um novo bando 
de soldados por cerco a estas runas, precisais portanto afastar-vos delas. Resta-nos ainda um meio de salvao: a floresta oferece-nos um asilo. Qual de vs, meus 
amigos, no dormiu ainda sobre o musgo do bosque e sob a ondeante cortina das verdes folhas das suas rvores?
      Vamos para a floresta! Vamos para a floresta!  gritaram vozes numerosas.
      Sim, vamos para a floresta  repetiu Joo-Pequeno;  l poderemos viver juntos, trabalharemos uns para os outros; mas para que a nossa felicidade possa apoiar-se 
na segurana de uma harmonia estvel, indispensvel se torna que nomeeis um chefe.
      Um chefe?  Podes muito bem ser tu, Joo-Pequeno.
      Viva Joo-Pequeno!  responderam os vassalos num brado unnime.
      Meus caros amigos  tornou o jovem mateiro,  agradeo-vos infinitamente a honra que acabais de fazer-me, mas no a posso aceitar. Consenti que vos apresente 
imediatamente aquele que  na verdade digno de ser colocado  vossa frente.
      Quem  ele?  Onde est ele?  perguntaram.
      Ei-lo aqui  respondeu Joo-Pequeno poisando a mo no ombro de Robin Hood.  Robin Hood, meus amigos,  um verdadeiro saxo e o mais valente de todos. A sua 
prudncia e faculdade de julgar igualam a sabedoria de um velho. Robin Hood  o prprio conde de Huntingdon, o descendente de Waltheof, filho idolatrado da Inglaterra. 
Os normandos, que lhe roubaram os bens, disputam-lhe ainda os seus ttulos de nobreza, e o rei Henrique proscreveu Robin Hood. Agora, meus valentes, respondei  
minha pergunta: quereis receber como chefe o sobrinho de sir Guy de Garnwell, o nobre Robin Hood?
      Queremos, queremos!  bradaram os camponeses, orgulhosos de ter por chefe o conde de Huntingdon.
     O corao de Robin Hood pulsava de alegria, os seus planos secretos tinham enfim uma esperana de realizao. Sentia-se orgulhoso, e, digamo-lo tambm, sabia-se 
digno de realizar a difcil misso que lhe era destinada pelo afeto do amigo. Depois de ter passeado pelos saxes um olhar fulgurante, descobriu-se, e com a mo 
apoiada no brao de Joo-Pequeno disse num tom comovido:
      Meus amigos, sinto-me feliz ao ver que me aceitais por chefe, e a todos vos agradeo do mais ntimo da alma. Farei, podeis ficar certos disso, tudo o que 
estiver ao meu alcance para merecer a vossa estima e a vossa afeio. A minha excessiva mocidade poderia ser para vs um motivo de receio e de desconfiana se eu 
no tomasse o cuidado de vos dizer que os meus pensamentos, os meus sentimentos e as minhas aes so os de um homem que sofreu, e por conseqncia de um homem feito. 
Encontrareis em mim um irmo, um camarada, um amigo, e s um chefe em caso de absoluta necessidade. Conheo bem a floresta, nossa futura morada, e comprometo-me 
a encontrar para vs, dentro dela, um asilo seguro, e a tornar-vos a existncia feliz e agradvel. O segredo desse asilo no dever jamais ser confiado a ningum; 
ns seremos os nossos prprios guardies, e sero indispensveis e discrio e a prudncia. Preparai-vos para partir, vos conduzir-vos a um retiro inacessvel aos 
nossos inimigos.  Mais uma vez, queridos irmos saxes, agradeo a vossa confiana; ela ser merecida, e eu estarei sempre convosco tanto nas horas de tristeza como 
nas de alegria.
     Os preparativos da partida no foram muito demorados, porque os normandos nada tinham deixado aos infelizes proscritos.
     Trs horas depois, Robin Hood e Joo-Pequeno, seguidos dos aldees, penetravam num espaoso subterrneo situado no meio da floresta. Essa espcie de caverna, 
perfeitamente seca, tinha no teto largas aberturas que permitiam ao ar e  luz circular livremente em toda a sua extenso.
      Na verdade, Robin Hood,  disse Joo-Pequeno  eu que conheo a floresta to bem como tu, estou maravilhado com a tua descoberta; como  possvel que a floresta 
de Sherwood contenha um lugar to confortvel para morar?
       provvel  respondeu Robin,  que ela tenha sido construda no tempo de Guilherme I pelos refugiados saxes.
     Alguns dias aps a instalao dos nossos amigos na floresta de Sherwood, dois homens do seu bando que tinham ido fazer compras a Mansfeld, trouxeram a Robin 
a notcia de que uma fora composta de quinhentos normandos acabara, na impossibilidade de fazer outra coisa, por demolir as paredes da hospitaleira manso que havia 
sido o solar de Garnwell.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
XX
     
     
     PASSARAM-SE cinco anos.
     O bando de Robin Hood, confortavelmente instalado na floresta a vivia em segurana, embora a sua existncia fosse conhecida dos normandos, seus inimigos naturais. 
Utilizara a princpio, para se nutrir, os produtos da caa, mas com o tempo esse recurso poderia tornar-se insuficiente, o que levou Robin Hood a prover de um modo 
mais certo s necessidades da sua gente.
     Em conseqncia, tendo mandado guardar os caminhos que em todos os sentidos atravessavam a floresta de Sherwood, fizera cobrar um imposto sobre a passagem dos 
viajantes. Esse imposto, por vezes exorbitante se o estrangeiro surpreendido pelo bando era um grande senhor, reduzia-se a pouqussima coisa nos casos opostos. Alis, 
essas extorses cotidianas no tinham de modo algum a aparncia de um roubo, sendo feitas com tanta equidade quanta cortesia.
     Eis de que maneira os homens de Robin Hood faziam parar os viajantes:
      Senhor estrangeiro  diziam eles tirando polidamente o barrete que lhes cobria a cabea,  nosso chefe, Robin Hood, espera Vossa Senhoria para comear a sua 
refeio.
     Esse convite, que no podia ser recusado, era ao contrrio acolhido com um sentimento de gratido.
     Levado, sempre cortesmente,  presena de Robin Hood, o estrangeiro sentava-se  mesa com o seu anfitrio, comia bem, bebia ainda melhor, e ao chegar  sobremesa 
era inteirado da importncia dos gastos que haviam sido feitos em sua honra.  claro que a soma era proporcional ao valor financeiro do convidado. Se estava bem 
provido de dinheiro, ele pagava; se tinha apenas consigo uma importncia insuficiente, dava o nome e o endereo de sua famlia,  qual era pedido um forte resgate. 
Neste ltimo caso o viajante, enquanto prisioneiro, era to bem tratado que esperava sem o menor aborrecimento a hora da sua libertao. O prazer de jantar com Robin 
Hood custava muito caro aos normandos, que todavia se no queixavam jamais de ter sido a isso constrangidos.
     Duas ou trs vezes uma companhia de soldados foi enviada contra esses moradores da floresta; mas, sempre vergonhosamente batida, regressava declarando que o 
grupo de Robin Hood era invencvel. Se os grandes senhores eram largamente despojados, em compensao a gente pobre, saxes ou normandos, recebia uma acolhida amistosa. 
Na ausncia de Tuck permitiam-se de vez em quando prender um frade; se ele consentia de bom grado em rezar uma missa para o bando, era generosamente recompensado.
     O nosso velho amigo Tuck achava-se demasiado feliz em to alegre companhia para ter tido um nico instante a idia  de se separar dela. Fizera construir uma 
ermida nos arredores da caverna e vivia lautamente dos melhores produtos da floresta. O digno frade bebia vinho sempre que tinha a sorte de conseguir algumas garrafas, 
cerveja forte  falta de vinho, e a! gua pura quando a fortuna inconstante lhe retirava os seus favores. Mas neste ltimo caso o pobre Gil fazia uma careta de 
desgosto declarando nauseabunda a gua lmpida dos regatos. O tempo no parecia ter melhorado o carter do valente frade. Era sempre o mesmo homem, tagarela, ruidoso, 
fanfarro e de rplica pronta. Acompanhava o bando nas suas excurses atravs da floresta, e era um gosto encontrar esses alegres camaradas de faces risonhas e animada 
conversa, que mesmo detendo os viajantes nunca perdiam o bom humor. Mostravam-se a todos que os encontravam to visivelmente felizes, to encantados com a sua maneira 
de viver, que a voz pblica lhes chamou com simpatia os alegres homens da floresta.
     Decorridos quase cinco anos ningum mais tornara a ouvir falar de Allan Clare ou de Lady Christabel; sabia-se apenas que o baro Fitz-Alwine acompanhara Henrique 
II  Normandia.
     Quanto ao pobre Will Escarlate fora engajado numa companhia.
     Halbert, que desposara Graa May, vivia com sua mulher na pequena cidade de Nottingham, e j era pai de uma encantadora menina de trs anos.
     Maude, a linda Maude, como dizia o gentil William, continuava a fazer parte da famlia Garnwell, que, como tivemos oportunidade de dizer, se retirara secretamente 
para uma propriedade do Yorkshire.
     O velho baronete encontrara junto da mulher e dos filhos o esquecimento da sua desgraa; recuperara as foras e a sua florescente sade prometia-lhe uma longa 
vida.
     Os filhos de sir Guy tinham-se tornado companheiros de Robin Hood, e viviam com ele na verde floresta.
     Uma grande mudana se operara na pessoa do nosso heri; crescera, seus membros tinham-se fortalecido, a delicada beleza dos seus traos tomara, sem prejuzo 
de uma perfeita distino, as formas da virilidade. Com vinte e cinco anos de vida, Robin Hood parecia ter alcanado os trinta; a audcia brilhava nos seus grandes 
olhos negros; os seus cabelos de sedosos caracis emolduravam uma fronte pura, apenas levemente dourada das carcias do sol; a boca e os bigodes de um negro de azeviche 
davam  sua encantadora face uma expresso de seriedade, mas a severa aparncia da fisionomia em nada prejudicava a jovialidade do seu temperamento. Robin Hood, 
que excitava ao mais alto ponto a admirao das mulheres, no se mostrava com isso orgulhoso nem ftuo: seu corao continuava pertencendo a Mariana.
     Amava a formosa criatura to ternamente como no passado e ia frequentemente visit-la ao castelo de sir Guy. O recproco amor dos dois jovens era conhecido 
da famlia Garnwell, e para realizar o casamento apenas se esperava o regresso de Allan ou a notcia da sua morte.
     Entre os hspedes cordialmente acolhidos em Barnsdale (nome da propriedade do baronete saxo) encontrava-se um homem que adorava Mariana. Esse homem, prximo 
vizinho de sir Guy (o parque do seu castelo vinha at s divisas de Barnsdale), regressara havia apenas alguns meses de Jerusalm, onde tinha acompanhado uma cruzada 
pertencente  ordem dos Templrios.
     Sir Huberto de Boissy era cavaleiro, e por conseqncia votado ao celibato.
     Certa manh, ao voltar de um passeio a cavalo pelos arredores, sir Huberto avistou Mariana a uma janela do solar do seu vizinho. Achou-a formosa, desejou tornar 
a v-la e informou-se de quem era. Soube-o. Imediatamente se apresentou  porta do baronete, anunciando-se como um vizinho desejoso de sociabilidade, ofereceu a 
sua amizade ao velho e tratou de ganhar-lhe a confiana. Era, entretanto, uma conquista difcil; o velho saxo, que detestava os normandos, manteve-se reservado 
e acolheu com extrema frieza as tentativas do senhor de Boissy. No se deixando impressionar por esse primeiro insucesso, o cavaleiro voltou  carga. Ento, aconselhado 
pela prudncia, sir Guy mostrou-se mais tratvel. Alguns dias aps esse segundo encontro, Huberto fez uma visita s senhoras de Garnwell, e uma vez admitido no crculo 
da famlia mostrou-se to franco, to afetuoso, to amvel, que sir Guy, a quem ele contava histrias maravilhosas, viu dissipar-se pouco a pouco o sentimento de 
desconfiana que lhe inspirara o simples aspecto do normando.
     As visitas de Huberto tornaram-se mais assduas, o cavaleiro conduziu-se com tanta habilidade que ganhou completamente, se no a confiana, pelo menos a simpatia 
e a amizade do velho, para o qual se tornou um companheiro muito agradvel.
     Galante com as jovens mas sem se tornar importuno, dividia igualmente com elas as suas amabilidades e atenes. No era possvel queixarem-se da sua assiduidade, 
que parecia cordial e desinteressada; Mariana estava to certa disso que nem lhe veio  idia  falar a Robin nesse caso. Contudo a moa devia temer um encontro fortuito 
entre os dois homens no salo do castelo, e esse encontro podia levar Robin a cometer alguma imprudncia, pois era de presumir que o impetuoso jovem no veria com 
nimo tranqilo a intimidade de um saxo com um inimigo da sua raa.
     Huberto de Boissy era um desses homens que, sem possuir grandes qualidades fsicas ou morais, tm o talento de agradar s mulheres e de se fazerem amar. Com 
a brandura do seu temperamento sempre fizera crer na bondade do seu corao, experimentara em sociedade verdadeiros sucessos. Essa inexplicvel predileo determinou-lhe 
muita fatuidade e uma dose de impudncia que lhe no permitia admitir uma recusa sria da parte de qualquer mulher honrada com a sua ateno.
     As regras da ordem a que pertencia Huberto, interditando-lhe o casamento, submetiam-no aos deveres de uma vida casta; mas, a bem dizer, a maioria dos Templrios 
imitava a conduta de Huberto, que, acostumado ao luxo de uma vida principesca, vivia na sociedade e levava uma existncia de rapaz inteiramente livre de dispor do 
seu corao, da sua fortuna e dos seus cios.
     O primeiro olhar que obteve da inocente Mariana fez nascer no corao do cavaleiro uma paixo intensa, e essa paixo dissimulada a todos os olhos, ignorada 
daquela mesma que a causara, tornou-se um suplcio para Huberto. Mantido a distncia pela fria atitude da jovem, exasperado no seu vivo desdm pelos usurpadores 
normandos, tomou-se por Mariana de um amor rancoroso, ao mesmo tempo feito de desejo e de execrao.
     O cavaleiro tinha bastante finura e experincia para compreender que, excetuado o excelente sir Guy, toda a famlia suportava com relativo desagrado a sua presena. 
Ele prprio se sentia pouco  vontade junto daqueles a quem dava o nome de amigos, e contra os quais meditava covardemente uma cruel vingana.
     A despeito da generosa bondade do seu temperamento, sucedia por vezes ao velho baronete deixar transparecer o seu desprezo pelos normandos e mimose-los com 
eptetos injuriosos. Huberto continha o dio mortal que lhe causavam esses insultos; sorria com ar indulgente, levando no raro a sua duplicidade at fingir partilhar 
as opinies do seu anfitrio, no entretanto sem ter experimentado combat-las a fim de inspirar para si mesmo um sentimento de misericrdia e simpatia.
     Huberto possua uma inteligncia notvel, julgava depressa e bem quando o interesse das suas paixes exigia uma grande rapidez de viso. Fora-lhe portanto fcil, 
na primeira entrevista que o colocara em situao de julgar sir Guy, perceber que o excelente velho era um homem simples, leal, sincero e incapaz de supor nos outros 
os maus pensamentos que nunca lhe ocorriam.
     Dois meses depois da sua primeira visita ao castelo, achou-se pelo menos na aparncia tratado como um verdadeiro amigo.
     Winifred e Brbara, as duas filhas do baronete, mostravam-se polidamente amveis com o normando; mas o mesmo no sucedia por parte de Mariana, que desconfiava 
instintivamente da falsa bonomia do cavaleiro do Templo.
     Huberto soubera do prximo casamento de Mariana, mas fora-lhe impossvel descobrir o nome do seu futuro esposo.
     Um esprito menos ardente que o do cavaleiro teria recuado diante da glacial reserva de Mariana; mas, para dizer a verdade, Huberto obedecia mais a um sentimento 
de vingana do que  irresistvel atrao de um verdadeiro amor. Aguardava a hora propcia para uma repentina declarao; propunha-se cair de joelhos aos ps da 
moa e confessar-lhe em tom humilde a ardente paixo que sentia por ela. Mas, enquanto espreitava com paciente perseverana o momento de se encontrar frente a frente 
com Mariana, Huberto tentava surpreender o segredo do seu amor, prometendo-se, se viesse a consegui-lo, pisar aos ps esse perigoso obstculo.
     Interrogados pelos criados de Huberto, os vassalos de sir Guy deram a respeito do noivo de Mariana erradas informaes; atriburam-lhe um nome fantstico, e 
o cavaleiro, a despeito dos seus ardis e habilidosas pesquisas, permaneceu na mais completa ignorncia.
     Chegou contudo a saber que o futuro esposo de Mariana era saxo, jovem e de extraordinria beleza; soube ainda que eram cercadas de mistrio as visitas que 
ele fazia ao castelo. O cavaleiro ficou de emboscada a fim de surpreender a vinda do rival e mat-lo quando passasse; mas essa generosa inteno foi ludibriada, 
o moo esperado no veio.
     Estavam as coisas assim, Huberto no havia revelado ainda a intensidade da sua paixo por Mariana nem o dio que sentia por toda a famlia Garnwell, quando 
a festa de uma aldeia situada a pouca distncia do solar ali chamou todos os membros dessa famlia. Huberto solicitou permisso para acompanhar as senhoras e essa 
permisso foi-lhe graciosamente concedida.
     Winifred, Maude e Brbara esperavam divertir-se bastante nessa pequena excurso; Mariana, porm, que esperava a visita de Robin Hood, pretextou uma violenta 
dor de cabea para ter a oportunidade de ficar sozinha no castelo.
     A famlia saiu, os vassalos com os seus trajes domingueiros seguiram-na, e  exceo de um homem de guarda e de duas crianas, todos os moradores do solar se 
afastaram de Barnsdale.
     Logo que se viu sozinha Mariana subiu para o seu quarto, alindou-se o melhor que pde e foi colocar-se ao p de uma janela de onde podia avistar os diferentes 
caminhos que vinham dar  manso. A cada momento lhe parecia ouvir o som melodioso da trompa area, que anunciaria a aproximao do seu bem-amado. Ento a sua encantadora 
cabea inclinava-se levemente para fora, um rpido claro brilhava em seus pensativos olhos, seus lbios srios murmuravam um nome e todo o seu ser palpitava de 
alegria, de ansiedade e esperana. O som, entretanto no se fazia ouvir, a sombra entrevista no alongava a sua mancha elegante sobre a areia dourada do caminho, 
e Mariana nada vendo com seus olhos, olhava para dentro de si mesma a fim de ver com o corao.
     A espera foi longa e acabou por tornar-se dolorosa. Mariana esquadrinhava o horizonte, varou a profundidade das alamedas do parque, prestou ouvido a todos os 
rudos, e desiludida em sua ardente esperana ps-se tristemente a chorar.
     Sentada numa poltrona com a cabea apoiada numa das mos, entregava-se com sinceridade ao seu desespero, quando um leve rudo a fez erguer os olhos.
     Huberto estava  sua frente.
     Mariana soltou um grito e quis fugir.
      Por que todo esse receio, miss Mariana? Tomais-me por algum filho de Satans? Graas a Deus, creio ter o direito de supor que a minha presena no quarto de 
uma mulher no constituir para ela um espantalho.
      Desculpe-me, senhor  balbuciou Mariana com voz trmula;  no o ouvi abrir a porta.  Estou sozinha... e...
      Creio que aprecia muito a solido, encantadora Mariana, e quando sucede a um amigo surpreend-la em seu retiro, mostra-lhe uma fisionomia to descontente 
como se ele tivesse cometido a falta de interromper algum idlio amoroso.
     Mariana, um instante dominada pelo pavor, logo recuperou a calma peculiar  sua natureza tranqila. Ergueu altivamente a cabea e num passo firme encaminhou-se 
para a porta.  O cavaleiro de Boissy impediu-lhe a passagem.
      Miss Mariana  disse ele,  desejo conversar consigo; conceda-me, por favor, alguns momentos. Na verdade, sempre pensei que a minha visita seria melhor acolhida.
      Sua visita, senhor  volveu desdenhosamente a jovem,  -me to desagradvel quanto foi inesperada.
      Realmente!  exclamou Huberto;  Sinto-me muitssimo penalizado. Mas ento, Mariana,  preciso saber sofrer o que no se pode evitar.
      Creio estar em presena de um fidalgo que deve conhecer os costumes da sociedade, sir Huberto; deve por isso permitir-me que o convide a deixar-me sozinha.
      Sou um fidalgo, minha linda senhorita  respondeu o cavaleiro num tom irnico,  mas aprecio tanto uma boa companhia que necessito uma razo mais forte que 
um simples capricho para me decidir a deix-la.
      Est faltando a todas as leis da galantaria cavalheiresca, senhor  tornou Mariana.  Quer ento permitir-me que o deixe num lugar aonde veio sem ser chamado 
nem desejado?
      Senhorita  replicou insolentemente Huberto,  acho prefervel deixarmos hoje de lado a polidez, pois no tenho a inteno de me retirar, e muito menos a 
de a deixar sair. J tive a honra de lhe dizer que desejo conversar consigo, e como as oportunidades para um encontro destes so to raras como a sua beleza, ficar-me-ia 
muito mal no aproveitar a que consegui, pretextando, conforme o seu exemplo, uma forte enxaqueca.  Escute-me pois.  H muito tempo que a amo.
      Chega, senhor  interrompeu Mariana,  recuso-me terminantemente a ouvir-lhe uma palavra mais.
      Amo-a  repetiu Huberto.
      Oh!  exclamou Mariana,  Se sir Guy de Garnwell estivesse junto de mim o senhor no ousaria falar-me desse modo.
      Evidentemente  respondeu o Templrio com insolncia.  Uma intensa palidez cobria a face da pobre criatura.  A senhorita possui esprito e inteligncia  
prosseguiu Huberto,  tornando-se portanto intil que eu perca o meu tempo a ench-la de tolos elogios. Essa maneira de agir teria decerto uma feliz influncia sobre 
outra moa ftil e vaidosa, mas consigo seria ociosa e de mau gosto. A senhorita  muito linda e eu amo-a; como v, vou direito ao fim: quer devolver-me uma pequena 
parte que seja do meu afeto?
      Nunca!  respondeu Mariana com firmeza.
      Eis uma palavra que seria prudente no pronunciar, quando sucede a uma jovem encontrar-se sozinha com um homem perdidamente apaixonado pela sua beleza.
      Oh! Meu Deus! Meu Deus!  exclamou Mariana juntando as mos num movimento de splica.
      Quer ser minha esposa? Se consentir nisso tornar-se- uma das mais importantes senhoras do Yorkshire.
      Infeliz!  bradou Mariana,  O senhor falta vergonhosamente aos juramentos que fez. Oferece-me a sua mo, sabendo que a no tem livre; o senhor pertence  
ordem dos Templrios, e o sacramento do matrimnio est-lhe interdito.
      Posso ser desligado dos meus votos  tornou o cavaleiro,  e se concorda em aceitar o meu nome nada poder opor-se  nossa felicidade. Juro-lhe pela salvao 
da minha alma, Mariana, que ser feliz; amo-a com todas as foras do meu corao, serei seu escravo, e no terei outro pensamento que no seja o de a tornar a mais 
invejada das mulheres. Responda-me, no chore assim; quer permitir-me esperar o seu amor?
      Nunca! Nunca! Nunca!
      Outra vez essa palavra, Mariana  tornou Huberto num tom melfluo.  No se comporte levianamente, reflita antes de responder. Eu sou rico, possuo as mais 
belas propriedades da Normandia, vassalos numerosos; eles sero seus criados, vero em si a esposa bem-amada de seu amo, ser o dolo desses domnios. Cobrirei os 
seus cabelos de finas prolas, far-lhe-ei os dons mais preciosos. Mariana, Mariana, juro-lhe que ser feliz em minha companhia!
      No jure, senhor, porque faltar a esse novo juramento como faltou ao que o liga ao cu.
      No, Mariana, hei de ser-lhe fiel.
      Bem desejaria acreditar em suas palavras,  tornou a jovem num tom mais conciliador  mas no posso corresponder aos desejos que elas exprimem: meu corao 
j me no pertence.
      Tinham-me dito isso mas recusei acreditar, de tal modo esse pensamento me  odioso. Ser verdade? Ser realmente verdade?
       verdade, senhor  respondeu Mariana corando.
      Est bem! Seja! Respeitarei o segredo do seu corao se me conceder de vez em quando uma palavra benevolente, se me disser que posso esperar o ttulo de seu 
amigo. Am-la-ei ternamente, Mariana, ser-lhe-ei inteiramente devotado.
      No quero ter um amigo, senhor, no poderia reconhecer direitos a uma afeio que me  impossvel partilhar. Aquele que ocupa os meus pensamentos possui as 
nicas riquezas cuja conquista ambiciono: um nobre corao, um esprito cavalheiresco e um carter leal. Ser-lhe-ei eternamente fiel, eternamente sujeita.
      Mariana, no me atire ao desespero onde perderei a razo. Desejo conservar-me calmo e manter-me diante de si nos limites do respeito; mas se continuar a tratar-me 
com tanta insensibilidade, acabarei no podendo dominar a minha clera. Mariana, escute-me; no  possvel que esse homem que consegue viver afastado de si a ame 
to apaixonadamente como eu. Oh! Mariana, seja minha! A que se resume a sua existncia aqui? Ao isolamento no meio de uma famlia estranha. Sir Guy no  seu pai, 
Winifred e Brbara no so suas irms. O sangue normando, sei-o perfeitamente, corre-lhe nas veias, e o desdm que me testemunha  apenas um reflexo da gratido 
que a prende a esses saxes. Venha, minha bela Mariana, venha comigo, eu lhe darei uma vida de luxo, de prazer e de festas.
     Um desdenhoso sorriso entreabriu os lbios de Mariana.
      Senhor  volveu ela,  queira retirar-se; as ofertas que me faz nem sequer merecem a delicadeza de uma resposta. Tenho a honra de lhe comunicar que sou noiva 
de um nobre saxo.
      Repele ento, despreza as minhas propostas, orgulhosa senhorita?  perguntou Huberto com a voz alterada.
      Perfeitamente, senhor.
      Duvida da sinceridade das minhas palavras?
      No, cavaleiro, e at agradeo as suas boas intenes; somente, pela derradeira vez lhe peo que me deixe sozinha; a sua presena em meu quarto causa-me um 
vivssimo desagrado.
     Em resposta a esse pedido, o cavaleiro apanhou um escabelo e foi sentar-se perto de Mariana.
     A jovem ergueu-se ento, e de p no meio do aposento esperou, de fisionomia calma e olhos baixos, a retirada de Huberto.
      Volte para junto de mim  disse ele aps um instante de silncio;  no pretendo fazer-lhe mal, quero apenas obter ima promessa que, sem a obrigar a romper 
o seu noivado com esse misterioso desconhecido a quem ama to ternamente, me d foras para suportar a lembrana dos seus desdns. Estou pedindo, quando me assistia 
o direito de exigir, Mariana  acrescentou Huberto avanando para a jovem que, sem aparente precipitao, mas com passo firme, se dirigia para a porta.  Essa porta 
est fechada, rniss Mariana, e as suas lindas mos inutilmente se magoariam contra a fechadura. Eu sou homem precavido, minha querida senhorita; no h ningum nesta 
casa, e se lhe viesse a fantasia de clamar por socorro, os meus homens que esto postados a alguns passos de Bamsdale tomariam os seus gritos pela ordem de trazer 
ao ptio excelentes cavalos selados, e com a sua anuncia ou sem ela a levariam para longe daqui.
      Senhor  disse Mariana com a voz entrecortada de soluos,  tenha piedade de mim; pede-me coisas que me  impossvel conceder-lhe, e a violncia nada obter 
do meu corao. Deixe-me sair; como v, no grito nem chamo ningum, considero-o bastante para no acreditar que as suas ameaas de rapto tenham alguma coisa de 
srio; o senhor  um homem de honra e nem sequer lhe ocorreria a idia  de cometer uma ao to covarde. Sir Guy estima-o, sir Guy dispensa-lhe amizade e considerao, 
no  admissvel que o senhor tenha a coragem de trair to horrivelmente a generosa acolhida que ele lhe dispensou. Pense, toda a famlia Garnwell ficaria em desespero, 
e eu prpria?! Eu me mataria, cavaleiro.
     E acabando estas palavras, Mariana desfez-se em lgrimas.
      Jurei que h de ser minha, Mariana.
      Pois fez um juramento insensato, senhor, e se algum dia o seu corao palpitou de amor por uma mulher, pense em que dolorosa situao ela se encontraria se, 
amada por um homem pretendesse obrig-la a renegar esse amor. Talvez possua uma irm, cavaleiro, pense nela; eu tenho um rmo, e ele no sobreviveria  minha desonra.
      Ser minha esposa, Mariana, minha esposa querida, respeitada,  venha comigo.
      No, senhor, no, nunca!
     Huberto que se aproximara lentamente de Mariana, quis envolv-la em seus braos.  A moa esquivou-se a essa odiosa tentativa, e correndo para a extremidade 
do aposento gritou com quanta energia tinha:
      Socorro! Socorro!
     Huberto, pouco impressionado com um apelo que sabia muito bem sem conseqncias, ps-se a sorrir cruelmente e conseguiu segurar as mos da jovem. Mas no momento 
em que tentava atrair Mariana para si, num gesto rpido como o pensamento a moa arrancou um punhal suspenso no cinturo de Huberto e correu para a janela que ficara 
aberta. A pobre criatura desvairada ia ferir-se ou precipitar-se, quando o som de uma trompa atravessou com as suas notas harmoniosas o silncio da plancie. Mariana, 
meio debruada no parapeito da janela, estremeceu imperceptivelmente; em seguida ergueu a cabea, e com a mo sempre armada, o ouvido tenso, o seio palpitante, ps-se 
 escuta. O som, a princpio vago e indistinto fez-se pouco a pouco ouvir claramente, para terminar dentro em breve numa torrente de notas alegres. Huberto, subjugado 
pelo encanto daquela melodia inesperada, no fizera qualquer movimento ofensivo na direo da jovem, mas quando o som da trompa deixou de se fazer ouvir, tentou 
afast-la da janela.
      Socorro! Robin, socorro!  gritou Mariana com voz vibrante;  Socorro! Depressa, depressa, Robin, meu querido Robin,  o cu que te envia!
     Huberto, fulminado de surpresa ao ouvir pronunciar aquele nome temvel, quis abafar os gritos de Mariana; mas a jovem debateu-se com uma fora e uma energia 
extraordinria.
     Bruscamente o nome de Mariana retumbou do lado de fora e o rume de uma luta que deu a esse apelo; em seguida a porta do quarto onde se  encontrava a moa voou 
em pedaos, e Robin Hood apareceu no limiar.
     Sem soltar um grito, sem dizer uma palavra, Robin pulou sobre o cavaleiro, segurou-o pelo pescoo e atirou-o aos ps de Mariana.
      Miservel!  trovejou o rapaz colocando o joelho sobre o peito de Huberto,  procuras ento violentar uma mulher?
     Mariana tombou, chorando, nos braos do noivo.
      S bem-vindo, querido Robin  disse ela;  acabas de salvar-me mais do que a vida, salvaste-me a honra.
      Minha querida Mariana  respondeu o moo,  eu no peo a Deus outra graa seno a de me encontrar junto de ti nas horas de perigo. A santa providncia guiou 
meus passos, bendita seja ela. Acalma-te, daqui a pouco me contars o que se passou antes da minha oportuna chegada. Quanto a ti, desavergonhado patife  prosseguiu 
Robin voltando-se para o cavaleiro que acabava de erguer-se,  sai imediatamente daqui; to grande  o meu respeito pela nobre jovem que tiveste a audcia de insultar 
que nem sequer me permito castigar-te diante dela.  Sai...
     No tentaremos descrever a raiva do infame sedutor, que atingia os limites da loucura. Seus olhos lanaram sobre o jovem par um olhar carregado de dio; rosnou 
algumas palavras indistintas, e desarmado, ridculo, insultado, desonrado, encaminhou-se para a porta, desceu cambaleando a escada que havia transposto com tanta 
alegria e afastou-se do solar.
     Robin Hood tinha Mariana apertada contra o peito e a pobre criatura continuava a chorar, tentando mostrar ao seu salvador toda a alegria que lhe dava a sua 
presena.
      Mariana, querida e adorada Mariana  dizia Robin emocionado,  nada mais tens a temer, aqui estou contigo. Vamos, ergue para mim a face encantadora; desejo 
ver nela uma expresso tranqila e sorridente.
     Mariana quis obedecer ao terno pedido do seu amado, mas no pde pronunciar uma s palavra, to grande era a sua comoo.
      Quem  esse homem, minha querida?  perguntou Robin aps um curto silncio, obrigando Mariana ainda trmula a sentar-se a seu lado.
      Um cavaleiro normando cujas propriedades confinam com Barnsdale  respondeu atemorizadamente a jovem.
      Um normando!  exclamou Robin.  Como  possvel que meu tio receba em sua casa um homem que pertence a essa raa maldita?
      Meu querido Robin  respondeu Mariana,  sir Guy, como sabes,  um velho prudente e avisado; no julgues a sua conduta sob a influncia do sentimento de clera 
que neste momento te anima. Se ele recebeu as visitas do cavaleiro Huberto de Boissy, acredita que um motivo srio o colocava nessa obrigao. Tanto como tu, talvez 
mais ainda, sir Guy detesta os normandos. Alm da razo de prudncia que levou teu tio a acolher as tentativas do cavaleiro, h ainda a astcia, a habilidade, a 
untuosa velhacaria com a qual ele conseguiu insinuar-se nas boas graas de toda a famlia. Sir Huberto mostrava-se to respeitoso, to humilde e devotado que todo 
o mundo se deixou iludir pela aparente lealdade do seu carter.
      E tu, Mariana?
      Eu  respondeu a moa,  no o julguei; mas descobri em seu olhar qualquer coisa de falso que devia repelir a confiana.
      Como conseguiu ele introduzir-se em teu quarto?
      No sei. Eu estava chorando porque...  e a adorvel criatura enrubesceu baixando os olhos.
      Por qu?  insistiu carinhosamente Robin.
      Porque tu no vinhas  terminou Mariana com um meigo sorriso.
      Minha adorada!...
      Como um leve rudo atrasse a minha ateno, ergui a cabea e deparei com o cavaleiro. Ele tinha deixado sir Guy pretextando qualquer coisa, afastou sem dvida 
as criadas de servio e mandou guardar pelos seus homens as proximidades da casa.
      Sei disso  interrompeu Robin,  tive de derrubar dois homens que tentaram impedir-me a passagem.
      Oh, querido Robin, salvaste-me! Sem ti eu estaria morta; ia apunhalar-me quando ouvi o som da tua trompa.
      Onde  a residncia desse miservel?  perguntou Robin com os dentes cerrados.
      A poucos passos daqui  respondeu a moa levando Robin para junto da janela;  vem  acrescentou ela;  ests vendo esse edifcio cujo teto domina as rvores 
do parque?  Pois bem!  o castelo do senhor de Boissy.
      Obrigado, querida Mariana; mas no falemos mais desse homem, sofro  simples idia  de que as suas mos infames puderam tocar as tuas mos. Falemos de ns, 
dos nossos amigos; temos boas notcias para te dar, Mariana, notcias que te deixaro bem contente.
      Ai! Robin  interrompeu tristemente a moa,  Estou to pouco habituada  alegria que mal posso crer ainda na esperana de um acontecimento feliz.
      E ests errada, minha amiga. Vamos, esquece o que acaba de passar-se e trata de adivinhar o segredo das minhas boas notcias.
      Querido Robin!  exclamou Mariana;  Tuas palavras fazem-me pressentir alguma alegria inesperada. Recebeste porventura o teu indulto? Estars livre, no sers 
mais obrigado a ocultar-te ao olhar dos homens?
      No, Mariana, no  nada disso; continuo sendo um pobre proscrito; no  de mim que quero falar.
      Ser ento de meu irmo, de meu querido Allan? Onde est ele, Robin, quando vir visitar-me?
      No tardar muito a vir, assim o espero  respondeu Robin;  recebi notcias suas por um homem que se associou ao meu bando. Esse homem, feito prisioneiro 
pelos normandos na poca fatal do nosso recontro com os cruzados na floresta de Sherwood, foi obrigado a entrar para o servio do baro Fitz-Alwine. O baro chegou 
ontem com lady Christabel ao seu castelo de Nottingham. Naturalmente o saxo feito soldado regressou com ele, e o seu primeiro pensamento foi reunir-se a ns. Deu-me 
ento a notcia de que Allan tem um posto distinto no exrcito do rei de Frana, e que est prestes a receber uma licena para vir passar alguns meses em Inglaterra.
      Eis com efeito uma excelente notcia, querido Robin  disse Mariana;  como sempre, s o anjo bom da tua pobre amiga. Allan j te aprecia muito, mas quanto 
mais h de estimar-te quando eu lhe disser a que ponto tens sido generoso e bom para aquela que, sem o apoio do teu carinho protetor, teria morrido de tdio, de 
melancolia e de inquietao!
      Querida Mariana  volveu o moo,  dirs a Allan que fiz tudo o que estava ao meu alcance para te ajudar a suportar pacientemente a dor da sua ausncia; dir-lhe-s 
que tenho sido para ti um irmo carinhoso e devotado.
      Um irmo! Ah! Muito mais que um irmo  murmurou docemente Mariana.
      Minha adorada  sussurrou Robin apertando a jovem contra o corao,  dize-lhe que te amo apaixonadamente e que a minha vida inteira te pertence.
     A doce entrevista dos dois jovens prolongou-se por muito tempo, e se aconteceu a Robin apertar com demasiada vivacidade entre as suas as delicadas mos da sua 
formosa noiva, essa afetuosa carcia teve a casta reserva de um amor respeitoso.
     No dia seguinte, ao romper da manh, Robin Hood montou a cavalo, e sem avisar ningum da sua partida precipitada, correu a toda a pressa para a floresta de 
Sherwood. Mediante as suas ordens meia centena de homens, colocados sob o comando de Joo-Pequeno, dirigiram-se a Barnsdale, e escondidos nas proximidades da aldeia 
aguardaram as derradeiras instrues do jovem chefe.
     Nessa mesma tarde, Robin Hood conduziu os seus homens a um pequeno bosque que fazia frente ao castelo de Huberto de Boissy, e contou-lhes em poucas palavras 
a infame conduta do cavaleiro normando.
      Acabo de saber  acrescentou Robin,  que Huberto de Boissy se prepara para tirar uma desforra terrvel; reuniu os seus vassalos, que so em nmero de quarenta, 
e esta noite deve fazer uma sortida ao castelo do nosso caro parente e amigo sir Guy de Garnwell; prope-se a incendiar os prdios, a matar os homens e a raptar 
as mulheres.  Pois bem, meus rapazes! Ele no contou conosco; defenderemos o ataque a Barnsdale, e a vitria no pode ser posta em dvida. Eficincia, coragem, e 
avante!
      Avante!  gritaram com entusiasmo os alegres homens da floresta.
     s primeiras trevas da noite, as portas do castelo de Huberto deram passagem a um bando de homens que tomou silenciosamente o caminho de Barnsdale. Mas ainda 
mal tinha transposto os limites da propriedade do normando, quando um brado de guerra lhes passou sobre as cabeas e os gelou de terror.
     Huberto lanou-se para o meio dos seus homens, e encorajando-os com a voz e com o gesto, precipitou-se para o lado de onde viera esse alarmante clamor. Imediatamente 
os homens da floresta deixaram o bosque e caram sobre a exgua tropa.
     A violenta luta que se travou ia tornar-se sangrenta, quando Robin Hood se encontrou frente a frente com o cavaleiro de Boissy.
     O combate foi terrvel. Huberto defendeu-se valentemente; mas Robin Hood, cujas foras estavam triplicadas pela clera, fez prodgios de valor e mergulhou a 
espada at aos copos no corao do cavaleiro normando.
     Os vassalos pediram quartel e Robin foi generoso; morto o seu inimigo, deu ordem para que o combate terminasse. O castelo de Boissy foi entregue s chamas e 
o senhor desse magnfico domnio enforcado numa rvore da estrada.
     Mariana estava vingada. 
     
     (1) As Aventuras de Robin Hood continuam no volume intitulado Robin Hood, o Proscrito.
     
      Este livro foi composto e impresso nas oficinas grficas de SARAIVA S. A.,  Rua Sampson, 265, So Paulo (Brasil) em setembro de mil novecentos e cinqenta 
e oito, 404 Ano da Fundao da Cidade de So Paulo.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Este livro  distribudo GRATUITAMENTE pela equipe DIGITAL SOURCE e VICIADOS EM LIVROS com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar 
e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de apreciar mais uma manifestao do pensamento humano.

Se voc tirar algum proveito desta obra, considere seriamente a possibilidade de adquirir o original.

Incentive o autor e a publicao de novas obras!"

Se quiser outros ttulos nos procure.

Ser um prazer receb-lo em nosso grupo.



























http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
     
